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Madristas não se suportam.

Labirintos de Neon e o Gosto do Sangue

A noite madrilenha não era apenas um cenário para Leonardo Mozart; era um espelho deformado onde ele buscava um reflexo que não doesse. Naquela segunda-feira, o silêncio da mansão em La Moraleja pesava mais que o ouro. O convite de Endrick — ou melhor, a intimação — ecoava em sua mente como um desafio que ele não estava pronto para vencer. Mozart não queria ser "o Leo". Ele não queria ser o garoto com cicatrizes na costela. Ele queria ser a divindade intocável que o mundo esperava que ele fosse.

Por isso, às oito da noite, quando o interfone tocou, Mozart não atendeu. Em vez disso, ele pegou a chave da sua Ferrari Roma preta e saiu pelos fundos, deixando Endrick parado diante de portões de ferro fechados.

Ele precisava de barulho. Precisava de caos.

A *Goya*, uma nova boate subterrânea inaugurada no coração do bairro de Salamanca, era o destino perfeito. O lugar era um santuário de hedonismo, com paredes revestidas de veludo carmesim e uma iluminação que oscilava entre o âmbar e o vermelho sangue. Quando Mozart entrou, a música eletrônica pulsante pareceu massagear seu cérebro cansado.

Ele não foi para a área VIP. Ele foi para o centro do furacão.

— Uma dose de tequila. Não, a garrafa — ordenou ele ao barman, jogando um cartão de crédito preto sobre o balcão.

A notícia de sua presença se espalhou como pólvora. Em minutos, ele estava cercado. E Mozart, com um sorriso predatório e os olhos injetados de uma euforia artificial, começou o show. Ele queria testar os limites. Não os dele, mas os de Endrick. Ele sabia que o outro viria. Ele queria que Endrick visse exatamente o que ele era capaz de fazer quando decidia se perder.

Uma mulher de cabelos escuros e vestido de seda verde se aproximou. Ela não disse nada, apenas passou a mão pelo peito de Mozart. Ele a puxou pela cintura com uma força desnecessária, colando seus corpos.

— Você é tão bonito quanto na TV — sussurrou ela.

— Na TV eu sou um personagem — Mozart respondeu, a voz perigosamente baixa. — Aqui, eu sou o que você quiser.

Ele a beijou. Foi um beijo técnico, coreografado, mas profundo o suficiente para fazer as pessoas ao redor pararem para olhar. Ele sentia o gosto do gloss de cereja e do álcool, mas sua mente estava em outro lugar. Ele estava imaginando a expressão de Endrick.

Enquanto isso, do lado de fora da mansão, Endrick Felipe olhava para o celular. Nenhuma resposta. Ele sentiu uma onda de frustração, mas não de surpresa. Ele conhecia o padrão. Mozart fugia quando se sentia encurralado.

Ele abriu o Instagram e não demorou dois minutos para ver os primeiros *stories* marcados na *Goya*. Mozart estava lá, no meio de uma multidão, com uma garrafa na mão e uma mulher em cada braço.

— Idiota — resmungou Endrick, entrando em seu carro. — Você quer um show, Mozart? Então vamos ver quem encerra o espetáculo.

Dentro da boate, Mozart estava em sua terceira mulher da noite. Desta vez era uma loira de olhos felinos. Ele a prensou contra uma coluna de mármore, as mãos perdidas no cabelo dela, beijando seu pescoço enquanto a música subia a um volume ensurdecedor. Ele sentia as mãos dela arranhando suas costas, sobre a camisa de linho, e por um segundo, a dor da cicatriz na costela pareceu latejar em resposta. Ele beijou a boca dela com urgência, uma tentativa de sufocar a memória do olhar de Endrick no treino.

Foi então que ele sentiu uma mão firme, como uma pinça de aço, agarrar seu ombro.

— O show acabou, Leonardo.

Mozart se afastou da mulher, limpando o batom borrado com as costas da mão. Ele girou lentamente, encontrando Endrick. O atacante mais jovem não usava terno, nem seda. Estava de calça jeans e uma jaqueta de couro escura, mas sua presença parecia ocupar mais espaço do que toda a decoração luxuosa do lugar.

— Ora, ora — Mozart balbuciou, as palavras começando a se arrastar. — O Pequeno Rei veio conferir o reino. Quer uma bebida? Ou prefere uma das minhas convidadas?

Endrick não respondeu com palavras. Ele apenas olhou para a mulher, que, percebendo a tensão elétrica entre os dois jogadores, resolveu se retirar discretamente.

