Madristas não se suportam.
Cicatrizes sob a Seda
O sol de Madrid raramente pedia licença para entrar pelas enormes janelas de vidro da suíte de Leonardo Mozart, mas naquela manhã, a luz parecia particularmente agressiva. Leonardo estava sentado na borda da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos, observando o próprio reflexo no espelho de corpo inteiro. Ele estava sem camisa.
A maioria das pessoas via apenas os músculos definidos, a pele bronzeada e a postura de quem carregava o mundo no bolso. Mas, sob a luz certa — aquela luz crua do início da manhã —, as marcas apareciam. Não eram óbvias para quem olhava de longe, mas estavam lá: pequenas irregularidades na textura da pele nas costas e uma cicatriz mais profunda, quase escondida na linha da costela esquerda.
Cicatrizes que nenhuma quantidade de euros, nenhum diploma de gastronomia em Paris e nenhum gol no ângulo poderiam apagar.
O celular sobre a mesa de cabeceira vibrou. Era uma notificação do Twitter, marcando seu perfil em uma discussão acalorada.
*"@GersonFutebol: Mozart é puro talento, mas falta a ele a humildade que o Endrick tem. Ele joga como se estivesse fazendo um favor ao mundo. Falta 'fome' de verdade."*
Leo soltou um riso anasalado, desprovido de qualquer humor. Humildade. Uma palavra que as pessoas adoravam lançar contra quem não conseguia entender. Ele se levantou, vestindo uma camisa de treino de manga longa, escondendo cada marca, cada história que não tinha interesse em contar.
***
O treino em Valdebebas foi tenso. Carlo Ancelotti havia dividido o grupo para um coletivo tático, e a competitividade entre os dois brasileiros estava no ápice. Endrick era uma bala, um trator que atropelava a defesa, enquanto Mozart flutuava, distribuindo passes que pareciam desenhados a compasso.
Em uma jogada de linha de fundo, Rudiger, conhecido por sua entrada física, atingiu Mozart com um carrinho lateral. Foi uma jogada de treino, dura, mas leal. No entanto, o impacto fez a camisa de Mozart subir levemente, e ele caiu rolando, a mão pressionando imediatamente a costela esquerda.
Endrick, que estava perto, correu para ajudar.
— Levanta, Leo. Foi só um esbarrão — disse Endrick, estendendo a mão.
Mozart, porém, não aceitou a mão. Ele se levantou sozinho, o rosto pálido, os olhos brilhando com uma fúria que parecia desproporcional ao lance. Ele empurrou o braço de Endrick para longe com uma violência desnecessária.
— Não encosta em mim — sibilou Mozart, a voz tremendo de raiva contida.
— Calma, cara. Eu só ia te ajudar — Endrick franziu o cenho, recuando um passo. — O que deu em você?
Mozart não respondeu. Ele apenas caminhou em direção ao banco de reservas, pedindo substituição. O treino parou por um instante, o silêncio desconfortável pairando sobre o campo. Ancelotti apenas observou, conhecendo bem demais o temperamento de suas estrelas, mas sentindo que, desta vez, havia algo diferente na reação de "Da Vinci".
***
Duas horas depois, Endrick encontrou Mozart no estacionamento. O atacante mais alto estava encostado em sua Lamborghini, olhando para o nada, a chave do carro girando entre os dedos.
— Você foi um idiota lá no campo — Endrick começou, sem rodeios. Ele não tinha paciência para os jogos mentais de Leonardo. — O Rudiger não fez por mal, e eu muito menos.
Mozart virou o rosto lentamente. A arrogância habitual estava lá, mas parecia uma máscara mal colocada, prestes a escorregar.
— Você não sabe de nada, Endrick. Acha que o mundo é um lugar simples onde as pessoas se ajudam porque são legais? — Mozart deu um passo à frente, a diferença de altura usada como arma. — Eu não preciso da sua mão. Eu nunca precisei da mão de ninguém.
— É isso que você pensa? Que ser autossuficiente é ser um babaca completo? — Endrick cruzou os braços, sem se intimidar. — Você age como se qualquer toque fosse um ataque. O que aconteceu com você, Leo? Quem te machucou tanto para você ter esse medo de ser ajudado?
O silêncio que se seguiu foi pesado. Mozart abriu a boca para disparar um insulto, um daqueles comentários ácidos em francês ou inglês que encerravam qualquer conversa, mas as palavras não vieram. Em vez disso, a imagem de uma sala de jantar luxuosa em uma mansão no Rio de Janeiro invadiu sua mente.
*Ele tinha nove anos. O prato de porcelana estava quebrado no chão. Seu pai, um homem cujas palavras eram tão cortantes quanto o cinto que segurava na mão, gritava sobre "excelência" e "fraqueza".*
*"Se você não consegue nem segurar a droga de um prato, como espera segurar o peso desse sobrenome? Chora, Leonardo. Chora para eu te dar um motivo de verdade."*
Mozart piscou, voltando ao presente. Ele olhou para Endrick, o garoto que tinha vindo do nada e que, de alguma forma, parecia ser mais dono de si do que ele próprio, com todos os seus bilhões.
