Loja do Caos
O Despertar do Instinto e a Promessa de um Refúgio
A semana que se seguiu à descoberta de Lucas foi, para Ren, uma mistura surreal de terror constante e um conforto inédito. No Pão de Açúcar, a rotina continuava a mesma: o bip incessante dos scanners, o burburinho das reclamações sobre o preço do leite e o aroma de pão quente que inundava a loja às dez da manhã. No entanto, o ar parecia mais leve. Sempre que um alfa mais imponente se aproximava do caixa quatro, Lucas aparecia. Às vezes ele nem falava nada; apenas se posicionava por perto, prancheta em mãos, exalando uma aura de proteção tão densa que até os clientes mais rudes baixavam o tom de voz.
Naquela sexta-feira, porém, o corpo de Ren decidiu cobrar o preço de meses vivendo sob o efeito de inibidores baratos e estresse acumulado. Ele acordou sentindo uma pressão estranha na base do ventre e uma sensibilidade extrema na pele. O adesivo atrás da orelha parecia queimar.
— Você está pálido, Ren — comentou Sandra, a colega beta, enquanto eles organizavam as bobinas de papel térmico antes da abertura da loja. — Está com febre?
— É só o cansaço, Sandra. Não dormi bem — mentiu ele, sentindo uma gota de suor frio escorrer pelas costas.
Ele sabia o que era. Seu pré-cio estava batendo à porta, e os bloqueadores químicos estavam perdendo a batalha. O cheiro de lírios, que antes era apenas um traço sutil, agora ameaçava transbordar a cada respiração profunda.
Durante as primeiras horas do turno, Ren evitou contato visual com qualquer pessoa. Ele sentia seus sentidos aguçados; conseguia ouvir o som da mastigação de alguém na lanchonete a metros de distância e o cheiro de café parecia forte demais, quase agressivo. Quando Lucas passou por ele pela primeira vez naquela manhã, o alfa parou bruscamente.
Lucas não disse nada de imediato, mas suas narinas dilataram. Ele olhou para Ren com uma intensidade que fez as pernas do ômega fraquejarem.
— Escritório da fiscalização. Agora — ordenou Lucas, num tom baixo e urgente que não admitia réplicas.
Ren engoliu em seco, sinalizou para a supervisora de frente de caixa que precisava de uma saída rápida e seguiu Lucas. Assim que a porta do pequeno escritório se fechou, isolando-os do barulho do supermercado, Ren desabou em uma das cadeiras de plástico.
— Ren, seus bloqueadores falharam — disse Lucas, trancando a porta. O cheiro do alfa, geralmente como terra molhada, agora estava mais carregado, reagindo instintivamente ao estado de Ren. — O ambiente aqui fora está saturado. Se o Marcos passar perto de você agora, não vai ter desculpa de desinfetante que te salve.
— Eu tomei a dose extra hoje cedo — sussurrou Ren, escondendo o rosto nas mãos. — Eu não posso perder esse dia, Lucas. Se eu faltar sem atestado, o RH vai descontar do meu bônus de jovem aprendiz. Eu preciso desse dinheiro para o aluguel.
Lucas suspirou, passando a mão pelo cabelo curto, visivelmente frustrado com o sistema que forçava um ômega a se colocar em risco por alguns reais.
— Esqueça o bônus. Se você for descoberto em pré-cio dentro da loja, as consequências serão muito piores do que um desconto no salário. Alfas em bando perdem o controle, Ren. E eu não quero ter que quebrar a cara de metade dos repositores desta loja para te proteger.
Ren olhou para ele, os olhos úmidos.
— O que eu faço?
— Você vai para casa. Agora. Eu vou registrar no sistema que você teve uma queda de pressão severa e que eu, como fiscal, te dispensei por razões de segurança ocupacional. O Marcos não pode contestar isso se eu assinar o laudo de incidente.
— Mas eu moro longe, Lucas... o ônibus... eu não vou conseguir cruzar a cidade nesse estado.
O cheiro de Ren estava ficando mais doce, preenchendo o escritório pequeno. Era um aroma inebriante de lírios frescos e baunilha, algo que fazia o lobo interno de Lucas rosnar de possessividade. O alfa sabia que não podia deixar Ren sair sozinho. Um ômega exalando feromônios de cio em transporte público era uma receita para o desastre.
