Love or obssesion?
O Eco do Silêncio e o Gosto de Menta
O dia seguinte na Escola Preparatória Anakt começou com a mesma monotonia de sempre, ou pelo menos era o que parecia na superfície. O sol entrava pelas janelas altas, iluminando as partículas de poeira que dançavam no ar, enquanto o burburinho dos alunos preenchia o corredor principal.
Hyuna estava encostada em uma fileira de armários, ajustando a jaqueta jeans sobre os ombros. Ao seu lado, Mizi parecia uma estátua de tédio absoluto. O cabelo rosa e azul estava preso em um rabo de cavalo frouxo, e ela bocejava sem a menor cerimônia, seus olhos dourados semicerrados enquanto lutava contra o sono matinal.
— Você precisa começar a dormir mais cedo, Mizi. Um dia você vai acabar desmaiando no meio de um corredor e o fã-clube vai ter um ataque cardíaco coletivo — brincou Hyuna, dando uma cotovelada leve na amiga.
— Deixa eles morrerem, então — Mizi respondeu com sua voz rouca e aveludada, soltando um palavrão baixo enquanto tentava manter os olhos abertos. — Que porra de horário é esse pra estudar? O cérebro humano não foi feito para processar álgebra antes das dez da manhã.
— O seu cérebro não foi feito para processar nada que não seja uma soneca de doze horas — retrucou uma voz fria.
Luka se aproximou com sua habitual calma glacial, acompanhado por Ivan e Till. Ivan já estava mastigando um pirulito de cereja, com as mãos nos bolsos e aquele sorriso de quem planejava o caos. Atrás dele, Till parecia ter saído de uma briga com um liquidificador; o cabelo cinza estava mais bagunçado que o normal e ele carregava a capa da guitarra como se fosse um escudo contra o mundo.
— Olha só quem resolveu aparecer — Hyuna sorriu, indo até Luka e selando seus lábios nos dele em um beijo rápido. — O comitê de boas-vindas está completo.
— O Till está de mau humor porque o Ivan passou a manhã inteira tocando a campainha da casa dele — Luka comentou, ajeitando os óculos.
— Eu só queria ter certeza de que o meu guitarrista favorito não ia perder o primeiro tempo! — Ivan exclamou, fingindo inocência. — Ele é tão sensível, não é, Till?
— Vai se foder, Ivan! — Till rosnou, ajustando a alça da guitarra. — Eu estava dormindo, seu idiota. Eu não sou seu brinquedo.
— Ah, mas você é tão divertido de apertar — Ivan deu um passo em direção a Till, que recuou instintivamente, o rosto ganhando um tom avermelhado que contrastava com seu estilo emo rebelde.
O grupo continuou a conversa caótica, uma mistura de flertes entre Hyuna e Luka e as provocações venenosas de Ivan, até que a figura pequena e pálida de Sua apareceu no final do corredor. Ela caminhava de cabeça baixa, o livro de poesia russa apertado contra o peito, tentando passar despercebida por todos.
Ela estava quase conseguindo cruzar a zona de perigo quando Ivan, com a rapidez de um predador, esticou o braço e segurou a alça da mochila dela.
— Aonde pensa que vai, nanica? — Ivan perguntou, o tom de voz subindo uma oitava. — Nem um "bom dia" pro seu irmão querido?
Sua parou bruscamente, seus ombros ficando tensos. Ela levantou o olhar roxo, carregado de uma melancolia que rapidamente se transformou em irritação pura.
— Me solta, Ivan. Eu tenho aula de literatura e não quero me atrasar por causa das suas criancices.
— Literatura? — Ivan riu, olhando para o grupo. — Ela vai lá ler sobre gente morta e sofrimento. Por que você não tenta viver um pouco, Sua? Talvez se você saísse dessa caverna de livros, não seria tão... patética.
O silêncio caiu sobre o grupo. Till desviou o olhar, desconfortável com a agressividade súbita de Ivan. Hyuna franziu o cenho, e Mizi, que até então parecia estar dormindo em pé, abriu os olhos totalmente, observando a cena com um interesse renovado.
— Patética? — A voz de Sua saiu trêmula, mas não de medo, e sim de uma raiva contida há anos. — Pelo menos eu não preciso infernizar a vida de todo mundo pra me sentir importante. Você é um vazio, Ivan. Você é um buraco negro que tenta sugar a alegria de qualquer um porque não suporta ficar sozinho com a própria mediocridade.
— O que você disse? — O sorriso de Ivan sumiu, substituído por uma expressão sombria.
— Você me ouviu! — Sua gritou, atraindo a atenção de outros alunos no corredor. — Eu te odeio! Eu odeio o fato de sermos do mesmo sangue. Me deixa em paz de uma vez por todas, seu merda!
