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los jovens

O Peso do Ar que nos Sufoca

O sol da manhã entrou pelas janelas da mansão de Noah com uma agressividade que Hades não estava pronta para enfrentar. O minimalismo do quarto, que à noite parecia um refúgio de veludo, agora era apenas um cenário frio e estéril. Noah já não estava na cama. Ela o encontrou na cozinha, bebendo café preto enquanto lia algo em um tablet, impecável como se a noite anterior tivesse sido apenas um exercício de lógica.

— Há roupas limpas no banheiro de hóspedes — disse ele, sem desviar os olhos da tela. — Meu motorista pode te levar para casa em dez minutos.

A indiferença dele era um golpe mais forte do que qualquer briga explosiva com Kai. Noah não precisava gritar para exercer poder; ele simplesmente retirava o oxigênio da sala. Hades vestiu as próprias roupas da noite anterior, sentindo o cheiro de festa e de suor impregnado no tecido, ignorando a oferta dele. Ela precisava sair dali antes que a dissociação a engolisse por completo.

Ao chegar em casa, o silêncio de seu quarto parecia uma condenação. Mas o silêncio não durou. Seu celular não parava de vibrar. O grupo estava em frangalhos. Luna tinha sido encontrada desmaiada em um parque, Eva estava à beira de um colapso nervoso e Valentina tinha passado a noite em claro enviando ameaças para a garota que Kai beijara.

Hades sentia-se um fantasma observando o mundo dos vivos. Ela tentou se maquiar, tentando reconstruir a máscara de controle absoluto, mas seus dedos tremiam. O delineado saiu torto. Ela o limpou com fúria, manchando o rosto de preto, parecendo-se mais com o monstro que sentia ser por dentro.

Naquela tarde, incapaz de ficar sozinha com seus pensamentos, ela caminhou até o cais abandonado, um lugar que costumava ser o refúgio dela e de Kai. O vento soprava frio vindo do lago, trazendo o cheiro de água parada e ferrugem.

Para sua surpresa, a moto dele estava lá. Kai estava sentado na beirada do concreto, chutando uma lata vazia para o abismo.

— Eu sabia que você viria para cá — disse Kai, sem se virar. — Você sempre volta para onde dói.

Hades parou a alguns metros de distância, os braços cruzados sobre o peito.

— E você sempre está aqui para garantir que a dor não passe, não é? — ela rebateu, a voz carregada de uma fadiga que vinha dos ossos.

Kai se levantou, a expressão fechada, os olhos nublados por aquela indisponibilidade emocional que era sua marca registrada.

— Eu vi você saindo com o novato ontem. O tal do Noah. — Ele deu um passo em direção a ela, o tom de voz subindo. — Você acha que ele é diferente? Ele é um colecionador, Hades. Ele coleciona pessoas quebradas como se fossem troféus.

— E o que você faz, Kai? — Hades gritou, a frieza finalmente quebrando. — Você some por semanas, me deixa no vácuo, aparece em festas beijando outras garotas na minha frente só para ver se eu ainda estou na sua coleira! Você não tem o direito de falar do Noah. Pelo menos ele não finge que se importa.

— Eu nunca fingi nada! — Kai avançou, ficando a centímetros do rosto dela. O calor dele era sufocante. — Eu sou o único que aguenta você quando você está nesse estado, dissociada, agindo como se fosse um robô de gelo. Eu conheço o que tem debaixo dessa pele, Hades.

— Você não conhece nada! — Ela o empurrou com as duas mãos no peito. — Você só conhece o que eu deixo você ver para não me sentir tão sozinha. Você é um covarde, Kai. Você tem tanto medo de sentir algo que prefere destruir tudo ao seu redor.

A briga escalou rapidamente. Palavras que tinham sido guardadas por meses foram lançadas como granadas. Eles eram dois desastres naturais colidindo, uma mistura tóxica de dependência e ressentimento. Kai segurou os pulsos dela, não com violência, mas com uma intensidade desesperada.

— Você me odeia tanto assim? — ele perguntou, a voz subitamente baixa, quase quebrada.

— Eu odeio o fato de que eu ainda preciso de você — Hades confessou, as lágrimas finalmente vencendo a barreira do seu orgulho.

O momento de vulnerabilidade foi interrompido pelo som de passos rápidos sobre as tábuas de madeira do cais. Duas figuras surgiram da penumbra dos armazéns próximos.

Eram Valentina e Sophie.

Valentina estava com a maquiagem borrada, os olhos vermelhos de quem tinha chorado ou usado algo forte o suficiente para anestesiar a raiva. Sophie vinha logo atrás, parecendo uma sombra assustada, as mãos agarradas às alças da mochila como se sua vida dependesse disso.

— Que lindo — ironizou Valentina, parando a uma distância segura, mas com uma postura agressiva. — O casal autodestruição em seu habitat natural. Enquanto isso, a Luna está em um hospital e a Eva está tendo um surto psicótico porque ninguém atende a porcaria do telefone.

Hades soltou-se de Kai, limpando o rosto rapidamente, tentando recuperar o que restava de sua dignidade.

— O que vocês estão fazendo aqui? — perguntou Hades, a voz recuperando a cadência gélida.

— A gente te procurou em todo lugar — disse Sophie, a voz falhando. — Valentina achou que você estaria com ele. Ela... ela está surtando, Hades. Diz que não aguenta mais ser a última a saber das coisas.

— Eu não estou surtando! — gritou Valentina, virando-se para Sophie com uma fúria que fez a garota menor encolher-se. — Eu só estou cansada dessa hipocrisia! Você, Hades, agindo como se fosse superior a todo mundo, enquanto se deita com o primeiro manipulador que aparece na escola e depois vem chorar nos braços do Kai.

