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Loucos

O Sussurro do Aço e o Gosto do Pecado

A manhã em Royale High nasceu envolta em uma neblina tão densa que as torres da academia pareciam flutuar sobre um mar de nuvens cinzentas. Izabelle acordou com o som rítmico de algo batendo contra o vidro da janela. Por um segundo, o pânico da noite anterior — a marca no espelho, o aviso sussurrado em seus sonhos — paralisou seus músculos. Mas, ao abrir os olhos e focar a visão, percebeu que era apenas um galho seco de carvalho castigado pelo vento.

Ela se sentou na cama, os cabelos loiros bagunçados caindo sobre os ombros. O quarto, agora decorado com tons de rosa e pelúcias, parecia um refúgio seguro sob a luz pálida da manhã, mas a sensação de ser observada não a abandonara. Ela olhou para a penteadeira e sentiu o estômago dar um solavanco. A frase "NÃO CONFIE EM NINGUÉM" ainda estava lá, levemente borrada, como se o vapor estivesse secando, mas as letras permaneciam gravadas na memória do vidro.

— Ótimo começo de dia, Izabelle — resmungou ela, levantando-se e caminhando até o barzinho improvisado.

Ela não costumava beber tão cedo, mas precisava de algo para estabilizar os nervos. Ela serviu uma dose mínima de tequila, sentindo o ardor descer rasgando, e então foi se arrumar. Escolheu o uniforme da academia, mas fez questão de ajustar a saia para que ficasse um pouco mais curta e deixou dois botões da camisa abertos, revelando o início da curva de seus seios. Se ia enfrentar fantasmas e assassinos, faria isso estando maravilhosa.

Ao descer as escadas, o cheiro de sândalo estava mais forte na sala de estar. Ela parou no meio do caminho, os olhos verdes escaneando o ambiente. Nada parecia fora do lugar, exceto pelo medalhão de prata que ela deixara sobre a mesa de centro. Ele estava virado para o outro lado.

— Se você quer atenção, Haru, vai ter que fazer melhor que isso — disse ela em voz alta, tentando manter a fachada de garota corajosa.

Um estrondo na porta da frente a fez dar um pulo. Antes que pudesse reagir, a porta se abriu e Kageyama Tobio entrou, vestindo o uniforme de esgrima preto e branco que acentuava seus ombros largos e sua postura aristocrática.

— Você está atrasada — disse ele, sem preâmbulos. — O café da manhã no refeitório fecha em dez minutos.

— Bom dia para você também, raio de sol — Izabelle ironizou, pegando sua bolsa. — Como você entrou? Eu tranquei a porta.

Kageyama ergueu uma chave mestra de prata entre os dedos longos e pálidos.

— Sou representante de turma, Izabelle. Tenho acesso a todas as casas da ala masculina para vistorias de segurança. E, considerando que você quase morreu de susto ontem, achei prudente vir te buscar.

— "Quase morreu de susto"? — Ela caminhou até ele, parando a poucos centímetros de seu peito, sentindo o calor que emanava dele apesar do frio matinal. — Eu sou uma mulher de ação, Kageyama. Só não gosto de surpresas não documentadas.

Ele baixou o olhar para o decote dela, seus olhos azuis escurecendo por uma fração de segundo antes de voltarem ao rosto de Izabelle com uma frieza renovada.

— Feche os botões. Royale High tem um código de vestimenta.

— E eu tenho um código de liberdade — ela piscou para ele, passando por baixo do braço dele e saindo para a névoa. — Vamos, estou com fome.

O caminho para o refeitório foi tenso. Outros alunos, a maioria rapazes da ala masculina, olhavam para Izabelle com uma mistura de luxúria e curiosidade. Afinal, não era todo dia que uma loira com curvas perigosas era vista saindo do "Casarão Amaldiçoado" acompanhada pelo capitão da equipe de esgrima, o garoto mais inacessível da escola.

— Por que todos estão olhando como se eu fosse um alienígena? — sussurrou ela enquanto entravam no grande salão de jantar.

— Porque você é a primeira pessoa a dormir naquela casa em seis meses sem sair gritando no meio da noite — respondeu Kageyama, pegando uma bandeja. — E porque você está comigo. Eu não costumo... socializar.

— Ah, entendi. Você é o príncipe de gelo e eu sou a plebeia barulhenta — ela riu, pegando um copo de suco e uma maçã. — Mas falando sério, Kageyama. O que você sabe sobre o Haru? No medalhão que eu achei, tinha uma inscrição atrás. "Para o meu sol, de sua sombra".

Kageyama parou bruscamente no meio do refeitório. Ele se virou para ela, a expressão tão séria que Izabelle sentiu o riso morrer na garganta.

— Onde está esse medalhão? — ele perguntou, a voz baixa e perigosa.

