Love Propice
Herança de Fogo e Desejo
O verão na casa de praia sempre teve um sabor de liberdade e rituais imutáveis. O sol de janeiro castigava a areia, o sal grudava na pele como uma segunda vestimenta e as risadas que antes eram agudas e infantis, agora ganhavam tons mais graves, mais carregados de segredos. Oito anos haviam se passado desde que as crianças descobriram que o mundo era o seu playground, e agora, aos quatorze para quinze anos, Liza e Theo pareciam habitar um universo que os pais mal conseguiam decifrar.
Liza era a personificação da intensidade de Rafaella. Seus cabelos eram uma cascata escura, seus olhos brilhavam com uma determinação feroz e ela possuía aquela beleza magnética que fazia o mundo parar para observar. Theo, por sua vez, herdara a masculinidade magnética de Augusto e a intensidade vibrante de Bernardo. Ele era alto, de ombros largos para a idade, e possuía um olhar que parecia enxergar através das pessoas. A amizade entre eles, que nascera antes mesmo do parto, havia se transformado em algo denso, uma gravidade que os puxava um para o outro em cada canto daquela casa.
A tarde estava morna quando Rafaella subiu as escadas para buscar um protetor solar esquecido. No corredor, ela viu Theo e Liza caminhando em direção ao quarto da menina. Theo tinha a mão apoiada na nuca de Liza, um gesto de possessividade e carinho que Rafa achou adorável.
— Juízo, vocês dois! — gritou Rafaella, sorrindo enquanto passava por eles. — Não vão se trancar no quarto e esquecer que o resto do mundo existe. O Bernardo está acendendo a churrasqueira.
— Pode deixar, tia Rafa! — Theo respondeu, com um sorriso de lado que era a cópia fiel do pai dele. — Só vamos terminar de ouvir aquele álbum que a Liza comprou.
Rafaella seguiu para o seu quarto, sentindo o coração leve. Era tão bom ver que a amizade deles permanecia intacta. No entanto, dez minutos depois, enquanto descia o corredor de volta, um som a fez estacar. Não era música. Era um suspiro, longo e agudo, seguido por um gemido baixo que parecia carregar uma mistura de dor e prazer.
O instinto de mãe de Rafaella disparou. "Ela se machucou", foi o primeiro pensamento que cruzou sua mente. Liza sempre fora desastrada quando estava animada. Sem bater, movida pela urgência da proteção, Rafaella escancarou a porta.
— Liza? Você está be...
As palavras morreram na garganta. O ar do quarto parecia ter sido substituído por eletricidade pura.
Liza estava deitada na cama, com as bochechas coradas e os lábios inchados. Ela vestia apenas um conjunto de calcinha e sutiã de renda preta — algo que Rafaella nem sabia que a filha possuía. Por cima dela, com as mãos espalmadas no colchão e o corpo tencionado, estava Theo. Ele estava apenas de cueca, os músculos das costas desenhados pelo esforço de se manter suspenso sobre ela. Os dois estavam colados, as respirações misturadas, em uma cena que exalava uma paixão tão crua e intensa que Rafaella sentiu um déjà vu avassalador de sua própria história com Augusto.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Theo congelou, os olhos arregalados, enquanto Liza soltou um arquejo de puro choque, tentando puxar o lençol para se cobrir.
— Mãe! — Liza exclamou, a voz saindo em um fio trêmulo.
— Meu Deus... eu... me desculpem! — Rafaella gaguejou, sentindo o rosto queimar. — Eu achei que... eu sinto muito!
Ela bateu a porta com força, o coração martelando contra as costelas. Rafaella desceu as escadas tropeçando nos próprios pés, a imagem da filha sendo "amada" — não havia outra palavra para descrever a entrega nos olhos de Liza — gravada em sua mente. Ela chegou ao deque da piscina, onde Augusto, Bernardo e Sofia brindavam com caipirinhas.
— Rafa? Você viu um fantasma? — perguntou Augusto, levantando-se imediatamente ao ver a palidez da esposa.
Rafaella se apoiou na mesa, respirando fundo. Ela olhou para Sofia, que franziu a testa, preocupada.
— Eu acabei de entrar no quarto da Liza — começou Rafa, a voz instável. — Eu achei que ela tinha se machucado porque ouvi um barulho... mas ela não estava machucada.
— O que aconteceu, Rafaella? — Bernardo perguntou, a voz ficando séria.
— O Theo e a Liza... eles estão lá em cima. E eles não estão ouvindo música. Eles estavam... eles estavam se pegando. De verdade.
Houve um segundo de silêncio absoluto. Sofia soltou um suspiro longo, uma mistura de surpresa e compreensão.
— Ah, meu Deus — disse Sofia, com um sorriso pequeno começando a surgir. — Então finalmente aconteceu.
— Finalmente? — Augusto explodiu, a veia em seu pescoço saltando. — Como assim finalmente, Sofia? Eles são crianças!
