Lute por isso
A Dança das Sombras e das Certezas
O pátio da escola fervilhava com o barulho ensurdecedor do intervalo, mas no canto mais afastado, sob a sombra de uma acácia antiga, o ar parecia vibrar em uma frequência diferente. Mizi e Ivan estavam encostados na parede de tijolos aparentes, observando o restante do grupo de longe. Mizi mastigava um chiclete de forma desleixada, enquanto Ivan, com sua palidez característica, desembrulhava o terceiro chocolate daquela manhã.
— Você está sendo óbvia demais, sabia? — Ivan soltou, a voz baixa o suficiente para que apenas Mizi ouvisse, enquanto seus olhos pretos seguiam o movimento de Till, que discutia algo fervorosamente com Hyuna a alguns metros dali.
— Eu? Óbvia com o quê? — Mizi deu de ombros, ajeitando uma mecha rosa do cabelo que caía sobre os olhos dourados. — Eu sou a personificação da discrição, Ivan.
— Sei. — Ivan soltou uma risada seca, limpando o canto da boca. — Estou falando da Sua. Você fica cercando ela como um tubarão que não sabe se ataca ou se continua só admirando a presa. E ela... bom, ela está se afogando, Mizi. Você sabe que ela não olha para você só como uma amiga de infância, não sabe?
Mizi parou de mascar o chiclete por um segundo. O sorriso brincalhão não abandonou seu rosto, mas seus olhos brilharam com uma intensidade diferente.
— Ela é reservada, Ivan. É o jeito dela. Melancólica, culta... — Mizi fez uma pausa, olhando para onde Sua estava sentada, sozinha em um banco, folheando um caderno. — Mas o que você quer dizer com "saber"?
— Ah, por favor. — Ivan revirou os olhos, impaciente. — Eu sou seu melhor amigo, eu sei que você gosta de mulheres. E eu tenho olhos na cara para ver como a Sua te devora quando você não está olhando. Ou melhor, quando você finge que não está olhando. Você sabe que ela gosta de você, Mizi. Você só está gostando de ver até onde o autocontrole dela aguenta.
Mizi soltou um suspiro longo, uma risada abafada escapando de seus lábios sedutores.
— Ela é fofa quando está tentando ser fria — admitiu Mizi, voltando a olhar para o amigo. — Mas ela nunca diria nada. Ela acha que eu sou a "hétero popular" da escola. E eu não quero estragar as coisas se eu estiver errada.
— Você nunca está errada sobre essas coisas. Você só é covarde quando o assunto é sério — Ivan provocou, dando um último gole em seu suco antes de se descolar da parede. — Vamos voltar. O Till já está começando a chutar as pedras do chão porque você sumiu por cinco minutos.
Eles caminharam de volta para o círculo central como se nada tivesse acontecido. A conversa fluiu para o tópico inevitável do momento: a festa na casa de um dos veteranos, marcada para a noite seguinte, sábado.
— Eu não vou — declarou Sua, sem tirar os olhos do caderno, assim que o assunto surgiu.
— Ah, você vai sim! — Hyuna exclamou, passando o braço pelos ombros de Sua com uma energia que a garota pálida claramente não conseguia combater. — Já arrastei o Luka, e ele já aceitou que vai ser meu motorista e carregar minha bolsa. Você não vai ficar em casa lendo poesia russa enquanto a gente se diverte.
— Eu prefiro a poesia russa — murmurou Sua, embora soubesse que a resistência era inútil contra Hyuna.
— Vai ser legal, Sua — Mizi disse, aproximando-se e sentando-se ao lado dela, o ombro roçando propositalmente no de Sua. — Eu também vou. E se você for, eu prometo que a gente não te deixa sozinha em um canto.
Sua sentiu o calor irradiando do corpo de Mizi. O cheiro de perfume e chiclete de morango era quase entorpecente. Ela engoliu em seco, fechando o caderno com mais força do que o necessário.
— Tanto faz — disse Sua, tentando manter a voz gélida, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas.
O restante do dia passou como um borrão. Na hora da saída, o caos habitual tomou conta dos corredores. Hyuna praticamente arrastou Luka pelo braço para não perderem o ônibus, enquanto Till, visivelmente irritado por alguma provocação de Ivan, saiu bufando em direção ao portão, com o amigo de cabelos pretos logo atrás, rindo da cara dele.
Sua, sentindo o peso do cansaço mental, seguiu para a biblioteca. Era seu ritual. No entanto, ao chegar lá, percebeu que a bibliotecária não estava. Um aviso na porta dizia que o local estaria aberto para estudos individuais, mas sem supervisão naquela tarde. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som dos seus próprios passos no piso de madeira.
Ela se sentou em uma das mesas do fundo, onde a luz do fim de tarde criava sombras longas entre as estantes. Ela abriu um livro, mas não conseguia ler. A conversa sobre a festa e a proximidade de Mizi no intervalo ainda ecoavam em sua mente.
— Sabia que a quietude daqui combina com você?
Sua deu um sobressalto, o livro quase escorregando de suas mãos. Mizi estava parada na entrada do corredor de estantes, a mochila pendurada em um ombro só. Ela não estava sorrindo daquela maneira radiante e brincalhona de sempre. Havia algo diferente em sua postura.