— Na sala. Por quê?

— Não conte a ninguém sobre isso — ele ordenou, segurando-a pelo braço de forma firme, mas não agressiva. — Haru estava envolvido com alguém de uma das famílias fundadoras da escola. Se houver prova de que não foi suicídio, isso derruba não só a reputação da diretoria, mas de pessoas que podem fazer você desaparecer antes do jantar.

Izabelle sentiu o peso das palavras dele. O mistério não era apenas sobre um fantasma; era sobre corrupção e poder.

— Você está tentando me proteger ou está tentando me assustar para eu ficar quieta? — perguntou ela, inclinando o corpo em direção ao dele.

— Os dois — ele respondeu, soltando o braço dela. — Agora coma. Temos treino de esgrima à tarde. Como você está na ala masculina, terá que participar das atividades obrigatórias daqui. Boa sorte tentando segurar um florete com essas unhas.

— Você ficaria surpreso com o que eu consigo fazer com as minhas mãos, Kageyama — ela provocou, mordendo a maçã de forma lenta enquanto o observava se afastar.

As aulas teóricas passaram como um borrão. Izabelle não conseguia se concentrar. Cada vez que fechava os olhos, via a marca da mão no espelho ou o brilho gélido dos olhos de Kageyama. À tarde, ela se dirigiu ao ginásio de esgrima. O lugar era amplo, com teto alto e um cheiro metálico de suor e aço.

Kageyama já estava lá, sem a máscara, treinando contra um boneco mecânico com uma velocidade e precisão assustadoras. Cada golpe dele era carregado de uma agressividade controlada. Izabelle ficou na porta, observando os músculos das costas dele se contraírem sob o tecido fino da camisa branca de treino.

— Vai ficar aí babando ou vai colocar o equipamento? — ele disse, sem desviar os olhos do alvo.

— Eu não estava babando, estava avaliando a técnica — mentiu ela, pegando o uniforme pesado no vestiário.

Minutos depois, Izabelle estava vestida, embora o traje de esgrima escondesse suas curvas, ela ainda conseguia caminhar com uma confiança que chamava a atenção. Ela pegou um florete e se aproximou de Kageyama.

— Me ensine, mestre — disse ela, fazendo uma reverência exagerada.

Kageyama soltou um suspiro de impaciência, mas se aproximou. Ele se posicionou atrás dela para corrigir sua postura. A proximidade foi instantânea e avassaladora. Ele colocou a mão sobre a dela, guiando o florete, enquanto a outra mão se firmava na cintura de Izabelle, puxando-a levemente para trás para alinhar sua coluna.

— Pés em ângulo reto — ele murmurou perto do ouvido dela. A respiração dele era quente contra o pescoço de Izabelle. — O braço deve estar relaxado, mas firme. A esgrima não é sobre força bruta, é sobre antecipação. Você tem que prever o movimento do seu oponente antes mesmo de ele saber o que vai fazer.

— E se o meu oponente for imprevisível? — perguntou ela, virando o rosto levemente, ficando com os lábios a centímetros dos dele.

Os olhos de Kageyama desceram para a boca de Izabelle. O silêncio no ginásio tornou-se pesado, carregado de uma eletricidade que nada tinha a ver com o esporte. Por um momento, o sarcasmo dele desapareceu, substituído por um desejo cru e faminto.

— Então você está em perigo — ele sussurrou, a voz mais rouca que o normal.

Ele soltou a mão dela bruscamente, como se tivesse se queimado.

— De novo. Posição de guarda.

Eles treinaram por uma hora. Izabelle era surpreendentemente ágil, embora sua técnica fosse inexistente. Ela compensava com reflexos rápidos e uma audácia que forçava Kageyama a realmente prestar atenção. No final da sessão, ambos estavam suados e ofegantes.

— Nada mal para uma novata — admitiu ele, limpando o suor da testa com o antebraço.

— Eu disse que tenho talentos escondidos — ela sorriu, mas o sorriso sumiu quando ela olhou para o fundo do ginásio, onde as luzes estavam apagadas.

Uma figura alta e esguia estava parada nas sombras, observando-os. Não parecia um aluno. A silhueta usava uma capa longa e escura, e por um segundo, Izabelle jurou ter visto o brilho de uma máscara de prata.

— Kageyama... quem é aquele? — ela apontou.

Ele se virou rapidamente, mas o corredor estava vazio.

— Não tem ninguém lá, Izabelle. Você está vendo coisas de novo.

— Eu não estou louca! Estava bem ali! — Ela correu até o local, mas só encontrou o cheiro persistente de... sândalo.

Ela sentiu um calafrio percorrer sua espinha. O cheiro a perseguia. Ela olhou para o chão e viu algo que a fez perder a cor. Uma pequena poça de um líquido escuro e viscoso, que parecia sangue, mas tinha um brilho metálico estranho.

