Loucos
Pó e Promessas no Casarão 13
A luz do sol de fim de tarde filtrava-se de forma preguiçosa através dos vitrais da entrada principal de Royale High, lançando tons de púrpura e ouro sobre o piso de mármore. Izabelle Mariana apertava as alças de sua mochila, sentindo o peso das malas ao seu lado. Ela respirou fundo, tentando manter o sorriso gentil no rosto, embora o nervosismo estivesse cutucando seu estômago.
— Izabelle Mariana? — Uma voz profunda e gélida ecoou pelo hall.
Ela se virou e sentiu o ar escapar por um segundo. À sua frente, dois representantes de turma a aguardavam. Um deles, em particular, parecia ter sido esculpido em gelo e perfeição. Ele era alto, de cabelos escuros e olhos azuis tão intensos que pareciam atravessar a alma de qualquer um. Ele segurava uma prancheta com uma elegância rígida.
— Sim, sou eu. Olá! — Izabelle disse, dando um aceno amigável. — É um prazer conhecer vocês.
— Sou Kageyama Tobio — apresentou-se o rapaz, sem esboçar um único sorriso. Seu tom era puramente profissional, quase cortante. — Houve um erro sistêmico na distribuição das alas femininas. O excesso de contingente este ano foi mal calculado pela reitoria.
— Ah, entendo — Izabelle respondeu, mantendo a polidez, embora por dentro estivesse confusa. — E onde eu vou ficar?
Kageyama trocou um olhar rápido com o outro representante antes de voltar a focar nela.
— Você será alocada temporariamente na Ala Masculina. Mais especificamente, no Casarão 13. É uma unidade independente. No momento, você será a única residente lá.
— Uma casa inteira só para mim? — Izabelle riu baixinho, tentando dissipar a tensão. — Puxa, espero não me perder nos corredores. Muito obrigada por me ajudarem com isso.
Kageyama apenas assentiu com a cabeça, um gesto seco.
— Vamos. Vou levar você até lá e entregar as chaves. Você tem o restante do dia para se acomodar e organizar o ambiente. As aulas começam amanhã.
O caminho até o Casarão 13 foi silencioso. Izabelle tentava puxar assunto sobre o campus, comentando como as flores do jardim eram lindas, mas Kageyama apenas respondia com monossílabos ou silêncios contemplativos. Ele não era rude, exatamente, mas era uma pessoa de uma seriedade que intimidava. Izabelle respeitou o espaço dele; ela era uma pessoa animada e extrovertida, mas sabia ler o ambiente e não queria ser inconveniente com alguém que estava apenas fazendo seu trabalho.
Quando chegaram ao casarão, a visão foi um pouco desoladora. A construção era imponente, com uma arquitetura gótica belíssima, mas parecia esquecida pelo tempo. O jardim estava crescendo demais e a pintura da porta principal estava levemente descascada.
— Aqui estão as chaves — disse Kageyama, estendendo o molho de metal. — Como eu disse, a casa está vazia há algum tempo. Pode haver... poeira acumulada.
— Tudo bem, eu dou um jeito. Adoro uma faxina para desestressar! — Izabelle sorriu para ele, pegando as chaves. — Obrigada, Kageyama. Tenha um bom final de tarde.
Ele a encarou por um segundo a mais do que o necessário, seus olhos azuis escaneando o rosto dela com uma curiosidade que ele rapidamente reprimiu.
— Bom descanso, Izabelle.
Assim que a porta pesada se fechou atrás dela, Izabelle soltou um suspiro longo. O cheiro de lugar fechado a atingiu em cheio. O hall de entrada estava coberto por uma camada espessa de poeira cinzenta, e os móveis estavam cobertos por lençóis brancos que pareciam fantasmas sentados na sala de estar.
— Certo, Izabelle. Mãos à obra — murmurou para si mesma.
Ela subiu as escadas e escolheu o quarto principal. Ao abrir a porta, sentiu um calafrio estranho. O quarto estava impecável em termos de móveis, mas a poeira ali parecia mais densa, como se ninguém tivesse entrado naquele cômodo por séculos. Havia algo pesado no ar, uma sensação de melancolia que ela não conseguia explicar.
Para ganhar coragem, Izabelle abriu sua mala e tirou uma pequena garrafa de tequila que guardava para "emergências emocionais". Ela virou uma dose rápida, sentindo o líquido queimar e trazer aquele calor familiar que a ajudava a calar as inseguranças. Logo em seguida, colocou seus fones de ouvido e deu play em uma playlist animada de pop.
