Love
Sinfonia de Papel e Suor
A luz pálida da manhã de quarta-feira filtrava-se pelas cortinas de linho, tingindo o quarto de um azul suave e gélido que contrastava com o calor reconfortante que Fernanda sentia sob as cobertas. A febre da noite anterior havia recuado, deixando em seu lugar uma lassidão preguiçosa, aquela sensação de que o corpo ainda era feito de algodão-doce, mas a mente finalmente estava livre da névoa.
Ao seu lado, Heron ainda dormia. Era uma visão rara; geralmente, o atleta já estava de pé antes do sol, pronto para sua corrida matinal pelas trilhas úmidas de Forks. Mas ali estava ele, com o rosto relaxado contra o travesseiro, um braço pesado e protetor jogado sobre a cintura dela. Fernanda ficou imóvel por longos minutos, apenas observando a linha de sua mandíbula e a maneira como os cílios dele projetavam sombras pequenas em suas bochechas.
Ela tentou se esgueirar para fora da cama, sentindo falta do toque do piano que ficava na sala, uma vontade súbita de traduzir em notas a gratidão que transbordava de seu peito. No entanto, assim que se moveu milímetros, o braço de Heron se apertou.
— Aonde você pensa que vai, professora? — A voz dele saiu num sussurro rouco, carregado de sono e de uma autoridade carinhosa.
Fernanda sorriu, voltando a se aninhar no peito dele.
— Eu ia apenas ver se o mundo ainda estava lá fora, Heron. E talvez tocar um pouco. Sinto-me leve hoje.
Heron abriu os olhos, aqueles olhos que pareciam capturar toda a intensidade da floresta ao redor, e levou a mão à testa dela, fazendo uma medição cuidadosa.
— Sem febre — diagnosticou ele, soltando um suspiro de alívio que pareceu esvaziar todo o peso de seus ombros. — Mas ainda está pálida. O mundo pode esperar mais vinte e quatro horas. E o piano também.
— Você é um ditador benevolente — brincou ela, passando os dedos pelos cabelos desalinhados dele.
— Sou um homem com prioridades — rebateu ele, sentando-se na cama e esticando os músculos das costas, que estalaram audivelmente. — Vou preparar um café reforçado. E nada de café preto puro para você; vai ser chá com limão e mel, e algumas torradas.
— Sim, senhor — disse Fernanda, fazendo uma continência brincalhona.
Enquanto Heron se ocupava na cozinha, o som rítmico de sua movimentação — o tilintar de colheres, o barulho da chaleira, o fechar suave da porta da geladeira — servia como uma âncora para ela. Fernanda pegou um de seus livros de cabeceira, uma antologia de poemas de Elizabeth Barrett Browning, mas suas mãos tremeram levemente ao segurar o volume. A fraqueza da doença ainda cobrava seu preço.
Pouco tempo depois, Heron voltou com uma bandeja organizada com uma precisão quase militar. Ele a acomodou sobre as pernas de Fernanda, sentando-se na ponta da cama para observá-la comer.
— Eu liguei para a escola — disse ele, enquanto ela tomava o primeiro gole do chá quente. — A Sra. Cope disse que está tudo sob controle. Eles conseguiram um substituto para as suas aulas de hoje e amanhã.
Fernanda arregalou os olhos, quase engasgando com o líquido.
— Amanhã também? Heron, eu já estou melhor!
— Você está "melhor" comparada ao estado de ontem, que era preocupante — ele pontuou, cruzando os braços sobre o peito largo. — Mas Forks não tem piedade de quem volta à ativa cedo demais. O vento lá fora está cortante. Você fica aqui, no calor, lendo seus livros e sendo mimada. É uma ordem médica do seu namorado.
Fernanda suspirou, mas no fundo, uma parte dela adorava aquela proteção. No mundo acadêmico e na sua vida profissional, ela sempre fora a pessoa que cuidava, a que organizava, a que dava suporte. Ter alguém que revertia esses papéis com tanta naturalidade era um bálsamo para sua alma.
— Tudo bem, eu me rendo — cedeu ela. — Mas com uma condição.
