Luca hass
O Protocolo do Protetor Bucal e Outras Burocracias de "Pai"
A vida em Montreal durante o inverno era um teste de resistência para qualquer um, mas para Luca, era como viver dentro de um globo de neve onde dois gigantes russos e canadenses controlavam o clima. Três semanas haviam se passado desde que ele se mudara oficialmente para a cobertura de Shane e Ilya, e a rotina de ser o "projeto de estimação" da dupla de estrelas da NHL já estava tão enraizada que ele começava a esquecer como era tomar uma decisão sozinho.
Naquela manhã de terça-feira, o termômetro marcava dezessete graus negativos. Luca estava na cozinha, tentando discretamente alcançar a caixa de cereais açucarados que ele havia escondido atrás das latas de suplemento de proteína orgânica de Ilya.
— Nem pense nisso, malysh — a voz de Ilya trovejou do corredor, mesmo sem ele estar no campo de visão.
Luca congelou, a mão ainda esticada.
— É só um pouco, Ilya! O açúcar ajuda no metabolismo rápido!
Ilya entrou na cozinha vestindo apenas uma calça de moletom cinza, o cabelo loiro bagunçado e uma expressão de desaprovação que faria um árbitro da liga tremer. Ele caminhou até Luca, pegou a caixa de cereal da mão dele e a colocou na prateleira mais alta — uma que Luca, com seus 1,78m, precisaria de uma escada para alcançar.
— Shane fez panquecas de aveia e mirtilo. Estão no forno mantendo o calor. Coma comida de verdade, não papelão colorido.
— Shane é um exagerado e você é o cúmplice dele — resmungou Luca, embora já estivesse caminhando em direção ao forno. O cheiro, para ser honesto, era divino.
— Shane se preocupa. Eu me preocupo — Ilya corrigiu, sentando-se à mesa e servindo-se de um café tão forte que poderia ser usado para tirar tinta de parede. — Hoje é dia de folga, mas o treinador quer você na sala de vídeo às onze. Eu vou te levar.
— Eu posso dirigir, Ilya. Eu tirei minha licença, lembra?
— As estradas estão com gelo negro — disse Shane, entrando na sala enquanto abotoava uma camisa social. Ele parecia pronto para uma reunião de negócios, o epítome do capitão responsável. — E o seu carro é muito leve. Você vai conosco no SUV. É mais seguro.
Luca revirou os olhos, mas a resistência era mínima. Havia uma parte dele, uma parte que ele nunca admitiria em voz alta, que adorava o fato de não ter que se preocupar com gelo negro ou trânsito.
— Tudo bem, tudo bem. Mas eu escolho a música. Nada de ópera russa ou aquelas playlists de "foco extremo" do Shane que só têm batidas de metrônomo.
Shane riu, aproximando-se de Luca e bagunçando seu cabelo, um gesto que já se tornara um reflexo.
— Combinado, garoto. Mas termine essas panquecas. Se você perder um quilo, o Ilya vai achar que eu estou te matando de fome e eu vou ter que aguentar o mau humor dele o dia todo.
— Eu não tenho mau humor — mentiu Ilya, sem tirar os olhos do tablet.
— Ontem você quase quebrou o taco de um novato do time reserva só porque ele esbarrou no Luca durante o aquecimento — Shane lembrou, arqueando uma sobrancelha.
— Ele foi imprudente — Ilya justificou-se com um dar de ombros casual. — Luca é pequeno. Ele precisa de espaço para manobrar. Se os outros não dão espaço, eu crio o espaço.
Luca sentiu o rosto esquentar.
— Eu não sou tão pequeno assim, Ilya! Eu jogo na NHL!
— Para nós, você é minúsculo — Shane disse suavemente, depositando um beijo rápido no topo da cabeça de Luca antes de ir pegar seu café. — Um minúsculo e talentoso ponta-esquerda que precisa de proteção.
O trajeto para o Bell Centre foi exatamente como previsto. Luca colocou um pop chiclete que fez Ilya suspirar pesadamente a cada trinta segundos, enquanto Shane tamborilava os dedos no volante, ocasionalmente apontando pontos turísticos de Montreal e contando histórias de seus primeiros anos na liga.
Quando chegaram ao vestiário, o ambiente estava relaxado. A maioria dos jogadores estava em trajes civis, bebendo café e jogando cartas. Mas, no momento em que o "Trio Maravilha" — como alguns jornalistas começavam a chamá-los, para desgosto de Luca — entrou, o tom mudou.
