Lovely Complex
O Placar Final e o Eco dos Gemidos
A penúltima noite em Angra dos Reis parecia carregar o peso de todas as tensões acumuladas desde que o sistema do hotel decidira, por conta própria, que Rafaella e Augusto deveriam ser mais do que apenas colegas de escola. O quarto 204, agora iluminado apenas pela luz lunar que atravessava as frestas da cortina e pelo brilho moribundo das velas de baunilha deixadas pelos garotos, tornara-se o epicentro de uma intensidade que nenhum deles conseguia mais controlar.
Augusto não era apenas o capitão do time; ele era um homem de movimentos precisos e força contida. Mas ali, com a pele de Rafaella contra a sua e o cheiro de mar impregnado em seus cabelos, a contenção deu lugar à urgência. Ele a possuía com uma paixão que beirava o desespero, como se cada toque precisasse compensar os anos de silêncio e as horas de interrupções idiotas dos amigos.
Em um momento de ápice, quando a conexão entre eles atingiu um nível de entrega absoluta, Augusto impulsionou-se com uma força que pegou Rafaella desprevenida. O prazer foi tão agudo, tão avassalador, que ela não conseguiu conter. Um gemido alto, quase um grito de êxtase, escapou de sua garganta e ecoou pelas paredes finas do hotel, perdendo-se no corredor silencioso.
Imediatamente, o instinto protetor de Augusto falou mais alto que o seu desejo. Ele parou o movimento, retirando-se com rapidez e apoiando o peso nos braços para olhar o rosto dela, a respiração dele batendo ofegante contra as bochechas coradas de Rafa.
— Rafa! — sussurrou ele, a voz carregada de preocupação. — Você está bem? Eu... eu te machuquei? Desculpa, eu me perdi um pouco...
Rafaella levou alguns segundos para focar os olhos. O coração dela batia contra as costelas como um pássaro engaiolado, mas não era de dor. Ela sentia-se viva, preenchida por uma eletricidade que ainda fazia seus dedos dos pés se curvarem.
— Estou bem, Guto... — ela murmurou, a voz falha. — Mais do que bem. Só... não para.
Sem pensar, ela jogou a cabeça para trás no travesseiro, expondo a linha delicada de seu pescoço, um convite mudo e irresistível. Augusto relaxou os ombros, sentindo uma onda de adoração por aquela garota que era doce e gentil durante o dia, mas que o desafiava com tamanha intensidade entre quatro paredes.
Ele inclinou-se e começou a beijar a curva de seu pescoço, descendo lentamente por todo o seu corpo, marcando cada centímetro de pele com uma reverência romântica. Eles aproveitaram o resto da noite como se o mundo fosse acabar ao amanhecer, explorando-se com a calma de quem finalmente havia encontrado o seu lugar.
Na manhã seguinte, o sol do último dia de viagem entrou sem pedir licença. O clima era de despedida e cansaço, mas para Rafa e Augusto, havia uma aura de cumplicidade inquebrável. Eles se arrumaram em silêncio, trocando sorrisos cúmplices enquanto fechavam as malas. O quarto 204 voltaria a ser apenas um quarto de hotel, mas as memórias gravadas naquelas paredes seriam eternas.
Quando desceram para o refeitório para o último café da manhã, o burburinho era geral. Os alunos comentavam sobre os passeios, as queimaduras de sol e as festas escondidas. Rafaella sentou-se à mesa com suas amigas, tentando manter a postura de "garota inteligente e centrada", enquanto Augusto se juntava ao time na mesa ao lado.
O silêncio de Rafa durou exatamente três segundos antes de Bernardo, o zagueiro mais barulhento do colégio, se levantar e gritar para que metade do hotel ouvisse.
— RAFA! EI, RAFAELLA! — Bernardo gesticulava com um pão de queijo na mão. — VOCÊ TÁ BEM, MINHA FILHA? TÁ ENJOADA? PRECISANDO DE UM MÉDICO?
Rafaella sentiu o sangue subir para o rosto instantaneamente. Ela olhou para Augusto, que fechou os olhos com força, prevendo o desastre.
— Por que eu estaria enjoada, Bernardo? — perguntou ela, tentando manter a voz firme.
— Ah, sei lá! — Bernardo riu, com uma expressão de falsa preocupação que não enganava ninguém. — É que a gente escutou uns gemidos meio gritados ontem à noite vindo do 204... Parecia que alguém estava sendo exorcizado ou que o capitão tinha feito um gol de placa! A gente ficou preocupado, né, galera?
O refeitório explodiu em gargalhadas e assobios. Algumas garotas olhavam para Rafa com inveja, outros rapazes batiam nas costas de Augusto, que agora estava tão vermelho quanto a camisa do time reserva.