— Vamos transformar esse museu em um lar — disse ela, pegando um espanador e alguns produtos de limpeza que havia trazido.
As horas passaram voando. Izabelle limpou as janelas até que o sol pudesse entrar sem obstáculos, varreu o chão e lustrou a madeira dos móveis. No seu quarto, ela decidiu que o rosa seria a cor predominante. Trocou as cortinas pesadas e escuras por modelos de seda rosa claro, espalhou seus bichos de pelúcia sobre a cama e colocou um tapete felpudo no centro.
Na sala de estar, ela retirou os lençóis dos sofás e arrumou várias almofadas coloridas e macias que trouxera, dando um ar de conforto e jovialidade ao ambiente gótico. A casa, que antes parecia um cenário de filme de terror, agora tinha o toque vibrante de Izabelle.
No entanto, enquanto limpava o fundo do armário embutido do seu quarto, sua mão tocou algo frio e metálico escondido sob uma tábua solta. Ela franziu o cenho e puxou o objeto. Era um pequeno medalhão de prata, com um brasão que ela não reconheceu de imediato.
— Que estranho... — murmurou, tirando os fones de ouvido.
O silêncio da casa agora parecia absoluto, quase ensurdecedor. Izabelle olhou ao redor e, pela primeira vez, notou algo que a fez parar. Na parede, perto da cabeceira da cama, havia marcas leves, quase imperceptíveis, como se alguém tivesse contado dias ali.
Ela sentiu um arrepio. Decidiu que já tinha trabalhado demais por hoje. Tomou um banho demorado, vestindo um robe de seda confortável, e desceu para a cozinha para preparar um chá.
Enquanto a água fervia, ela ouviu um barulho vindo do andar de cima. Um baque seco, como se algo pesado tivesse caído.
— Alô? Tem alguém aí? — perguntou ela, a voz saindo mais trêmula do que gostaria.
Ninguém respondeu. Izabelle subiu as escadas lentamente, o coração batendo contra as costelas. Quando chegou à porta do seu quarto, viu que uma das almofadas que ela tinha colocado cuidadosamente sobre a cama estava agora no chão, bem no meio do quarto.
— Deve ter sido o vento — sussurrou, embora as janelas estivessem fechadas.
Ela pegou a almofada e, ao se virar para o espelho da penteadeira, sentiu o sangue congelar. O espelho estava embaçado, como se alguém tivesse acabado de tomar um banho quente no quarto, e no meio do vapor, uma marca de mão pequena e nítida aparecia, como se alguém tivesse encostado ali por dentro do vidro.
Izabelle recuou, tropeçando no tapete. Ela não era de entrar em pânico, mas aquilo era demais. Ela correu para a porta da frente, precisando de ar puro, e ao abri-la, deu de cara com Kageyama. Ele estava parado ali, com a mão levantada como se estivesse prestes a bater.
— Kageyama! — Izabelle exclamou, quase caindo sobre ele.
Ele a segurou pelos ombros, a expressão séria de sempre sendo substituída por um leve franzir de sobrancelhas.
— Você está pálida. O que aconteceu?
— Eu... eu acho que tem algo errado com o quarto — ela disse, tentando recuperar o fôlego. — Eu limpei tudo, estava tudo bem, mas... apareceu uma marca no espelho. E as coisas estão se movendo.
Kageyama suspirou e entrou na casa, sem pedir licença. Ele caminhou até a sala e viu as almofadas coloridas, parando por um momento para observar a mudança que ela fizera no ambiente.
— Você realmente se esforçou para mudar este lugar — comentou ele, o tom de voz suavizando minimamente.
— Eu tentei deixar com a minha cara — Izabelle respondeu, seguindo-o. — Mas Kageyama, por que esta casa estava vazia? Por que ninguém mais mora aqui?
Ele se virou para ela, os olhos azuis profundos e sombrios. Ele hesitou por um longo momento, cruzando os braços sobre o peito.
— No semestre passado, um aluno morava neste quarto. O nome dele era Haru. Ele era um esgrimista, como eu. Um dia, ele simplesmente não apareceu para o treino. Encontraram-no aqui.
Izabelle sentiu um nó na garganta.
— Ele... ele se matou?
