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Madristas não se suportam.

Béarnaise e Bolas Paradas

O sol de Madrid ainda não tinha força suficiente para dissipar o frio da manhã quando o motor roncante da Lamborghini de Mozart ecoou pelos portões do centro de treinamento de Valdebebas. Ele chegou exatamente dez minutos antes do horário combinado, o que, para os seus padrões de estrela, era o equivalente a chegar três horas adiantado. Ele queria estar lá, parado, esperando, com aquela expressão de tédio calculada que tanto irritava Endrick.

Endrick, porém, já estava no campo. Não apenas estava lá, como já exalava suor. Ele estava chutando bolas contra uma rede lateral, repetindo o movimento de explosão curta. Ele não precisava de luxo para se motivar; o som da bola estufando a rede era o seu despertador preferido.

— Você dorme aqui por acaso? — Mozart perguntou, caminhando pelo gramado impecável com suas chuteiras personalizadas que brilhavam sob a luz pálida. — Ou o medo de perder o jantar foi tão grande que você veio treinar de madrugada?

Endrick parou a bola com a sola do pé e virou-se. O contraste era gritante: Endrick com a camisa de treino colada ao corpo, o rosto sério, a personificação do trabalho duro; Mozart, impecável, com o cabelo perfeitamente arrumado mesmo para um treino, a personificação do talento nato que se recusa a perder a pose.

— O medo é seu, Leo. Eu só estou garantindo que você não tenha desculpas quando eu te vencer — Endrick chutou a bola na direção de Mozart. — Dez bolas. Barreira móvel na marca dos vinte e cinco metros. Quem acertar mais no ângulo, ganha.

— E se empatarmos em acertos? — Mozart dominou a bola com um toque de letra que parecia desafiar as leis da física, trazendo-a para o controle total com uma elegância irritante.

— Quem tiver a trajetória mais "estética", como você gosta de dizer, leva — Endrick sorriu desafiador. — Mas duvido que chegue a isso.

Eles posicionaram a barreira de bonecos amarelos. O silêncio caiu sobre o campo, quebrado apenas pelo som distante de outros jogadores chegando aos vestiários. A notícia da aposta havia corrido. Jude Bellingham e Vinícius Jr. apareceram na lateral do campo, segurando copos de café, prontos para assistir ao espetáculo.

— Cinco euros no Mozart pela técnica — sussurrou Vini, rindo.

— Dez no Endrick pela força de vontade — rebateu Bellingham. — Aquele garoto não sabe o que é brincadeira.

Mozart foi o primeiro. Ele ajeitou a bola com uma delicadeza quase religiosa, girando a válvula para baixo, posicionando-se em um ângulo lateral. Ele respirou fundo, os olhos fixos no canto superior esquerdo. Correu, o corpo inclinando-se de forma plástica, e a bola partiu com um efeito curvo que parecia contornar o ar. Ela beijou a trave antes de entrar. Um silêncio reverente seguiu o chute.

— Arte, Endrick. Pura arte — Mozart comentou, voltando para a marca sem nem olhar para o gol.

Endrick não respondeu. Ele colocou a bola na marca, deu três passos curtos para trás e dois para o lado. Sua batida foi diferente. Seca, violenta, uma linha reta que parecia ignorar a gravidade. A bola passou por cima da barreira como um míssil e estufou a rede com tanta força que o suporte metálico balançou.

— Eficiência — Endrick devolveu, com um aceno de cabeça.

A disputa seguiu em um ritmo frenético. Oitava bola: empate. Nona bola: empate. A tensão era palpável. Mozart estava visivelmente mais sério, o suor agora estragando seu penteado. Endrick tinha os olhos injetados, a respiração controlada.

Na última bola, Mozart tentou uma cavadinha por cima da barreira, buscando o ângulo oposto. A bola viajou lindamente, mas o vento de Madrid decidiu brincar e ela bateu no travessão, saindo para fora por milímetros.

Endrick teve a chance. Ele respirou, olhou para Mozart, que tentava manter a indiferença, e bateu. A bola desviou levemente na cabeça de um dos bonecos da barreira e entrou no meio do gol.

— Gol é gol — Endrick comemorou, levantando os braços.

— Espere aí! — Mozart protestou, aproximando-se com passos largos. — Desviou na barreira! Isso não conta como precisão, conta como sorte. O desafio era o ângulo!

