Voltar ao resumo

Love Propice

Laços de Sal, Sol e Futuro

O tempo, assim como as marés que banhavam a costa daquela ilha onde tudo começou, não parou para pedir licença. Os meses de gestação foram vividos com a mesma intensidade que definia o relacionamento de Augusto e Rafaella. Houve enjoos compartilhados, desejos de madrugada por frutas exóticas e, acima de tudo, uma expectativa que parecia vibrar no ar. Sofia e Bernardo, vivendo o mesmo milagre simultaneamente, tornaram-se mais do que melhores amigos; tornaram-se companheiros de trincheira.

A revelação dos sexos foi um evento à parte. Em um chá revelação duplo que parou a cidade, a fumaça rosa envolveu Rafa e Augusto, enquanto o azul tomou conta de Sofia e Bernardo. Liza e Theo. Os nomes já estavam escolhidos antes mesmo do primeiro ultrassom, como se as almas daquelas crianças já tivessem se apresentado aos pais em sonhos.

Seis anos haviam se passado desde aquela lua de mel inesquecível.

O cenário agora era uma casa de praia espaçosa, com grandes janelas de vidro e um deque de madeira que dava direto para a areia. O sol da tarde pintava o céu de laranja, e o som das risadas infantis competia com o barulho das ondas.

— Theo! Devolve a minha concha agora! — O grito de Liza ecoou, agudo e firme.

A menina, uma cópia fiel de Rafaella, com os mesmos olhos expressivos e a pele bronzeada, corria atrás de um garotinho loiro de olhos intensos, que tinha a agilidade de Bernardo e o sorriso travesso que o pai tanto tentava esconder nas reuniões de negócios.

— Você tem que me pegar primeiro, Liza! — Theo gritou de volta, desviando de um castelo de areia pela metade.

Augusto, sentado em uma cadeira de lona com uma cerveja gelada na mão, observava a cena com um sorriso de satisfação plena. Ele sentiu o perfume floral familiar antes mesmo de sentir o toque das mãos de Rafa em seus ombros.

— Eles não param um segundo, não é? — perguntou Rafaella, inclinando-se para beijar o topo da cabeça do marido.

— É a nossa genética, Rafa — respondeu Augusto, puxando-a para seu colo. — Você queria o quê? Filhos tranquilos? Com a gente como pais?

Rafa riu, acomodando-se nos braços dele. Ela estava ainda mais bonita, com uma maturidade que apenas realçava sua sensualidade natural. O biquíni preto, quase idêntico ao que usara na lua de mel, mostrava que o tempo fora generoso com suas curvas.

— Às vezes eu olho para eles e vejo a gente — disse ela, observando Liza finalmente alcançar Theo e derrubá-lo na areia em um abraço-atropelamento. — A intensidade da Liza... ela defende o que é dela com unhas e dentes.

— E o Theo é um pequeno manipulador emocional, igualzinho ao Bernardo — completou Augusto, rindo. — Mas veja como eles se cuidam.

Liza agora ajudava Theo a tirar a areia do rosto, limpando os olhos do amigo com cuidado, apesar de ter acabado de derrubá-lo. A conexão entre os dois era magnética, quase um reflexo da amizade profunda que unia seus pais.

— Ei, casal de comercial de margarina! — A voz de Sofia veio da varanda. Ela trazia uma travessa de iscas de peixe, seguida por Bernardo, que carregava mais gelo. — Parem de se pegar por cinco minutos e venham comer. As crianças vão acabar com tudo se vocês não correrem.

— Sofia, você diz isso há seis anos e ainda não aprendeu que o Augusto nunca vai parar de "se pegar" com a Rafa — brincou Bernardo, batendo no ombro do amigo ao se aproximar.

O grupo se reuniu ao redor da mesa de madeira rústica. Era uma tradição que mantinham desde o nascimento das crianças: todos os verões, voltavam para o litoral. Era o lugar deles, o ponto de recarga de energias.

— Papai, o Theo disse que eu não posso ser a capitã do barco hoje — reclamou Liza, subindo na cadeira ao lado de Augusto e pegando um pedaço de peixe.

— Eu não disse isso! — Theo protestou, sentando-se ao lado de Bernardo. — Eu disse que a gente precisava de dois capitães porque o mar estava "muito revolto". Foi o que o tio Augusto ensinou!

Augusto deu uma piscadela para o filho do amigo.

— Ele tem um ponto, Liza. Em mares difíceis, dois capitães que confiam um no outro são melhores que um só.

Rafaella trocou um olhar significativo com Sofia. Elas sabiam que aquela era a base de tudo o que haviam construído.

— Falando em confiança — disse Sofia, servindo-se de um drink —, vocês viram que o resort onde passamos a lua de mel vai reabrir depois da reforma?

— Estava pensando nisso hoje cedo — comentou Rafa. — Parece que foi ontem que a gente descobriu a gravidez lá. Aquela correria, o enjoo que eu achei que era do sushi...

