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Lute por isso

O Brilho do Neon e o Gosto do Amargo

A música eletrônica pulsava nas paredes da casa, um ritmo frenético que parecia sincronizar com as batidas descompassadas do coração de Sua. O ar estava saturado com o cheiro de álcool, suor e perfumes caros. Luzes de neon azul e violeta cortavam a penumbra, transformando os rostos conhecidos em versões distorcidas e vibrantes de si mesmos.

Sua estava sentada em um sofá de couro sintético no canto da sala, segurando um copo de plástico com refrigerante. Ao seu lado, Luka ajustava os óculos nervosamente enquanto observava Hyuna. A garota morena já estava em seu terceiro copo de uma mistura duvidosa e dançava de forma desajeitada, rindo de qualquer coisa que Till dizia. Till, por sua vez, parecia ter perdido qualquer resquício de sua postura de "emo revoltado" após a segunda dose de tequila; ele gesticulava loucamente, o cabelo cinza mais bagunçado do que nunca, enquanto tentava não tropeçar nos próprios pés.

— Ela vai acabar caindo — murmurou Luka, a voz carregada de uma preocupação nerd e devotada. — A taxa de álcool no sangue da Hyuna já deve ter ultrapassado o limite da segurança biológica.

— Deixe ela, Luka — respondeu Sua, a voz melancólica quase sumindo sob o grave do som. — Pelo menos ela está se divertindo.

Sua, no entanto, não conseguia se divertir. Suas mãos tremiam levemente. Ela não parava de pensar no que acontecera na biblioteca no dia anterior. As palavras de Mizi, o toque, a promessa sussurrada... tudo parecia um sonho febril agora que ela estava cercada por tantas pessoas.

De repente, a porta da frente se abriu e o burburinho da festa pareceu aumentar de volume. Mizi e Ivan haviam chegado.

Mizi estava deslumbrante. Ela usava uma blusa preta justa que realçava sua pele clara e uma saia curta que destacava suas pernas. O cabelo rosa com pontas azuis estava solto, caindo em ondas perfeitas sobre os ombros. Ela entrou no recinto com a confiança de uma rainha, atraindo olhares de todos os cantos. Ivan vinha logo atrás, com sua expressão de tédio habitual, já vasculhando a mesa de bebidas em busca de algo doce ou alcoólico.

— Finalmente! — Hyuna gritou, tropeçando na direção deles e abraçando Mizi com força. — Achei que vocês tinham sido sequestrados por alienígenas ou algo assim!

— Quase isso — riu Mizi, e o som de sua risada fez o estômago de Sua dar um nó. — O Ivan parou em três lojas de conveniência diferentes porque "precisava" de balas de goma específicas.

— Prioridades, Mizi. Prioridades — Ivan rebateu, pegando um copo e servindo-se de uma bebida colorida.

Mizi varreu a sala com os olhos dourados até encontrar Sua. Ela deu um sorriso de canto, aquele mesmo sorriso da biblioteca, e caminhou em sua direção.

— Oi, Sua. Você veio mesmo — disse Mizi, sentando-se no braço do sofá, perigosamente perto dela.

— Eu disse que viria — respondeu Sua, tentando manter a fachada fria, embora sentisse que poderia derreter a qualquer momento.

— Você não está bebendo? — Mizi apontou para o copo de refrigerante. — Que desperdício.

Mizi pegou um copo que Ivan lhe estendeu e deu um gole generoso. Nos minutos seguintes, o grupo se reuniu, e a dinâmica de sempre se estabeleceu, mas com uma intensidade aumentada pelo álcool. Till e Ivan começaram uma competição absurda de quem conseguia virar doses de vodka mais rápido, enquanto Luka tentava, sem sucesso, convencer Hyuna a beber um copo de água.

Sua observava Mizi. A garota de cabelos rosa estava bebendo consideravelmente. Seus olhos ficavam cada vez mais brilhantes, e sua voz, já naturalmente sedutora, tornava-se mais arrastada e baixa. Ela brincava com o grupo, zoava Till, mas, de vez em quando, lançava olhares para Sua que faziam a garota pálida perder o fôlego.

