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Lights of Love

Raízes, Tijolos e o Ritmo do Coração

A neblina de Palo Alto tinha uma densidade diferente naquela manhã de maio. Para Emilly, o ar parecia carregar o peso de vinte e quatro anos de vida e a exaustão de um semestre que testara todos os seus limites físicos. Ela caminhava pelo estacionamento do hospital, o jaleco dobrado no braço e as olheiras denunciando o plantão dobrado que acabara de enfrentar. Era seu aniversário, mas a única celebração que sua mente conseguia conceber era o encontro com o travesseiro.

O celular em seu bolso vibrou. Era uma mensagem de Joe.

"Feliz aniversário, meu amor. Queria estar aí para te acordar com café, mas o estúdio em L.A. está uma loucura hoje. Sofia disse que vai passar na sua casa para te levar para jantar, não aceite um 'não' como resposta. Te amo. Vejo você via FaceTime mais tarde?"

Emilly sorriu, um calor suave espalhando-se por seu peito apesar do cansaço. A distância ainda era a maior vilã da história deles, um fuso horário e seis horas de estrada que pareciam um oceano. Ela digitou uma resposta rápida, garantindo que estava bem, embora uma pontada de solidão a tivesse atingido.

Horas depois, após um sono profundo e sem sonhos, Emilly foi acordada pelos gritos eufóricos de Sofia.

— Acorda, aniversariante! O mundo não vai parar só porque você operou três apêndices ontem! — Sofia entrou no quarto, já vestida para sair, balançando um vestido que Emilly reconheceu como seu favorito.

— Sofi, eu juro que se você me fizer ir a uma boate, eu peço transferência para a Austrália só para fugir de você — resmungou Emilly, cobrindo o rosto com o lençol.

— Nada de boates. Só um jantar tranquilo em um lugar novo que abriu perto do campus. Vamos, Em. Você faz 24 anos uma vez na vida. E o Joe me mataria se eu deixasse você passar o dia comendo cereal no sofá.

Relutante, Emilly se arrumou. Ela se sentia estranhamente inquieta. Havia algo no olhar de Sofia, uma espécie de eletricidade contida, que ela não conseguia decifrar. O trajeto de carro foi curto, mas em vez de pararem no centro comercial de Palo Alto, Sofia dobrou em uma rua arborizada, cheia de casas vitorianas charmosas e jardins impecáveis.

— Onde estamos indo? Não tem restaurantes aqui, Sofi — disse Emilly, franzindo a testa.

— O restaurante é... privativo. Um conceito novo — Sofia respondeu, estacionando em frente a uma casa de dois andares com uma varanda ampla e uma porta de carvalho maciço.

As luzes estavam apagadas, mas o jardim estava decorado com pequenas lâmpadas de LED entrelaçadas nas árvores, brilhando como constelações terrestres. Sofia praticamente empurrou Emilly em direção à entrada.

— Vai lá. A reserva está no seu nome.

— Sofia, isso parece invasão de propriedade!

— Apenas abra a porta, Emilly!

Com as mãos trêmulas, Emilly girou a maçaneta. A porta não estava trancada. O interior estava mergulhado em sombras, mas o cheiro... o cheiro era inconfundível. Tinha notas de sândalo, café recém-passado e um perfume amadeirado que ela reconheceria em qualquer lugar do mundo.

— Surpresa! — O grito uníssono explodiu assim que as luzes se acenderam.

Emilly recuou um passo, o coração martelando contra as costelas. A sala estava cheia. Natalia, Charlie, seus colegas de Stanford, Sofia (que já havia entrado correndo por trás) e... Joe.

Ele estava parado no centro da sala, vestindo uma camisa de linho azul, com o cabelo mais bagunçado do que o normal e um sorriso que parecia capaz de iluminar toda a Califórnia. Mas ele não estava sozinho. Ao lado dele, três rapazes altos e bronzeados e um casal de meia-idade olhavam para ela com lágrimas nos olhos.

— Pai? Mãe? — A voz de Emilly falhou.

Em um segundo, ela estava sendo esmagada por um abraço coletivo. Seus pais e seus três irmãos haviam viajado do Brasil, atravessando o continente para estar ali. O som do português preencheu a sala, um caos familiar de "Parabéns", "Minha filha" e "Como você está magra!".

— Joe... como? — Emilly perguntou, saindo do abraço dos irmãos para olhar para ele, que observava a cena com uma expressão de pura satisfação.

Joe caminhou até ela, ignorando os convidados por um momento, e segurou suas mãos.

— Eu não aguentava mais a distância, Em. E eu sabia que você sentia falta de casa. Então, eu pensei... por que não trazer a casa até você?

— Você trouxe minha família do Brasil, Joe — ela sussurrou, ainda em choque. — Isso é... é demais.

— Isso não é tudo — Joe disse, sua voz baixando para um tom mais íntimo, embora a sala ainda estivesse barulhenta. Ele enfiou a mão no bolso e tirou um molho de chaves com um chaveiro de couro que tinha as iniciais dela gravadas. — Feliz aniversário, meu amor. Bem-vinda à nossa casa.

