Luca hass
O Som do Silêncio e o Cheiro de Bacon
A manhã em Montreal começou com o som suave da neve batendo contra as janelas panorâmicas da cobertura. Dentro do apartamento, o ambiente era o oposto do frio cortante lá fora: o ar estava impregnado com o aroma de café recém-passado e o chiado reconfortante de bacon na frigideira. Luca, enrolado em um edredom que parecia pesar dez quilos, abriu um olho e encarou o relógio. Oito da manhã.
Ele tentou se espreguiçar, mas sentiu algo pesado sobre seus pés. Era o gato de Shane, um felino gordo e indiferente que parecia ter decidido que as pernas de Luca eram o melhor aquecedor do mundo. Antes que pudesse afastar o animal, a porta do quarto se abriu sem cerimônia.
— Acorda, pequeno prodígio! — A voz de Shane era animada demais para aquele horário. Ele entrou no quarto segurando uma caneca de cerâmica e vestindo um avental que dizia *Kiss the Cook*, um presente de brincadeira que Ilya levara a sério demais. — Temos trinta minutos antes de irmos para o rinque. O café está na mesa.
— Shane... são oito da manhã... no dia de um jogo fora de casa — resmungou Luca, afundando o rosto no travesseiro.
— Exatamente — disse Ilya, surgindo logo atrás de Shane, cruzando os braços sobre o peito maciço. Ele já estava totalmente vestido, com um terno escuro perfeitamente cortado que o fazia parecer mais um guarda-costas da máfia russa do que um jogador de hóquei. — Nutrição adequada é a base da performance. E você está pálido. Precisa de ferro.
— Eu não estou pálido, eu sou canadense! — protestou Luca, sentando-se e tentando, sem sucesso, ajeitar o cabelo que parecia ter sofrido um ataque elétrico.
— Vá se lavar — ordenou Ilya, com aquele tom que não admitia discussões. — E não esqueça de passar o hidratante que o Shane comprou. O vento no gelo acaba com a pele.
Luca soltou um suspiro teatral, mas obedeceu. Enquanto caminhava para o banheiro, ouviu Shane e Ilya discutindo em sussurros sobre se ele deveria ou não usar uma camada extra de roupa térmica por baixo do uniforme.
— Ele vai superaquecer, Ilya — dizia Shane.
— Antes suado do que resfriado, Shane. Ele é delicado.
— Eu não sou delicado! — gritou Luca de dentro do banheiro, ouvindo apenas a risada abafada dos dois veteranos.
Vinte minutos depois, o trio estava sentado à mesa da cozinha. O prato de Luca estava empilhado com ovos, bacon, torradas integrais e uma pequena montanha de frutas. Ele olhou para a comida e depois para os dois homens que o observavam com uma expectativa quase parental.
— Vocês sabem que eu tenho dezoito anos, certo? — Luca perguntou, pegando o garfo. — Eu tecnicamente poderia estar morando em um dormitório de faculdade, comendo macarrão instantâneo e dormindo em um colchão fino.
— E é por isso que a administração do time nos paga os "grandes salários", malysh — respondeu Ilya, tomando um gole de seu café preto. — Para garantir que o nosso melhor investimento não morra de escorbuto ou má postura.
— Além disso — acrescentou Shane, inclinando-se para frente e limpando uma mancha de geleia no canto da boca de Luca com um guardanapo, um gesto tão natural que fez o novato congelar por um segundo —, nós gostamos de ter você por perto. A casa ficava... silenciosa demais.
Ilya murmurou algo em russo que soou suspeitosamente como um acordo, embora ele tenha tentado disfarçar tossindo logo em seguida.
A viagem para o aeroporto foi o caos habitual. Ilya dirigia o SUV preto como se estivesse em uma perseguição em alta velocidade, enquanto Shane revisava o itinerário da viagem no tablet e Luca tentava terminar sua lição de casa de francês — uma exigência do time para os jogadores mais jovens em Montreal.
— Como se diz "Eu perdi meu protetor bucal" em francês? — perguntou Luca, franzindo a testa para o livro.
— *J'ai perdu mon protège-dents* — respondeu Shane instantaneamente.
— Mas você não vai precisar dizer isso — interveio Ilya, olhando pelo retrovisor —, porque eu coloquei dois reservas na sua mochila. E se você perder os três, eu vou te fazer usar um rosa choque com glitter para você aprender a ter responsabilidade.
— Você não faria isso — disse Luca, embora sua voz tivesse uma nota de incerteza.
— Tente a sorte, malysh.
Ao chegarem ao hangar privado onde o avião do time os esperava, a dinâmica mudou. No momento em que desceram do carro, Shane assumiu sua postura de capitão, e Ilya tornou-se a presença intimidadora que mantinha todos os outros jogadores à distância. No entanto, Luca permanecia firmemente entre eles.