— Você não vai de ônibus — afirmou Lucas, pegando as chaves do carro. — Eu vou te levar. E não para a sua casa, se você morar sozinho. Você não tem quem cuide de você durante o ciclo, tem?
Ren balançou a cabeça negativamente.
— Minha família mora no interior. Eu estou sozinho aqui.
Lucas hesitou por um segundo. Ele sabia que o que estava prestes a propor cruzava uma linha profissional e pessoal muito séria. Mas, ao olhar para a vulnerabilidade nos olhos de Ren, a decisão foi tomada.
— Minha irmã é enfermeira e mora comigo. Ela é beta. Ela pode te ajudar com os supressores fortes e garantir que você esteja seguro. Você vai ficar no meu quarto de hóspedes até isso passar.
— Eu não posso incomodar assim, Lucas... — protestou Ren, embora a ideia de um lugar seguro parecesse o paraíso.
— Não é um incômodo. É uma emergência — Lucas se aproximou e, com uma delicadeza surpreendente, tocou a testa de Ren. — Você está queimando de febre. Vamos, antes que alguém venha bater nesta porta.
Eles saíram pelos fundos, evitando o salão principal. Lucas jogou sua própria jaqueta de couro sobre os ombros de Ren, tentando abafar o cheiro do rapaz com o seu próprio aroma dominante. No carro, o silêncio era tenso. Ren estava encolhido no banco do passageiro, lutando contra as ondas de calor que subiam por seu corpo.
— Por que você está fazendo isso? — perguntou Ren após alguns minutos, a voz quase sumindo. — Você mal me conhece.
— Eu conheço o suficiente — respondeu Lucas, mantendo os olhos fixos na estrada, as mãos apertando o volante com força para manter o foco. — Eu conheço o Ren que se esforça, que é gentil, que tem medo. E meu instinto me diz que, se eu não cuidar de você, ninguém mais vai.
O apartamento de Lucas ficava em um bairro tranquilo, longe da agitação do centro. Era um lugar simples, mas extremamente limpo e organizado. Assim que entraram, uma mulher de olhar bondoso e cabelos curtos apareceu no corredor.
— Lucas? O que aconteceu? Você não deveria estar no turno? — perguntou ela, parando ao ver o jovem pálido agarrado à jaqueta do irmão.
— Emergência, Luísa. Este é o Ren, meu colega de trabalho. Ele é um ômega e os bloqueadores falharam. Ele está entrando no cio.
Luísa não perdeu tempo com perguntas desnecessárias. Como enfermeira, seu modo profissional foi ativado instantaneamente.
— Traga-o para o quarto de visitas, agora. Vou pegar o kit de primeiros socorros e os inibidores de emergência que tenho na maleta.
Lucas ajudou Ren a se deitar. O quarto era fresco e tinha um cheiro neutro, o que ajudou a acalmar os sentidos hiperestimulados do ômega. Ren sentia-se zonzo, a realidade começando a se desfocar conforme o ciclo avançava.
— Lucas... — chamou Ren, estendendo a mão debilmente.
Lucas segurou a mão dele, sentindo o calor excessivo da pele.
— Estou aqui.
— Não me deixa... por favor.
— Eu não vou a lugar nenhum — prometeu o alfa, sentando-se na beirada da cama.
Luísa entrou no quarto com uma bacia de água fresca e alguns medicamentos. Ela olhou para o irmão com uma sobrancelha erguida.
— Você sabe que o cheiro dele vai ficar muito forte nas próximas horas, não sabe? Como alfa, você vai sofrer se ficar aqui dentro, Lucas.
— Eu aguento — disse ele, com uma determinação que não aceitava discussões. — Eu vou ficar na sala, logo atrás da porta. Se ele precisar de qualquer coisa, eu estarei a um passo de distância.
As horas seguintes foram um borrão para Ren. Ele sentia as mãos frias de Luísa trocando compressas em sua testa, o gosto amargo dos remédios e a dor constante no corpo. Mas, acima de tudo, ele sentia a presença de Lucas. Mesmo através da porta fechada, o cheiro de terra molhada e couro do alfa era como uma âncora que o impedia de se perder no mar de dor e desejo que o cio trazia.
No meio da noite, a febre de Ren atingiu o pico. Ele começou a delirar, chamando pelo nome de Lucas entre soluços baixos. Luísa saiu do quarto, encontrando o irmão sentado no chão do corredor, encostado na parede, com o rosto escondido entre os joelhos.
