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Love

O Labirinto de Febre e o Escudo de Vidro

A névoa de Forks parecia ter decidido se infiltrar pelos poros de Fernanda naquela manhã de terça-feira. O que começou como um leve formigamento na garganta durante a aula sobre o Romantismo, transformou-se, ao cair da tarde, em uma exaustão que pesava sobre seus ombros como se ela carregasse todos os volumes da biblioteca municipal nas costas. Quando a última sineta tocou, ela mal teve forças para organizar seus planos de aula.

O trajeto até em casa foi um borrão de luzes cinzentas e o limpador de parabrisa movendo-se hipnoticamente. Ao entrar em seu pequeno chalé, Fernanda nem sequer acendeu as luzes principais. Apenas largou a bolsa no chão, sentindo o mundo girar levemente, e se deixou cair no sofá, o mesmo onde, semanas antes, ela e Heron haviam compartilhado promessas sob o som da chuva.

Ela não percebeu que havia adormecido até que o som da chave girando na fechadura a despertou. O som era familiar, reconfortante, mas seus olhos pareciam colados.

— Nanda? Por que está tudo escuro? — A voz de Heron ecoou, carregada de uma confusão que rapidamente se transformou em alerta.

Fernanda tentou se sentar, mas uma onda de calafrio percorreu sua espinha, fazendo seus dentes baterem.

— Heron... eu só... estou com um pouco de frio — sussurrou ela, a voz saindo mais fraca do que pretendia.

Em dois passos largos, ele atravessou a sala. Heron não precisou de luz para encontrá-la; ele se ajoelhou ao lado do sofá e pousou a mão em sua testa. O contraste entre a palma dele, sempre quente e firme, e a pele gélida e suada dela foi imediato.

— Um pouco de frio? Fernanda, você está pegando fogo — disse ele, o tom de voz mudando instantaneamente para aquele modo de comando que ele usava em campo, mas suavizado pela preocupação profunda. — Por que não me ligou? Eu teria vindo buscar você na escola.

— Eu achei que era só cansaço — respondeu ela, fechando os olhos enquanto sentia Heron envolvê-la com o cobertor que estava no encosto do sofá. — Não queria te incomodar, você tinha o treino dos garotos...

— Esqueça o treino — interrompeu ele, já passando um braço por baixo de seus joelhos e outro por trás de suas costas. — Você nunca é um incômodo. Nunca mais diga isso.

Ele a levantou com a facilidade de quem carrega uma pluma e a levou para o quarto. Fernanda sentiu o cheiro de orvalho e do sabonete cítrico que ele usava, um aroma que geralmente a acalmava, mas agora sua mente estava perdida em uma névoa de febre. Heron a depositou na cama com uma delicadeza quase exagerada, como se ela fosse feita de cristal soprado.

— Vou pegar o termômetro e alguns remédios. Não se mexa — ordenou ele, embora ela não tivesse a menor intenção de ir a lugar algum.

Fernanda observou, entre pálpebras pesadas, Heron se transformar em um furacão de eficiência protetora. Ele acendeu o abajur, criando um brilho suave e âmbar no quarto, e desapareceu em direção ao banheiro. Ela ouviu o som de gavetas abrindo e fechando, o barulho da água correndo.

— Trinta e nove e meio — murmurou ele momentos depois, olhando para o visor digital com uma expressão de pura agonia, como se a febre dela o estivesse machucando fisicamente. — Isso não está nada bom, Nanda.

— É só uma gripe, Heron. O inverno de Forks não perdoa ninguém — tentou brincar ela, mas o esforço resultou em uma crise de tosse que a deixou sem fôlego.

A expressão no rosto de Heron endureceu. Ele se sentou na beira da cama, ajudando-a a beber um pouco de água e a engolir um antitérmico.

— Para você, pode ser só uma gripe. Para mim, é você sofrendo — disse ele, afastando o cabelo suado de sua testa com uma ternura que fez os olhos de Fernanda arderem. — Vou cuidar de tudo. Vou ligar para a diretora da escola e dizer que você não vai amanhã. E nem depois.

— Heron, eu tenho provas para aplicar... — protestou ela fracamente.

— As provas podem esperar. Os clássicos literários não vão fugir da biblioteca — rebateu ele, já cobrindo-a até o queixo. — Agora, tente descansar. Vou preparar uma canja e uma compressa fria.

Nas horas seguintes, Fernanda experimentou o que significava ser o centro do universo de Heron. Ele não saiu do lado dela, exceto para buscar o que fosse necessário. Ele trouxe bacias com água fresca e toalhas macias, trocando as compressas em sua testa a cada quinze minutos. Quando ela sentia calafrios, ele a abraçava por cima das cobertas, tentando transferir seu calor vital para ela; quando ela sentia calor excessivo, ele abria apenas uma fresta da janela para deixar o ar puro da floresta entrar, monitorando cada corrente de ar como um sentinela.

