Loja do Caos
O Aroma da Discórdia sob a Luz do Meio-Dia
O ar-condicionado do Pão de Açúcar parecia insuficiente para conter o calor abafado que subia do asfalto de São Paulo naquela tarde de quinta-feira. Para Ren, no entanto, o calor não era apenas climático; era a sensação constante de ser observado, um formigamento na nuca que o acompanhava desde que o turno começara. Embora estivesse de volta ao caixa quatro, a sensação de segurança que Lucas lhe proporcionava estava sendo testada por uma maré humana particularmente agressiva.
O dia estava caótico. Uma promoção relâmpago de bebidas energéticas e snacks trouxe uma horda de estudantes universitários e jovens adultos da região, muitos deles alfas recém-despertos, cheios de uma energia competitiva e hormônios efervescentes que saturavam o ar com cheiros cítricos e metálicos.
Ren passou o scanner em um fardo de latas, tentando ignorar o grupo de três rapazes que riam alto na sua fila. Eles vestiam jaquetas de times de futebol americano e exalavam uma arrogância que preenchia o espaço ao redor do caixa.
— Cara, olha esse atendente — sussurrou um deles, alto o suficiente para que Ren ouvisse. — Ele tem um rosto muito delicado para trabalhar aqui, não acha?
— É mesmo — respondeu o outro, um alfa loiro que se inclinou sobre a esteira, invadindo o espaço pessoal de Ren. — Ei, gracinha, você tem Instagram? Ou quem sabe um número de telefone para quando a gente quiser fazer um pedido... especial?
Ren manteve os olhos fixos na tela, os dedos voando pelas teclas.
— São oitenta e nove reais e noventa centavos, senhor. Débito ou crédito? — A voz de Ren era um fio, mas ele tentava imprimir nela a maior neutralidade possível.
— "Senhor"? Nossa, que formal — o loiro riu, esticando a mão para pegar o cartão, mas, em vez disso, tocou deliberadamente a ponta dos dedos de Ren, subindo o toque pelo dorso da mão do ômega. — Você está muito tenso. Devia relaxar. A gente pode te ajudar com isso depois do seu turno.
Ren puxou a mão como se tivesse sido queimado. O coração batia forte contra as costelas. O adesivo atrás de sua orelha estava lá, firme, mas ele sentia que seu medo estava criando uma rachadura na sua defesa química. Feromônios de estresse eram ácidos, difíceis de mascarar.
— Próximo, por favor — disse Ren, a voz agora claramente trêmula.
— Calma aí, a gente ainda não terminou de admirar a vista — o terceiro alfa do grupo interveio, aproximando-se do balcão e farejando o ar de forma ostensiva, quase predatória. — Que cheiro é esse? É sabonete ou você está tentando esconder algo muito doce aqui embaixo desse uniforme verde?
Ren sentiu o pânico subir pela garganta. Ele olhou desesperadamente para o lado, procurando por Lucas, mas o fiscal estava ocupado no balcão de atendimento ao cliente, lidando com uma senhora que reclamava de um cupom vencido. Lucas estava de costas, alheio ao cerco que se fechava no caixa quatro.
— Por favor, senhores, tem gente na fila — Ren implorou, sua voz quase um sussurro.
— A gente não se importa com a fila — o loiro disse, inclinando-se mais, o cheiro de suor e desodorante barato agredindo os sentidos de Ren. — Por que você não dá um sorriso? Um ômega tão bonito quanto você não devia ser tão arisco.
A palavra "ômega" foi pronunciada como um desafio. Eles não tinham certeza, mas estavam testando, cutucando a ferida, divertindo-se com a vulnerabilidade óbvia do rapaz.
— Algum problema aqui? — A voz de Victor, o supervisor da mercearia, surgiu de repente.
Ren sentiu um alívio momentâneo, mas a presença de Victor trazia sua própria carga de complicações. O supervisor se colocou ao lado do caixa, os braços cruzados, o cheiro de cedro e especiarias confrontando o odor agressivo dos jovens alfas.
— Nenhum, chefe — disse o loiro, recuando um centímetro, mas mantendo o sorriso debochado. — Só estávamos elogiando o atendimento. O garoto é... eficiente.
— Ele é eficiente e está trabalhando — Victor disse, o tom de voz calmo, mas com um subtexto de ameaça que só outro alfa reconheceria. — Se já pagaram, circulem. O corredor está bloqueado.
Os rapazes resmungaram, pegando suas sacolas e saindo, mas não antes de o loiro lançar um último olhar para Ren e fazer um gesto obsceno com a língua.
Ren soltou um suspiro trêmulo, apoiando as mãos no balcão para não cair.
— Você está bem, Ren? — perguntou Victor, aproximando-se. Ele estendeu a mão para tocar o ombro de Ren, mas o ômega se esquivou instintivamente.
— Sim, obrigado, Victor. Eu só... eles foram um pouco persistentes.
— Eles foram babacas — corrigiu Victor, seus olhos analisando o rosto pálido de Ren. — Você não devia ter que lidar com isso. Talvez você devesse ir para os fundos um pouco. Eu posso assumir o caixa para você.