Enquanto caminhavam em direção à aeronave, Harris, o defensor brincalhão do time, aproximou-se com um sorriso travesso.
— Ei, Luca! Ouvi dizer que o Shane comprou um pijama de ursinho para você não sentir medo durante os voos noturnos. É verdade?
Luca sentiu o sangue subir às bochechas, pronto para retrucar, mas não teve chance. Ilya deu um passo à frente, sua sombra cobrindo Harris completamente.
— Harris — a voz de Ilya era baixa, como o rosnado de um motor — , eu ouvi dizer que você está precisando de um parceiro de treino extra para exercícios de colisão na parede. Quer se voluntariar?
Harris empalideceu, deu um passo atrás e levantou as mãos em sinal de rendição.
— Foi só uma piada, Big Z! Só uma piada. Vejo vocês lá dentro! — E saiu apressado.
— Você não precisa me defender toda vez, Ilya — disse Luca, embora estivesse secretamente aliviado. — Eu consigo lidar com o Harris.
— Eu sei que consegue — respondeu Ilya, colocando a mão pesada no ombro de Luca e empurrando-o gentilmente em direção à escada do avião. — Mas por que gastar sua energia com idiotas quando você pode guardá-la para marcar gols?
Dentro do avião, os assentos já estavam definidos por uma hierarquia silenciosa. Shane e Ilya sentavam-se frente a frente, e Luca tinha o assento da janela ao lado de Shane. Assim que o avião decolou, o ritual começou. Shane puxou uma manta extra da sua bolsa e a entregou a Luca.
— O ar-condicionado aqui é forte. Não quero que seus músculos esfriem.
— Obrigado, Shane.
Ilya, por sua vez, entregou-lhe um par de fones de ouvido com cancelamento de ruído.
— Para você estudar ou dormir. Sem distrações.
Luca colocou os fones, mas não ligou a música. Ele gostava de ouvir o murmúrio baixo da conversa entre os dois. Eles falavam sobre táticas, sobre o jogo contra os Rangers naquela noite, mas também sobre coisas triviais, como a cor que deveriam pintar o quarto de hóspedes ou se deveriam comprar uma cafeteira nova. Era estranho e maravilhoso ouvir os dois maiores rivais da história recente do hóquei discutindo a marca de um aspirador de pó.
Em algum momento sobre o espaço aéreo de Ontário, Luca sentiu o cansaço da manhã cedo o atingir. Sua cabeça começou a pender e, sem perceber, ele se inclinou para o lado, apoiando-se no ombro de Shane.
Shane não se moveu. Ele apenas ajustou o ângulo do braço para que Luca ficasse mais confortável e continuou sua conversa com Ilya em um tom ainda mais baixo.
— Ele é tão novo — sussurrou Shane, olhando para o rosto adormecido de Luca. — Às vezes eu esqueço que ele é só um garoto lidando com toda essa pressão.
— Ele é forte, Shane — respondeu Ilya, sua voz carregada de um afeto que ele raramente demonstrava. — Mas ele tem sorte. Ele tem a nós. Eu não tive ninguém para me dizer para comer vegetais ou para me cobrir com uma manta quando eu comecei. Eu tive apenas o gelo e a solidão.
— Nós vamos garantir que ele nunca sinta isso — prometeu Shane.
O jogo em Nova York foi uma batalha física. Os Rangers eram conhecidos por seu jogo pesado, e Luca, sendo o menor e mais rápido no gelo, tornou-se um alvo óbvio. No segundo período, um defensor adversário o prensou contra a borda com uma força que fez o estalo do impacto ecoar por toda a arena.
Luca caiu no gelo, sem fôlego, a visão girando por um segundo. Antes mesmo que o árbitro pudesse apitar, o caos se instalou.
Ilya Rozanov cruzou o gelo como um míssil teleguiado. Ele não esperou por explicações; ele simplesmente agarrou o defensor pelo colarinho da camisa e o arrastou para longe de Luca. Enquanto isso, Shane já estava ao lado de Luca, ajoelhado no gelo, as mãos enluvadas tocando o rosto do novato com uma delicadeza desesperada.
— Luca? Ei, olhe para mim. Você está bem? — A voz de Shane era tensa, os olhos vasculhando Luca em busca de qualquer sinal de lesão grave.
— Estou... estou bem... só perdi o ar — ofegou Luca, tentando se sentar.
— Fique parado — ordenou Shane, enquanto, ao fundo, o som de luvas batendo no gelo e corpos se chocando indicava que Ilya estava ativamente "discutindo" a ética do lance com o adversário.
O treinador e o médico do time entraram no gelo, mas Shane não saiu do lado de Luca até que ele estivesse de pé. Quando finalmente saíram do gelo para o banco de reservas, Ilya já estava a caminho da caixa de penalidade, com o uniforme desalinhado e uma expressão de fúria pura. Ele lançou um olhar para o banco, e só relaxou visivelmente quando viu Luca sentado, bebendo água e sendo examinado.
