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Entre o Ouro e o Fogo

A luz da manhã em Bangkok entrava pelas janelas de vidro do chão ao teto na sede da GMMTV, criando padrões geométricos no tapete cinza-chumbo da sala de descanso das atrizes. O clima, que costumava ser de descontração e ensaios, agora estava carregado de uma curiosidade quase elétrica. O assunto era um só: Maria e Catherine.

— Eu estou dizendo, aquele toque não foi ensaiado — afirmou Jinjin, gesticulando dramaticamente com um copo de café na mão. — Eu conheço atuação, meninas. Aquilo ali é química pura, orgânica, exportada diretamente do Brasil.

— O que me impressiona é a Maria — comentou Milk, encostada na parede com os braços cruzados, observando a movimentação. — Ela tem essa altura toda, esse visual de modelo de passarela masculina, mas quando ela olha para a Catherine, ela parece... um cachorrinho carente.

Love, que estava sentada no sofá folheando uma revista de moda onde Catherine já aparecia em uma nota de rodapé, deu um suspiro sonhador.

— É o equilíbrio perfeito. A Maria é o sol, expansiva e brilhante. A Catherine é a lua, elegante e misteriosa. Elas se completam de um jeito que a gente só vê em roteiro de GL bem escrito.

Bonnie, sentada em um canto, permanecia em silêncio. Ela ainda conseguia sentir o rastro do perfume de Maria no ar — uma mistura de sândalo e algo fresco, como chuva. Ela estava encantada, mas havia uma nova jogadora no tabuleiro que parecia ainda mais afetada pela presença da loira.

Sonya não conseguira pregar o olho direito. A imagem de Maria no tapete vermelho, com aquele blazer areia e o sorriso que parecia desafiar a gravidade, estava gravada em sua mente. Ela sempre foi conhecida por sua autoconfiança e por ser uma das "it girls" da empresa, mas Maria despertava algo diferente. Era uma atração estética, sim, mas também uma curiosidade sobre aquela liberdade que a brasileira exalava.

A porta da sala se abriu e o burburinho morreu instantaneamente. Maria entrou primeiro, usando uma calça de alfaiataria preta extremamente larga e uma camisa social branca de linho, com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando algumas tatuagens minimalistas nos antebraços. Catherine vinha logo atrás, impecável em um conjunto de colete e calça de alfaiataria num tom de verde-oliva que destacava suas sardas e o ruivo vibrante do cabelo.

— Bom dia, estrelas! — exclamou Maria, abrindo um sorriso largo que iluminou o ambiente. — Minha mãe me disse que hoje começamos a planejar os novos ensaios fotográficos de vocês. Prontas para trabalharem com a melhor fotógrafa que já pisou nesta cidade?

— E com a designer mais exigente também — completou Catherine, com um tom de voz aveludado, mas firme. Ela parou ao lado de Maria, e a diferença de altura — Maria com seus 1,73m e Catherine um pouco mais baixa — criava uma moldura visual perfeita.

Kapook foi a primeira a quebrar o gelo.

— Exigente, hein? Maria, como você aguenta essa ruiva o dia todo?

Maria soltou uma risada sonora e passou o braço naturalmente pelos ombros de Catherine, puxando-a para perto.

— Ah, vocês não têm ideia. A Cat é um general disfarçado de modelo. Mas eu gosto do perigo. E, entre nós, ela só é brava porque sabe que eu sou a única que não tem medo dela.

Catherine revirou os olhos, mas não se afastou do toque. Pelo contrário, ela descansou a mão na cintura de Maria com uma familiaridade que fez o coração de Bonnie dar um solavanco.

— Menos drama, Maria. Temos um cronograma — disse Catherine, olhando para o grupo até seus olhos encontrarem os de Sonya.

Houve um segundo de silêncio tenso. Sonya sustentou o olhar de Catherine, mas logo desviou para Maria, abrindo seu sorriso mais charmoso.

— Eu sou a Sonya — disse ela, dando um passo à frente com uma confiança que fez as outras meninas trocarem olhares cúmplices. — Ouvi dizer que você faz milagres com a câmera, Maria. Estou ansiosa para ver se você é tão boa quanto dizem os jornais.

Maria inclinou a cabeça para o lado, analisando Sonya com olhos profissionais, mas também com aquela centelha de diversão brasileira que nunca a abandonava.

— Prazer, Sonya. E eu não faço milagres, eu apenas capturo a beleza que já está lá. No seu caso... — Maria deu um passo em direção a ela, diminuindo a distância de forma que faria qualquer um corar — ...acho que meu trabalho vai ser muito fácil. Você tem uma estrutura óssea fantástica e uma energia muito forte.

