Lua
O Eco do Vento e a Promessa de Argila
O gabinete do Kazekage estava mergulhado em um silêncio que apenas o deserto sabia proporcionar. Gaara observava, através da grande janela circular, o sol se pondo atrás das dunas de Sunagakure. O céu se tingia de um laranja profundo, quase da cor de seus próprios cabelos, mas sua mente estava a quilômetros dali, em um desfiladeiro rochoso onde a lógica havia se perdido entre névoas rosadas e toques febris.
Havia se passado seis meses desde que ele entregara Deidara às autoridades de Iwagakure. A imagem do loiro sendo levado por guardas da Vila da Pedra, com o olhar fixo nele e aquele sorriso desafiador, ainda o assombrava durante as noites de insônia. Gaara cumprira seu dever. Ele era o Kazekage, o pilar de Suna, e não poderia permitir que uma tarde de delírio induzido por um jutsu alterasse o destino das nações.
Um toque suave na porta interrompeu seus pensamentos. Temari entrou, carregando um pergaminho com o selo oficial de inteligência da Vila da Terra.
— Gaara, chegou um relatório urgente de Iwa — disse ela, sua expressão era uma mistura de preocupação e uma ponta de irritação. — O prisioneiro de alto nível, Deidara... ele escapou.
Gaara não se moveu, mas seus dedos apertaram levemente a borda da mesa.
— Como? — Sua voz saiu calma, como sempre, mas o interior de seu peito parecia uma tempestade de areia contida.
— De acordo com o Tsuchikage, ele conseguiu contrabandear uma pequena quantidade de argila explosiva de dentro da própria prisão. Ele detonou a ala de segurança máxima durante a troca de guardas. Não houve mortes, curiosamente, apenas uma destruição massiva da infraestrutura. Ele deixou uma mensagem na parede da cela escrita com fumaça: "A arte não pode ser enjaulada".
Temari suspirou, cruzando os braços.
— Aquele lunático está solto de novo. O conselho quer reforçar as patrulhas nas fronteiras, temem que ele busque vingança contra as vilas que o capturaram.
— Não — disse Gaara, finalmente se virando. — Ele não busca vingança.
— Como pode ter tanta certeza? — questionou a irmã, arqueando uma sobrancelha.
Gaara olhou para o horizonte, onde a primeira estrela começava a brilhar.
— Ele tem um senso de estética muito particular. Vingança é um sentimento pesado e duradouro. Deidara prefere o que é efêmero. Ele não voltará para destruir Suna.
— Espero que você esteja certo, Gaara. Vou avisar o Kankuro para manter a guarda alerta, por precaução.
Quando Temari saiu, Gaara sentou-se novamente. "Se eu conseguir escapar... eu vou voltar para Suna". As palavras dele ecoavam em sua mente. Gaara sabia que era apenas uma questão de tempo.
Duas semanas se passaram. A rotina administrativa de Suna era exaustiva, mas Gaara a enfrentava com a disciplina de um monge. No entanto, naquela noite específica, a areia dentro de sua cabaça parecia agitada. Ela vibrava contra suas costas, um aviso silencioso que apenas o Jinchūriki — ou ex-Jinchūriki — poderia interpretar.
Ele dispensou os guardas da porta de seus aposentos privados, alegando que precisava de meditação profunda. Assim que ficou sozinho na varanda de sua residência, ele sentiu. Um deslocamento de ar, um rastro de chakra que não pertencia a ninguém da vila.
— Sabe, Kazekage... — Uma voz arrastada e cheia de sarcasmo veio do telhado acima. — A segurança de Suna melhorou, mas ainda tem pontos cegos que um pássaro de argila consegue encontrar facilmente, hum.
Gaara não se sobressaltou. Ele fechou os olhos por um breve segundo, sentindo o pulso acelerar contra sua vontade.
— Você demorou mais do que eu esperava, Deidara.
O loiro saltou do telhado, aterrissando com a leveza de um gato na varanda. Ele não usava mais o manto da Akatsuki, mas sim trajes ninjas simples e escuros que contrastavam com seu cabelo vibrante. Ele não tinha algemas, e as bocas em suas mãos pareciam mastigar o ar com antecipação.
— Tive que despistar alguns cães de caça do Velho Onoki — disse Deidara, aproximando-se. Ele parou a poucos passos de Gaara, estudando o rosto do ruivo sob o luar. — Você parece cansado. A papelada está matando o grande Kazekage?
— É o fardo que escolhi carregar — respondeu Gaara, virando-se para encará-lo. — Você é um homem procurado, Deidara. Eu deveria prendê-lo agora mesmo.
Deidara soltou uma risada curta e deu um passo para dentro do espaço pessoal de Gaara.
— Você poderia tentar. Mas nós dois sabemos que você não mandou reforços para cá. Você estava me esperando.
O silêncio que se seguiu foi carregado de uma eletricidade que não vinha de nenhum jutsu elemental. Era a mesma tensão do deserto, a mesma gravidade que os unira meses atrás.
— Você disse que voltaria para ver se eu ainda lembrava — sussurrou Gaara, sua voz perdendo a autoridade do cargo e tornando-se apenas a voz de um homem.
— E então? — Deidara levantou a mão, tocando levemente o símbolo de "amor" na testa de Gaara com as pontas dos dedos. — Você ainda lembra da explosão, Gaara? Ou a areia já soterrou tudo o que sentimos?
Gaara fechou os olhos ao toque. A pele de Deidara ainda era quente, e o cheiro de pólvora e argila era como um gatilho para memórias que ele tentara, sem sucesso, suprimir.
— Eu não esqueci — admitiu Gaara. — É impossível esquecer algo que mudou a percepção do meu próprio corpo.