— Qual? — perguntou ele, arqueando uma sobrancelha.
— Leia para mim. Minha vista ainda está um pouco cansada para focar nas letras miúdas.
Heron soltou uma risada baixa, um som vibrante que aqueceu o quarto.
— Você sabe que eu não tenho a sua entonação dramática, Nanda. Eu sou apenas um cara que entende de táticas de jogo e estatísticas.
— Você tem a voz mais bonita que eu já ouvi — disse ela com sinceridade, entregando o livro aberto a ele. — Leia o Soneto 43. Por favor.
Heron pegou o livro como se fosse um artefato sagrado e frágil. Ele limpou a garganta, visivelmente um pouco tímido, o que Fernanda achou adorável. Ele começou a ler, com sua voz profunda e pausada preenchendo o espaço:
— "Como te amo? De que modo? Deixa-me contar..."
Enquanto ele lia as palavras imortais sobre a profundidade e a largura do amor, Fernanda fechou os olhos. Ela não via apenas a poesia; ela via Heron. Via o homem que, na noite anterior, havia trocado compressas de água fria em sua testa sem reclamar do sono. O homem que, apesar de sua força física bruta, a tocava como se ela fosse o tesouro mais valioso da terra.
Quando ele terminou, houve um silêncio carregado de emoção. Heron fechou o livro e olhou para ela, a expressão séria.
— Às vezes eu acho que esses poetas sabiam exatamente o que eu sinto, mas não consigo expressar — admitiu ele em voz baixa.
— Você expressa todos os dias, Heron. Nos pequenos gestos. No modo como me olha.
Ele se inclinou e beijou sua bochecha, o cheiro de mel e pinho misturando-se no ar.
— Vou deixar você descansar um pouco mais enquanto vou à cidade comprar algumas coisas. Preciso de mais frutas e... bem, talvez eu passe na livraria para ver se chegou aquela edição especial que você queria.
— Você vai me deixar mal-acostumada — avisou ela, sorrindo.
— Esse é exatamente o meu plano — respondeu ele, levantando-se e pegando sua jaqueta de couro. — Volto em uma hora. Se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, me ligue. O celular está no volume máximo.
— Eu vou ficar bem, Heron. Vá tranquilo.
Após a saída dele, a casa mergulhou em um silêncio pacífico. Fernanda sentiu-se revigorada o suficiente para se levantar. Vestiu um robe grosso de lã e caminhou lentamente até a sala de estar. O piano de cauda, posicionado perto da janela que dava para a floresta densa de Forks, parecia chamá-la.
Ela se sentou ao banco e deixou os dedos passearem silenciosamente pelas teclas de marfim antes de pressioná-las. Começou com algo suave, uma melodia improvisada que refletia a melancolia da chuva lá fora e o calor do que sentia por dentro. As notas flutuavam pela sala, misturando-se ao cheiro de madeira queimada na lareira que Heron tivera o cuidado de manter acesa.
A música era sua linguagem mais pura. Através dela, Fernanda processava o mundo. Ela pensou em como sua vida mudara desde que Heron entrara nela. Antes, Forks era apenas uma cidade chuvosa onde ela ensinava literatura; agora, era o cenário de uma história que ela nunca ousara escrever para si mesma.
O som de um carro estacionando no cascalho interrompeu sua composição. Pouco depois, Heron entrou carregando sacolas, parando na entrada da sala ao ouvi-la tocar. Ele ficou ali, em silêncio, apenas observando-a. Fernanda finalizou a sequência com um acorde maior, cheio de esperança.
— Isso foi lindo — disse ele, aproximando-se e deixando as sacolas no chão. — Mas você deveria estar na cama.
— O piano me curou mais do que o chá, eu prometo — disse ela, virando-se para ele.
Heron caminhou até ela e parou atrás do banco do piano, colocando as mãos em seus ombros. O peso de suas mãos era reconfortante, uma presença sólida que a ancorava.
— Trouxe o seu livro — disse ele, retirando um volume embrulhado em papel pardo da sacola. — E também algumas flores. O florista disse que essas resistem bem ao clima daqui.