Emilly olhou para as chaves e depois para a sala ao redor. Os móveis novos, os quadros que combinavam com o gosto dela, o espaço que parecia ter sido desenhado para os seus livros e para os instrumentos dele.

— Você comprou esta casa? Aqui em Stanford? — As lágrimas que ela estava segurando finalmente transbordaram.

— Eu não quero mais te ver por uma tela, Emilly — disse ele, limpando uma lágrima do rosto dela com o polegar. — Eu comprei esta casa para que, quando você sair do hospital, não precise dirigir até um apartamento vazio. Eu vou estar aqui. L.A. é logo ali, eu posso ir e voltar. Mas meu lar... meu lar é onde você estiver.

O impacto das palavras dele a atingiu com mais força do que qualquer gesto grandioso de Hollywood. Joe Keery, o homem que o mundo inteiro desejava, havia decidido fincar raízes no solo acadêmico e calmo de Palo Alto apenas para estar perto dela.

A festa que se seguiu foi uma fusão cultural vibrante. Joe, com seu carisma natural, tentava se comunicar com os pais de Emilly usando um misto de espanhol, gestos e as poucas palavras em português que aprendera nas últimas semanas.

— Joe é um bom rapaz, Emilly — disse o pai dela, observando o ator tentando ensinar Charlie Heaton a dançar uma versão improvisada de samba na sala. — Ele olha para você como se você fosse o sol.

— Ele é especial, pai. Ele realmente é.

Mais tarde, Joe se aproximou dos irmãos de Emilly, que estavam fascinados com as histórias de *Stranger Things*.

— Então, é verdade que você teve que lutar contra um Demogorgon de verdade? — perguntou o irmão mais novo, Lucas, fazendo todos rirem.

— — Bom — disse Joe, passando o braço pelos ombros de Emilly — eu diria que enfrentar o trânsito de São Paulo para buscar vocês no aeroporto foi muito mais assustador, mas eu sobrevivi.

— Ele foi um motorista incrível — comentou a mãe de Emilly, Nina, aproximando-se com um prato de salgadinhos brasileiros que ela fizera questão de preparar na cozinha nova. — E ele é muito esforçado com o português. Ele passou a tarde toda perguntando como se dizia "eu te amo" de dez formas diferentes.

Joe corou, algo raro para alguém tão acostumado aos holofotes.

— — Eu só queria ter certeza — disse ele, olhando para Emilly — de que nada se perdesse na tradução.

A noite avançou para o jardim. O churrasco brasileiro, organizado por Joe com a ajuda dos irmãos de Emilly, estava em pleno vapor. Havia uma harmonia estranha e perfeita entre os atores de Hollywood, os estudantes de medicina e a família latina.

Emilly sentou-se em um degrau da varanda, observando a cena. Ela sentiu uma mão em seu ombro. Era Joe.

— Está tudo bem? — perguntou ele. — Muita informação para um dia só?

— É o melhor dia da minha vida, Joe. Eu nunca imaginei que pudesse ter tudo isso ao mesmo tempo. Minha carreira, minha família e... você. Aqui. De verdade.

Joe sentou-se ao lado dela, entrelaçando seus dedos.

— Eu passei muito tempo correndo atrás de coisas que pareciam importantes, Em. Prêmios, turnês, reconhecimento. Mas nada disso se compara à sensação de ver você entrar por aquela porta e saber que este é o nosso lugar. Eu quero ver você se tornar a cirurgiã incrível que eu sei que você é. E quero estar aqui para segurar a sua mão quando você estiver cansada demais para segurar um bisturi.

— Você percebe que agora não tem mais volta, não é? — ela brincou, encostando a cabeça no ombro dele. — Minha mãe já te considera um filho. Você vai ter que aprender a comer feijoada todo domingo.

— — Feijoada e samba? — Joe riu, beijando o topo da cabeça dela. — Eu aceito os termos do contrato, Doutora. Desde que o contrato inclua você me dando aulas de português e me deixando tocar meu sintetizador no sótão.

— — Feito — disse ela, puxando-o para um beijo que selava não apenas um aniversário, mas o início de uma vida compartilhada.

Enquanto a música brasileira ecoava pelas ruas tranquilas de Palo Alto e as risadas de seus irmãos preenchiam o ar, Emilly percebeu que o maior diagnóstico que ela já recebera era aquele: o amor não era uma complicação da rotina, era a cura para ela. E Joe Keery, com seu cabelo bagunçado e seu coração imenso, era o lar que ela nem sabia que estava procurando.

A festa continuou até altas horas, um borrão de alegria, raízes reencontradas e tijolos que agora formavam um futuro. Naquela noite, em sua casa nova, Emilly dormiu sabendo que, pela primeira vez, não precisaria acordar com a saudade como despertador. O ritmo do seu coração, finalmente, estava em perfeita sincronia com o dele.

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