Lua
Cinzas sob o Luar
O vento noturno do deserto era cortante, um contraste brutal com o calor opressor que havia consumido seus corpos horas antes. A areia, que servira de leito para a entrega frenética entre o Kazekage e o renegado, agora apenas sussurrava sob seus pés, recuperando sua frieza habitual. Gaara caminhava à frente, sua postura rígida e impecável, mas o peso da cabaça parecia diferente. Não era o peso físico da areia, mas o peso do que havia acontecido.
Atrás dele, Deidara mantinha um ritmo constante, embora seus passos fossem menos ruidosos que antes. O silêncio entre eles não era mais preenchido por insultos ou sarcasmo ácido. Era um silêncio denso, carregado de uma consciência mútua que nenhum dos dois estava pronto para traduzir em palavras. O efeito do jutsu "Névoa dos Desejos Incendiários" havia passado, mas o rastro que deixara em seus sistemas de chakra era como uma queimadura de sol: latejava suavemente, lembrando-os da temperatura da pele alheia.
— Você está andando rápido demais, hum — comentou Deidara, quebrando o silêncio. Sua voz estava rouca, e ele limpou a garganta, tentando recuperar o tom de descaso. — A Vila da Pedra não vai sair do lugar, Kazekage. Aqueles velhos rabugentos podem esperar mais algumas horas.
Gaara não parou, nem diminuiu o passo.
— Temos um cronograma a cumprir. O atraso causado pelo ataque já nos colocou em desvantagem. Se outros ninjas estiverem vigiando esta rota, estamos vulneráveis.
Deidara soltou uma risada seca, o som ecoando pelas paredes de pedra do desfiladeiro.
— Vulneráveis? Você acabou de me desarmar, me prender e... bem, você sabe. Se alguém nos atacar agora, eu sou apenas um peso morto com algemas de selamento. A menos que você planeje usar aquele seu "abraço de areia" para me proteger de novo.
Gaara parou abruptamente. Ele se virou, e o luar refletiu-se em seus olhos verdes, que pareciam mais profundos do que o normal.
— O que aconteceu não foi planejado — disse Gaara, a voz baixa e firme. — Foi uma armadilha. Não confunda a reação química de um jutsu com uma mudança na nossa realidade. Você ainda é um criminoso, e eu ainda sou o seu carcereiro.
Deidara sustentou o olhar. O cabelo loiro estava bagunçado, alguns fios grudados na testa pelo suor que ainda não havia secado completamente. Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância, desafiando a barreira invisível que Gaara tentava reconstruir.
— Reação química, é? — Deidara sorriu, um sorriso torto e perigoso. — Você é um ótimo mentiroso para alguém que mal fala, Gaara. Eu vi seus olhos. Eu senti como suas mãos tremiam quando você tocou as bocas nas minhas palmas. Aquilo não foi só a névoa. A névoa só abriu a porta que você mantém trancada com sete chaves dentro dessa sua alma de areia.
A areia na cabaça de Gaara agitou-se, um ruído seco de grãos colidindo. Era o sinal físico de sua irritação, ou talvez de seu desconforto.
— Não presuma conhecer o que sinto — rebateu Gaara. — Minha vida foi construída sobre o controle. O que você viu foi a perda desse controle, nada mais.
— A arte é justamente isso! — exclamou Deidara, gesticulando com as mãos algemadas. — A arte é o momento em que o controle se rompe e algo novo, explosivo e efêmero nasce! O que fizemos lá atrás... foi a coisa mais real que eu senti em anos. Mais real do que as ordens do Pain ou as explosões que eu causo. Foi uma explosão interna, hum.
Gaara desviou o olhar para o horizonte, onde as estrelas pareciam observar a insignificância de suas discussões.
— A arte de que você tanto fala é destruição — disse o Kazekage. — Eu passei a minha vida tentando construir algo que não pudesse ser destruído.
— E é por isso que você é tão entediante na maior parte do tempo — Deidara deu de ombros, embora houvesse uma nota de melancolia em seu tom. — Mas hoje... hoje você não foi entediante.
