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Loja do Caos

O Brilho das Prateleiras e a Sombra do Ciúme

A rotina no Pão de Açúcar havia se tornado uma dança coreografada entre o perigo e o alívio. Após o episódio do pré-cio, a conexão entre Ren e Lucas se aprofundou de uma forma que o jovem ômega nunca imaginou ser possível. Lucas agora era mais do que um fiscal; era seu porto seguro, o olhar que ele buscava quando as luzes fluorescentes pareciam brilhar demais ou quando a pressão dos clientes se tornava insuportável. No entanto, o equilíbrio que haviam construído estava prestes a ser testado.

Naquela manhã de terça-feira, o movimento estava estranhamente calmo, mas o clima no escritório da gerência era tenso. Marcos, o gerente de olhar predatório, chamou Ren logo após o registro do ponto.

— Ren, o setor de mercearia está um caos com a chegada da nova remessa de importados — disse Marcos, sem desviar os olhos de uma planilha. — O supervisor de lá, o Victor, pediu um reforço. Como você é o aprendiz mais ágil, vai passar a semana ajudando na reposição e organização dos corredores centrais.

Ren sentiu um frio na barriga. O caixa era um ambiente controlado, onde ele tinha o balcão como barreira e Lucas sempre por perto. A mercearia significava exposição total.

— Sim, senhor. Vou me apresentar agora mesmo — respondeu Ren, tentando manter a voz firme.

Ao sair da sala, ele cruzou com Lucas no corredor. O alfa percebeu imediatamente a agitação no cheiro de Ren — aquela nota de lírios que ficava levemente ácida quando ele estava nervoso.

— O que houve? — perguntou Lucas, aproximando-se o suficiente para que apenas Ren ouvisse.

— Marcos me transferiu para a mercearia por uma semana — sussurrou Ren, ajeitando o avental com mãos trêmulas. — Vou ficar sob as ordens do Victor.

Lucas franziu o cenho. Victor era um alfa de quem ele não gostava particularmente. Não que Victor fosse agressivo como Marcos, mas ele tinha uma autoconfiança magnética e um jeito de observar as pessoas que sempre deixava Lucas em alerta.

— Fique calmo — disse Lucas, colocando a mão brevemente no ombro de Ren, um toque que durou apenas um segundo, mas que serviu para "recarregar" o ômega com seu cheiro de terra molhada. — Eu vou circular por lá sempre que puder. Se ele for grosseiro ou se você se sentir mal, me sinalize.

Ren assentiu e seguiu para o setor de mercearia. O corredor de produtos importados estava repleto de caixas de madeira e papelão. No centro de tudo, um homem alto, com o uniforme impecavelmente passado e as mangas dobradas até os cotovelos, conferia uma lista. Victor era um alfa de aparência atlética, com cabelos castanhos claros e um cheiro que lembrava cedro e especiarias — algo quente e envolvente.

— Você deve ser o Ren — disse Victor, levantando os olhos e abrindo um sorriso que parecia iluminar o corredor escuro entre as prateleiras de vinhos. — Ouvi dizer que você é o melhor que temos aqui.

— Sou eu, senhor. Vim ajudar na reposição — respondeu Ren, baixando o olhar, sentindo-se pequeno sob o escrutínio do alfa.

— Sem essa de "senhor", por favor. Aqui é Victor — ele caminhou até Ren e parou a uma distância que o ômega considerou um pouco íntima demais. — Vamos começar por aquelas caixas de azeites trufados. São delicadas, mas sinto que você tem mãos cuidadosas.

O trabalho era exaustivo. Ren passava horas agachado ou subindo em escadas, organizando garrafas e latas. O que ele não esperava era que Victor fosse um supervisor tão... presente. Diferente de outros alfas que apenas davam ordens, Victor trabalhava lado a lado com ele, muitas vezes esticando o braço por cima de Ren para alcançar uma prateleira alta, envolvendo o jovem aprendiz em seu rastro de feromônios amadeirados.