— Foi o que o relatório oficial disse — Kageyama respondeu, o sarcasmo voltando à sua voz, mas dessa vez direcionado à situação, não a ela. — Suicídio por asfixia. Caso encerrado em menos de quarenta e oito horas. Mas ninguém acreditou muito nisso. Ele não tinha motivos. E a escola... a escola tem pavor de escândalos.
Izabelle sentou-se no sofá, abraçando uma das almofadas.
— Então é por isso que todos saíram daqui. Eles têm medo do fantasma dele.
— Pessoas são supersticiosas — disse Kageyama, caminhando até a janela e observando o jardim escurecido. — Eu não acredito em fantasmas, Izabelle. Acredito em fatos. E o fato é que as coisas aqui nunca foram bem explicadas.
— Eu achei isso — ela disse, estendendo o medalhão de prata que encontrara no armário.
Kageyama se aproximou rapidamente, pegando o objeto da mão dela. Seus dedos roçaram os de Izabelle e ela sentiu uma faísca elétrica percorrer seu braço. Ele não pareceu notar, ou se notou, disfarçou muito bem. Ele examinou o medalhão sob a luz da sala.
— Este é o brasão da família de Haru. Ele nunca se separava disso. Se estava escondido sob o piso... ele não queria que alguém o encontrasse. Ou alguém o escondeu dele.
— Kageyama... — Izabelle levantou-se, ficando próxima a ele. — Você acha que ele foi assassinado?
Ele baixou o olhar para ela. A proximidade entre os dois era palpável. O perfume de Izabelle, uma mistura de baunilha e algo doce, parecia flutuar entre eles, contrastando com o cheiro de sândalo e poeira da casa.
— Eu acho que Royale High esconde segredos que podem matar — ele disse, a voz rouca. — E agora que você encontrou isso, você faz parte do mistério, querendo ou não.
Izabelle engoliu em seco. Ela era gentil e animada, mas não era covarde.
— Eu não vou embora. Se algo aconteceu com esse menino, ele merece que a verdade apareça. E se eu tiver que conviver com uma mão no espelho para isso, que seja.
Kageyama deu um meio sorriso quase imperceptível. Pela primeira vez, não parecia sarcástico, mas sim... impressionado.
— Você é mais corajosa do que parece, Izabelle Mariana.
— E você é menos robótico do que aparenta, Tobio Kageyama — ela rebateu com um sorriso doce.
O clima entre eles mudou. A tensão do mistério foi momentaneamente substituída por uma tensão de outra natureza. Kageyama deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles. Ele era alto e sua presença preenchia a sala.
— Eu virei aqui amanhã para checar como você está — ele disse, a voz baixa. — Não abra a porta para ninguém que não seja eu ou os representantes oficiais. Entendido?
— Entendido, senhor protetor — Izabelle brincou, tentando aliviar o peso no coração.
Ele assentiu e caminhou em direção à porta. Antes de sair, ele parou e olhou para trás.
— O rosa... ficou bom. Deixa o lugar menos morto.
Ele saiu, fechando a porta com um clique firme. Izabelle ficou ali, segurando o medalhão, sentindo o coração acelerado. Ela olhou para a sala decorada, para as almofadas que ela escolhera com tanto carinho, e depois para a escada que levava ao quarto onde um segredo sombrio aguardava.
Ela caminhou até o barzinho improvisado que montara, serviu-se de mais uma dose e virou de uma vez. O calor subiu por seu peito.
— Certo, Haru — ela disse para o vazio da casa. — Se você estiver aí, saiba que eu sou uma ótima inquilina. Mas vamos precisar conversar sobre essa sua mania de sujar meu espelho.
Ela subiu para o quarto, mas naquela noite, não apagou as luzes. O mistério de Royale High estava apenas começando, e entre o medo do que se escondia nas sombras e a atração inesperada pelo esgrimista de gelo, Izabelle sabia que sua vida nunca mais seria a mesma.
Enquanto ela pegava no sono, uma brisa fria soprou pelo quarto, mesmo com as janelas trancadas, e o medalhão de prata sobre a mesa de cabeceira brilhou fracamente, como se respondesse à sua presença. No espelho, a marca da mão começou a desaparecer, dando lugar a uma única frase escrita de forma trêmula:
"NÃO CONFIE EM NINGUÉM"
Izabelle não viu a mensagem, mas em seus sonhos, uma voz sussurrava o mesmo aviso, misturando-se à imagem dos olhos azuis de Kageyama e ao brilho das espadas de esgrima. O perigo estava em casa, e o romance era apenas uma cortina de fumaça para algo muito mais sinistro.