— Olha só, a creche chegou! — brincou Harris, um dos defensores. — Onde está o carrinho de bebê, Hollander?
Shane nem se abalou. Ele apenas apontou para Harris com dois dedos.
— Cuidado, Harris. Lembre-se de quem decide quem fica no primeiro par de defesa no próximo power play.
O vestiário explodiu em risadas, e Luca aproveitou a distração para se esgueirar até seu armário. Ele estava verificando seu equipamento quando sentiu uma sombra sobre ele.
— Luca.
Era Ilya. Ele segurava um pequeno objeto de plástico azul.
— O que foi agora?
— Seu protetor bucal. Você o deixou na mesa de cabeceira.
— Eu não ia precisar dele para a sala de vídeo, Ilya!
— E se você decidir ir para o gelo depois? Ou se tropeçar no tapete? — Ilya perguntou, com uma seriedade mortal. — Pegue. E coloque na bolsa. Agora.
Luca bufou, pegando o protetor.
— Você é impossível.
— Eu sou eficiente — Ilya corrigiu, dando um tapinho no rosto de Luca antes de se afastar para conversar com o treinador.
A sessão de vídeo foi longa e tediosa. O treinador estava focado em corrigir a cobertura defensiva, o que significava que Luca recebeu várias críticas sobre seu posicionamento. A cada vez que o vídeo era pausado e o círculo vermelho circulava Luca, ele sentia o peso da pressão. Ele queria ser perfeito. Ele queria mostrar que merecia estar ali, não apenas pelo talento, mas pela maturidade.
Ao final da sessão, Luca estava visivelmente murcho. Ele saiu da sala de vídeo de cabeça baixa, indo direto para o banco do vestiário.
Ele não notou quando Shane e Ilya trocaram um olhar silencioso do outro lado da sala. Era uma comunicação não-verbal que eles haviam aperfeiçoado ao longo de anos de rivalidade e meses de romance. *O garoto está triste. Operação Recuperação iniciada.*
— Ei — Shane disse, sentando-se ao lado de Luca e passando o braço pelos seus ombros. — O treinador pega pesado com quem ele vê potencial, Luca. Ele não estaria gritando com você se achasse que você não consegue fazer melhor.
— Eu sei — murmurou Luca. — Mas eu me senti um idiota lá dentro.
— Você não é idiota — a voz de Ilya veio de trás dele. O russo colocou as mãos grandes nos ombros de Luca, apertando os músculos tensos. — Você é jovem. Você comete erros de jovens. Meu primeiro ano em Washington foi um desastre defensivo. Eu só queria marcar gols e bater nas pessoas.
— Sério? — Luca olhou para cima, surpreso.
— Sério — confirmou Shane. — Ele era um pesadelo para os treinadores. E eu? Eu costumava ficar tão nervoso antes dos jogos que passava metade do tempo no banheiro.
Luca soltou uma risadinha, a tensão começando a se dissipar.
— Vocês dois? Os grandes astros?
— Todos começam de algum lugar, malysh — disse Ilya. — Agora, chega de cara triste. Vamos para casa. Shane e eu decidimos que hoje é noite de pizza.
Os olhos de Luca brilharam.
— Pizza? Mas e a dieta? E os vegetais? E a proteína orgânica?
— Uma noite não vai te matar — Shane piscou. — E nós vamos assistir àquele filme de super-herói que você queria ver. O de três horas de duração.
— Com pipoca? — Luca arriscou, testando os limites.
Ilya suspirou, fingindo sofrimento.
— Com pipoca. Mas amanhã você vai patinar dez minutos extras comigo para queimar a gordura trans.
— Fechado!
O resto do dia foi um borrão de conforto doméstico. Eles pararam na melhor pizzaria da cidade, onde Shane insistiu em pedir três pizzas diferentes porque "Luca está em fase de crescimento". Em casa, a cobertura estava aquecida e acolhedora.
Luca se viu novamente no meio do sofá, imprensado entre os dois. Ilya estava com um notebook no colo, provavelmente analisando estatísticas, mas sua mão livre estava descansando nas costas de Luca, um toque constante e aterrador. Shane estava encarregado do controle remoto e de distribuir as fatias de pizza.
— Esta é a melhor parte do dia — Luca admitiu, com a boca cheia de queijo.
— Não fale de boca cheia — Ilya repreendeu automaticamente, mas havia um sorriso brincando nos cantos de seus lábios.
— Deixe o garoto comer, Ilya — Shane defendeu, rindo. — Ele teve um dia longo.