Após o jogo — uma vitória suada por 3 a 2, com o gol da vitória marcado por Shane com assistência de Luca — o clima no vestiário era de alívio. Mas para Luca, o verdadeiro desafio começou quando as portas se fecharam.
— Você está sentindo alguma dor? — perguntou Ilya, aproximando-se de Luca enquanto ele tirava os patins.
— Só um pouco de dor nas costelas, Ilya. O médico disse que é só um hematoma.
— Deixe-me ver — disse Shane, aparecendo com uma bolsa de gelo.
— Aqui não, Shane! Todo mundo está olhando! — protestou Luca, tentando se esconder atrás do seu armário.
— Ninguém está olhando, e se estiverem, não me importo — rebateu Shane, levantando a camisa de treino de Luca para inspecionar a mancha roxa que começava a se formar. — É, vai ficar feio. Ilya, pegue aquela pomada anti-inflamatória na minha bolsa.
Luca suspirou, desistindo. Ele ficou ali, sentado no banco do vestiário, enquanto o capitão do time aplicava gelo e o maior defensor da liga espalhava pomada em suas costelas com uma concentração absoluta. Os outros jogadores passavam por eles, alguns revirando os olhos, outros sorrindo, mas ninguém ousava dizer uma palavra. Eles sabiam que, naquele momento, Luca não era apenas um colega de equipe; ele era o centro do universo de Shane e Ilya.
De volta ao hotel, a superproteção atingiu níveis estratosféricos.
— Você não vai dormir no seu quarto sozinho hoje — decretou Ilya, enquanto entravam na suíte que ele compartilhava com Shane.
— O quê? Por quê? — Luca perguntou, segurando sua mochila. — Eu tenho o meu próprio quarto!
— E se você tiver uma reação tardia à pancada? — argumentou Shane. — E se você precisar de gelo no meio da noite? O sofá aqui é enorme e se transforma em uma cama. Você fica conosco.
— Vocês são inacreditáveis — disse Luca, mas ele já estava jogando sua mochila no chão. A verdade era que a ideia de ficar sozinho em um quarto de hotel impessoal depois de uma pancada daquelas não parecia nem um pouco atraente.
Depois de um banho quente, Luca se viu instalado no sofá-cama da suíte, vestindo um dos moletons gigantes de Ilya que chegava quase aos seus joelhos. Shane trouxe um chá de camomila e Ilya estava ocupado ajustando a temperatura do ar-condicionado.
— Sabe — começou Luca, pegando a caneca de chá —, às vezes eu sinto que vocês me tratam como se eu fosse feito de cristal.
Shane sentou-se na beirada da cama, olhando para ele com uma expressão suave.
— Nós sabemos que você é durão, Luca. Você provou isso hoje. Mas o hóquei... este mundo... ele pode ser muito solitário se você não tiver ninguém para cuidar das pequenas coisas. Nós só queremos ser as pessoas que cuidam das pequenas coisas para você.
— Para que você possa focar nas grandes — completou Ilya, sentando-se do outro lado. — Como marcar gols e não ser morto por defensores medíocres de Nova York.
Luca sorriu, sentindo o calor do chá e o conforto da presença deles.
— Obrigado. Por tudo.
— Não agradeça — disse Ilya, bagunçando o cabelo de Luca. — Apenas durma. Amanhã temos o voo de volta para Montreal e eu prometi ao Shane que íamos parar naquela padaria que você gosta perto do aeroporto.
— Aquela dos donuts de maple? — Os olhos de Luca brilharam.
— Essa mesma — confirmou Shane. — Mas só se você prometer que vai colocar a proteção de costela extra no treino de segunda-feira.
— Prometo.
Luca se acomodou sob as cobertas, sentindo-se seguro e incrivelmente sortudo. Ele ouviu Shane e Ilya se movendo pelo quarto, apagando as luzes e conversando em sussurros. Antes de pegar no sono, ele sentiu uma mão tocar seu ombro por um breve momento — um gesto silencioso de proteção que dizia tudo o que precisava ser dito.
Naquela noite, em um hotel de luxo em Manhattan, o novato mais promissor da NHL não sonhou com a Stanley Cup ou com contratos milionários. Ele dormiu o sono tranquilo de quem sabe que, não importa o quão forte seja a pancada no gelo, sempre haverá duas mãos prontas para levantá-lo e um ninho quente esperando por ele em casa.
Afinal, a rivalidade entre Shane e Ilya poderia ter aquecido a liga por anos, mas foi o amor compartilhado por aquele "garoto" que finalmente transformou a casa deles em um lar. E para Luca, ser o "filho" da Rivalidade Aquecida era, sem dúvida, o melhor papel que ele já desempenhara.