— Você precisa comer um pouco — insistiu ele, voltando com uma bandeja que cheirava a legumes e frango.

— Não tenho fome, meu bem. Minha garganta dói — gemeu ela, encolhendo-se.

Heron suspirou, sentando-se ao lado dela e pegando a colher.

— Só três colheradas, Nanda. Por favor. Faça isso por mim. Eu não consigo ver você ficando tão fraca assim.

Havia uma vulnerabilidade na voz dele que a desarmou. O grande atleta, o homem que parecia inabalável diante de qualquer desafio físico, estava visivelmente abalado por vê-la doente. Fernanda cedeu, aceitando a comida que ele soprava cuidadosamente antes de oferecer.

— Você é um enfermeiro muito exigente — disse ela após a terceira colherada, esboçando um sorriso fraco.

— Eu sou um homem que ama você e que entra em pânico quando não pode lutar contra o inimigo por você — confessou ele, deixando a bandeja de lado e segurando a mão dela entre as suas. — Se eu pudesse tirar essa febre de você e passar para mim, eu faria agora mesmo.

— Eu sei que faria — sussurrou ela, sentindo o remédio começar a fazer efeito e o peso em suas pálpebras aumentar. — Mas eu prefiro você assim, saudável, para me segurar quando eu cair.

— Eu sempre vou segurar você — prometeu ele, beijando os nós de seus dedos.

O silêncio da noite em Forks foi quebrado apenas pelo som da chuva que recomeçava lá fora e pela respiração pesada de Fernanda. Heron não dormiu. Ele permaneceu sentado em uma poltrona ao lado da cama, observando-a como um guardião. A cada vez que ela se mexia ou murmurava algo em seu sono febril, ele estava lá, sussurrando palavras de conforto, oferecendo água ou trocando a compressa morna.

Por volta das três da manhã, a febre finalmente cedeu. Fernanda acordou com a pele úmida, mas a cabeça mais clara. A luz do abajur ainda estava acesa e Heron estava inclinado para a frente, com os cotovelos nos joelhos, vigiando-a intensamente.

— Heron? — chamou ela, a voz ainda rouca. — Você não dormiu nada.

Ele se aproximou imediatamente, verificando sua temperatura mais uma vez. Um suspiro de alívio escapou de seus lábios ao sentir a pele dela mais fresca.

— Eu não conseguiria dormir sabendo que você estava queimando em febre — disse ele, relaxando os ombros pela primeira vez em horas. — Como se sente?

— Melhor. Muito melhor graças ao meu super-herói particular — respondeu ela, estendendo a mão para ele. — Vem aqui. Deita comigo. Você está exausto.

— Tenho medo de te machucar ou de te deixar com calor...

— Heron — interrompeu ela com um tom firme, apesar da fraqueza. — Deita aqui. Agora.

Ele obedeceu, tirando os sapatos e acomodando-se ao lado dela por cima das cobertas, puxando-a para o seu peito. Fernanda suspirou de satisfação, encaixando-se naquele abraço que era seu refúgio seguro. O coração de Heron batia forte e ritmado contra sua orelha, uma canção de ninar muito mais eficaz do que qualquer melodia de Chopin.

— Sabe — murmurou ele na escuridão —, quando eu vi você lá no sofá, tão pálida... eu senti um medo que nunca tinha sentido antes. Eu percebi que minha vida não faz o menor sentido se você não estiver bem para ler seus livros para mim ou para me corrigir quando eu esqueço algum detalhe de uma história.

Fernanda apertou o braço dele ao redor de sua cintura.

— Eu não vou a lugar nenhum, Heron. É só uma gripe.

— Para o mundo, talvez. Para mim, é uma crise nacional — brincou ele, mas havia um fundo de verdade em suas palavras. — Promete que vai me deixar cuidar de você até você estar cem por cento? Nada de escola amanhã, nada de correções de redações. Só repouso, canja e eu.

— Parece um plano perfeito — concordou ela, sentindo o sono finalmente chegar, mas desta vez um sono tranquilo e reparador. — Eu amo seu modo super protetor, Heron. Embora seja um pouco exagerado às vezes.

— É o único modo que eu sei amar você — respondeu ele, beijando o topo de sua cabeça. — Com tudo o que eu sou.

E assim, enquanto a chuva lavava as ruas de Forks e o vento soprava entre os pinheiros, Fernanda adormeceu protegida pelo escudo de vidro que o amor de Heron havia construído ao seu redor. Ela sabia que, ao acordar, o chá estaria pronto, as cortinas estariam ajustadas para não ferir seus olhos e Heron estaria lá, pronto para enfrentar qualquer tempestade, real ou metafórica, ao seu lado. A febre havia passado, mas a certeza de que ela nunca mais enfrentaria um dia cinzento sozinha brilhava mais forte do que qualquer sol.