Lights of Love
Constelações Familiaares e o Som do Pertencer
A luz âmbar do final de tarde em Silver Lake banhava a sala de estar de Joe, criando sombras longas que dançavam sobre os discos de vinil espalhados pelo tapete. Emilly estava sentada no sofá, com um iPad apoiado nos joelhos, tentando revisar um artigo sobre cardiologia pediátrica, mas sua atenção divagava constantemente para a cozinha. O som de risadas, o tilintar de talheres e o aroma inebriante de um molho de tomate caseiro preenchiam a casa, tornando quase impossível focar em válvulas mitrais.
Já haviam se passado dois meses desde que as gravações de *Stranger Things* terminaram. O ritmo frenético de Atlanta fora substituído por uma calmaria seletiva. Joe agora tinha tempo, mas a residência de Emilly em Stanford havia atingido um novo nível de exigência. O compromisso deles havia se tornado uma dança logística: voos de última hora, noites em claro estudando enquanto ele compunha ao piano e a regra de ouro de nunca passarem mais de duas semanas sem se tocarem.
— Em, você precisa parar de tentar salvar o mundo por cinco minutos e vir provar isso aqui — a voz de Joe ecoou da cozinha, carregada daquele tom travesso que sempre a fazia sorrir.
Ela largou o tablet e caminhou até ele. Joe estava usando um avental que dizia "Kiss the Cook", um presente de brincadeira de suas irmãs, e mexia uma panela com uma colher de pau. Ele parecia relaxado, o cabelo preso por uma faixa para não cair nos olhos, uma imagem que o mundo raramente via.
— Se eu for reprovada no exame de amanhã, a culpa é inteiramente do seu tempero — disse ela, aproximando-se e abraçando-o por trás, descansando o rosto em suas costas largas.
Joe se virou no círculo dos braços dela, oferecendo uma colherada do molho.
— Vale a pena o risco. Além disso, você é a pessoa mais inteligente que eu conheço. Um molho de tomate não vai derrubar o seu império médico.
Emilly provou, fechando os olhos com o sabor rico.
— Ok, você venceu. É oficial: você é melhor na cozinha do que eu sou na sutura.
— Não conte isso para os seus pacientes — ele riu, dando-lhe um beijo rápido e casto na ponta do nariz. — Agora, vá se arrumar. O pessoal deve chegar em meia hora.
Aquela era uma noite importante. Pela primeira vez, os mundos de Joe iriam colidir de forma definitiva. Charlie Heaton e Natalia Dyer, amigos de longa data e quase irmãos de Joe, estavam na cidade e passariam para o jantar. E, para aumentar a pressão, os pais de Joe e suas quatro irmãs haviam decidido fazer uma visita surpresa a Los Angeles na mesma semana.
— Eu estou nervosa, Joe — admitiu Emilly, encostada no balcão. — Conhecer a Natalia e o Charlie é uma coisa... eles são seus amigos. Mas sua família inteira? De uma vez?
Joe largou a colher e segurou as mãos dela, os olhos castanhos transbordando sinceridade.
— Em, minhas irmãs já te amam e nem te conhecem pessoalmente ainda. Eu não paro de falar de você. E meus pais... bom, meu pai só quer saber se você torce para o time certo e minha mãe já perguntou três vezes qual é a sua flor favorita. Você não está entrando em um exame, está entrando em casa.
— Casa — ela repetiu a palavra, sentindo o peso doce dela.
Cerca de quarenta minutos depois, a campainha tocou. Os primeiros a chegar foram Charlie e Natalia. O encontro foi instantaneamente caloroso. Natalia abraçou Emilly como se fossem velhas amigas de escola, e Charlie, com seu jeito britânico contido mas afetuoso, apertou a mão dela com um sorriso cúmplice.
— Então você é a mulher que finalmente fez o Joe parar de falar sobre sintetizadores por cinco minutos? — brincou Charlie, aceitando uma cerveja.
— Eu tento o meu melhor — respondeu Emilly, sentindo a tensão inicial se dissipar. — Mas ele ainda tenta me explicar a diferença entre um Moog e um Juno às três da manhã.
— Oh, eu conheço bem essa dor — Natalia riu, puxando Emilly para o sofá. — Joe é intenso com o que ama. E, pelo que vimos nos últimos meses, ele ama muito você, Emilly. Ele estava um desastre em Atlanta antes de você ligar todas as noites.
A conversa fluía fácil, regada a histórias de bastidores que faziam Emilly rir até perder o fôlego. Ela se sentia confortável, percebendo que, apesar da fama astronômica, aquelas eram pessoas reais, com inseguranças e piadas bobas. Mas o verdadeiro teste começou quando a porta se abriu novamente e uma torrente de energia invadiu a casa.
As quatro irmãs de Joe — Caroline, Lizzy, Kate e Emma — entraram como um furacão de risadas e abraços, seguidas pelos pais de Joe, David e Nina. Em poucos minutos, a sala de estar, antes tranquila, transformou-se em um caos vibrante e acolhedor.
— Finalmente! — exclamou Kate, abraçando Emilly com força. — Joe não mentiu, você é muito mais bonita pessoalmente. E esses cachos? Eu mataria por esse volume!
— Deixem a moça respirar, meninas — David, o pai de Joe, interveio com um sorriso gentil, estendendo a mão para Emilly. — É um prazer conhecer você, Emilly. Ouvimos muito sobre Stanford. Joe disse que você vai ser a melhor cirurgiã do país.
— Ele é um pouco tendencioso, senhor Keery — disse Emilly, sentindo o calor da recepção.
— Por favor, me chame de David. E sim, ele é. Mas ele geralmente tem bom gosto.