— Mizi... o que você está fazendo aqui? Achei que tivesse ido embora com o Ivan.
— Eu disse a ele que esqueci algo — Mizi caminhou lentamente em direção à mesa, cada passo parecendo calculado. — E eu esqueci mesmo. Esqueci de terminar uma conversa.
Ela se sentou na cadeira à frente de Sua, mas não se recostou. Ela se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa. O olhar dourado, que geralmente era convidativo e quente, agora estava sério, profundo, quase predatório.
Sua sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aquele olhar... era o olhar que ela via em seus sonhos, mas que Mizi raramente mostrava em público. Era um olhar que desarmava qualquer defesa.
— Você está estranha — Sua disse, tentando sustentar o contato visual, embora sentisse um tesão súbito e avassalador subir por seu corpo, uma reação visceral àquela nova faceta de Mizi. — O que foi?
Mizi permaneceu em silêncio por alguns segundos, apenas observando a palidez de Sua e a forma como sua franja tremia levemente com a respiração apressada.
— Quanto tempo mais a gente vai fingir, Sua? — a voz de Mizi saiu mais grave, sedutora de uma forma que não era para o público, mas apenas para elas duas.
— Fingir o quê? Não estou entendendo onde você quer chegar. — Sua desviou o olhar para o livro, as mãos começando a suar.
— Não se faça de boba. Não combina com a sua inteligência — Mizi esticou a mão e, com a ponta dos dedos, tocou levemente o dorso da mão de Sua. — Você acha que eu não percebo? Acha que eu sou cega para o jeito que você me olha quando acha que eu não estou vendo? Ou como você fica tensa sempre que eu chego perto?
Sua sentiu o ar faltar. Ela puxou a mão como se tivesse sido queimada, o rosto esquentando violentamente.
— Você está imaginando coisas, Mizi. Você é popular, está acostumada com todo mundo te olhando. Eu sou sua amiga, só isso.
— Amigas não olham para a boca uma da outra como se estivessem passando fome, Sua — Mizi rebateu, a voz calma e implacável. — E amigas não ficam imaginando coisas que as fazem corar desse jeito só de eu sentar na frente delas.
Sua se levantou bruscamente, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente.
— Eu não sei do que você está falando. Eu tenho que ir. Está ficando tarde e...
Mizi foi mais rápida. Ela se levantou e contornou a mesa, bloqueando o caminho de Sua. Ela era um pouco mais alta e, naquele momento, parecia ocupar todo o espaço da biblioteca.
— Por que você tem tanto medo? — Mizi perguntou, dando um passo à frente, forçando Sua a recuar até bater as costas na estante de livros atrás dela. — É por causa daquela imagem que você criou de mim? Da garota "hétero" que nunca ficaria com você?
— Mizi, para com isso — Sua sussurrou, o coração batendo na garganta. — Você está sendo cruel.
— Cruel? — Mizi riu baixo, mas não era uma risada alegre. Ela aproximou o rosto do de Sua, o hálito de morango agora misturado ao calor de sua pele. — Cruel é você passar quatro anos escondida atrás desses livros, sofrendo por algo que está bem na sua frente.
Mizi levou uma mão à estante, ao lado da cabeça de Sua, encurralando-a. A outra mão subiu lentamente, os dedos roçando o maxilar de Sua, subindo até a orelha.
— Eu vejo tudo, Sua. Cada olhar, cada suspiro, cada vez que você desvia o rosto porque não aguenta a tensão. Eu só estava esperando para ver se você teria a coragem de dar o primeiro passo. Mas parece que eu vou ter que fazer todo o trabalho, não é?
Sua estava paralisada. A frieza melancólica que ela usava como armadura tinha derretido completamente. Ela olhou para Mizi, para aqueles olhos dourados que agora pareciam queimar, e viu ali uma confirmação que nunca ousou esperar.
— Você... você está dizendo que... — Sua não conseguia terminar a frase.
— Eu estou dizendo — Mizi sussurrou, aproximando os lábios do ouvido de Sua — que se você continuar me olhando desse jeito na festa de amanhã, eu não vou me responsabilizar pelo que vou fazer na frente de todo mundo. Ou melhor ainda... em algum lugar onde ninguém possa nos ver.
Mizi se afastou apenas alguns centímetros, o suficiente para olhar nos olhos de Sua uma última vez. O brilho sedutor estava lá, mais forte do que nunca. Ela deu um tapinha leve no ombro de Sua, voltando instantaneamente à sua postura relaxada, como se a tensão dos últimos minutos tivesse sido apenas uma alucinação.
— Te vejo amanhã à noite, Sua. Não se atrase.
Mizi pegou sua mochila e saiu da biblioteca com a mesma leveza de sempre, deixando para trás apenas o silêncio e uma Sua completamente devastada, encostada nos livros, tentando entender como o mundo que ela conhecia tinha mudado de eixo em menos de dez minutos.
Sozinha no silêncio da biblioteca, Sua levou a mão aos lábios, sentindo o calor que Mizi deixou para trás. O medo ainda estava lá, mas, pela primeira vez em quatro anos, havia algo mais forte queimando em seu peito: a expectativa. E a certeza de que a noite de sábado seria o começo de algo que nenhum livro de poesia poderia descrever.