Antes que Rafaella pudesse formular uma resposta atravessada ou que Augusto pulasse por cima da mesa para calar a boca do zagueiro, uma mão pesada pousou no ombro de Bernardo. Era Sofia, a namorada dele e uma das melhores amigas de Rafa, que tinha acabado de chegar com sua bandeja.
— Que chato você é, hein, Bernardo? — Sofia disse, revirando os olhos e sentando-se ao lado dele. — Pelo amor de Deus, parece que nunca viu um casal se curtindo. Até parece que você não faz igual, ou pior.
Bernardo engasgou com o suco de laranja, o rosto perdendo um pouco da cor enquanto os amigos agora riam dele.
— Eu? Eu sou discreto! — defendeu-se ele, sem muita convicção.
— Discreto como um elefante em uma loja de cristais — retrucou Sofia, dando um beijo na bochecha dele para acalmá-lo, mas logo voltando o olhar para Rafaella com uma piscadela de apoio. — Ignora ele, Rafa. É pura inveja porque o quarto de vocês tinha a melhor vista... em todos os sentidos.
Rafaella sorriu, sentindo a tensão diminuir. Augusto olhou para ela e soltou um suspiro de alívio, levantando sua caneca de café em um brinde silencioso.
O embarque no ônibus foi um caos organizado. Malas sendo jogadas no bagageiro, professores conferindo listas e o sol de meio-dia castigando o asfalto. Na hora de escolher os assentos, não houve dúvida. Augusto pegou a mochila de Rafa e a guiou para o fundo do ônibus, onde os bancos eram mais largos.
— Você se importa? — perguntou ele, apontando para o assento da janela.
— Com você ao meu lado? Nunca — respondeu ela.
Assim que o motor roncou e o ônibus começou a deixar Angra para trás, o cansaço da viagem e das noites mal dormidas começou a cobrar seu preço. O ônibus estava barulhento, com alguém tocando pagode no fundo e outros gritando piadas, mas para Rafa e Augusto, havia uma bolha de tranquilidade.
Ela encostou a cabeça no ombro dele, sentindo o perfume cítrico que ele usava misturado ao cheiro familiar de sua pele. Augusto passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para mais perto, e entrelaçou seus dedos nos dela. Eles foram assim, abraçados e juntinhos, durante as três horas de estrada. Em certos momentos, Augusto beijava o topo da cabeça dela, e Rafaella fechava os olhos, sentindo que, apesar de toda a exposição e das brincadeiras, valia a pena.
Quando o ônibus finalmente estacionou no pátio da escola, o cenário era o de sempre: pais esperando em seus carros, o portão de ferro cinza e a sensação de que a rotina estava prestes a recomeçar.
Assim que desceram, a "recepção" dos amigos foi imediata.
— E aí, pombinhos? — Thiago gritou, enquanto ajudava a descarregar as malas. — O romance sobrevive ao asfalto de São Paulo ou vai ficar enterrado na areia de Angra?
— Deixa os dois em paz, Thiago! — disse Carol, rindo. — Eles precisam de um banho e de dez horas de sono.
— Sono? — Bernardo apareceu do nada, com sua energia inesgotável. — Duvido que eles queiram dormir. Depois da performance de ontem, o capitão deve estar querendo renovar o contrato!
Augusto parou na frente de Bernardo, segurando sua mala e a de Rafa. Ele olhou para o amigo com um sorriso desafiador.
— O contrato está renovado e é vitalício, Bernardo. Agora, se você não quiser que eu conte para a Sofia sobre aquela sua coleção de meias do Bob Esponja que você levou para a viagem, eu sugiro que você mude de assunto.
Bernardo arregalou os olhos e fez um sinal de "zíper" na boca, afastando-se rapidamente.
Rafaella riu, sentindo o braço de Augusto envolver sua cintura. Alguns alunos que passavam ainda cochichavam e apontavam, mas a intensidade do que eles sentiam era maior do que qualquer fofoca de corredor.
— Você está bem? — perguntou Augusto, olhando-a nos olhos enquanto caminhavam em direção ao carro do pai dela.
— Estou maravilhosa — disse ela, parando e ficando na ponta dos pés para dar um beijo rápido nos lábios dele. — Apesar dos seus amigos serem os maiores idiotas do planeta.
— Eles são — concordou ele, rindo. — Mas eles têm razão numa coisa.
— No quê?
— Eu sou o cara mais sortudo dessa escola por ter ficado no quarto errado com a garota certa.
Rafaella abraçou-o com força, ignorando os assobios que vinham do grupo de jogadores de futebol perto do portão. A viagem tinha terminado, mas para o capitão do time e a garota inteligente e intensa, a verdadeira partida estava apenas começando. Eles atravessaram os portões da escola juntos, prontos para enfrentar as aulas, os treinos e, principalmente, cada novo capítulo que o destino — ou um erro de sistema — decidisse escrever para eles.