Eram lírios brancos, puros e elegantes. Fernanda sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos.
— Obrigada, Heron. Por tudo.
Ele a virou para que ficasse de frente para ele, agachando-se para que seus olhos ficassem no mesmo nível.
— Nanda, eu sei que às vezes eu exagero na proteção. Eu sei que você é uma mulher forte, independente, que ensina centenas de jovens e lida com a vida de forma incrível. Mas quando eu te vi doente... eu percebi que você é o meu centro. Se você não estiver bem, nada mais faz sentido.
Fernanda acariciou o rosto dele, sentindo a leve aspereza de sua barba por fazer.
— Eu amo que você cuide de mim, Heron. Mas você também precisa se deixar cuidar. Você passou a noite em claro.
— Eu descanso quando souber que você está totalmente recuperada — insistiu ele com aquela teimosia adorável. — Agora, que tal se eu preparasse um jantar especial? Nada de canja desta vez. Comprei ingredientes para uma massa.
— Eu ajudo você — propôs ela.
— Nem pensar. Você vai sentar naquela poltrona, com o seu livro novo, e eu serei o seu chef particular.
A noite caiu sobre Forks com sua habitual cortina de neblina e chuva persistente. Dentro do chalé, no entanto, o ambiente era de um calor dourado. O aroma de manjericão e molho de tomate fresco preenchia a casa. Heron movia-se pela cozinha com uma agilidade que sempre fascinava Fernanda; ele era grande, mas nunca desajeitado. Cada movimento seu era carregado de propósito.
Eles jantaram à luz de velas, uma pequena extravagância que Heron decidiu improvisar. A conversa fluiu de temas leves, como as peripécias dos alunos de Fernanda, até planos para as férias de verão.
— Eu estava pensando — começou Heron, servindo um pouco de suco para ela —, talvez pudéssemos viajar para algum lugar onde o sol realmente apareça. O que você acha de ir para o sul?
— Seria maravilhoso — concordou ela. — Ver o mar, sentir o calor na pele... mas, para ser sincera, desde que você esteja comigo, eu não me importo com a chuva de Forks.
Heron sorriu, aquele sorriso que iluminava seu rosto de uma forma que nenhuma lâmpada conseguia.
— Você sempre tem a frase certa, não é? Coisa de professora de literatura.
— É apenas a verdade, Heron.
Após o jantar, eles se acomodaram no sofá, enrolados em um edredom pesado. A lareira estalava, lançando faíscas alaranjadas que dançavam nas sombras. Fernanda encostou a cabeça no ombro dele, sentindo-se finalmente em paz. A doença havia sido apenas um lembrete da fragilidade da vida, mas também da força do vínculo que os unia.
— Heron? — chamou ela baixinho.
— Sim, meu amor?
— Obrigada por ser o meu porto seguro. Eu nunca pensei que encontraria alguém que entendesse tanto o meu silêncio quanto a minha música.
Ele a apertou mais forte contra si, beijando sua têmpora.
— E eu nunca pensei que encontraria alguém que fizesse um cara como eu querer ler poesia às sete da manhã. Você me mudou, Nanda. Para melhor.
Eles ficaram ali por muito tempo, apenas ouvindo o som da chuva e o bater de seus corações em uníssono. O mundo lá fora podia ser frio, cinzento e implacável, mas dentro daquelas quatro paredes, havia uma sinfonia de cuidado, respeito e um amor que, como os poemas que Heron lera, parecia destinado a ecoar para além do tempo.
Naquela noite, Fernanda não teve febre. Ela teve apenas sonhos tranquilos, povoados por notas de piano e pelo calor constante do homem que prometera protegê-la de todas as tempestades. E Heron, finalmente relaxando sua guarda de sentinela, adormeceu ao lado dela, sabendo que sua missão mais importante — cuidar da mulher que possuía sua alma — estava sendo cumprida com a maior das perfeições.
Forks continuava sob as nuvens, mas para os dois, o sol havia encontrado uma maneira de brilhar através da alma um do outro.