— Kageyama, olhe isso — ela chamou, mas quando ele chegou ao lado dela, o líquido tinha sumido, restando apenas o piso de madeira polida.

— Você precisa descansar — disse ele, a preocupação agora visível em seu rosto, apesar de tentar escondê-la com sarcasmo. — O estresse da mudança e as histórias sobre o Haru estão mexendo com a sua cabeça.

— Eu sei o que eu vi — ela insistiu, pegando sua bolsa com força. — Eu vou para casa.

— Eu te acompanho. Não quero que você tropece na própria imaginação no escuro.

O caminho de volta para o Casarão 13 foi feito sob um silêncio desconfortável. Quando chegaram à porta, Izabelle hesitou em entrar. A casa parecia um monstro adormecido, esperando para engoli-la.

— Você quer entrar? — perguntou ela, a voz baixa. — Eu... eu posso abrir aquela garrafa de whisky que você viu ontem.

Kageyama olhou para a casa e depois para ela. Ele sabia que deveria dizer não, que deveria manter a distância profissional e focar em seus próprios objetivos. Mas havia algo em Izabelle — aquela mistura de vulnerabilidade mascarada por audácia — que o atraía de uma forma que ele não conseguia controlar.

— Só uma dose — ele cedeu.

Eles entraram e Izabelle foi direto para a cozinha buscar os copos. No entanto, ao chegar lá, ela soltou um grito abafado.

Todas as facas do suporte de madeira estavam cravadas na mesa da cozinha, formando um círculo perfeito. No centro do círculo, estava o medalhão de prata que ela encontrara, mas agora ele estava partido ao meio.

Kageyama correu para a cozinha ao ouvir o grito e parou ao lado dela, a mão indo instintivamente para o cabo do seu florete de treino.

— Alguém entrou aqui — ele disse, a voz gélida. — E não foi um fantasma.

Ele se aproximou da mesa e examinou as facas. Eram facas da própria cozinha da casa.

— Eles querem te assustar — continuou ele, virando-se para Izabelle. — Eles querem que você saia dessa casa ou que enlouqueça.

Izabelle sentiu uma onda de fúria substituir o medo. Ela caminhou até a mesa, arrancou uma das facas com força e a jogou no chão.

— Pois eles vão ter que tentar mais do que isso — disse ela, os olhos verdes brilhando de raiva. — Ninguém mexe nas minhas coisas e ninguém quebra o que eu encontro.

Ela se virou para Kageyama, a adrenalina correndo em suas veias. Ela se aproximou dele, agarrando a gola de sua camisa de treino e puxando-o para baixo.

— Eu não vou a lugar nenhum, Kageyama. E se você está comigo nisso, eu preciso saber agora. Você é um deles ou você é meu aliado?

Kageyama a encarou, o conflito interno visível em seu olhar. Ele a pegou pela cintura, prensando-a contra a mesa da cozinha, entre as facas cravadas.

— Eu não sou aliado de ninguém nesta escola — ele sussurrou, o rosto a milímetros do dela. — Mas eu não vou deixar ninguém tocar em você. Nem vivo, nem morto.

Ele a beijou com uma intensidade que quase a fez perder os sentidos. Era um beijo de posse, de urgência, carregado de todo o desejo que ambos vinham reprimindo desde o primeiro encontro. As mãos de Kageyama subiram pela coxa de Izabelle, levantando a saia do uniforme, enquanto ela enroscava os dedos nos cabelos dele, puxando-o para mais perto.

O calor entre eles era um contraste violento com o frio sobrenatural da casa. Kageyama a ergueu, sentando-a na borda da mesa, ignorando as facas ao redor. Seus lábios desceram para o pescoço dela, deixando marcas que seriam impossíveis de esconder no dia seguinte.

— Tobio... — ela arfou, sentindo a dureza do corpo dele contra o seu.

— Shh — ele murmurou contra a pele dela. — Deixe que eles assistam. Se houver alguém nas sombras, que saibam que você me pertence agora.

Naquele momento, o mistério de Haru, as mensagens no espelho e o perigo iminente pareciam distantes. Havia apenas o toque áspero das mãos de Kageyama e o sabor metálico e doce daquela conexão perigosa.

No andar de cima, no entanto, a porta do armário do quarto de Izabelle rangeu. Uma pequena fresta se abriu, e um par de olhos sem vida observou o movimento lá embaixo. O cheiro de sândalo inundou o corredor, e no espelho do quarto, uma nova palavra começou a se formar, letra por letra, em um vermelho que parecia sangue fresco:

"RUN" (CORRA)

Mas Izabelle e Kageyama estavam perdidos demais um no outro para notar que o verdadeiro horror de Royale High estava apenas começando a se libertar.