— Ele está chamando por você — disse ela suavemente. — O remédio baixou a dor, mas o instinto dele quer o alfa em quem ele confia.
Lucas levantou-se, os olhos brilhando intensamente no escuro.
— É seguro? Eu não quero... eu não quero assustá-lo ou fazer algo que ele não queira quando estiver lúcido.
— Ele confia em você, Lucas. Eu vi o jeito que ele te olha. Vá lá. Apenas deixe que ele sinta o seu cheiro. Isso vai acalmar o sistema nervoso dele mais do que qualquer química que eu possa injetar.
Lucas entrou no quarto em silêncio. O aroma de lírios era agora tão potente que chegava a ser quase palpável, uma doçura que fazia o coração do alfa disparar. Ren estava se revirando na cama, o rosto banhado em suor.
— Lucas... — murmurou o ômega, os olhos entreabertos e nublados.
— Estou aqui, passarinho — disse Lucas, usando o apelido que nunca teve coragem de dizer em voz alta na loja.
Ele se sentou na cama e puxou Ren para o seu colo, envolvendo-o em um abraço protetor. Ren imediatamente se aconchegou no pescoço do alfa, soltando um suspiro de alívio tão profundo que pareceu desinflar todo o seu corpo.
— Tão bom... — sussurrou Ren, as mãos agarrando a camiseta de Lucas como se sua vida dependesse disso.
— Shhh... descanse. Eu estou cuidando de tudo. Ninguém vai te machucar. O Marcos não vai te encontrar aqui.
— Você... você me salvou — Ren disse, a voz falhando. — Todo mundo na loja... eles olham para mim e veem um funcionário, ou um alvo. Mas você... você me viu de verdade.
Lucas apertou o abraço, encostando o nariz no cabelo macio de Ren.
— Você é a pessoa mais corajosa que eu já conheci, Ren. Trabalhar naquele lugar, escondendo quem você é, enfrentando aqueles idiotas todos os dias... você é um guerreiro. Mas até os guerreiros precisam de um lugar para descansar as armas.
Ren começou a ronronar — um som baixo e vibrante que apenas ômegas extremamente confortáveis e seguros conseguiam produzir. Era um som que desarmava qualquer agressividade alfa, substituindo-a por um desejo avassalador de prover e proteger.
— Lucas? — Ren chamou, após um longo tempo de silêncio, sua voz soando um pouco mais clara.
— Sim?
— Quando isso passar... e eu tiver que voltar para o Pão de Açúcar... eu não quero mais me esconder de você. Eu não quero mais fingir que sou um beta quando estivermos sozinhos.
Lucas afastou-se apenas o suficiente para olhar no rosto de Ren. A febre parecia estar cedendo, deixando apenas um brilho suave na pele do ômega.
— Você nunca mais vai precisar se esconder de mim — prometeu Lucas. — E eu vou te ajudar a encontrar um jeito de trabalhar onde você seja respeitado pelo que é. Mas, por enquanto, apenas durma.
Ren fechou os olhos, sentindo-se finalmente em paz. A tempestade do cio ainda duraria mais um ou dois dias, mas ele não estava mais com medo. Pela primeira vez, ele não era um segredo a ser guardado, mas um tesouro a ser protegido.
E enquanto o sol começava a surgir no horizonte de São Paulo, iluminando as janelas do apartamento, o alfa e o ômega permaneceram abraçados, alheios ao mundo lá fora, unidos por uma promessa silenciosa que começou entre as prateleiras de um supermercado e floresceu no calor de um refúgio inesperado.
— Eu gosto do seu cheiro — sussurrou Ren, já quase dormindo. — Terra molhada... lembra chuva no interior.
Lucas sorriu, beijando o topo da cabeça do rapaz.
— E eu adoro os seus lírios, Ren. Eles são a coisa mais bonita que já entrou naquela loja.
Naquela manhã, o Pão de Açúcar abriria suas portas como sempre. O gerente Marcos procuraria pelo seu melhor aprendiz e pelo seu fiscal de confiança, encontrando apenas postos vazios e relatórios de incidentes. Mas ali, naquele quarto silencioso, a hierarquia de cargos e castas não significava nada. Havia apenas dois corações que, contra todas as probabilidades, haviam encontrado seu ritmo comum.