— E o Bernardo achando que era o gênio da lâmpada por ter descoberto o resultado da Sofia antes dela — riu Augusto.

— Eu fui eficiente! — defendeu-se Bernardo. — Foi o melhor "spoiler" da minha vida.

Enquanto os adultos conversavam e relembravam as loucuras do passado, as crianças terminaram de comer e voltaram para a beira da água. O sol estava começando a se pôr, criando aquele rastro dourado sobre o mar que Augusto e Rafaella tanto amavam.

— Liza, olha! — Theo apontou para o horizonte. — O sol está mergulhando.

— Minha mãe diz que é quando o dia e a noite se beijam — disse a menina, com uma veia romântica que claramente herdara de Rafa.

— Que nojo, Liza — Theo fez uma careta, mas não desviou o olhar. — Mas é bonito.

Lá do deque, os quatro adultos observavam os pequenos vultos das crianças contra a luz do poente.

— Eles são o nosso melhor capítulo, não são? — sussurrou Rafaella, encostando a cabeça no ombro de Augusto.

— Sem dúvida — respondeu ele, envolvendo-a com o braço e sentindo o calor da pele dela. — Mas sabe o que é melhor? O livro ainda está longe de acabar.

— O que você quer dizer com isso, Guto? — Rafa se afastou um pouco para olhar nos olhos dele, notando aquele brilho intenso que ele sempre tinha quando estava planejando algo.

— Eu estava conversando com o Bernardo... — Augusto começou, mas foi interrompido por um sorriso cúmplice do amigo.

— Nós achamos que as crianças já estão grandes o suficiente para ficarem um final de semana com os avós — continuou Bernardo, olhando para Sofia. — E o resort novo tem uma suíte presidencial com vista para o mar que acabou de ficar pronta.

Rafaella e Sofia se entreolharam. O brilho nos olhos delas foi imediato.

— Uma segunda lua de mel? — perguntou Sofia, já animada.

— Ou uma terceira, ou quarta... perdi a conta — brincou Rafa. — Mas eu aceito. Com certeza eu aceito.

— Mas com uma condição — disse Augusto, puxando Rafaella para mais perto, sua voz tornando-se aquele sussurro rouco que sempre a desarmava. — Nada de testes de gravidez desta vez. Eu quero você só para mim, 24 horas por dia.

Rafa riu, passando os braços pelo pescoço dele, ignorando completamente o fato de que Bernardo e Sofia estavam logo ali.

— Prometo nada, Guto. Você sabe que a gente não consegue controlar a nossa intensidade.

— É verdade — ele concordou, selando a promessa com um beijo apaixonado que calou qualquer outra conversa.

Na areia, Theo e Liza continuavam sua exploração, alheios aos planos dos pais, mas unidos pelo mesmo laço que os trouxera ao mundo. Eles eram o fruto de uma paixão que não conhecia limites, de uma amizade que suportara o tempo e de uma promessa feita sob a luz da lua anos atrás.

A noite começou a cair, e as primeiras estrelas surgiram no céu. Bernardo acendeu a pequena fogueira que haviam preparado na areia, e o cheiro da lenha queimada se misturou ao aroma do mar.

— Vem, Theo! Vamos pegar os marshmallows! — chamou Liza, correndo em direção à casa.

— Me espera! — Theo saiu em disparada logo atrás.

Assistindo àquela cena, Rafaella sentiu uma paz imensa. Sua vida era um turbilhão, sim. Era intensa, barulhenta e, às vezes, exaustiva. Mas, ao olhar para Augusto, para seus melhores amigos e para a filha que era a luz de seus olhos, ela sabia que não trocaria aquela "tempestade" por nenhum mar calmo do mundo.

— No que você está pensando? — perguntou Augusto, enquanto eles se sentavam ao redor da fogueira, as chamas refletindo nos olhos castanhos de Rafa.

— Que a lua de mel nunca acabou, Guto — respondeu ela, pegando a mão dele e entrelaçando seus dedos. — A gente só mudou o cenário. Mas o fogo... o fogo continua exatamente o mesmo.

Augusto apertou a mão dela, olhando para o horizonte onde a lua começava a subir, imensa e prateada, exatamente como naquela primeira noite.

— E vai continuar assim, Rafa. Enquanto houver mar, enquanto houver sol e enquanto houver nós dois.

Eles ficaram ali, em silêncio, cercados pelo amor de seus filhos e pela cumplicidade de seus amigos. O futuro era um livro aberto, mas se dependesse daquela intensidade que os unia, cada página seria escrita com o fogo da paixão e a doçura da eternidade. A história de Augusto e Rafaella, agora multiplicada em Liza e Theo, era a prova viva de que quando o amor é verdadeiro, ele não apenas sobrevive ao tempo — ele o domina.