No entanto, conforme a noite avançava, algo mudou.

Uma música mais lenta começou a tocar, e a multidão na sala se apertou. Mizi, agora visivelmente alterada pela bebida, levantou-se para buscar mais gelo. Sua a seguiu com o olhar, uma possessividade silenciosa queimando em seu peito. Foi quando ela viu.

Perto da mesa de bebidas, uma garota de outra turma, alta e de cabelos escuros, parou para falar com Mizi. Mizi não apenas respondeu, como se inclinou na direção dela. O olhar dourado de Mizi subitamente se tornou intenso, focado. Ela encarava a garota com uma fixação que Sua conhecia bem — era o mesmo olhar predatório da biblioteca. Mizi tocou o braço da garota enquanto ria de algo, e a outra garota retribuiu com um sorriso tímido e encantado.

O mundo de Sua desabou em um instante.

As engrenagens de sua mente melancólica começaram a girar em uma espiral de autodestruição. "Ela estava apenas brincando comigo ontem?", pensou Sua, sentindo um frio gélido substituir o calor do desejo. "Ela faz isso com todo mundo? Ela só gosta de ver o efeito que causa? Ela é hétero e só queria me testar? Ou ela gosta de qualquer pessoa que lhe dê atenção?".

As 300 possibilidades que Ivan mencionara um dia pareciam todas convergir para uma única conclusão dolorosa: Sua não era especial. Ela era apenas mais um experimento para a diversão de Mizi.

A imagem de Mizi encarando aquela garota desconhecida, com a mesma intensidade que usara na biblioteca, foi a gota d'água. Sua sentiu uma náusea súbita. Ela não conseguia mais ficar ali, vendo Mizi ser a "popular sedutora" que flertava com o mundo enquanto ela, Sua, definhava em silêncio.

Sem dizer uma palavra a ninguém, Sua se levantou. Ela passou por Luka e Hyuna, que estavam ocupados demais em uma discussão sobre o ponto de ebulição da água, e saiu pela porta dos fundos. Ela caminhou até o portão, o ar frio da noite batendo em seu rosto, mas não foi o suficiente para acalmar a tempestade em seu interior. Ela foi embora, deixando a música e o perfume de morango para trás.

A manhã de segunda-feira chegou com um céu cinzento e pesado, combinando perfeitamente com o humor de Sua. Ela não tinha dormido bem. Cada vez que fechava os olhos, via o rosto de Mizi na biblioteca e, logo em seguida, Mizi na festa, encarando aquela outra garota.

Sua chegou à escola e caminhou pelo corredor principal com passos pesados. O grupo já estava lá, reunido perto dos armários, como faziam todos os dias desde o nono ano.

— Bom dia, flor do dia! — Hyuna exclamou, embora sua voz soasse um pouco rouca devido à ressaca. — Você sumiu da festa, Sua! Ficamos preocupados.

— Eu estava cansada — respondeu Sua, a voz seca, curta.

— Cansada ou entediada? — Till resmungou, encostado no armário com óculos escuros para esconder as olheiras. — Aquela festa estava uma bagunça.

Mizi estava encostada na parede oposta, conversando com Ivan. Quando viu Sua, seu rosto se iluminou com o sorriso habitual.

— Ei, Sua! Por que você foi embora sem se despedir? Eu fui te procurar e você tinha evaporado — disse Mizi, dando um passo à frente, tentando se aproximar.

Sua parou e olhou diretamente para Mizi. Pela primeira vez na vida, não havia adoração ou hesitação em seus olhos roxos. Havia apenas uma raiva fria e cortante.

— Não achei que a minha presença fizesse diferença para você, Mizi — disse Sua, a voz saindo mais alta do que o normal, carregada de um sarcasmo que ninguém no grupo estava acostumado a ouvir vindo dela.

O corredor pareceu ficar em silêncio por um segundo. Ivan parou de mastigar sua bala e franziu a testa, observando a cena com atenção súbita.