— Você trabalha com uma precisão incrível, Ren — comentou Victor, enquanto ambos organizavam uma pirâmide de conservas finas. — É raro encontrar alguém tão jovem que leve o trabalho tão a sério.

— Eu gosto de deixar tudo em ordem — respondeu Ren, sentindo o rosto esquentar. — Ajuda o cliente a encontrar o que precisa.

Victor riu, um som rico e vibrante.

— E ajuda a loja a brilhar. Sabe, Ren... você tem uma aura muito calma. É revigorante trabalhar perto de você.

Nesse exato momento, Lucas apareceu no final do corredor, fingindo conferir os preços nas etiquetas de gôndola. Seus olhos brilharam em um tom dourado escuro ao ver Victor inclinado na direção de Ren, a mão do supervisor descansando casualmente na lateral da escada onde Ren estava apoiado.

— Tudo em ordem na mercearia, Victor? — a voz de Lucas soou mais profunda do que o normal, cortando o ar como uma lâmina fria.

Victor se virou, mantendo o sorriso relaxado, mas sem se afastar de Ren.

— Ah, Lucas! Sim, tudo ótimo. O Ren é um achado. Acho que vou pedir ao Marcos para mantê-lo aqui permanentemente. Ele tem um jeito... especial com a organização.

Ren desceu da escada, sentindo a tensão palpável entre os dois alfas. O cheiro de Lucas estava se tornando pesado, carregado com uma nota de fumaça que indicava ciúmes e dominância territorial.

— O lugar do Ren é no caixa — afirmou Lucas, dando um passo à frente. — Ele é treinado para atendimento direto e fechamento de valores. Você só o tem por empréstimo.

— O talento deve ser usado onde é mais necessário, fiscal — retrucou Victor, cruzando os braços. — E agora, a mercearia precisa dele.

Ren olhou de um para o outro, sentindo-se como uma presa entre dois predadores que disputavam um território.

— Eu... eu vou levar esses papelões para a compactadora — disse Ren, tentando escapar daquela pressão.

Ele pegou uma pilha de caixas, mas, ao tentar passar por Victor, tropeçou em um fardo de água mineral que estava fora do lugar. O impacto teria sido feio se Victor não tivesse sido rápido o suficiente para segurá-lo pela cintura.

No movimento brusco, o adesivo inibidor atrás da orelha de Ren, já frouxo devido ao suor do trabalho braçal, acabou se soltando e caindo no chão.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sem a barreira química, o aroma de lírios e baunilha de Ren floresceu instantaneamente no corredor fechado, misturando-se ao cheiro de cedro de Victor e à fumaça de Lucas.

Victor congelou, suas narinas dilatando-se enquanto ele ainda segurava Ren. O olhar do supervisor mudou de amigável para algo profundo, faminto e chocado.

— Um ômega... — sussurrou Victor, a voz carregada de uma descoberta que mudava tudo. — Você é um ômega, Ren.

Ren empurrou Victor suavemente, o pânico estampado em seu rosto. Ele olhou para o chão e viu o adesivo, sentindo-se nu diante dos dois alfas.

— Eu... eu sinto muito... eu já ia colocar outro... — gaguejou Ren, as lágrimas começando a se formar.

Lucas agiu com a rapidez de um raio. Ele se colocou entre Victor e Ren, bloqueando a visão do supervisor.

— Afaste-se, Victor — rosnou Lucas, um som baixo que vinha do fundo de seu peito.

Victor levantou as mãos, mas não recuou. Seus olhos estavam fixos na silhueta de Ren atrás de Lucas.

— Calma, Lucas. Eu não vou machucá-lo. Eu só... eu não fazia ideia. Isso explica tanta coisa. A delicadeza, o jeito sutil... — Victor deu um passo para o lado, tentando ver Ren. — Ren, não precisa ter medo. Eu não sou como o Marcos. Seu segredo está seguro comigo.

