Loja do Caos
Entre o Orvalho e o Aço
A manhã seguinte no Pão de Açúcar parecia carregar um peso diferente. Para Ren, o trajeto de ônibus não foi preenchido apenas pela ansiedade habitual de conferir se o adesivo inibidor estava bem colado atrás da orelha; havia também a memória persistente do calor das mãos de Lucas em seus ombros. Pela primeira vez em meses, o uniforme verde não parecia uma armadura sufocante, mas apenas uma roupa de trabalho. No entanto, o medo ainda espreitava nos cantos de sua mente.
Ao atravessar as portas automáticas de vidro, o ar condicionado gelado o atingiu, trazendo consigo a mistura familiar de cheiro de pão fresco da padaria e o odor metálico dos carrinhos de compras. Ren bateu o ponto com as mãos levemente trêmulas. Ele tentou manter a cabeça baixa, seguindo para o seu posto no caixa quatro, mas seus olhos, quase involuntariamente, buscaram a figura alta e imponente do fiscal de caixa.
Lucas estava lá, perto do balcão de informações, conversando com o gerente da loja. Ele parecia profissional, a postura impecável e o rosto sério, mas, no momento em que Ren passou, os olhos do alfa se desviaram por uma fração de segundo. Foi um reconhecimento silencioso, um brilho dourado que dizia: "Eu estou aqui".
— Bom dia, Ren — cumprimentou uma colega beta do caixa ao lado, distraindo-o. — Preparado? Dizem que hoje vai ter promoção de carne. Os alfas vão estar impossíveis.
Ren forçou um sorriso, sentindo um nó na garganta.
— Bom dia, Sandra. Vou tentar dar o meu melhor.
As primeiras horas foram frenéticas. A previsão de Sandra estava correta; a loja estava lotada. Ren trabalhava mecanicamente, passando produtos, pesando frutas e mantendo o sorriso cortês que seus instrutores de jovem aprendiz tanto elogiavam. Contudo, a presença dos alfas na fila era uma pressão constante. O cheiro deles — suor, testosterona e perfumes fortes — parecia sufocá-lo hoje mais do que o normal, talvez porque seus próprios instintos estivessem mais sensíveis após a quase exposição da noite anterior.
— Ei, gracinha, por que tanta pressa? — Um homem de meia-idade, visivelmente um alfa, inclinou-se sobre o balcão enquanto Ren passava as garrafas de cerveja. — Você tem um olhar muito doce para alguém que trabalha aqui.
Ren sentiu o estômago revirar. O homem exalava um odor de fumo e pinho que o deixava tonto.
— São quarenta e oito reais, senhor — respondeu Ren, a voz falhando ligeiramente.
— Você não usa perfume? — O homem continuou, ignorando o valor e aproximando o rosto do espaço de Ren, farejando o ar de forma invasiva. — Tem algo por baixo desse cheiro de sabão em pó... algo que me dá vontade de...
Antes que o homem pudesse terminar a frase, uma sombra se projetou sobre o caixa. O ar ao redor de Ren pareceu mudar instantaneamente, tornando-se mais denso e protetor.
— Algum problema com o valor da compra, senhor? — A voz de Lucas era como um trovão contido, calma, mas carregada de uma autoridade que fez o cliente se empertigar imediatamente.
O homem recuou alguns centímetros, encarando Lucas. O fiscal não estava fazendo nada agressivo, mas sua mera presença, os braços cruzados e o olhar fixo, era um aviso claro de dominância.
— Não, nenhum. Só estava conversando com o rapaz — resmungou o cliente, pegando as sacolas com pressa e saindo sem olhar para trás.
Ren soltou o ar que nem percebeu que estava segurando. Ele olhou para cima, encontrando os olhos de Lucas.
— Obrigado — sussurrou, sentindo o coração martelar contra as costelas.
— Respire, Ren — disse Lucas, num tom que só o ômega poderia ouvir. — Eu disse que estaria de olho. Se precisar de uma pausa, me avise. Vou pedir para a Sandra cobrir você por dez minutos daqui a pouco.
— Eu aguento — insistiu Ren, embora suas mãos estivessem suadas.
— Eu sei que aguenta. Mas você não precisa aguentar tudo sozinho o tempo todo.
Lucas deu dois tapinhas leves no balcão e se afastou para atender uma chamada no rádio, mas permaneceu a uma distância de onde pudesse intervir em segundos. Aquele gesto simples deu a Ren uma força que ele nunca sentira antes. Pela primeira vez, ele não era apenas um ômega se escondendo em um ninho de lobos; ele tinha um guardião.