Eles voltaram a caminhar, mas a tensão havia mudado de forma. Não era mais o desejo bruto que os impelia, mas uma curiosidade mórbida. Gaara, que sempre fora cercado por paredes — físicas e emocionais —, sentia que Deidara havia encontrado uma rachadura. E o pior era que Gaara não tinha certeza se queria consertá-la.
Cerca de uma hora depois, o terreno começou a subir. Eles estavam entrando nas Colinas de Granito, o prelúdio para o território montanhoso do País da Terra. Gaara avistou uma pequena caverna, parcialmente oculta por uma formação rochosa.
— Vamos parar aqui — anunciou Gaara. — A temperatura vai cair drasticamente nas próximas horas. Precisamos descansar antes de cruzar a fronteira final.
— Finalmente uma decisão sensata — resmungou Deidara, deixando-se cair no chão da caverna assim que entraram.
Gaara posicionou-se na entrada, as costas encostadas na rocha, vigiando a escuridão lá fora. Ele não acendeu uma fogueira; a luz atrairia atenção indesejada. Com um gesto simples, ele comandou a areia para criar uma camada fina sobre o chão, isolando o frio da pedra.
Deidara observava os movimentos precisos de Gaara. Havia uma elegância solitária no Kazekage que o irritava e o atraía ao mesmo tempo.
— Ei, Kazekage — chamou Deidara, a voz ecoando suavemente nas paredes da caverna.
Gaara não se virou.
— Diga.
— Por que você não me matou naquela época? Quando a Akatsuki foi atrás de você? Você tinha todos os motivos do mundo para querer minha cabeça em uma bandeja.
— O ódio não é mais o que guia minhas ações — respondeu Gaara calmamente. — Matar você não traria de volta o que foi perdido. Além disso, a aliança entre as vilas exige que a justiça seja feita pelas mãos de Iwagakure.
— Justiça... — Deidara cuspiu a palavra. — Onoki vai me usar como exemplo. Ele vai transformar minha execução em um espetáculo de autoridade. Ele odeia o fato de eu ter provado que a arte dele é estática e morta, enquanto a minha é viva e vibrante.
Gaara finalmente olhou para ele. Deidara estava sentado com as pernas cruzadas, as algemas repousando em seu colo. Sob a luz pálida da lua que penetrava na caverna, ele parecia menos um terrorista internacional e mais um jovem consumido por sua própria paixão desmedida.
— Você tem medo? — perguntou Gaara.
Deidara hesitou. Seus olhos azuis brilharam com uma centelha de orgulho.
— Medo? Um artista nunca tem medo do fim. O fim é a conclusão da obra. Mas... eu preferia que minha última explosão fosse nos meus próprios termos. Ser executado em uma praça pública por um bando de ninjas burocratas... isso não tem estética nenhuma. É um insulto.
Gaara sentiu uma pontada de algo que reconheceu como empatia. Ele também já fora um pária, alguém cujo valor era medido apenas pela utilidade ou pelo perigo que representava.
— Se você tivesse a chance de mudar... — começou Gaara, mas Deidara o interrompeu com uma risada amarga.
— Mudar para quê? Para me tornar um "bom ninja" como você? Para sentar atrás de uma mesa e assinar papéis enquanto o mundo lá fora continua cinza e sem brilho? Não, Gaara. Eu sou o que sou. Eu sou a argila que explode. Eu sou o momento que brilha e desaparece.
O Kazekage aproximou-se lentamente. Ele se sentou a uma distância segura, mas ainda assim perto o suficiente para que pudessem sentir o calor um do outro no espaço confinado.
— Você fala da sua arte como se ela fosse a única coisa que lhe resta — observou Gaara.
Deidara olhou para suas próprias mãos. As bocas nas palmas estavam quietas, mas ele sentia a fome delas.
— E é. Sem a minha arte, eu sou apenas um renegado sem lar. Pelo menos, quando eu explodo algo, as pessoas são forçadas a olhar. Elas não podem me ignorar.
Gaara estendeu a mão. Ele hesitou por um momento, a memória do toque de Deidara ainda fresca em sua mente, e então colocou a mão sobre as mãos algemadas do loiro. O metal frio das algemas estava entre eles, mas o contato da pele foi instantâneo.
— Eu nunca o ignorei — disse Gaara, a voz quase um sussurro. — Desde o momento em que você entrou no meu espaço aéreo em Suna, eu o vi.