Lucas se virou para Ren, ignorando Victor por um momento. Ele pegou o rosto do ômega entre as mãos, ignorando as regras da loja, ignorando as câmeras.

— Você está bem? — perguntou Lucas, a voz agora suave, mas os olhos ainda em alerta.

— Eu quero ir embora, Lucas — sussurrou Ren, tremendo.

— Você não vai a lugar nenhum até se acalmar — disse Victor, intervindo novamente. — Ren, se você sair correndo assim, vai chamar atenção. Venha para a minha sala nos fundos da mercearia. Lá tem ar condicionado forte e você pode se recompor. Eu prometo que ninguém vai entrar.

Lucas olhou para Victor com puro desprezo.

— Ele não vai a lugar nenhum com você.

— Lucas, deixe de ser possessivo — disse Victor, mantendo uma calma irritante. — Eu sou o supervisor dele agora. Se ele sumir do setor, o Marcos vai perguntar. Minha sala é o lugar mais seguro. Eu tenho supressores de emergência no meu kit de primeiros socorros.

Ren olhou para Lucas, implorando silenciosamente. Ele sabia que Victor tinha razão sobre o perigo de circular pela loja exalando seu cheiro natural. Lucas, embora relutante e com o peito doendo de ciúmes, percebeu que a lógica de Victor era a única saída para proteger o emprego de Ren.

— Tudo bem — cedeu Lucas, a voz ríspida — mas eu vou junto.

A sala de Victor era pequena e cheirava fortemente a papel e ao seu perfume amadeirado. Ren sentou-se em uma cadeira, enquanto Victor buscava um novo adesivo e um copo de água.

— Aqui — disse Victor, entregando o copo a Ren. Seus dedos roçaram os de Ren propositalmente, e ele manteve o contato por um segundo a mais do que o necessário. — Beba devagar.

Lucas, parado à porta como uma estátua de gelo, cerrou os punhos.

— Obrigado, Victor — disse Ren, a voz ainda trêmula. — Por favor, não conte ao gerente. Eu realmente preciso deste trabalho.

— Eu já disse que não vou contar — Victor se inclinou sobre a mesa, ignorando a presença intimidadora de Lucas ao fundo. — Na verdade, acho que isso nos torna mais próximos, não acha? Um segredo compartilhado. Eu sempre soube que você era especial, Ren. Agora eu sei o porquê.

— Ele não é "especial" para você, Victor — interrompeu Lucas, caminhando até o centro da sala. — Ele é um funcionário e uma pessoa que merece respeito. Não tente usar isso para se aproximar dele.

Victor soltou uma risadinha, olhando para Lucas com desafio.

— Você está muito tenso, fiscal. O Ren é um adulto. Ele pode decidir quem ele quer por perto. E, pelo que vejo, ele parece bem confortável aqui na mercearia.

— Eu estou aqui, sabem? — disse Ren, subitamente ganhando um pouco de coragem. — Eu não sou um objeto para vocês discutirem.

Ambos os alfas se calaram e olharam para ele.

— Desculpe, Ren — disse Lucas, suavizando a expressão. — Eu só me preocupo com você.

— Eu sei — Ren levantou-se e colocou o novo adesivo que Victor lhe dera. — Victor, obrigado pela ajuda e pelo silêncio. Eu vou terminar de organizar os azeites e depois gostaria de voltar para o meu caixa, se for possível.

— Veremos — disse Victor, piscando para Ren de uma forma que fez o estômago de Lucas revirar. — O dia ainda não acabou.

Ao saírem da sala, Lucas puxou Ren pelo braço por um momento, em um canto onde as câmeras tinham um ponto cego.

— Eu não gosto do jeito que ele olha para você — confessou Lucas, a voz rouca de ciúmes. — Ele sentiu o seu cheiro, Ren. E agora ele sabe. Alfas como o Victor não desistem quando sentem algo tão doce quanto você.