Na hora do almoço, Ren tentou se esconder em um canto isolado do refeitório, mas Lucas o encontrou. O alfa trazia duas latas de suco e sentou-se à sua frente, ignorando os olhares curiosos de outros funcionários.
— Como você está se sentindo? — perguntou Lucas, abrindo uma das latas e empurrando-a para Ren. — O seu cheiro... está controlado, mas eu sinto que você está exausto.
— É difícil manter a barreira o tempo todo — admitiu Ren, baixando a voz e olhando ao redor para garantir que ninguém ouvia. — Ontem foi um susto muito grande. Eu achei que minha vida ia desmoronar ali mesmo, naquele corredor.
— Nada vai desmoronar — afirmou Lucas com firmeza. — Eu andei pensando... o bloqueador que você usa é de farmácia popular, não é?
Ren assentiu, envergonhado.
— É o que eu consigo pagar com o salário de aprendiz.
— Eles são instáveis sob estresse térmico ou físico. Eu tenho um amigo que trabalha em uma clínica especializada para ômegas. Ele pode conseguir adesivos de grau médico para você. São mais caros, mas eu faço questão de ajudar com isso.
— Não, Lucas! Eu não posso aceitar — protestou Ren, os olhos arregalados. — Você já está fazendo demais não me denunciando.
Lucas inclinou-se para frente, a expressão suavizando-se.
— Ren, escute. O mundo não é gentil com os ômegas, especialmente em empregos como este. Eu não estou fazendo isso por caridade. Estou fazendo porque... — Ele hesitou, procurando as palavras certas. — Porque ver você se esforçando tanto para ser invisível me dói. Você é brilhante, Ren. Não deveria ter que se apagar para sobreviver.
Ren sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. Ele nunca fora validado daquela forma. Para sua família e para a sociedade, ser um ômega era um fardo que precisava ser gerenciado com discrição e silêncio. Ouvir de um alfa que ele merecia mais do que apenas "não ser descoberto" era avassalador.
— Por que você é assim? — perguntou Ren, a voz trêmula. — A maioria dos alfas que eu conheço... eles só querem marcar território ou mostrar quem manda.
Lucas deu um sorriso triste, olhando para as próprias mãos.
— Minha mãe era uma ômega que trabalhava em dois empregos para me sustentar. Eu vi o que ela passou. Vi os olhares, os comentários, a forma como os alfas a tratavam como se ela fosse uma propriedade ou um defeito no sistema. Eu prometi a mim mesmo que, se eu nascesse alfa, eu seria o tipo de homem que ela merecia ter tido ao lado dela.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Era preenchido por uma compreensão mútua que transcendia a hierarquia de castas. Ren sentiu uma conexão profunda com Lucas, algo que ia além da biologia do omegaverse. Era admiração pura.
— Obrigado por me contar isso — disse Ren, esticando a mão timidamente sobre a mesa, mas parando antes de tocar a de Lucas.
Lucas, porém, não hesitou. Ele cobriu a mão de Ren com a sua, o calor de sua pele enviando ondas de calma pelo corpo do ômega.
— Nós vamos dar um jeito, Ren. Passo a passo.
O restante do turno passou de forma mais amena. Com Lucas por perto, os alfas mais ousados pareciam pensar duas vezes antes de destratar o jovem aprendiz do caixa quatro. No entanto, o desafio final do dia surgiu nos últimos dez minutos de expediente.
O gerente da loja, um alfa dominante chamado Marcos, conhecido por seu temperamento ríspido e olfato apurado, decidiu fazer uma ronda pelos caixas.
— Ren, como estão os relatórios de fechamento? — perguntou Marcos, parando logo atrás do rapaz.
Ren sentiu o pânico subir pela garganta. Marcos não era como Lucas; ele era predatório e adorava exercer poder. O gerente se aproximou perigosamente, o nariz franzindo enquanto ele analisava o ambiente.
— Está tudo em ordem, senhor. Só faltam dois clientes — respondeu Ren, tentando controlar a respiração para não liberar feromônios de medo, que eram os mais fáceis de detectar.
Marcos deu um passo para o lado, ficando quase ombro a ombro com Ren.
— Tem algo estranho aqui hoje... — comentou o gerente, a voz arrastada. — Um cheiro floral. Você limpou o balcão com o quê?
— O desinfetante padrão, senhor — mentiu Ren, o coração batendo tão forte que ele temia que Marcos pudesse ouvi-lo.