— O desafio era quem errava menos, e você mandou a sua na lua — Endrick riu, limpando o suor da testa. — Aceita, "Da Vinci". Você perdeu.

Mozart bufou, as mãos nos quadris. Ele olhou para os companheiros na lateral, que já estavam filmando e rindo.

— Tudo bem. Um homem de palavra cumpre o que promete — Mozart disse, embora a voz estivesse carregada de um orgulho ferido. — Hoje, às nove. No meu endereço. E não se atreva a aparecer com camiseta de time.

***

A mansão de Leonardo Mozart em La Moraleja era exatamente o que Endrick esperava: minimalista, cara e intimidante. Obras de arte moderna adornavam as paredes brancas, e a cozinha era um santuário de aço inoxidável que faria qualquer chef profissional chorar de inveja.

Endrick chegou vestindo uma camisa polo escura e calças de sarja. Ele se sentia um peixe fora d'água, mas não deixou transparecer. Mozart o recebeu usando um avental preto de linho sobre uma camisa social com as mangas dobradas.

— Entre, Endrick. Tente não quebrar nada com essa sua energia de "estádio lotado" — Mozart gesticulou para a bancada de mármore, onde uma garrafa de vinho já estava aberta.

— Onde estão os garçons, Leo? — Endrick perguntou, olhando ao redor.

— Eu disse que eu ia cozinhar. Não confio em ninguém para preparar um *Entrecôte* com a redução que eu planejei — Mozart estava concentrado, manejando uma faca com a mesma precisão que usava para driblar zagueiros. — Sente-se.

O jantar começou em um silêncio tenso. Mozart serviu uma entrada de vieiras seladas que Endrick, para sua própria surpresa, achou deliciosa. Mas ele não ia admitir tão cedo.

— É... aceitável — disse Endrick, mastigando devagar.

Mozart soltou um riso irônico enquanto preparava o prato principal.

— Aceitável? Endrick, isso é uma técnica que aprendi em Lyon. Você está acostumado com arroz, feijão e bife bem passado. Suas papilas gustativas estão em choque cultural.

— Comida é combustível, Leo. Você trata tudo como se fosse um espetáculo de ópera — Endrick levantou-se e caminhou até a bancada, observando Mozart trabalhar. — Por que você faz isso? O futebol, a gastronomia, os cinco idiomas... Você está sempre tentando provar que é melhor que todo mundo em tudo.

Mozart parou de mexer o molho por um segundo. A iluminação embutida da cozinha criava sombras profundas em seu rosto.

— No Brasil, quando eu comecei, diziam que eu era apenas um "filhinho de papai" que tinha um rostinho bonito e jogava porque o pai era influente — a voz de Mozart era baixa, sem a arrogância habitual. — Eu tive que ser o melhor em tudo para que ninguém pudesse usar nada contra mim. Se eu falo melhor que eles, cozinho melhor que eles e jogo melhor que eles, eles não têm onde se segurar para me diminuir.

Endrick ficou em silêncio por um momento, processando a confissão. Ele sempre viu Mozart como um privilegiado, mas nunca tinha parado para pensar no peso de ter que justificar a própria existência em um ambiente tão hostil quanto o futebol profissional.

— Eu não preciso de cinco línguas para saber quem eu sou — Endrick disse, encostando-se na bancada. — Mas eu entendo o que é ter que lutar pelo respeito. Eu comecei com nada. Para mim, cada gol era a comida na mesa da minha família. Para você, cada gol é uma resposta para quem duvida. No fim das contas, a gente corre pelo mesmo motivo.

Mozart olhou para ele, e pela primeira vez, não havia provocação no olhar. Havia reconhecimento.

— Talvez — Mozart admitiu, voltando a empratar a carne. — Mas não pense que isso nos torna amigos. Você ainda é o cara que tenta roubar meu protagonismo nos pênaltis.

— E você ainda é o cara que não cruza a bola quando eu estou livre — rebateu Endrick, sorrindo.

O prato principal foi servido: um entrecôte perfeitamente selado com molho béarnaise. Endrick deu a primeira garfada e fechou os olhos. Era, sem dúvida, a melhor coisa que ele já tinha comido.

— E então? — Mozart perguntou, cruzando os braços, a arrogância retornando gradualmente. — Vai admitir ou vai continuar fingindo que a coxinha do aeroporto é melhor?