— Você prometeu um jantar — disse Endrick, a voz calma, mas com um peso que cortava a música. — E eu não gosto que quebrem promessas comigo.

— Eu mudei o menu — Mozart riu, cambaleando levemente. Ele tentou dar um gole na garrafa, mas Endrick a tirou de sua mão e a colocou sobre uma mesa próxima. — Ei! Isso custou mais do que o seu primeiro contrato no Palmeiras!

— Não me importa quanto custou. Vamos embora. Agora.

Mozart tentou empurrá-lo, mas Endrick era uma rocha. O contraste físico entre os dois era fascinante: Mozart, alto, esguio e desestabilizado; Endrick, compacto, forte e absolutamente focado.

— Você não manda em mim! — Mozart gritou, atraindo olhares. — Você é só um garoto! Um garoto que acha que pode me consertar!

— Eu não quero te consertar, Mozart — disse Endrick, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Leonardo até que seus narizes quase se tocassem. — Eu quero que você pare de ser um covarde e me enfrente de verdade, sem essas distrações baratas.

Endrick agarrou o braço de Mozart e começou a guiá-lo em direção à saída. Mozart tentou resistir, mas o álcool havia minado sua coordenação. Ele murmurava insultos em francês, palavras que Endrick não entendia, mas cujo tom era de pura frustração.

Quando chegaram ao ar fresco da noite, Mozart desabou contra a lateral do carro de Endrick. O silêncio da rua era um contraste doloroso com o barulho da boate.

— Você é um pé no saco — murmurou Mozart, a cabeça pendendo para frente. O estado de euforia havia passado, dando lugar a uma melancolia pesada e silenciosa.

— E você é um bêbado irresponsável — respondeu Endrick, abrindo a porta do passageiro. — Entra. Vou te levar para casa.

Durante o trajeto, Mozart ficou estranhamente quieto. Ele observava as luzes de Madrid passando pela janela, seus dedos traçando padrões invisíveis no couro do banco. De vez em quando, ele soltava uma observação carinhosa, algo que nunca diria sóbrio.

— Você dirige bem... — sussurrou Mozart, sem olhar para ele. — Suas mãos são firmes. Gosto de coisas firmes.

Endrick apertou o volante, tentando ignorar o calor que subiu pelo seu pescoço.

— Fica quieto, Leo. Tenta não vomitar no meu carro.

— Eu não vou vomitar. Sou um Mozart. Mozarts não vomitam em carros de luxo.

Ao chegarem na mansão, Endrick teve que praticamente carregar Mozart para dentro. O bilionário estava em um estado de letargia, apoiando todo o seu peso no ombro de Endrick. Quando entraram na cozinha de aço inoxidável, Mozart pareceu ter um surto de consciência.

— O jantar... — disse ele, soltando-se de Endrick e cambaleando até a ilha central. — Eu prometi. Eu vou fazer.

— Leo, não. Você mal consegue ficar em pé. Deita no sofá, eu peço uma pizza.

— Pizza? — Mozart olhou para ele com um desprezo genuíno. — Eu sou formado na *Le Cordon Bleu*. Eu não como pizza de entrega. Vou fazer um *Omelette aux Fines Herbes*. Simples. Perfeito. Como eu.

Antes que Endrick pudesse impedi-lo, Mozart pegou uma faca de chef, uma peça de cerâmica japonesa extremamente afiada. Suas mãos, geralmente tão precisas, estavam trêmulas.

— Leo, solta essa faca! — Endrick tentou se aproximar.

— Eu sei o que estou fazendo! — Mozart protestou, tentando cortar uma cebola com uma velocidade perigosa.

O acidente aconteceu em um piscar de olhos. A faca deslizou na superfície lisa da cebola e atingiu o dedo indicador de Mozart. O corte foi profundo.

— Droga! — Mozart soltou a faca, que caiu no chão com um tilintar metálico. Ele olhou para o sangue que começava a jorrar, sua expressão mudando de teimosia para um choque infantil.

Endrick agiu rápido. Ele puxou Mozart para a pia, abriu a água fria e segurou a mão dele sob o jato.

— Eu falei para você parar! — Endrick estava furioso, mas suas mãos eram gentis enquanto ele examinava o ferimento. — Você é um idiota completo, sabia?

Mozart não respondeu. Ele estava olhando para Endrick, a respiração curta. A dor parecia ter trazido uma clareza súbita e dolorosa.

— Dói... — sussurrou Mozart, a voz pequena.

— Eu sei que dói. Vem aqui, senta na bancada.