O jantar foi uma sinfonia de vozes sobrepostas. Emilly se viu sentada entre Nina, a mãe de Joe, e Lizzy. Nina fazia perguntas sobre a família de Emilly na América Latina, demonstrando um interesse genuíno por suas raízes e pela jornada árdua da medicina.
— Deve ser difícil — comentou Nina, tocando suavemente o braço de Emilly — manter uma relação com alguém que vive em aviões enquanto você vive em hospitais. Como vocês fazem?
Emilly olhou para o outro lado da mesa. Joe estava no meio de uma discussão animada com Charlie e suas irmãs sobre uma música antiga, mas seus olhos encontraram os dela por um breve segundo, um brilho de admiração e apoio cruzando o espaço.
— É uma questão de prioridades, eu acho — respondeu Emilly com sinceridade. — O Joe faz com que eu me sinta presente, mesmo quando ele está a milhares de quilômetros. Ele respeita meu esforço, e eu respeito o dele. Nós não tentamos mudar a rotina um do outro, nós apenas tentamos ser o descanso um do outro.
Nina sorriu, parecendo satisfeita.
— Ele mudou, sabia? Joe sempre foi extrovertido, mas havia uma inquietação nele. Desde que conheceu você, ele parece... ancorado.
Após o jantar, a música começou a tocar. Joe, como era de se esperar, acabou indo para o piano. Ele começou a tocar uma melodia suave, algo que Emilly reconheceu como a base da música que ele estava compondo em Atlanta.
— Canta com ele — sussurrou Caroline no ouvido de Emilly.
— O quê? Não, na frente de todo mundo? — Emilly sentiu o pânico do karaokê retornar.
— Ah, vamos lá! Joe contou sobre a noite em que vocês se conheceram. Ele disse que você o deixou no chinelo com Amy Winehouse.
Joe olhou para ela, batendo levemente no banco do piano, convidando-a. O resto da sala silenciou, todos olhando para ela com expectativa carinhosa. Emilly respirou fundo, levantou-se e caminhou até ele.
Eles não cantaram Elton John desta vez. Joe começou os acordes de uma balada suave e clássica. As vozes deles se misturaram com uma perfeição que só o tempo e a intimidade poderiam criar. Joe fazia a harmonia baixa, permitindo que a voz rica e latina de Emilly brilhasse.
Ao final da música, não houve aplausos imediatos, apenas um silêncio reverente, seguido por um suspiro coletivo de Nina.
— Uau — disse Natalia, limpando o canto do olho. — Vocês dois são... irritantemente perfeitos juntos.
A noite avançou para o jardim. O ar de Los Angeles estava fresco, e as luzes da cidade brilhavam ao longe. Emilly estava sentada em um banco de madeira, observando Joe brincar com suas irmãs mais novas, uma cena de pura felicidade doméstica.
Charlie se aproximou dela, encostando-se na árvore próxima.
— Você se sente pertencente agora? — perguntou ele, como se lesse seus pensamentos.
Emilly olhou para a cena diante dela: a família Keery, os amigos que eram como irmãos, e o homem que havia mudado sua percepção sobre o que era possível conciliar na vida.
— Sim — admitiu ela, surpresa com a própria certeza. — Eu passei muito tempo achando que meu mundo de bisturis e livros não tinha espaço para nada disso. Mas o Joe... ele não criou um espaço. Ele simplesmente fundiu os dois mundos.
— Ele tem esse dom — Charlie concordou. — Mas você também tem, Emilly. Você deu a ele algo que a fama não dá: realidade.
Mais tarde, quando todos já haviam ido embora ou se recolhido nos quartos de hóspedes, Joe e Emilly ficaram sozinhos na varanda. Ele a puxou para o seu colo, envolvendo-a com os braços para protegê-la do frio.
— E então? Sobreviveu ao clã Keery? — perguntou ele, o queixo apoiado no ombro dela.
— Eu sobrevivi. E, para ser sincera, eu os amo. Suas irmãs são hilárias, Joe. E seus pais... eles me fizeram sentir como se eu estivesse aqui há anos.
Joe apertou o abraço.
— Eu sabia que seria assim. Mas ver vocês todos juntos, na minha casa... foi a melhor coisa que aconteceu desde que as gravações terminaram. Eu me senti completo, Em.
Emilly virou-se nos braços dele, segurando seu rosto com as duas mãos. As luzes da varanda refletiam nos olhos dele, revelando toda a vulnerabilidade e o amor que ele sentia.
— Sabe o que é mais louco? — ela perguntou. — Eu tenho um plantão de 24 horas começando em dois dias. Vou estar exausta, coberta de café e provavelmente sem paciência para nada. E, mesmo assim, a única coisa em que vou pensar é em quando vou poder voltar para este sofá com você.
— E eu vou estar aqui — Joe prometeu. — Ou em Stanford, ou em um aeroporto qualquer no meio do caminho.
— Nós somos um caos logístico, Joe Keery.
— Somos o melhor tipo de caos — ele rebateu, antes de selar a promessa com um beijo que cheirava a vinho tinto, molho de tomate e a certeza absoluta de que, independentemente da distância ou das carreiras, eles haviam encontrado sua nota final.
Naquela noite, enquanto dormiam abraçados, o iPad de Emilly permanecia esquecido no sofá, com o artigo sobre cardiologia ainda aberto. Pela primeira vez em muito tempo, a futura doutora não estava preocupada com o exame. Ela tinha descoberto que o coração humano, embora complexo em sua anatomia, era surpreendentemente simples em sua necessidade de pertencer. E ela, finalmente, pertencia.