Sonya sentiu o rosto esquentar, algo raro para ela.

— É mesmo? E o que mais você consegue ler na minha "energia"?

— Que você gosta de desafios — respondeu Maria, piscando. — E eu adoro fotografar pessoas que não têm medo de me encarar de volta.

Ao lado, Catherine cruzou os braços. Ela conhecia aquele tom de Maria. Era o tom de flerte inocente que a loira usava com o mundo, mas Catherine também percebeu que Sonya não estava apenas sendo simpática. Havia um brilho de conquista nos olhos da atriz tailandesa.

— Bom — interrompeu Catherine, a voz um tom mais fria —, a beleza é importante, mas para este conceito, precisamos de profundidade. Maria, mostre a elas o moodboard que preparamos no hotel.

Maria percebeu a sutil mudança de temperatura da parceira e sorriu internamente. Ela adorava quando Catherine ficava territorialista.

— Claro, chefinha — brincou Maria, pegando o tablet. — Meninas, aproximem-se. O conceito para a nova campanha GL é "Contraste e Conexão". Queremos fugir do óbvio. Nada de vestidos bufantes ou cenários excessivamente fofos. Queremos força. Alfaiataria, sombras, poder.

Enquanto Maria explicava as referências, as meninas se amontoavam ao redor dela. Bonnie ficou o mais perto que pôde, sentindo o calor que emanava do corpo de Maria. Janhae e Namtan discutiam as cores, enquanto Film observava tudo em silêncio, notando como as mãos de Maria e Catherine se tocavam "acidentalmente" a cada troca de slide no tablet.

— Eu quero começar com um teste de luz — disse Maria, olhando ao redor. — Sonya, você se importa de ser minha primeira modelo?

— Seria um prazer — respondeu Sonya prontamente.

O estúdio da GMMTV foi preparado em tempo recorde. Maria movia-se pelo espaço com uma agilidade impressionante, ajustando tripés e testando a potência dos flashes. Ela parecia estar em seu elemento natural. Catherine, por sua vez, circulava entre as outras atrizes, ajustando um colarinho aqui, uma pulseira ali, mantendo a ordem com sua elegância silenciosa.

— Fique aqui, Sonya — instruiu Maria, apontando para um fundo cinza escuro. — Não pose. Apenas respire. Imagine que você está esperando alguém que você deseja muito, mas que não sabe se vai chegar.

Sonya fechou os olhos por um segundo, concentrando-se. Quando os abriu, sua expressão havia mudado. Ela olhou diretamente para a lente da câmera de Maria com uma intensidade crua.

O som do obturador disparando preencheu a sala. *Click. Click. Click.*

— Isso! Perfeito — exclamou Maria, sem tirar o olho do visor. — Agora, vire o rosto levemente para a direita. Deixe o cabelo cair sobre o olho. Isso... incrível.

Catherine observava da lateral. Ela viu o jeito que Maria olhava para Sonya — era o olhar da artista para sua musa, mas para quem conhecia Maria como ela conhecia, havia uma faísca extra. E Sonya estava jogando o jogo. A cada movimento, ela parecia tentar atrair Maria para mais perto.

— Acho que já temos o suficiente para o teste de luz, Maria — disse Catherine, aproximando-se e colocando a mão no ombro da fotógrafa.

— Só mais um pouco, Cat. A luz está perfeita agora — respondeu Maria, entusiasmada.

— Maria — insistiu Catherine, apertando levemente o ombro dela —, as outras meninas também precisam de tempo. E a sua mãe está nos esperando para o almoço.

Maria finalmente abaixou a câmera e olhou para Catherine. Ela viu a pequena tensão no canto da boca da ruiva e sorriu, percebendo que talvez tivesse se empolgado demais.

— Você tem razão. Desculpe, meninas. Quando eu começo a fotografar, esqueço que o mundo existe.

Sonya saiu do fundo infinito e caminhou até as duas.

— Você é realmente incrível, Maria. Eu nunca me senti tão... vista por uma câmera antes.

— É um dom — disse Catherine, antes que Maria pudesse responder. — Mas Maria às vezes se perde nos detalhes e esquece o quadro geral.

O clima ficou pesado por um instante, mas Maria, com seu jeito extrovertido, quebrou o gelo abraçando Catherine pela cintura.

— E é por isso que eu tenho você, Cat. Para me lembrar de comer, dormir e não fotografar até os dedos caírem.