— Não precisa — disse uma voz profunda e gélida logo atrás deles.
Lucas havia chegado. O ar ao redor do caixa quatro pareceu cair vários graus. O fiscal de caixa olhou para Victor e depois para Ren, notando imediatamente o estado de choque do rapaz.
— O que aconteceu? — perguntou Lucas, a voz contida, mas as narinas dilatadas mostravam que ele já havia captado o rastro de medo de Ren e o cheiro residual dos outros alfas.
— Uns moleques universitários acharam que o caixa era um buffet — explicou Victor, dando um sorriso de canto que não chegou aos olhos. — Eu intervi antes que as coisas ficassem piores. O Ren está um pouco abalado.
Lucas deu um passo à frente, ocupando o espaço entre Ren e Victor. A proteção de Lucas era diferente da de Victor; era instintiva, bruta, como uma muralha de aço.
— Obrigado pela ajuda, Victor. Eu assumo daqui. Ren, feche sua gaveta. Agora.
— Lucas, eu ainda tenho clientes na fila... — Ren começou a dizer.
— Feche a gaveta, Ren — repetiu Lucas, e desta vez havia uma nota de comando alfa que fez o corpo de Ren obedecer antes mesmo de seu cérebro processar.
Ren fechou o caixa com mãos trêmulas e colocou a placa de "fechado". Lucas o conduziu para fora da área de atendimento, ignorando os protestos dos clientes que esperavam. Victor ficou para trás, observando-os com uma expressão indecifrável, os dedos batucando no balcão.
Lucas levou Ren até a área de descanso dos funcionários, um pequeno pátio nos fundos que estava vazio naquele horário. O silêncio da tarde foi quebrado apenas pelo som da respiração ofegante de Ren.
— Respire, Ren. Você está seguro — Lucas disse, segurando os ombros do rapaz e forçando-o a olhar em seus olhos. — O que eles disseram para você? Eles te tocaram?
— Eles... eles ficaram me provocando. Tocaram na minha mão. Um deles me chamou de ômega — Ren disse, as lágrimas finalmente transbordando. — Lucas, está acontecendo o tempo todo agora. Parece que, desde que o Victor descobriu, todos os alfas da loja e os que entram nela conseguem sentir o cheiro do meu medo através dos bloqueadores. Eu me sinto... exposto.
Lucas sentiu uma pontada de culpa e fúria. Ele puxou Ren para um abraço apertado, escondendo o rosto do ômega em seu peito, deixando que seu cheiro de terra molhada e proteção envolvesse o rapaz como um cobertor.
— Eu sinto muito, Ren. Eu devia ter estado lá. Aquele bando de moleques não vale o chão que você pisa.
— Eu não sei se consigo continuar assim — soluçou Ren contra o uniforme de Lucas. — Eu amo meu trabalho, eu gosto de ser útil, mas toda vez que um alfa jovem entra na fila, eu entro em pânico. Eles acham que podem dizer o que querem, que podem me tocar porque eu sou "delicado".
Lucas rosnou baixo, um som que vibrou no peito e que Ren sentiu contra sua própria face.
— Eles fazem isso porque sentem a sua luz e querem apagá-la. É assim que alfas fracos se sentem fortes. Mas eu não vou deixar isso continuar.
— O que você vai fazer? — Ren perguntou, afastando-se um pouco para olhar para ele. — Você não pode brigar com todos os clientes. O Marcos te demitiria em um segundo.
— Eu não preciso brigar com todos eles. Eu só preciso deixar claro que você está sob a minha proteção — Lucas disse, a expressão endurecida. — E quanto ao Victor... eu não gosto da forma como ele está agindo como se fosse seu salvador.
— Ele me ajudou hoje, Lucas — Ren disse, tentando ser justo.
— Ele ajudou porque quer ganhar sua confiança, Ren. Ele sentiu seu cheiro naquele dia e agora ele está caçando. Ele é mais perigoso que aqueles garotos porque ele é paciente.
Ren baixou o olhar. Ele se sentia exausto, uma peça de ouro sendo disputada por dois colecionadores enquanto outros tentavam roubá-la da vitrine.
— Eu só quero ser o Ren. O aprendiz que passa as compras e vai para casa em paz.
— Você vai ser — prometeu Lucas, beijando a testa do rapaz. — Mas, por enquanto, você vai ficar aqui. Beba uma água, lave o rosto. Eu vou falar com a supervisão para te transferir para o setor de estoque pelo resto do dia. Lá não tem clientes, e eu posso entrar e sair para te ver sem que o Marcos desconfie.
Ren assentiu, sentindo-se imensamente grato pela sensibilidade de Lucas.
No entanto, a paz durou pouco. Quando Ren voltou para dentro, após se recompor, ele encontrou Victor bloqueando o caminho para o estoque.
— Fugindo de novo, Ren? — Victor perguntou, com um tom que tentava ser brincalhão, mas soava possessivo.
— O Lucas achou melhor eu ficar no estoque hoje — Ren respondeu, tentando passar por ele.