Deidara sentiu um nó na garganta. Ele não estava acostumado com aquele tipo de honestidade, com aquela vulnerabilidade despida de sarcasmo. Ele inclinou o corpo para frente, as testas quase se tocando.
— Então por que está me entregando? — perguntou Deidara, a urgência voltando à sua voz. — Você é o Kazekage. Você poderia dizer que eu escapei. Poderia dizer que o ninja do jutsu me matou e levou meu corpo. Por que seguir as regras de um mundo que nunca nos quis?
— Porque se eu quebrar as regras para satisfazer um desejo pessoal, eu me torno exatamente o que eles temiam que eu fosse — explicou Gaara, embora sua mão apertasse a de Deidara com mais força. — Eu carrego o peso de uma vila inteira. Minha honra é a honra de Suna.
Deidara fechou os olhos, soltando um suspiro pesado.
— Você é um homem torturado, Gaara. É uma pena. Você seria um artista incrível se deixasse tudo queimar.
— Talvez — admitiu Gaara. — Mas o fogo que você tanto ama também consome quem o carrega.
O silêncio voltou, mas desta vez era mais íntimo. Deidara deitou a cabeça no ombro de Gaara. Era um gesto de rendição que ele nunca admitiria em voz alta. Gaara não se afastou. Pelo contrário, ele envolveu o corpo de Deidara com um braço, permitindo que o loiro encontrasse algum conforto na dureza de sua armadura de areia.
— Se este é o meu fim — murmurou Deidara, a voz abafada pelo tecido da túnica de Gaara —, eu fico feliz que tenha sido você a me levar. Pelo menos você entende o que é ser uma arma.
Gaara fechou os olhos, sentindo o cheiro de argila e de algo doce que ainda emanava de Deidara — o resquício da névoa, ou talvez apenas a essência do homem.
— Você não é apenas uma arma, Deidara. Nem eu.
Eles ficaram assim por muito tempo, dois pontos de calor em uma caverna fria, cercados por um deserto que não perdoava fraquezas. Gaara sabia que, ao amanhecer, ele teria que ser o Kazekage novamente. Ele teria que levantar, prender as algemas com firmeza e entregar o homem em seus braços ao carrasco. Mas, por aquela noite, sob a proteção das sombras, eles eram apenas dois seres humanos tentando encontrar sentido no caos que os unira.
Quando a primeira luz do sol começou a pintar o horizonte de um rosa pálido, lembrando-os cruelmente da névoa que causara tudo aquilo, Deidara se afastou. Ele se levantou, limpando a poeira das roupas e recuperando sua máscara de arrogância.
— O sol está nascendo, hum — disse Deidara, sem olhar para Gaara. — Hora de voltar ao trabalho, Kazekage.
Gaara levantou-se com a calma habitual. Ele pegou a corrente das algemas e puxou-a levemente, sinalizando para Deidara segui-lo.
— Sim. Temos um longo caminho hoje.
Enquanto saíam da caverna, Deidara parou por um segundo e olhou para o lugar onde haviam dormido.
— Ei, Gaara!
O ruivo parou, esperando.
— Se eu conseguir escapar... e eu vou escapar, hum... eu vou voltar para Suna. Não para lutar.
Gaara arqueou uma sobrancelha.
— E para que viria?
Deidara deu um sorriso largo, o sol nascente iluminando seu rosto de uma forma que o fazia parecer quase angelical, se não fosse pelo brilho travesso nos olhos.
— Para ver se você ainda lembra como se perde o controle. A arte exige prática, sabe?
Gaara não respondeu, mas enquanto voltava a caminhar em direção às montanhas de Iwagakure, um pequeno e quase imperceptível sorriso surgiu em seus lábios. O deserto podia ser vasto e impiedoso, mas ele sabia que aquela jornada estava longe de ser apenas uma transferência de prisioneiro. Era o início de algo que nem a areia, nem as explosões, poderiam apagar facilmente.
Eles seguiram em frente, dois vultos contra a imensidão do País da Terra, carregando consigo o segredo de uma tarde de prazer e uma noite de confissões, enquanto o mundo ninja continuava a girar, alheio à pequena revolução que ocorrera entre o Kazekage e o artista da Akatsuki.