Lovely Complex
O Banho de Mar e o Cenário do Crime
O vapor quente preenchia o banheiro do quarto 204 como uma névoa densa, transformando o pequeno cubículo em uma espécie de refúgio particular. Depois de um dia inteiro sob o sol, com o sal do mar grudado na pele e a areia insistente em cada curva, a água doce era um alívio necessário. Mas, para Rafaella e Augusto, o banho não era apenas uma questão de higiene. Era o prolongamento da eletricidade que havia começado na cômoda pela manhã e explodido entre os lençóis à tarde.
Desta vez, não houve portas abertas por engano ou gritos de susto. Houve apenas um convite silencioso, um olhar trocado enquanto pegavam as toalhas e a certeza de que não queriam passar nem mais um segundo separados.
Debaixo do chuveiro, o espaço era apertado, o que só servia para aumentar a fricção entre seus corpos. Augusto, com seus ombros largos que pareciam ocupar metade do box, mantinha as mãos espalmadas nos azulejos, cercando Rafaella enquanto a água escorria por seus cabelos escuros. Ela, pequena e delicada em comparação a ele, deslizava o sabonete pelo peito definido do capitão, sentindo cada músculo se contrair sob seu toque.
— Você não tem ideia do quanto eu esperei por essa viagem — sussurrou Augusto, a voz misturando-se ao barulho da água batendo no chão. — Mas eu nunca, nem nos meus melhores sonhos, imaginei que terminaria assim.
Rafaella sorriu, inclinando a cabeça para trás para deixar a água lavar o rosto.
— Nem eu. Eu achei que passaria o tempo todo fugindo de você e das piadas dos seus amigos.
— E agora? — Ele desceu uma das mãos para a cintura dela, puxando-a para mais perto, o contato da pele molhada enviando faíscas por todo o corpo de Rafaella.
— Agora eu acho que as piadas deles são um preço pequeno a pagar — respondeu ela, antes de selar os lábios nos dele em um beijo lento, profundo e com gosto de shampoo de amêndoas.
Eles perderam a noção do tempo ali dentro. Entre carícias demoradas e o som rítmico da água, o mundo exterior parecia ter deixado de existir. Augusto era carinhoso, mas carregava aquela intensidade de quem sempre jogava para ganhar, e Rafaella, romântica e entregue, respondia a cada estímulo com uma paixão que o deixava zonzo.
Enquanto isso, do outro lado da porta, um tipo muito diferente de operação estava em curso.
Thiago, Leo, Bernardo e Pedro moviam-se com a agilidade de um esquadrão de elite — ou, pelo menos, o que adolescentes de dezoito anos consideravam ser elite. Eles tinham conseguido uma chave reserva com um funcionário do hotel que era primo de um deles, e a missão era clara: "dar uma força" para o capitão.
— Rápido, rápido! — sussurrou Thiago, equilibrando um braço cheio de flores que eles tinham "pegue emprestado" dos vasos do jardim do hotel. — Eles ainda estão no chuveiro, estou ouvindo a água.
— Cara, isso é muito ridículo — murmurou Leo, enquanto tentava, sem sucesso, dobrar uma toalha branca para que parecesse um cisne. — O meu parece um pato atropelado.
— Cala a boca e foca no romance, Leo! — Bernardo deu um tapa na nuca do amigo enquanto acendia algumas velas aromáticas que tinham comprado na lojinha de conveniência do posto de gasolina. — O Augusto é um bruto, ele precisa de um ambiente propício. Olha só isso aqui.
Eles espalharam pétalas de hibisco (as únicas que encontraram no jardim) sobre a cama que já estava minimamente arrumada. No centro, sobre os travesseiros, colocaram o "kit de sobrevivência": um tubo de lubrificante com embalagem neon e uma cartela de camisinhas estrategicamente posicionada.
— Pronto — disse Thiago, limpando o suor da testa e admirando o trabalho. — Ficou digno de uma suíte presidencial em Las Vegas. Ou de um motel de beira de estrada, o que vier primeiro.
— Vamos, eles vão sair! — avisou Pedro, ouvindo o som do registro do chuveiro sendo fechado.
Os quatro se esconderam atrás das cortinas pesadas e do armário embutido, segurando o riso e a respiração.
Dentro do banheiro, Augusto ajudava Rafaella a se secar, passando a toalha com uma lentidão provocativa por suas costas. Ela ria, sentindo-se protegida e desejada. Ele enrolou uma toalha na cintura e ela fez o mesmo, prendendo o tecido acima dos seios.
— Pronta? — perguntou ele, abrindo a porta do banheiro.
— Pronta para dormir doze horas seguidas — brincou ela, bocejando.
Mas, assim que atravessaram o batente, os dois estancaram. O quarto estava transformado. O cheiro doce das velas de baunilha era quase enjoativo, e as flores espalhadas davam ao local um ar de cenário de filme romântico de baixo orçamento.
— Mas o que... — a voz de Augusto morreu na garganta quando seus olhos pousaram nos cisnes de toalha tortos e, principalmente, no kit sobre o travesseiro.
Antes que Rafaella pudesse processar a cena, o quarto explodiu em som.
— SURPRESAAAAAA! — gritaram os quatro meninos, pulando de seus esconderijos como se tivessem acabado de ganhar a final da Champions League.
Thiago começou a assobiar, Bernardo batia palmas ritmadas e Leo fazia sons de "uh-huuul" enquanto apontava para a cama.
Rafaella sentiu o rosto queimar em um tom de vermelho que faria as pétalas de hibisco parecerem pálidas. Ela se encolheu instintivamente atrás de Augusto, apertando a toalha contra o corpo, o coração disparado de susto e vergonha.