— Augusto, eles têm quase quinze anos — rebateu Bernardo, embora estivesse visivelmente desconcertável. — A gente começou com essa idade, você lembra?
— Mas é a minha filha! — Augusto passou a mão pelo cabelo, andando de um lado para o outro. — E é o seu filho, Bernardo! Aquele moleque está lá em cima com a minha princesinha... só de cueca?
— Rafa disse que a Liza também não estava muito vestida — Sofia pontuou, tentando manter a calma. — Augusto, olha para a gente. Olha para a história deles. Eles cresceram grudados. Era óbvio que a intensidade que a gente passou para eles ia explodir uma hora ou outra.
— Eu achei a cena... linda, de um jeito estranho — confessou Rafaella, sentando-se e aceitando o copo que Sofia lhe ofereceu. — O jeito que o Theo olhava para ela... era exatamente como o Augusto me olha. Com aquela fome, aquela proteção.
Augusto soltou um rosnado frustrado, mas acabou se sentando. Ele sabia que não podia lutar contra a natureza. A genética daquele grupo era baseada em fogo e entrega total.
Lá em cima, o clima no quarto era de puro caos emocional. Theo havia se sentado na beira da cama, com as mãos cobrindo o rosto, enquanto Liza terminava de se vestir às pressas, as mãos tremendo tanto que ela mal conseguia fechar o fecho do sutiã.
— Eu vou morrer, Theo — disse Liza, a voz embargada. — Minha mãe viu tudo. Ela viu a gente... ela viu você em cima de mim.
Theo se virou para ela, os olhos ainda carregados de um desejo que o susto não conseguiu apagar totalmente. Ele se aproximou e segurou as mãos dela, forçando-a a olhá-lo.
— Ei, olha para mim — pediu ele, a voz rouca. — Foi um mico? Foi. Mas a gente não estava fazendo nada errado, Liza. A gente se ama. Eu amo você desde que a gente dividia o berço.
— Eu sei, mas é a minha mãe! — Liza sentiu uma lágrima escapar. — E o meu pai? O tio Augusto vai te matar. Ele vai te expulsar da casa de praia e a gente nunca mais vai se ver.
Theo soltou uma risada curta, puxando-a para um abraço apertado. O calor do corpo dele ainda emanava aquela energia que a fazia derreter.
— O seu pai me adora. Ele só vai precisar de uns dez minutos de fúria e uma conversa de homem para homem com o meu pai. Mas, Liza... — Ele se afastou um pouco, acariciando o rosto dela. — Você está arrependida?
Liza olhou para ele, sentindo a eletricidade percorrer sua espinha novamente. Ela lembrou do peso do corpo dele sobre o seu, do jeito que ele sussurrava o nome dela entre os beijos, da intensidade que parecia queimar o oxigênio do quarto.
— Nem um pouco — ela respondeu, com a coragem característica de Rafaella voltando para sua voz. — Eu queria que ela não tivesse entrado, porque eu queria continuar sentindo o que eu estava sentindo. Você me deixa maluca, Theo.
— Você também me deixa maluco — ele sussurrou, aproximando o rosto do dela. — O jeito que você me puxa, o jeito que você geme o meu nome... eu não consigo parar, Liza. Eu não quero parar.
— Mas a gente tem que descer — ela lembrou, embora suas mãos já estivessem subindo pelo peito nu dele novamente. — Eles estão lá embaixo esperando a gente para o churrasco.
— Deixa eles esperarem mais cinco minutos — Theo pediu, selando os lábios nos dela em um beijo profundo, lento e faminto.
Liza se entregou ao beijo, as mãos se perdendo nos cabelos loiros dele. A vergonha de ter sido pega ainda estava lá, mas o desejo era infinitamente maior. Era uma herança que não podiam ignorar. Eles eram filhos da intensidade, e aquela casa de praia estava prestes a testemunhar o início de uma nova era.
Quando finalmente decidiram descer, cerca de vinte minutos depois, o clima no deque era de uma tensão palpável, mas controlada. Augusto estava de braços cruzados, encostado na mureta, observando o mar. Bernardo estava focado na carne, mas seus olhos fugiam para a escada a cada segundo. Rafa e Sofia conversavam em sussurros.
Theo foi o primeiro a aparecer na varanda, seguido por uma Liza que tentava manter a cabeça erguida, apesar das bochechas vermelhas.
— Oi — disse Theo, a voz firme, embora estivesse claramente nervoso.
Augusto se virou lentamente. O olhar que lançou para o afilhado — e agora, genro — era gélido, mas havia um respeito relutante ali.
— Theo — disse Augusto, a voz baixa. — A gente precisa conversar. No escritório. Agora.
— Augusto, pega leve — Rafaella interveio, mas ele apenas levantou a mão, pedindo silêncio.
— Eu vou com ele — Liza disse, dando um passo à frente e segurando a mão de Theo. — A culpa não foi dele, pai. Foi nossa.