Ren olhou para Lucas e, pela primeira vez, viu a vulnerabilidade no alfa dominante. Ele esticou a mão e tocou o braço de Lucas, apertando-o levemente.

— Ele pode ter sentido o meu cheiro, Lucas... mas foi você quem cuidou de mim quando eu mais precisei. O Victor é apenas meu supervisor. Você... você é a pessoa que eu confio.

Lucas relaxou visivelmente, soltando um suspiro pesado. Ele inclinou a testa contra a de Ren por um breve momento.

— Eu vou ficar por perto. Se ele tentar qualquer gracinha, eu não vou me importar com o código de conduta da loja.

Ren sorriu, um sorriso pequeno e tímido.

— Eu sei que vai.

O restante do dia na mercearia foi estranho. Victor continuou sendo atencioso, talvez até demais. Ele trazia lanches para Ren, elogiava cada movimento seu e fazia questão de tocar em seus ombros ou braços sempre que explicava uma nova tarefa. Era uma sedução sutil, uma tentativa de marcar território através da gentileza e da proximidade.

Lucas, por sua vez, tornou-se a sombra de Ren. Ele nunca estava a mais de cinco metros de distância, observando cada interação com olhos de falcão. A tensão entre os dois alfas era quase elétrica, transformando o corredor de importados do Pão de Açúcar em um campo de batalha silencioso.

Quando o turno finalmente terminou, Ren estava exausto. Ele trocou de roupa rapidamente, querendo apenas o silêncio de sua casa. Ao sair pelos fundos, encontrou Victor encostado em seu carro.

— Quer uma carona, Ren? — perguntou Victor, a voz suave. — Eu moro no caminho do seu bairro. Podemos conversar mais sobre como facilitar sua vida aqui na loja.

Antes que Ren pudesse responder, o som de passos pesados ecoou no asfalto. Lucas apareceu, sua jaqueta de couro aberta, exalando uma dominância que fez até Victor se empertigar.

— Ele já tem carona — disse Lucas, parando ao lado de Ren e colocando o braço sobre seus ombros de forma possessiva.

Victor olhou para os dois, o sorriso diminuindo, mas não desaparecendo.

— Entendo. Parece que o fiscal é mais rápido do que eu pensava.

— Não é sobre velocidade, Victor — disse Lucas, encarando-o nos olhos. — É sobre quem ele escolheu.

Victor deu de ombros, entrando em seu carro.

— O jogo está apenas começando, Lucas. O Ren é um ômega raro. Você não acha que vai ser o único a notar, acha? Até amanhã, Ren. Descanse bem.

Enquanto o carro de Victor se afastava, Ren soltou um longo suspiro, recostando-se no peito de Lucas.

— Ele é persistente — comentou Ren.

— Ele é um problema — corrigiu Lucas, apertando Ren contra si. — Mas ele está certo em uma coisa. Você é raro. E eu vou ter que lutar contra o mundo inteiro para te manter seguro, não vou?

Ren olhou para cima, encontrando o olhar protetor e apaixonado de Lucas.

— Você não precisa lutar contra o mundo inteiro, Lucas. Só precisa estar aqui quando eu olhar para trás.

Lucas sorriu e o conduziu até seu carro. O Pão de Açúcar ficava para trás, com suas luzes e seus segredos, mas Ren sabia que a semana na mercearia seria longa. Ele tinha um segredo compartilhado com dois alfas agora: um que ele amava e outro que o desejava. E, nas sombras das prateleiras, o destino de Ren estava se tornando cada vez mais complexo, entre o conforto do couro e a tentação do cedro.

— Vamos para casa — disse Lucas, ligando o motor. — Amanhã será um novo dia. E eu não vou sair do seu lado nem por um segundo.

Ren fechou os olhos, deixando-se levar pelo movimento do carro, sabendo que, apesar do ciúme e do perigo, ele finalmente tinha alguém por quem valia a pena não se esconder.