Augusto, por outro lado, parecia estar prestes a entrar em combustão espontânea. Seus olhos faiscavam de raiva, e as veias de seu pescoço saltaram. Ele estava apenas de toalha, o que limitava drasticamente sua capacidade de partir para a agressão física, mas sua voz compensou a falta de roupas.
— VÃO PRO INFERNO, SEUS ANIMAIS! — berrou ele, a voz ecoando pelas paredes do quarto e, provavelmente, chegando até o saguão.
— Calma, capitão! — Thiago ria tanto que precisava se apoiar na parede para não cair. — A gente só veio garantir que o clima estivesse perfeito!
— SAIAM DAQUI AGORA! — Augusto deu um passo à frente, protegendo Rafaella com o próprio corpo, estendendo o braço para mantê-la escondida atrás de si. — EU VOU MATAR CADA UM DE VOCÊS AMANHÃ!
— SOMOS PREVENIDOS, AUGUSTO! — gritou Thiago, enquanto era empurrado em direção à porta por um Augusto furioso. — JÁ DISSE, NÃO QUEREMOS QUE VOCÊ TENHA UM FILHO AGORA, MAS QUEREMOS QUE VOCÊ APROVEITE E TENHA UMA EXPERIÊNCIA MAGNÍFICA! POR ISSO O LUBRIFICANTE, É DE MORANGO!
— FORA! FORA! — Augusto praticamente chutou o último deles para o corredor e bateu a porta com tanta força que um dos "cisnes" de toalha caiu no chão.
Ele encostou a testa na madeira da porta, respirando fundo, tentando controlar a pulsação. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som das risadas abafadas que ainda podiam ser ouvidas do lado de fora, conforme os meninos se afastavam pelo corredor.
Augusto se virou lentamente para encarar Rafaella. Ele esperava encontrá-la chorando de vergonha ou brava o suficiente para nunca mais falar com ele. Em vez disso, encontrou-a sentada na beira da cama, com a mão cobrindo a boca, os ombros sacudindo violentamente.
— Rafa? — perguntou ele, incerto.
Ela tirou a mão da boca e soltou uma gargalhada tão genuína e alta que ele acabou relaxando os ombros.
— "É de morango", Augusto! — ela conseguiu dizer entre os risos. — Eles compraram lubrificante de morango para você!
Augusto olhou para o tubo neon sobre o travesseiro e, apesar de toda a raiva, não conseguiu evitar que um sorriso de canto surgisse em seu rosto. Ele caminhou até a cama e sentou-se ao lado dela, jogando a cabeça para trás.
— Eu vou ter que pedir transferência de escola. Não tem outra saída.
— Ah, não seja dramático — disse ela, recuperando o fôlego e limpando uma lágrima de riso no canto do olho. — Foi ridículo, foi invasivo e foi completamente idiota... mas foi um pouco engraçado.
— Um pouco? — Augusto olhou para os cisnes de toalha. — O Leo tentou fazer um cisne e saiu um ganso com escoliose.
Eles riram juntos por alguns minutos, a tensão da interrupção sendo substituída por uma cumplicidade leve. Augusto envolveu os ombros de Rafaella com o braço, puxando-a para o seu peito.
— Desculpa por eles — murmurou ele, o tom agora mais sério e carinhoso. — Eu queria que essa noite fosse perfeita para você. Sem palhaçadas, sem interrupções. Só a gente.
Rafaella olhou para ele, vendo a sinceridade nos olhos castanhos que tanto a encantavam. Ela esticou o braço e pegou uma das pétalas de hibisco da cama, rodando-a entre os dedos.
— Augusto, a perfeição é superestimada. O que a gente teve hoje no mar, no chuveiro... isso é o que importa. Seus amigos são uns bobos, mas eles gostam de você. E, de um jeito muito torto, eles estão torcendo pela gente.
Augusto sorriu, beijando a testa dela.
— Você é gentil demais. Eu ainda vou fazer o Bernardo correr até as pernas caírem, mas talvez eu não os expulse do time.
— Justo — concordou ela.
Eles ficaram em silêncio por um momento, observando as velas que ainda queimavam espalhadas pelo quarto, criando sombras dançantes nas paredes. O cheiro de baunilha agora parecia menos enjoativo e mais acolhedor.
— Então — começou Rafaella, com um brilho travesso nos olhos, apontando para o kit no travesseiro —, o que vamos fazer com todos esses "presentes" que eles deixaram?
Augusto olhou para ela, sentindo o desejo reacender com força total. Ele se aproximou, o rosto a milímetros do dela, sentindo o calor que emanava de sua pele.
— Bom — disse ele, a voz descendo para aquele tom rouco que a fazia estremecer —, eu sou um capitão que não gosta de desperdiçar recursos. E, já que eles se deram ao trabalho de preparar o campo... acho que o mínimo que podemos fazer é jogar a partida.
Rafaella riu baixo, enlaçando o pescoço dele.
— Você e suas metáforas de futebol.
— Funciona, não funciona?
— Funciona perfeitamente.
Augusto a deitou suavemente sobre as pétalas de flores, as toalhas sendo esquecidas conforme o romance e a intensidade voltavam a dominar o ambiente. No final das contas, as flores eram improvisadas, as velas eram baratas e os amigos eram sem noção, mas o que acontecia entre Rafaella e Augusto era real, profundo e mais quente do que qualquer chama de vela.
Lá fora, o som do mar de Angra dos Reis continuava seu ritmo eterno, alheio às confusões da adolescência. No quarto 204, a noite estava apenas começando, e nem mesmo o time inteiro de futebol seria capaz de interromper o que o destino — e um erro de sistema — tinha unido.