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Let me .... You

O Pacto do Entardecer e o Eco do Ciúme

O sol já havia subido o suficiente para banhar o topo das árvores quando Mizi e Sua finalmente deixaram a clareira. O ar da floresta, antes impregnado com o cheiro metálico de sangue e o peso do desejo, agora parecia apenas úmido e silencioso. Sua caminhava um pouco mais firme, embora a sensação do sangue animal ainda pesasse em seu estômago e a memória das mãos de Mizi fizesse sua pele formigar sob o blazer agora desalinhado.

Elas caminhavam lado a lado, mantendo uma distância segura, mas a tensão entre elas era palpável. O silêncio foi quebrado por Sua, que não conseguia mais conter a pergunta que queimava em sua garganta.

— Por que você fez aquilo, Mizi? — A voz de Sua era baixa, quase um sussurro entre o farfalhar das folhas. — Quero dizer... os beijos, o que aconteceu na clareira... Eu pensei que eu fosse apenas uma fonte de sangue para você. Um "suplemento vitamínico", como você mesma disse.

Mizi parou de caminhar por um segundo, chutando uma pedra no caminho de terra. Ela não olhou para Sua, mantendo os olhos dourados fixos no horizonte onde os prédios da escola começavam a aparecer.

— E você é — respondeu Mizi, embora o tom não tivesse a mesma frieza de antes. — Mas, sabe como é... eu gosto de garotas. E você, apesar de ser essa vampira melancólica e irritante, é bonita pra caralho.

Sua sentiu o rosto esquentar instantaneamente.

— Isso não é uma resposta, Mizi.

— É a única que eu tenho agora — Mizi finalmente a encarou, um sorriso de canto, provocador, surgindo em seus lábios. — Digamos que o fato de você ser meu prato favorito e o fato de você ser exatamente o meu tipo físico não combinaram muito bem. Talvez eu esteja... interessada. Ou apaixonada, se você quiser usar essas palavras melosas que humanos adoram.

Sua paralisou por um instante. O coração morto em seu peito pareceu dar um solavanco fantasmagórico. Ela sentiu uma mistura confusa de vergonha, uma felicidade perigosa que não deveria estar ali e um medo profundo. Estar no radar de Mizi era como caminhar sobre o gelo fino.

— Você é louca — murmurou Sua, voltando a andar para esconder o sorriso que tentava escapar.

— E você adora isso — Mizi piscou, voltando ao seu tom despreocupado enquanto se aproximavam dos portões da Escola Anakt.

Elas chegaram durante o terceiro horário. O pátio estava vazio, a maioria dos alunos trancada em salas de aula. Ao entrarem no prédio principal, a máscara de normalidade caiu sobre elas como uma cortina. Mizi assumiu sua postura desleixada e confiante, enquanto Sua ajeitou o blazer e recuperou sua expressão seca e distante. Elas pararam de conversar no momento em que cruzaram a porta da sala 3-A.

Ivan, que estava sentado com uma perna balançando freneticamente, levantou o olhar no exato momento em que elas entraram. Ele viu o estado de Sua — os lábios levemente inchados, o olhar perdido — e sentiu o sangue ferver. Mizi apenas acenou para ele com dois dedos e sentou-se em seu lugar habitual, agindo como se tivesse acabado de voltar de um café tranquilo.

Assim que o professor se virou para o quadro, Ivan inclinou-se para a mesa da irmã.

— O que ela fez? — sussurrou ele, a voz carregada de veneno.

Sua hesitou, mas sabia que não podia esconder nada dele. Em frases curtas e sussurradas, ela contou sobre a clareira, sobre o veado, sobre o toque de Mizi e, por fim, sobre o que Mizi dissera no caminho de volta.

Ivan arregalou os olhos, a expressão alternando entre o horror e o puro choque.

— Ela te usou e depois disse que está apaixonada? — Ivan soltou uma risada abafada e incrédula. — Sua, ela está brincando com você. Ela é uma predadora alfa, ela está brincando com a comida antes de engolir!

— Eu não acho que seja só isso, Ivan — Sua respondeu, mantendo os olhos no caderno. — Tem algo... diferente nela.

— Você está cega — Ivan sibilou, voltando para sua posição, mas seus olhos não deixaram de vigiar a nuca de Mizi pelo resto da aula.

O intervalo chegou com o barulho ensurdecedor do sinal e a explosão habitual de adolescentes nos corredores. Mizi saiu da sala sendo imediatamente interceptada por Marty e Vianna.

— Onde você estava, sua doida? — Marty perguntou, passando o braço pelo ombro de Mizi. — Perdeu dois horários e a fofoca sobre o professor de física quase ter um treco.

— Tive um compromisso inadiável — Mizi respondeu, lançando um olhar de soslaio para Sua, que passava por eles com Ivan.

O corredor estava lotado. Alunos de todas as turmas se acotovelavam, gritando e rindo. Till, Hyuna e Luka estavam a poucos metros, encostados nos armários. Till parecia um pouco melhor do que no dia anterior, mas ainda mantinha uma distância melancólica de Mizi.

De repente, Vianna parou de andar. Ela soltou o braço de Mizi e parou bem na frente dela, no meio do fluxo de alunos.

— Mizi, espera — disse Vianna. Sua voz não era alta, mas havia uma nota de seriedade que fez Marty parar e algumas pessoas ao redor diminuírem o passo.

— Que foi, Vi? — Mizi perguntou, confusa. — A gente vai perder o lugar na fila do lanche.