— O molho... é bom — Endrick concedeu, tentando esconder o prazer. — Mas você ainda perdeu nas faltas.

— O vento, Endrick! O vento foi um fator externo! — Mozart exclamou, e os dois acabaram rindo, uma risada que dissolveu parte da barreira de gelo que existia entre eles desde que Mozart chegou ao Real Madrid.

A noite avançou, e o assunto inevitavelmente voltou para o Twitter. Mozart pegou o celular e mostrou uma postagem que estava ganhando milhares de curtidas.

*"@Marca: Crise no vestiário? Endrick e Mozart não foram vistos saindo juntos da festa, e fontes dizem que a rivalidade atingiu o ponto de ruptura no treino de hoje."*

— Se eles soubessem que você está aqui comendo meu béarnaise, a internet explodiria — Mozart comentou, postando uma foto apenas da taça de vinho e da vista de sua varanda, sem mencionar Endrick.

— Deixe que pensem o que quiserem — Endrick respondeu, levantando-se. — Amanhã temos jogo contra o Valencia. Se você fizer o que fez com esse molho dentro da área, a gente ganha de goleada.

— Eu vou fazer — Mozart disse, acompanhando-o até a porta. — Mas você vai ter que me dar a assistência. Eu quero a foto da capa do jornal.

— Veremos, Da Vinci. Veremos.

Endrick saiu da mansão sentindo que, embora a rivalidade não tivesse acabado — e provavelmente nunca acabaria, dada a natureza competitiva de ambos —, algo havia mudado. Eles não eram mais apenas dois atacantes disputando o mesmo espaço; eram dois polos opostos que, por algum motivo estranho, faziam o motor do Real Madrid girar com mais força.

No dia seguinte, o estádio Mestalla estava um caldeirão. O jogo contra o Valencia estava empatado em 1 a 1 até os 40 minutos do segundo tempo. A torcida local vaiava cada toque na bola dos brasileiros.

Foi quando Mozart recebeu na intermediária. Ele tinha o ângulo para o chute, o seu momento de brilho individual. O estádio inteiro prendeu a respiração, esperando que ele tentasse a sua "pintura". Mas, no último segundo, ele viu uma sombra arrancando em velocidade por trás da zaga.

Mozart não pensou. Ele deu um passe de trivela, preciso como um bisturi, rasgando a defesa. A bola caiu exatamente no pé esquerdo de Endrick.

Endrick não dominou. Ele soltou a bomba de primeira, um chute cruzado que quase rasgou a rede. 2 a 1.

Na comemoração, Endrick correu para a bandeirinha de escanteio e esperou. Mozart chegou devagar, com seu sorriso de lado. Endrick apontou para Mozart, e Mozart, em um gesto raro de humildade pública, fez uma reverência para Endrick antes de ser abraçado pelo companheiro.

A foto do momento inundou o Twitter em segundos.

*"@FabrizioRomano: A química que ninguém esperava. Mozart para Endrick. O silêncio no Mestalla é o som da nova era do Real Madrid. A guerra acabou?"*

No vestiário, após a vitória, Mozart estava sentado em seu banco, conferindo as notificações no celular, enquanto Endrick tirava as chuteiras, exausto.

— A foto ficou boa, Endrick — Mozart disse, sem tirar os olhos da tela. — Mas o passe foi melhor que o gol.

Endrick riu, balançando a cabeça.

— O molho de ontem deve ter subido à sua cabeça, Leo. O gol foi o que deu os três pontos.

— Detalhes técnicos, meu caro. Detalhes técnicos.

Eles sabiam que na manhã seguinte a imprensa inventaria uma nova polêmica, um novo duelo de egos. Mas, por enquanto, sob as luzes do vestiário, havia apenas o respeito silencioso de dois predadores que entenderam que, para dominar a selva de Madrid, eles precisavam um do outro, mesmo que nunca admitissem isso em voz alta.

— Ei, Mozart — chamou Endrick, antes de entrar no chuveiro.

— O que foi?

— Da próxima vez, coloca menos pimenta nas vieiras. Eu quase não senti o gosto do mar.

Mozart atirou uma toalha na direção de Endrick, rindo.

— Bárbaro. Você é um bárbaro, Endrick.

A rivalidade continuava. E Madrid nunca esteve tão bem servida.

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