Endrick pegou um kit de primeiros socorros em um armário próximo. Ele limpou o corte com antisséptico, ignorando os gemidos de dor de Mozart, e aplicou um curativo compressivo com uma habilidade que denunciava anos de cuidados com lesões esportivas. Durante todo o processo, Mozart não tirou os olhos do rosto de Endrick.

— Por que você voltou? — perguntou Mozart, a voz agora suave, quase um murmúrio. — Eu te deixei esperando no portão. Eu fui para a balada. Eu beijei aquelas mulheres só para você ver. Por que você ainda está aqui limpando meu sangue?

Endrick terminou de prender o curativo e finalmente olhou nos olhos de Mozart. Eles estavam tão próximos que ele podia ver as nuances de cinza nas íris de Leonardo.

— Porque eu sei que aquele cara na boate não era você — disse Endrick, a voz firme. — E porque, por mais que você tente me convencer do contrário, eu acho que você vale o esforço.

Mozart sentiu algo se quebrar dentro de si. Não era a costela, nem o orgulho. Era a solidão que ele cultivava como uma joia rara. Ele estendeu a mão não ferida e tocou o rosto de Endrick, os dedos roçando a mandíbula forte do outro.

— Você é muito bom, Endrick — disse Mozart, um sorriso triste aparecendo em seus lábios. — Tão bom que chega a ser irritante.

Endrick não se afastou. Pelo contrário, ele se inclinou um pouco mais, fechando o espaço que restava. A eletricidade entre eles, que antes era de rivalidade e fúria, agora era algo muito mais denso e perigoso.

— Obrigado, príncipe — sussurrou Mozart, a voz carregada de uma ternura que ele nunca havia permitido que ninguém ouvisse.

Ele fechou os olhos e inclinou a cabeça, a testa encostada na de Endrick.

— Me beija — sussurrou Mozart, tão baixo que Endrick quase achou que tinha imaginado. — Por favor... só para eu saber que eu ainda estou aqui.

Endrick sentiu o coração martelar contra as costelas. Ele olhou para os lábios de Mozart, entreabertos, e depois para os olhos fechados, as longas pestanas tremendo levemente. Ele queria. Mais do que qualquer título, mais do que qualquer gol no Bernabéu. Ele queria provar o gosto daquele homem que era, ao mesmo tempo, seu maior rival e sua maior obsessão.

Mas, quando ele estava a milímetros de distância, o cheiro forte de tequila e o leve tremor no corpo de Mozart o fizeram parar.

Endrick suspirou, um som de pura frustração, e encostou os lábios levemente na testa de Mozart.

— Não assim, Leo — disse Endrick, a voz rouca. — Não quando você nem sabe em que planeta está.

Mozart abriu os olhos, uma mistura de decepção e alívio cruzando seu rosto.

— Você é... um santo — murmurou Mozart, a cabeça caindo no ombro de Endrick.

— Não, eu sou apenas o cara que vai te colocar na cama e garantir que você não morra engasgado com o próprio orgulho.

Endrick o ajudou a se levantar e o guiou até o quarto principal. Ele ajudou Mozart a tirar a camisa de linho manchada de sangue e álcool, tentando não encarar demais as cicatrizes que agora conhecia a história. Ele cobriu Leonardo com o edredom de seda fria.

Mozart já estava quase dormindo, a consciência desaparecendo na névoa do cansaço.

— Endrick? — chamou ele, a voz sumindo.

— Estou aqui.

— Não vai embora...

— Eu não vou. Vou estar na sala. Se precisar de alguma coisa, grita.

Mozart deu um suspiro profundo e se entregou ao sono.

Endrick ficou parado na porta do quarto por um longo tempo, observando a silhueta do homem que o mundo chamava de "Da Vinci". Ele sabia que, na manhã seguinte, a arrogância voltaria. As provocações no Twitter continuariam. A rivalidade no campo seria mais intensa do que nunca.

Mas ele também sabia que, sob o veludo e a seda, sob os milhões e as manchetes, havia um Leonardo que pedia, em sussurros, para não ser deixado sozinho.

Ele desceu para a cozinha, limpou o sangue do chão e guardou a faca japonesa. Depois, sentou-se no sofá da sala luxuosa e abriu o Twitter.

As fotos de Mozart na balada ainda estavam lá, mas agora pareciam irrelevantes. Endrick bloqueou o celular e fechou os olhos.

Madrid podia ter o Mozart das manchetes. Mas, naquela noite, o Leonardo era apenas dele. E isso, Endrick decidiu, era uma vitória muito maior do que qualquer placar poderia registrar.

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