— O quê? Do que você está falando? — Mizi perguntou, o sorriso vacilando. — Claro que fazia diferença.

— Poupe-me do teatro — Sua cortou, a grosseria sendo usada como um escudo. — Você tem gente de sobra para te entreter. Não precisa se preocupar com a "amiga nerd" que fica no canto. Agora, se me dão licença, eu tenho aula.

Sua deu as costas e começou a caminhar em direção à sala de aula sem olhar para trás.

O grupo ficou paralisado por um momento, em choque. Sua nunca fora grossa. Melancólica? Sim. Fria? Às vezes. Mas nunca agressiva, especialmente com Mizi.

— O que deu nela? — Hyuna perguntou, piscando atordoada. — Ela tomou o chá de mau humor do Till hoje?

— Eu vou atrás dela — disse Till, já começando a seguir Sua, movido por uma solidariedade de quem também vivia irritado com o mundo.

— Eu também vou — disse Hyuna, puxando Luka pelo braço. — Isso foi muito estranho.

Os três seguiram pelo corredor, deixando Mizi e Ivan sozinhos.

Mizi estava estática, o rosto pálido e a expressão de quem tinha levado um tapa físico. Ela olhou para o chão, os dedos brincando nervosamente com a alça da mochila.

Ivan, que vinha observando tudo em silêncio, diminuiu o passo conforme o resto do grupo se afastava. Ele se aproximou de Mizi, sua expressão irônica substituída por algo mais sério.

— Mizi — chamou ele, a voz baixa. — O que caralhos aconteceu na biblioteca? Ou melhor, o que você fez na festa?

Mizi olhou para ele, os olhos dourados nublados por uma confusão genuína e uma pontada de dor.

— Eu não fiz nada, Ivan! Eu juro. A gente conversou na biblioteca, foi... foi intenso. Eu achei que tínhamos chegado a um entendimento. E na festa eu tentei falar com ela, mas ela estava tão distante...

— Você bebeu, Mizi — Ivan lembrou, cruzando os braços. — E quando você bebe, você vira uma metralhadora de flertes ambulante. Você tem consciência de quem você encarou ou com quem falou enquanto estava alta?

Mizi franziu a testa, tentando forçar a memória através da névoa do álcool.

— Eu... eu falei com muita gente. Uma garota da outra sala veio me perguntar sobre o trabalho de biologia, eu acho...

— E você provavelmente deu a ela "aquele olhar", não deu? — Ivan suspirou, balançando a cabeça. — Mizi, a Sua não é como as outras pessoas que gravitam ao seu redor. Ela não quer ser apenas mais uma na sua coleção de admiradores. Ela é insegura, ela é profunda. Se ela viu você agindo daquela forma com outra pessoa logo depois do que aconteceu entre vocês na biblioteca...

Mizi cobriu o rosto com as mãos, soltando um gemido de frustração.

— Eu estraguei tudo, não foi?

— Você foi descuidada — corrigiu Ivan. — E agora ela está com a guarda levantada. E você sabe como a Sua é: uma vez que ela fecha a porta, é difícil fazer ela abrir de novo.

— Eu não queria magoar ela, Ivan. Eu realmente gosto dela. Não é como os outros — Mizi disse, a voz embargada.

— Então é melhor você dar um jeito de consertar isso — Ivan disse, voltando a caminhar. — Porque, pela cara que ela fez, ela está pronta para te riscar da vida dela antes mesmo de você ter a chance de entrar de verdade.

Mizi ficou ali, parada no corredor vazio, enquanto o sinal para a primeira aula tocava. A voz sedutora e a confiança inabalável tinham desaparecido, deixando apenas uma garota de cabelos rosa que, pela primeira vez, não sabia como usar seu charme para conseguir o que queria. Ela olhou na direção da sala de aula, sabendo que, lá dentro, Sua estava sentada em sua mesa, escondida atrás de um livro, sofrendo em um silêncio que agora era tingido de raiva.

E Mizi percebeu, com um aperto no peito, que conquistar o mundo era fácil, mas reconquistar a confiança de Sua seria a batalha mais difícil de sua vida.