Ela puxou a mochila com tanta força que Ivan, pego de surpresa pela explosão, a soltou. Sua não esperou por uma resposta. Ela virou as costas e saiu quase correndo pelo corredor, os olhos marejados e o peito subindo e descendo com força.
Ivan ficou parado, a expressão ilegível, enquanto o pirulito entre seus dentes quebrava com um estalo seco.
— Caralho... — Mizi murmurou, impressionada. — Ela tem garras.
— Você pegou pesado, cara — Till disse, olhando para Ivan com uma mistura de pena e reprovação.
Hyuna suspirou e olhou para Mizi. Um plano silencioso pareceu passar entre os olhos azuis da morena e os dourados da rosada.
— Mizi — disse Hyuna, com um sorriso de canto. — Vai atrás dela.
— O quê? Eu? — Mizi apontou para si mesma, incrédula. — A gente nem se fala direito. Ela me acha uma fútil, com certeza.
— Exatamente por isso — Luka interveio, cruzando os braços. — Você é a única que ela não vai associar diretamente ao Ivan agora. E, sejamos honestos, você está morrendo de curiosidade desde ontem.
— Vai logo, Mizi — Hyuna deu um empurrãozinho na amiga. — Joga seu charme. Tira ela desse buraco antes que ela se enterre na biblioteca pra sempre.
Mizi soltou um suspiro dramático, revirando os olhos, mas não ofereceu resistência real.
— Se ela me bater com aquele livro grosso, eu vou culpar vocês — reclamou Mizi, começando a caminhar na direção que Sua tinha ido.
Ela encontrou Sua no jardim interno da escola, um lugar raramente frequentado àquela hora. A garota menor estava sentada em um banco de pedra, escondida atrás de uma grande trepadeira. Seus ombros ainda tremiam levemente e ela estava com o rosto escondido entre as mãos.
Mizi caminhou devagar, seus passos fazendo pouco barulho no gramado. Ela parou a alguns metros de distância e observou. Sua parecia tão frágil e, ao mesmo tempo, a explosão de agora a pouco ainda ecoava na mente de Mizi. Aquela garota tinha fogo escondido sob a pele pálida.
— Sabe — começou Mizi, sua voz saindo baixa e propositalmente sedutora, aquele tom que fazia metade da escola suspirar —, se você matar o Ivan, eu prometo que ajudo a esconder o corpo. Ele é um pé no saco mesmo.
Sua deu um sobressalto, limpando rapidamente os olhos antes de olhar para cima. Ao ver Mizi, ela pareceu querer se fundir ao banco de pedra.
— O que você está fazendo aqui? — Sua perguntou, a voz rouca pelo choro contido. — Veio rir de mim também?
Mizi caminhou até o banco e, sem pedir licença, sentou-se ao lado de Sua, invadindo seu espaço pessoal. O cheiro de chiclete e baunilha de Mizi instantaneamente envolveu a garota menor.
— Eu tenho cara de quem gasta energia rindo dos outros? — Mizi inclinou o corpo para o lado, apoiando o queixo na mão e encarando Sua com um olhar dourado intenso e preguiçoso. — Eu vim porque o clima lá no corredor ficou uma bosta. E porque eu prefiro mil vezes ficar aqui com você do que ouvindo o Till e o Ivan brigarem por tensão sexual reprimida.
Sua soltou um riso anasalado, apesar da tristeza.
— Eles são óbvios, não são?
— Como um acidente de trem — Mizi concordou, sorrindo de lado. Ela esticou a mão e, com uma delicadeza surpreendente, afastou uma mecha do cabelo preto que caía sobre o rosto de Sua. — Você foi incrível lá atrás. Ninguém fala com o Ivan daquele jeito.
Sua sentiu o toque de Mizi como uma descarga elétrica. Suas bochechas ficaram vermelhas, e ela desviou o olhar para o livro em seu colo.
— Ele me tira do sério. Ele acha que tudo é uma brincadeira, que os sentimentos das pessoas são descartáveis.
— Ele é um idiota — Mizi disse, aproximando-se ainda mais, até que seus ombros se tocassem. — Mas você não é. Você é... diferente, Sua. Ontem eu não conseguia parar de pensar no que você disse. Sobre as pessoas não dizerem nada.
— E você? — Sua perguntou, finalmente criando coragem para olhar nos olhos de Mizi. — Você diz muita coisa, Mizi. Mas será que alguém realmente ouve?
Mizi sentiu um frio na barriga. Ninguém nunca a questionava daquela forma. A maioria das pessoas apenas concordava com ela ou ficava babando em sua aparência. Sua a estava enxergando.