Deidara sorriu, um sorriso que não tinha nada de maligno, apenas uma satisfação genuína e predatória.
— Ótimo. Porque eu passei cada maldita noite naquela cela de pedra pensando em como você ficava sob o luar. Em como sua areia tentava nos proteger enquanto você perdia o fôlego. Aquilo foi arte, Gaara. E eu quero um bis.
Sem esperar por uma resposta, Deidara puxou Gaara pelo colarinho de sua túnica vermelha. O beijo foi imediato e faminto, uma colisão de urgências acumuladas. Gaara respondeu com a mesma intensidade, suas mãos subindo para segurar o rosto de Deidara, os dedos se perdendo nos fios loiros.
Eles se moveram para dentro do quarto, a areia de Gaara fechando as cortinas e trancando a porta da varanda automaticamente, criando um casulo de privacidade absoluta. Não havia névoa desta vez. Não havia substâncias alquímicas ou genjutsus forçando seus desejos. Era uma escolha consciente, uma rendição mútua ao que havia começado na poeira do deserto.
— Dessa vez... — Deidara ofegou, enquanto Gaara desfazia os nós de sua camisa — ...não tem desculpas diplomáticas, hum. É só você e eu.
— Eu sei — disse Gaara, sua voz rouca, enquanto empurrava Deidara contra a cama.
O contraste entre eles era fascinante. Gaara era a terra, a estabilidade, a força que resistia ao tempo. Deidara era o fogo, o movimento, a faísca que buscava o consumo imediato. Quando se tocavam, pareciam criar um novo elemento, algo que não pertencia a nenhuma vila ou nação.
As mãos de Deidara percorriam as costas de Gaara, as bocas em suas palmas deixando marcas úmidas e sensações elétricas por onde passavam. Gaara soltou um gemido baixo, o som vibrando no peito de Deidara. O Kazekage, sempre tão contido e cerimonioso, desmoronava sob o toque do renegado. Suas mãos exploravam o corpo esguio de Deidara com uma curiosidade quase desesperada, como se estivesse tentando memorizar cada curva, cada cicatriz, antes que o sol nascesse.
— Você... — Deidara arqueou as costas quando Gaara mordeu levemente seu pescoço — ...você é muito mais perigoso do que eles dizem, hum.
— E você é muito mais barulhento do que um ninja deveria ser — retrucou Gaara, embora houvesse uma suavidade em seu olhar que ele raramente mostrava ao mundo.
Eles se perderam em um ritmo próprio, uma dança de pele contra pele que desafiava as leis da guerra e da política. Naquele quarto, o líder de Suna e o terrorista da Akatsuki não existiam. Havia apenas dois jovens que haviam sido transformados em armas desde cedo e que, pela primeira vez, usavam seu calor não para destruir, mas para sentir.
Horas depois, quando a lua já estava alta e o silêncio voltara a reinar nos aposentos, eles ficaram deitados, os corpos ainda entrelaçados. Deidara descansava a cabeça no peito de Gaara, ouvindo o batimento rítmico e calmo do coração do Kazekage.
— Você vai embora antes do amanhecer — afirmou Gaara. Não era uma pergunta, era uma constatação da realidade.
— Eu tenho que ir — disse Deidara, brincando com um grão de areia que flutuava perto dele. — Se eu ficar, você terá que me prender. E se você me prender, eu terei que explodir sua vila para sair. Seria um desperdício de uma boa noite.
Gaara suspirou, passando a mão pelos cabelos bagunçados de Deidara.
— Para onde você vai?
— Para onde o vento soprar a minha argila — Deidara levantou a cabeça, olhando nos olhos de Gaara. — Mas não se preocupe. A arte é cíclica. Ela sempre volta para onde encontrou inspiração.
Gaara sentou-se, observando o loiro se vestir com movimentos ágeis. O momento de vulnerabilidade estava se fechando, dando lugar novamente às máscaras que ambos precisavam usar para sobreviver no mundo shinobi.
— Eu não posso protegê-lo se você for pego novamente — disse Gaara seriamente.
Deidara parou na janela da varanda, a luz da lua desenhando sua silhueta. Ele olhou por cima do ombro e sorriu — o mesmo sorriso que dera no deserto, mas com uma nova camada de cumplicidade.
— Não preciso de proteção, Kazekage. Preciso apenas de um público que valha a pena. E você... — Ele apontou para Gaara — ...você é o melhor público que um artista como eu poderia desejar.
Com um movimento rápido, Deidara moldou um pequeno pássaro de argila. A criatura cresceu instantaneamente ao sair da varanda. Ele saltou sobre o pássaro, ganhando altitude rapidamente.
— Até a próxima explosão, Gaara! — gritou ele, sua voz sumindo no vento noturno.
Gaara ficou na varanda até que o rastro de chakra de Deidara desaparecesse completamente. Ele tocou o próprio pescoço, onde a pele ainda ardia levemente. Ele sabia que, na manhã seguinte, teria que lidar com relatórios, conselheiros e a busca pelo fugitivo. Ele teria que ordenar que seus ninjas ficassem alerta.
Mas, enquanto observava o deserto vasto e silencioso, Gaara sentiu uma paz que o cargo de Kazekage nunca lhe dera. Ele sabia que Deidara voltaria. Porque, assim como a areia sempre retorna ao chão após a tempestade, o fogo sempre busca o que o faz queimar mais forte.
Ele entrou no quarto, e a areia limpou os vestígios da presença de Deidara, deixando apenas o cheiro persistente de algo doce e explosivo no ar. Gaara deitou-se e, pela primeira vez em muito tempo, dormiu um sono profundo e sem sonhos, sabendo que a promessa de argila fora cumprida e que o deserto ainda guardava os segredos mais intensos de sua vida.