Enquanto o filme passava, Luca sentiu a exaustão física e emocional do dia finalmente o atingir. O calor do apartamento, o estômago cheio e a presença constante de seus mentores criavam uma sensação de segurança que ele nunca havia experimentado fora da casa de seus pais.
Aos poucos, sua cabeça começou a pender para o lado, acabando por descansar no ombro sólido de Shane. Shane imediatamente ajustou sua posição, puxando Luca para mais perto e descansando a própria cabeça sobre a do jovem.
Ilya, percebendo o movimento, fechou o notebook silenciosamente. Ele esticou o braço e puxou a manta de lã que ficava no encosto do sofá, cobrindo as pernas de Luca com um cuidado quase cirúrgico.
— Ele apagou — sussurrou Shane, olhando para o rosto sereno de Luca.
— Ele trabalha demais — Ilya respondeu no mesmo tom baixo. — Ele quer provar para todo mundo que não é uma criança. Mas ele não entende que, para nós, ele sempre será o nosso garoto.
Shane sorriu, observando a luz da televisão refletir nos olhos de Ilya. Havia uma suavidade no russo que poucas pessoas no mundo tinham o privilégio de ver. A rivalidade que antes os definia agora parecia uma vida inteira atrás deles, substituída por essa estranha e maravilhosa unidade familiar que haviam construído.
— Você acha que estamos exagerando? — perguntou Shane. — O superprotecionismo, quero dizer.
Ilya olhou para Luca, depois para Shane.
— O mundo do hóquei é brutal, Shane. Você sabe disso. Eles tentam tirar tudo de você — sua alegria, sua saúde, sua infância. Se nós podemos dar a ele mais alguns anos de tranquilidade, por que não faríamos isso?
Shane assentiu, concordando plenamente.
— Você tem razão. Ele é especial.
De repente, Luca se mexeu durante o sono, resmungando algo ininteligível e se aninhando ainda mais contra Shane.
— O que ele disse? — perguntou Ilya.
— Acho que ele disse "mais pizza" — Shane riu baixinho.
— Ou talvez ele tenha dito "obrigado, papais" — Ilya provocou, com um brilho malicioso nos olhos.
Shane revirou os olhos.
— Não deixe ele te ouvir dizendo isso quando estiver acordado. Ele vai se mudar para um hotel em cinco minutos.
— Ele não iria — Ilya disse com confiança. — Ele gosta do meu café. E das suas panquecas. E ele sabe que ninguém mais no mundo vai arrumar a mala dele com três tipos diferentes de moletons da sorte.
Eles ficaram ali por mais uma hora, assistindo ao filme em silêncio enquanto Luca dormia profundamente entre eles. Quando os créditos finalmente começaram a subir, Ilya se levantou com cuidado para não acordar o novato.
— Eu o levo para cima? — perguntou Ilya.
— Deixe-o aqui por enquanto — Shane sugeriu. — Está confortável. E, para ser honesto, eu não quero me mexer.
Ilya voltou a se sentar, desta vez puxando as pernas de Luca para cima do seu colo, completando o cerco de proteção.
Naquela noite, Luca não teve pesadelos com treinadores gritando ou discos perdidos. Ele sonhou com o som das lâminas no gelo e com o calor de uma casa que, contra todas as probabilidades, se tornara seu verdadeiro lar.
Na manhã seguinte, a rotina recomeçaria. Haveria treinos, críticas, viagens e a pressão constante da liga. Mas, enquanto houvesse panquecas de aveia, protetores bucais azul-claro e dois veteranos teimosos cuidando de cada passo seu, Luca sabia que ficaria bem.
Afinal, ser o bebê da equipe tinha suas vantagens. E ele não trocaria seu lugar naquele sofá por nenhum troféu individual do mundo.
— Ei, malysh — a voz de Ilya o despertou suavemente horas depois, quando a luz da lua entrava pelas grandes janelas da sala. — Hora de ir para a cama de verdade.
Luca abriu os olhos, piscando sonolento. Ele viu Shane sorrindo para ele e Ilya estendendo a mão para ajudá-lo a levantar.
— Eu dormi o filme todo, não foi?
— Quase todo — mentiu Shane. — Mas não se preocupe, nós te contamos o final amanhã.
— Vocês são os melhores — Luca murmurou, tropeçando de sono enquanto era guiado em direção às escadas.
— Nós sabemos — Ilya respondeu, fechando a porta do quarto de Luca e garantindo, como sempre, que ela ficasse exatamente cinco centímetros entreaberta. — Nós sabemos.