— Você é bem atrevida para alguém que parece um fantasma de biblioteca — Mizi sussurrou, sua voz descendo para um tom mais grave, quase um ronronar. Ela se inclinou, o rosto a poucos centímetros do de Sua. — Talvez você devesse me ensinar. A dizer coisas que valham a pena.
Sua prendeu a respiração. A beleza de Mizi de perto era avassaladora. Os olhos amarelos pareciam brilhar com uma luz própria, e os lábios rosados estavam levemente entreabertos.
— Eu... eu não acho que tenha nada a ensinar para alguém como você — Sua murmurou, a voz falhando.
— "Alguém como eu"? — Mizi repetiu, um brilho travesso nos olhos. — E o que exatamente você acha que eu sou, Sua?
— Bonita demais para ser real — a confissão escapou dos lábios de Sua antes que ela pudesse processar.
Mizi soltou uma risada baixa, um som que vibrou no peito de Sua.
— Caralho... você é muito fofa quando está sendo sincera — Mizi disse, e por um momento, o sarcasmo desapareceu, dando lugar a algo genuíno. — Mas beleza é um saco. É como uma parede. Ninguém quer ver o que tem atrás dela.
— Eu quero — Sua disse, com uma determinação que surpreendeu a ambas.
Mizi ficou em silêncio por um momento, estudando o rosto de Sua. A melancolia da garota de olhos roxos parecia um convite, um mistério que Mizi, pela primeira vez na vida, tinha vontade de desvendar.
— Então prova — Mizi desafiou, a voz carregada de um flerte perigoso. Ela se aproximou mais, o nariz roçando levemente no de Sua. — Me mostra que você não é só mais uma pessoa interessada na fachada.
Sua sentiu o coração martelar contra as costelas. Ela nunca tinha estado tão perto de alguém, muito menos de Mizi. O mundo ao redor parecia ter desaparecido, restando apenas o perfume de baunilha e o calor que emanava da garota rosa.
— Eu não sou — Sua sussurrou.
Mizi sorriu, um sorriso que não era para os fotógrafos ou para os pretendentes no corredor. Era um sorriso só para Sua.
— Ótimo. Porque eu acho que vou precisar de muito mais do que poesia russa para me manter interessada nesta escola.
Mizi se afastou apenas o suficiente para pegar um dos cadernos de Sua que estava caído no banco.
— Vamos matar o resto das aulas? — Mizi perguntou, levantando-se e estendendo a mão para Sua. — Eu conheço um lugar no telhado onde ninguém vai nos incomodar. Você lê para mim e eu... bem, eu tento não dormir.
Sua olhou para a mão estendida de Mizi e depois para os olhos dourados que a observavam com uma expectativa suave. Pela primeira vez em muito tempo, a melancolia em seu peito pareceu um pouco menos pesada.
— Tudo bem — Sua disse, aceitando a mão de Mizi.
O toque foi firme e quente. Mizi a puxou para cima com facilidade, e por um segundo, elas ficaram próximas demais, os corpos quase colados.
— Você tem mãos frias, nanica — Mizi comentou com um olhar sedutor, apertando os dedos de Sua nos seus. — Vou ter que dar um jeito de aquecer você.
Sua sentiu o rosto queimar novamente, mas desta vez, ela não desviou o olhar.
— Eu adoraria ver você tentar.
Mizi soltou uma risada genuína e começou a puxar Sua em direção às escadas de emergência. Enquanto caminhavam, Mizi soltou um daqueles palavrões que usava casualmente, reclamando de um degrau solto, e Sua sentiu que, pela primeira vez, não estava apenas observando a vida através das páginas de um livro.
Lá embaixo, no corredor, Ivan observava as duas saindo pelo canto do olho. Ele ainda sentia o peso das palavras da irmã, mas ao ver Mizi e Sua juntas, um pequeno sorriso, quase imperceptível, cruzou seus lábios.
— Elas vão se destruir ou se salvar — Luka comentou, aparecendo ao lado de Ivan.
— Provavelmente as duas coisas — Ivan respondeu, pegando outro pirulito. — E não é isso que torna a vida interessante?
Till, que estava por perto, apenas bufou, mas no fundo, ele sabia que Ivan tinha razão. Na Escola Anakt, a calmaria nunca durava muito, e o encontro daquelas duas era apenas o começo de uma tempestade que ninguém estava preparado para enfrentar.
No telhado, longe de todos, o som do vento era a única trilha sonora. Mizi deitou-se com a cabeça no colo de Sua, fechando os olhos enquanto a garota menor começava a ler, com voz trêmula, mas doce, os versos de um poema sobre estrelas perdidas.
Mizi não dormiu. Pela primeira vez em anos, ela queria ouvir cada palavra.