Lookmhee, que estava assistindo a tudo de longe, sussurrou para Milk:

— A Sonya vai ter trabalho. A ruiva é brava.

— E a Maria é um perigo — respondeu Milk. — Ela nem percebe o efeito que causa. Olhe para a Bonnie, ela parece que vai desmaiar se a Maria olhar para ela de novo.

Horas depois, após o almoço com a CEO — onde Maria passou a maior parte do tempo roubando comida do prato de Catherine e fazendo a mãe rir com histórias de suas aventuras no Rio de Janeiro —, as duas voltaram para o hotel onde estavam hospedadas.

O quarto era uma suíte luxuosa, com uma vista deslumbrante para o horizonte de Bangkok. Maria jogou-se na cama king-size, soltando um suspiro de cansaço.

— O que foi aquilo hoje no estúdio? — perguntou Catherine, tirando os sapatos e começando a soltar o cabelo.

— Aquilo o quê? O ensaio? Foi ótimo, as meninas são muito talentosas — respondeu Maria, fechando os olhos.

— Não se faça de boba, Maria. A forma como você estava olhando para aquela atriz, a Sonya.

Maria abriu um olho e sorriu de lado.

— Está com ciúmes, Catherine? Você sabe que eu sou uma profissional. Ela é linda, sim, e a câmera ama o rosto dela. Mas é só isso.

Catherine caminhou até a beira da cama e olhou para Maria de cima.

— Não é ciúme. É que aqui as coisas são diferentes. Você é a filha da dona da empresa. Cada movimento seu é analisado. E aquela garota não estava apenas posando, ela estava te caçando.

Maria sentou-se na cama, a expressão tornando-se mais suave. Ela estendeu a mão e puxou Catherine para que ela se sentasse ao seu lado.

— Cat, olhe para mim.

Catherine hesitou, mas obedeceu.

— Você sabe que no Brasil a gente é mais aberto, mais físico. Eu não vou mudar quem eu sou por causa dos protocolos daqui. Mas você também sabe que, no final do dia, quem está aqui comigo, no mesmo prédio, no mesmo estúdio, dividindo as chaves e os segredos... é você.

Catherine suspirou, a postura relaxando.

— Eu sei. É só que... Bangkok é um ninho de cobras, Maria. E você é muito brilhante, atrai muita atenção.

— Então me proteja — brincou Maria, aproximando o rosto do de Catherine. — Seja minha guarda-costas ruiva e elegante.

Catherine deu um sorriso curto e empurrou o ombro de Maria de leve.

— Eu já sou, sua tonta. Quem você acha que impede a sua mãe de te obrigar a usar vestidos naquelas festas chatas?

— É verdade. Você é minha heroína — Maria riu e, por um momento, o mundo lá fora, com Sonya, os noticiários e as expectativas da GMMTV, desapareceu.

No entanto, o celular de Maria vibrou sobre a mesa de cabeceira. Era uma notificação do Instagram.

*@sonyasingha começou a seguir você.* *@sonyasingha curtiu 5 de suas fotos.*

Maria olhou para a tela e depois para Catherine, que também tinha visto a luz do celular.

— A persistência tailandesa é real — comentou Maria, soltando um assobio baixo.

— O jogo começou, Maria — disse Catherine, levantando-se para ir ao banheiro. — Só tente não se queimar.

Maria ficou deitada, olhando para o teto. Ela amava a amizade colorida e intensa que tinha com Catherine, mas o brilho nos olhos de Sonya e a admiração silenciosa de Bonnie prometiam transformar sua estadia na Tailândia em algo muito mais complicado do que uma simples viagem de negócios.

Ela pegou o celular e, em vez de retribuir o "follow" de Sonya, abriu a galeria de fotos. Lá, havia uma foto que ela tirou escondida de Catherine naquela manhã, enquanto a ruiva olhava pela janela do carro.

— É, Cat... — sussurrou Maria para si mesma. — O sol pode ser brilhante, mas é o fogo que realmente transforma as coisas.

Enquanto isso, em seu próprio apartamento, Sonya olhava para a foto de Maria que havia tirado com seu próprio celular durante o teste. Ela não tinha intenção de desistir. Para ela, Maria não era apenas a filha da CEO; era o desafio mais interessante que já havia cruzado seu caminho. E Sonya Singha nunca perdia um desafio.

A noite em Bangkok estava apenas começando, e as luzes da cidade refletiam as ambições, desejos e segredos que agora orbitavam em torno daquela fotógrafa brasileira que, sem usar um único vestido, já havia conquistado o coração da maior produtora de GL do país.