Marcos se inclinou mais um pouco, as narinas dilatando-se perto do pescoço de Ren. O ômega fechou os olhos, esperando o desastre. Se Marcos sentisse o cheiro de lírios, o contrato de aprendizagem seria rescindido por "omissão de informação vital" no exame admissional.
— Marcos! — A voz de Lucas ecoou pelo corredor de forma imperativa.
O gerente se afastou de Ren, olhando para o fiscal com irritação.
— O que foi, Lucas? Estou ocupado.
— O caminhão de laticínios chegou com atraso e o pessoal do estoque está tendo problemas com a conferência. Eles precisam da sua assinatura para liberar a descarga agora, ou vamos perder a carga fria — mentiu Lucas com uma naturalidade impressionante, caminhando em direção a eles e se colocando fisicamente entre Ren e o gerente.
Marcos soltou um xingamento baixo.
— Esses idiotas não conseguem fazer nada sozinhos. Já estou indo.
Assim que o gerente desapareceu nos fundos da loja, Lucas se virou para Ren. O ômega estava pálido, segurando-se no balcão para não cair.
— Foi por pouco — sussurrou Ren, as pernas bambas.
— Foi. Mas ele já foi. Respire comigo — Lucas colocou a mão nas costas de Ren, guiando-o suavemente. — Falta pouco. Termine esse atendimento e vá direto para o vestiário. Eu te encontro lá fora.
Ren assentiu, sentindo uma gratidão imensa. Ele terminou de atender a última cliente — uma senhora que comprou apenas um pote de geleia e lhe deu um sorriso gentil — e fechou o caixa.
No vestiário, Ren trocou de roupa o mais rápido que pôde. Ele lavou o rosto com água gelada, tentando remover o rastro de estresse de suas feições. Ao sair pelos fundos, encontrou Lucas encostado no seu carro, um modelo preto simples, mas bem cuidado.
— Você está bem? — perguntou Lucas assim que o viu.
— Agora sim. Obrigado, Lucas. De novo. Eu acho que vou passar o resto da vida te agradecendo.
— Não precisa. Como eu disse, é meu trabalho... e meu prazer — Lucas abriu a porta do passageiro. — Vamos? Eu te levo para casa. E, no caminho, podemos parar para comer algo. Você mal tocou no seu almoço.
Ren hesitou por um segundo. Ele sempre fora ensinado a nunca entrar no carro de um alfa, especialmente um que conhecia sua natureza. Mas Lucas não era "um alfa". Ele era o homem que o protegeu de um cliente agressivo e de um gerente tirano em um único dia.
— Eu adoraria — aceitou Ren, entrando no veículo.
O interior do carro estava impregnado com o cheiro de Lucas — terra molhada e couro — e, para Ren, aquele era agora o cheiro da segurança. Enquanto saíam do estacionamento do Pão de Açúcar, Ren olhou para o letreiro luminoso da loja ficando para trás.
— Lucas? — chamou ele, enquanto observavam as luzes da cidade de São Paulo começarem a brilhar.
— Sim?
— Por que você disse que queria me conhecer sem os bloqueadores? Você não tem medo de que meu cheiro seja... demais?
Lucas parou o carro em um semáforo vermelho e olhou para Ren. O brilho dourado em seus olhos era suave, quase carinhoso.
— Ren, eu sinto o seu cheiro mesmo através dos bloqueadores porque minha biologia está gritando que você é importante. Eu não quero que você se esconda de mim porque eu quero ver o Ren de verdade. O Ren que gosta de lírios, o Ren que é paciente com as senhorinhas, o Ren que é corajoso o suficiente para enfrentar um mundo que não o entende. O cheiro é apenas uma parte de quem você é, e eu tenho certeza de que vou adorar cada nota dele.
Ren sentiu um calor reconfortante espalhar-se por seu peito. Pela primeira vez em sua vida adulta, ele não sentiu vontade de se encolher ou de diminuir sua presença.
— Ninguém nunca me disse algo assim — confessou Ren, olhando para as próprias mãos no colo.
— Então eu vou ter que dizer isso muitas vezes até você acreditar — Lucas sorriu e voltou a acelerar quando o sinal abriu.
A noite estava apenas começando, e embora o amanhã trouxesse mais turnos de trabalho, clientes difíceis e o perigo constante de ser descoberto, Ren não estava mais caminhando sozinho na corda bamba. Ele tinha um aliado, um protetor e, talvez, o início de algo que ele nunca se permitiu sonhar entre as prateleiras de um supermercado: um lugar onde ele poderia, finalmente, ser apenas ele mesmo.