Vianna respirou fundo. O rosto dela estava pálido, mas os olhos brilhavam com uma determinação súbita.

— Eu não aguento mais guardar isso, Mizi. Especialmente com todos esses boatos sobre você e a novata circulando — Vianna deu um passo à frente, ignorando a multidão que começava a formar um círculo informal ao redor delas. — Eu gosto de você. Não como amiga. Eu gosto de você de verdade, há muito tempo.

O silêncio caiu sobre o corredor como uma marreta. Marty arregalou os olhos, cobrindo a boca com a mão. Till, que observava de longe, sentiu o mundo desabar pela segunda vez em quarenta e oito horas. Hyuna soltou um assobio baixo, enquanto Luka apenas ajustou os óculos, observando a reação química do desastre social iminente.

Mizi estava estática. Suas mãos, sempre inquietas, congelaram ao lado do corpo. Ela olhou para Vianna, sua amiga de anos, a pessoa que guardava seus segredos, e sentiu um peso enorme no peito. Ela não queria magoá-la. Ela amava Vianna, mas não daquela forma. E ali, na frente de toda a escola, qualquer resposta parecia um erro catastrófico.

— Vianna... eu... — Mizi começou, a voz falhando.

Sua, que observava tudo de longe ao lado de um Ivan atônito, sentiu uma queimação súbita que não tinha nada a ver com a fome. Era algo ácido, quente e possessivo. Ver outra pessoa reivindicando Mizi daquela forma, especialmente depois do que haviam compartilhado na floresta, fez seus instintos de vampira gritarem.

Antes que Mizi pudesse terminar sua frase ou que Vianna pudesse dizer mais nada, Sua rompeu a multidão. Ela se moveu com uma agilidade que beirava o sobrenatural, parando entre Mizi e Vianna.

— Ela não pode aceitar — disse Sua, a voz fria e cortante como uma lâmina de gelo.

O corredor inteiro prendeu a respiração. Vianna olhou para a novata com uma mistura de raiva e confusão.

— O quê? Quem você pensa que é? — Vianna rebateu.

Sua não olhou para Vianna. Ela olhou diretamente para Mizi, que estava em choque.

— Mizi valoriza a amizade de vocês — disse Sua, falando para a multidão, mas com os olhos fixos na garota rosa. — Ela sente muito por não poder corresponder, porque ela não quer estragar o que vocês construíram. Mas ela não pode aceitar porque ela já pertence a outra pessoa.

Sua agarrou o pulso de Mizi com firmeza.

— Vamos embora — ordenou Sua.

Mizi, pela primeira vez na vida, não protestou. Ela deixou-se ser arrastada por Sua através da multidão atônita. Ivan observou as duas passarem, um sorriso de descrença absoluta surgindo em seu rosto enquanto via a irmã tomar as rédeas da situação.

Sua arrastou Mizi até uma sala de materiais de limpeza nos fundos do ginásio, um lugar pequeno, escuro e com cheiro de desinfetante. Ela fechou a porta com um chute e empurrou Mizi contra as prateleiras de metal.

— Que porra foi aquela, Sua? — Mizi perguntou, embora não parecesse realmente brava. Havia um brilho de diversão em seus olhos dourados.

— Você ia dar um fora nela na frente de todo mundo e estragar a amizade de vocês para sempre — Sua disse, a respiração acelerada, a raiva e o ciúme ainda vibrando em seu tom. — Eu só te tirei de uma fria.

— Ah, é? Foi só por isso? — Mizi deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Sua. — Ou foi porque você não aguentou ver outra garota se declarando para o que você acha que é seu?

Sua tentou sustentar o olhar, mas a proximidade de Mizi era esmagadora.

— Eu sou sua fonte de sangue, Mizi. Você mesma disse que eu sou sua — Sua murmurou, a voz perdendo a força. — Eu não divido o meu alimento.

Mizi soltou uma gargalhada baixa, encostando a testa na de Sua.

— Você é muito possessiva para uma vampira tão pequena, sabia?

— E você é muito convencida para alguém que quase travou no meio do corredor — rebateu Sua.

Mizi sorriu, um sorriso real desta vez, e segurou o rosto de Sua com as duas mãos.

— Obrigada por me tirar de lá. Eu realmente não sabia o que dizer para a Vianna sem destruir o coração dela.

— Você ainda vai ter que conversar com ela — Sua lembrou, sentindo a raiva se dissipar, substituída por aquela mesma antecipação perigosa de antes.

— Eu sei. Mas agora... — Mizi inclinou o rosto, roçando os lábios nos de Sua — ...agora eu só quero aproveitar o fato de que você acabou de admitir, na frente da escola inteira, que somos um item.

— Eu não disse isso com essas palavras!

— Disse o suficiente — Mizi a beijou, um beijo calmo desta vez, mas carregado de uma promessa silenciosa.

Naquele quartinho escuro, cercadas por vassouras e baldes, a hierarquia da Escola Anakt mudou novamente. A rainha popular e a novata melancólica não eram mais apenas predadora e presa. Elas eram cúmplices em um jogo onde o sangue era o contrato e o ciúme era o selo. E enquanto o resto da escola ainda tentava processar o escândalo no corredor, Mizi e Sua sabiam que, a partir daquele momento, o segredo delas não era mais apenas sobre vampiros. Era sobre algo muito mais perigoso: o que elas sentiam uma pela outra.

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