— Meu pai não aceitava erros, Endrick — disse Mozart, a voz subitamente desprovida de qualquer verniz social. — "Bom" era o mesmo que "lixo". Se eu caísse, eu tinha que levantar antes que ele chegasse perto, porque se ele chegasse... a queda seria a menor das minhas preocupações.
Endrick sentiu um nó na garganta. Ele conhecia a pobreza, a fome, a luta física pela sobrevivência. Mas ele tinha tido amor. Ele tinha tido um pai que chorava de orgulho a cada conquista. Olhando para Mozart agora, ele viu uma criança que tinha sido treinada para ser uma máquina, não um ser humano.
— As cicatrizes... — Endrick começou, lembrando-se do momento no treino quando a camisa de Mozart subiu. — Foi ele?
Mozart soltou um riso seco, olhando para as próprias mãos impecáveis.
— Ele dizia que estava forjando aço. Que o mundo não teria piedade de um Mozart que fosse apenas comum. Então eu aprendi. Aprendi a ser o melhor na escola, o melhor na cozinha, o melhor no campo. Aprendi que, se eu for intocável, ninguém pode me ferir novamente.
— Mas você não é intocável, Leo. Você é só um cara de dezenove anos que está exausto de fingir — Endrick se aproximou, desta vez sem estender a mão, respeitando o espaço que o outro tanto protegia. — Aqui no Real, a gente é um time. Se você cair, alguém vai te puxar. Não porque você é fraco, mas porque a gente precisa de você de pé para ganhar.
Mozart desviou o olhar, sentindo uma pontada de algo que ele não sabia identificar. Era irritante. Era ultrajante. Era... acolhedor.
— Você é muito sentimental para um atacante de elite — Mozart tentou recuperar a pose, mas a voz falhou levemente.
— E você é muito dramático para um bilionário — rebateu Endrick, abrindo um pequeno sorriso. — Vai para casa. Descansa essa costela. E amanhã, se o Rudiger te derrubar de novo, aceita a porcaria da mão. É menos humilhante do que dar um show de estrelismo na frente das câmeras.
Mozart entrou no carro sem dizer mais nada. Ele dirigiu pelas ruas de Madrid, mas a voz de Endrick continuava ecoando em sua mente. *A gente precisa de você de pé.*
Ao chegar em casa, ele foi direto para a cozinha. Cozinhar era seu refúgio, o único lugar onde ele sentia que tinha controle total sobre o caos. Ele começou a preparar um *Consommé*, algo que exigia paciência e precisão absoluta. Mas, enquanto cortava os legumes, ele se viu cometendo um erro banal. A faca deslizou e cortou levemente a ponta de seu dedo.
Antigamente, ele teria entrado em pânico, esperando a repreensão que nunca vinha. Agora, ele apenas olhou para o sangue vermelho e vivo.
Ele pegou o celular e, em vez de olhar o Twitter ou as manchetes sobre sua "crise de temperamento" no treino, abriu o WhatsApp.
— O jantar de ontem foi uma exceção — ele digitou para Endrick. — Mas se você quiser aprender a fazer um molho que preste, minha cozinha está aberta. Só não espere que eu seja gentil.
A resposta veio dois minutos depois.
— Levo o guaraná. E vê se não corta o dedo, "Da Vinci". O time precisa de você inteiro.
Mozart sorriu. Um sorriso real, que não era para as câmeras, nem para os patrocinadores, nem para o fantasma de seu pai. Era o sorriso de alguém que, pela primeira vez em dezenove anos, estava começando a entender que as cicatrizes podiam até contar onde ele esteve, mas não precisavam definir para onde ele estava indo.
Naquela noite, as manchetes do *AS* e do *Marca* falavam sobre a possível venda de Mozart devido ao seu comportamento instável. No Twitter, os fãs discutiam se ele era um gênio incompreendido ou apenas um garoto mimado.
Mas, dentro da mansão em La Moraleja, Leonardo Mozart estava apenas servindo um prato de sopa para si mesmo, sentindo o peso da armadura um pouco mais leve. Ele ainda era o dono do mundo, ainda era o bilionário poliglota, ainda era o atacante estrela do Real Madrid. Mas, talvez, ele também pudesse ser apenas o Leo.
E, para alguém que cresceu sob o chicote da perfeição, ser apenas o Leo era a maior vitória que ele já tinha conquistado.
A rivalidade com Endrick não desapareceria; ela era o combustível de ambos. Mas agora, havia algo novo misturado àquela gasolina. Havia uma trégua silenciosa, forjada não em ouro, mas em cicatrizes compartilhadas sob o sol de Madrid.
Mozart olhou para o reflexo na janela. Ele não via mais apenas a seda cara de sua camisa. Ele via o homem que estava aprendendo a não ter medo do próprio toque.
— É — murmurou ele para o vazio da sala —, talvez esse bárbaro do Endrick tenha razão em uma coisa. O gol é o que dá os três pontos. Mas o time... o time é o que nos mantém no jogo.