Victor colocou o braço na parede, impedindo a passagem.
— O Lucas decide muito por você, não acha? Você é um ômega, Ren, não uma criança. Você devia aprender a lidar com esses alfas. Se você mostrar os dentes, eles recuam.
— Eu não quero mostrar os dentes, Victor. Eu só quero trabalhar — Ren disse, sentindo a irritação crescer.
— Você é muito doce para esse lugar — Victor disse, aproximando-se e baixando a voz. — Sabe, se você estivesse comigo na mercearia de forma definitiva, eu poderia te ensinar a se impor. Ou melhor, eu poderia garantir que nenhum desses universitários chegasse a menos de três metros de você.
— O Lucas já faz isso — Ren rebateu.
Victor riu, um som seco.
— O Lucas é um fiscal de caixa, Ren. Ele tem regras a seguir. Eu sou supervisor. Eu tenho poder aqui dentro. Pense nisso. O assédio não vai parar enquanto você parecer uma presa fácil.
Ren sentiu um calafrio. As palavras de Victor, embora mascaradas de conselho, soavam como uma profecia sombria. Ele se esquivou do braço de Victor e correu para o estoque, o coração acelerado.
O resto da tarde no estoque foi solitário, mas seguro. Entre caixas de sabão em pó e fardos de arroz, Ren tentava processar tudo. O assédio dos clientes era frequente e nojento, mas a disputa silenciosa entre Lucas e Victor o deixava ainda mais exausto. Ele se sentia como se estivesse em um ninho de lobos, onde alguns queriam devorá-lo e outros queriam guardá-lo em uma gaiola.
Quando o expediente finalmente terminou, Ren saiu pelos fundos, exausto. O sol estava se pondo, pintando o céu de São Paulo com tons de laranja e roxo. Lucas o esperava perto do carro, mas, para a surpresa de Ren, o grupo de universitários de mais cedo também estava lá, encostados em um carro esportivo barulhento, logo na saída do estacionamento dos funcionários.
— Olha lá, o gracinha está saindo! — gritou o loiro, assobiando.
Lucas endureceu a postura imediatamente. Ele caminhou até Ren, pegando sua mochila e passando o braço protetoramente por sua cintura.
— Ignore-os — sussurrou Lucas.
Mas os rapazes não queriam ser ignorados. Eles ligaram o motor, acelerando e fazendo o carro rugir enquanto passavam lentamente por Lucas e Ren.
— Ei, guarda-costas! — o loiro gritou da janela. — Cuidado para não deixar o doce derreter no calor! A gente vai voltar amanhã para ver se ele está mais... receptivo!
O carro arrancou, deixando uma nuvem de fumaça e o som de risadas para trás.
Ren sentiu suas pernas fraquejarem. O assédio não era mais apenas dentro da loja; estava transbordando para sua vida lá fora.
— Eles não vão parar, Lucas — Ren disse, a voz embargada. — Amanhã serão eles, depois de amanhã outros. O que eu vou fazer?
Lucas parou o carro e olhou profundamente nos olhos de Ren. Havia uma dor ali, mas também uma resolução inabalável.
— Você não vai fazer nada sozinho, Ren. Eu vou te buscar e te levar todos os dias. E se eles voltarem a pisar naquela loja, eu vou garantir que sejam banidos. Eu não me importo com o meu emprego se isso significar a sua segurança.
— Mas o seu emprego é importante para você...
— Você é mais importante — Lucas interrompeu, segurando o rosto de Ren com as duas mãos. — Você é o aroma de lírios no meio desse concreto todo, Ren. E eu morreria antes de deixar que alguém contaminasse isso.
Ren fechou os olhos, deixando-se levar pelo toque de Lucas. Ele sabia que o assédio frequente era uma ferida aberta que demoraria a cicatrizar, e que a atenção indesejada de alfas como Victor e os universitários era o preço que ele pagava por ser quem era em um mundo que não sabia respeitá-lo.
Mas, enquanto sentia o cheiro de terra molhada de Lucas — o cheiro da chuva que limpa e renova —, Ren soube que, embora o assédio fosse frequente, a proteção de Lucas seria constante.
— Obrigado por não me deixar desistir — sussurrou Ren.
— Nunca — prometeu Lucas. — Agora vamos para casa. Amanhã, nós enfrentamos o mundo de novo. Mas hoje, você só precisa ser você.
Enquanto o carro se afastava do Pão de Açúcar, Ren olhou pelo retrovisor. Nas sombras do estacionamento, ele viu a silhueta de Victor, parado, observando-os partir. O supervisor não se moveu, apenas ficou lá, uma presença silenciosa e persistente, lembrando a Ren que a batalha pelo seu espaço e seu coração estava longe de terminar.
O Pão de Açúcar continuaria lá, com suas promoções, seus clientes ousados e suas luzes frias. Mas Ren, pela primeira vez, sentia que tinha algo que nenhum assédio poderia tirar dele: a certeza de que não era mais uma presa fugindo, mas um ômega que havia encontrado seu lugar, não nas sombras, mas nos braços de quem realmente o via.