Augusto olhou para a mão da filha entrelaçada na de Theo. Ele viu a força com que ela o segurava, a mesma força com que Rafaella o segurara tantas vezes diante de adversidades. O coração de pai deu um solavanco.
— Não, Liza. É conversa de homem. Fica aqui com a sua mãe.
Theo apertou a mão de Liza uma última vez e seguiu Augusto para dentro da casa. Bernardo trocou um olhar com o filho, um olhar que dizia: "Boa sorte, campeão, você vai precisar".
No escritório, o silêncio durou uma eternidade. Augusto sentou-se atrás da mesa e indicou a cadeira à frente para Theo.
— Eu te vi crescer, Theo — começou Augusto. — Eu te ensinei a pescar, a dirigir esse barco lá fora. Eu confiava em você para proteger a minha filha.
— E eu protejo, tio Augusto — Theo respondeu, sem desviar o olhar. — Eu protejo ela de tudo. Inclusive da tristeza. Eu amo a Liza. Não é uma "ficada" de verão. Eu não consigo imaginar a minha vida sem ela em nenhum segundo.
Augusto suspirou, a raiva começando a ser substituída por uma melancolia nostálgica.
— Eu sei que você ama. Eu vi o jeito que você olhava para ela no verão passado. Eu só... eu queria que ela continuasse sendo a minha menininha por mais um tempo. Mas a cena que a Rafa descreveu...
— Eu sinto muito pela tia Rafa ter entrado daquele jeito — Theo disse, genuinamente envergonhado. — Mas eu não sinto muito pelo que a gente sente. Eu vou tratar ela como a rainha que ela é. Exatamente como o senhor trata a tia Rafa.
Augusto ficou em silêncio por um longo tempo. Ele viu a sinceridade nos olhos de Theo, viu a mesma intensidade que ele próprio sentia por Rafaella. Era um ciclo. Uma herança de fogo que não podia ser apagada.
— Se você magoar ela, Theo... se você fizer ela chorar uma única vez... — Augusto deixou a ameaça no ar.
— O senhor pode me jogar do barco em alto mar — Theo completou, com seriedade.
— Ótimo. Agora vamos voltar lá para fora antes que a sua mãe e a Rafaella achem que eu te matei.
Quando voltaram para o deque, o alívio foi visível. Liza correu para Theo, abraçando-o pela cintura, e ele a envolveu em um abraço protetor, beijando o topo de sua cabeça diante de todos.
— Tudo bem? — perguntou Liza, sussurrando contra o peito dele.
— Tudo bem, capitã — ele respondeu, sorrindo para ela.
O churrasco seguiu, mas agora com uma nova dinâmica. O segredo estava fora da caixa. Bernardo e Augusto compartilharam uma cerveja, falando sobre como o tempo voava, enquanto Sofia e Rafaella observavam os filhos.
— Eles são lindos juntos, não são? — Sofia comentou, vendo Theo servir um prato para Liza e tirar o cabelo do rosto dela para que ela pudesse comer.
— São — admitiu Rafaella. — É assustador e maravilhoso ao mesmo tempo. Eles têm essa coisa magnética... parece que o ar ao redor deles fica mais quente.
— É a nossa marca, Rafa — Sofia riu. — A gente criou monstros de intensidade.
Mais tarde, quando a lua já estava alta e os adultos estavam distraídos com a música e as histórias, Theo puxou Liza para um canto mais escuro do deque, perto da escada que levava à areia.
— Sabe o que o seu pai me disse? — Theo perguntou, prendendo-a contra o corrimão de madeira.
— O quê? — Liza perguntou, passando as mãos pelos braços dele, sentindo os arrepios que o toque dele sempre causava.
— Que eu tenho que tratar você como uma rainha. Mas ele não sabe que, para mim, você é muito mais que isso. Você é a minha vida inteira, Liza.
— E você é a minha — ela respondeu, puxando-o para um beijo que carregava toda a urgência e a paixão que haviam sido interrompidas mais cedo. — E agora que todo mundo já sabe... a gente não precisa mais se esconder.
— Isso é perigoso — Theo brincou, a mão descendo pela curva do quadril dela. — Porque eu não sei se consigo me controlar perto de você.
— Quem disse que eu quero que você se controle? — Liza desafiou, com um brilho travesso nos olhos.
Eles riram, um som jovem e cheio de promessas. O verão continuaria, as ondas continuariam quebrando na praia, e a história de amor que começara em uma suíte de luxo anos atrás agora encontrava seu novo caminho através deles. A intensidade não havia diminuído; ela apenas encontrara novos corpos para habitar, novas vozes para gemer e novos corações para incendiar.
Naquela noite, sob a mesma lua que testemunhara o início de Augusto e Rafaella, Theo e Liza selaram seu próprio destino. Eles eram o sal, o sol e o fogo. E nada no mundo seria capaz de apagar a chama que agora ardia neles com toda a força de sua herança.