— Valentina, cala a boca — Kai interveio, mas isso só serviu para atiçar o fogo.

— Não me manda calar a boca, Kai! — Valentina avançou para o centro do grupo. — Você é outro lixo. Usa a Sophie para conseguir informações, usa a Hades para inflar seu ego e usa qualquer garota da festa para provar que ninguém é dono de você. Vocês dois se merecem. São dois buracos negros sugando todo mundo ao redor.

Sophie começou a soluçar silenciosamente, cobrindo o rosto com as mãos.

— Por favor... parem de brigar — implorou Sophie. — A gente devia estar juntas. A gente prometeu que cuidaria uma da outra. Se a gente se destruir assim, o que sobra?

— Não sobra nada, Sophie! — Valentina riu, uma risada seca e sem vida. — Nunca sobrou nada. A gente só finge que somos amigas porque temos medo de encarar o espelho sozinhas. A Hades é vazia, você é carente, a Luna é uma viciada e eu... eu sou uma obsessiva. Esse é o nosso "grupo perfeito".

Hades olhou para as três pessoas à sua frente. Ali, naquele cais decadente, as máscaras tinham caído por completo. Ela viu a fragilidade de Sophie, a dor corrosiva de Valentina e a covardia emocional de Kai. E, acima de tudo, ela viu a si mesma refletida neles: um mosaico de traumas e mecanismos de defesa que já não funcionavam mais.

— Ela tem razão — disse Hades, sua voz soando estranhamente calma no meio do caos. — Nós somos um erro estatístico. Uma coleção de desastres esperando para acontecer.

— Hades, não diz isso — Kai tentou se aproximar, mas ela deu um passo atrás, em direção à borda do cais.

— É a verdade, Kai. Olhe para nós. — Ela gesticulou para o grupo. — A gente se machuca porque é a única forma de sentir que estamos vivos. A intensidade é o nosso oxigênio, mas ela também é o que está nos matando.

O silêncio que se seguiu foi pesado, preenchido apenas pelo som das ondas batendo nos pilares de madeira. O sol estava se pondo, pintando o céu de um laranja doentio que parecia o reflexo de um incêndio distante.

— A Luna tentou se matar ontem — soltou Sophie, em um sussurro que cortou o ar como uma lâmina.

Valentina parou de gritar. Kai congelou. Hades sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

— O quê? — perguntou Hades, a voz quase inaudível.

— Ela não desmaiou no parque por causa da bebida — continuou Sophie, as lágrimas escorrendo livremente agora. — Ela tomou tudo o que encontrou no armário de remédios da mãe. Ela deixou um bilhete no grupo, mas a gente estava ocupada demais brigando para ler. Se a Iris não tivesse passado na casa dela por acaso...

Hades sentiu uma náusea profunda. Enquanto ela estava se perdendo nos jogos mentais de Noah e na cama de luxo dele, sua amiga estava morrendo no silêncio de um quarto suburbano. A dissociação que ela tanto buscava agora parecia uma prisão. Ela queria sentir algo, qualquer coisa, mas a culpa era um peso tão grande que a paralisava.

— Nós a deixamos sozinha — disse Valentina, a voz perdendo a agressividade e tornando-se apenas pequena e assustada. — Eu estava ocupada demais odiando você, Hades.

— E eu estava ocupada demais tentando ser perfeita para o Dante — murmurou Sophie, abraçando o próprio corpo.

Kai chutou a moto, um barulho metálico que ecoou pelo cais.

— Que inferno de vida é essa? — ele perguntou ao nada, a frustração transbordando.

Hades olhou para o celular em sua mão. Havia uma nova mensagem de Noah. Ela nem precisou abrir para saber o que dizia. Provavelmente algo calculado para trazê-la de volta ao controle dele, algo que a faria se sentir "especial" novamente.

Ela olhou para o dispositivo e, em um movimento súbito, lançou-o no lago. O pequeno splash foi seguido por círculos na água que logo desapareceram.

— Acabou — disse Hades, virando-se para o grupo. — O teatro acabou.

— O que você vai fazer? — perguntou Valentina, observando-a com uma mistura de medo e respeito.

— Eu vou para o hospital ver a Luna — respondeu Hades. — E depois... eu não sei. Mas não vou mais fingir que está tudo bem. Não vou mais deixar que o Noah ou o Kai ou qualquer outra pessoa defina o tamanho do meu vazio.

Ela começou a caminhar para longe do cais, deixando Kai parado ao lado de sua moto e as outras duas garotas para trás. Mas, depois de alguns metros, ela parou e olhou por cima do ombro.

— Vocês vêm ou vão ficar aí esperando o próximo desastre?

Sophie foi a primeira a se mover, correndo para alcançar Hades. Valentina hesitou por um segundo, limpando o rosto com as costas das mãos, antes de segui-las com passos firmes, o orgulho ainda presente, mas agora direcionado para algo real.

Kai ficou sozinho no cais. Ele ligou o motor da moto, o som rugindo na quietude da noite que caía. Ele olhou para as três garotas se afastando e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu o peso da própria solidão.

Hades caminhava na frente, sentindo o vento frio no rosto. Ela ainda estava perdida. Ainda se sentia vazia. Mas, enquanto caminhava em direção às luzes da cidade, algo dentro dela — algo pequeno e frágil como um vidro quebrado — começou a se juntar de uma forma diferente.

Ela não sabia se estava vivendo ou se destruindo. Mas, pela primeira vez, ela estava escolhendo o caminho, mesmo que fosse em direção à dor da realidade. E, no fim das contas, talvez a realidade fosse a única coisa que pudesse realmente salvá-la de si mesma.