Madristas não se suportam.
Névoa de Neon e Vidro Quebrado
A noite de sábado em Madrid não era apenas um período de tempo; era uma entidade faminta que devorava os fracos e coroava os audaciosos. O clube *Opium*, um dos redutos mais exclusivos da capital espanhola, fervilhava sob uma iluminação roxa e azul que transformava o suor em cristais e as intenções em sombras.
Na área VIP, protegida por seguranças que pareciam estátuas de granito, Leonardo Mozart reinava.
Ele não estava apenas presente; ele estava submerso. O som do techno melódico pulsava em suas têmporas, sincronizado com a batida acelerada de seu coração. Em uma mão, um copo de cristal com vodca premium e gelo translúcido; na outra, a cintura de uma modelo espanhola cujo nome ele já havia esquecido três vezes nos últimos vinte minutos.
— Você parece distante, Leo — sussurrou a mulher, aproximando os lábios de sua orelha para ser ouvida acima dos graves. — Onde está o gênio da bola agora?
Mozart soltou um riso curto, sentindo a fumaça do narguilé de maçã verde flutuar ao redor deles como uma neblina tóxica.
— O gênio está de folga — respondeu ele, a voz rouca. — Hoje, sou apenas um homem tentando não pensar.
Ele a beijou. Não foi um beijo de filme, carregado de romance. Foi um beijo faminto, quase agressivo, uma tentativa desesperada de preencher o vazio que a conversa com Endrick no estacionamento havia deixado. Mozart odiava a vulnerabilidade. Odiava que alguém tivesse visto as rachaduras em sua armadura de seda. E, acima de tudo, odiava que esse alguém fosse o garoto de Brasília que parecia ter a alma mais sólida do que um diamante.
Ao redor dele, o ambiente era um borrão de flashes e risadas estridentes. Outras mulheres se aproximavam, atraídas pelo magnetismo que o dinheiro e a fama exalavam. Ele distribuía sorrisos de lado, beijos roubados no canto da boca e olhares que prometiam tudo, mas não entregavam nada. Ele queria o barulho. Queria a fumaça. Queria qualquer coisa que abafasse a voz interna que repetia: *Você não é intocável.*
***
A poucos quilômetros dali, em seu apartamento funcional e moderno, Endrick Felipe não conseguia dormir. Ele estava deitado no sofá, com a TV ligada em um canal de esportes qualquer, mas seus olhos estavam fixos na tela do celular.
O Twitter estava pegando fogo. Como sempre.
*"@MadridVibe: Mozart curtindo a noite madrilenha como se não houvesse amanhã. O 'Da Vinci' foi visto com três modelos diferentes na área VIP do Opium. Vida de rei ou falta de foco?"*
Havia um vídeo, granulado e tremido, postado por algum penetra. Nele, Mozart aparecia no centro de um grupo, com a camisa levemente aberta, rindo enquanto uma mulher loira sussurrava algo em seu ouvido. Ele parecia o dono do mundo. Ele parecia... perdido.
Endrick sentiu uma pontada no peito que ele se recusou a chamar de ciúme. Era irritação, ele disse a si mesmo. Era preocupação profissional. O time tinha um jogo importante na terça-feira pela Champions League, e a estrela do elenco estava se afogando em vodca e luzes de neon.
— Esse moleque não tem jeito — resmungou Endrick, jogando o celular na almofada. — Uma conversa séria e ele corre direto para a autodestruição.
Mas o sentimento persistia. Era uma inquietação que subia pela espinha. Endrick se lembrava do olhar de Mozart no estacionamento, da dor crua que ele tentou esconder. Ver Leonardo agora, fingindo ser o playboy inabalável, era como ver alguém tentando colar um vaso quebrado com cuspe e esperança.
Endrick pegou o telefone novamente. Ele hesitou. Mozart provavelmente o mandaria para o inferno. Mozart provavelmente estava ocupado demais sendo adorado para ouvir qualquer conselho.
Mesmo assim, ele digitou.
— *Amanhã o treino é às dez. Tenta não chegar cheirando a cigarro e arrependimento.*
A mensagem foi visualizada instantaneamente. Mozart estava com o celular na mão. A resposta veio em segundos, carregada de sarcasmo.
— *Arrependimento é para quem não tem opções, Endrick. Durma bem, Pequeno Rei. O reino está em boas mãos.*
Endrick sentiu o sangue ferver. A arrogância de Mozart era um escudo, e ele sabia disso. Mas o que realmente o incomodava era a imagem de Mozart com aquelas mulheres, a facilidade com que ele se descartava em trocas superficiais.
— *Você é um idiota, Mozart* — Endrick enviou, a última mensagem da noite antes de desligar o aparelho.
***
Às quatro da manhã, Mozart saiu da balada. O ar frio da madrugada de Madrid bateu em seu rosto, trazendo uma sobriedade indesejada. Ele dispensou a companhia da última modelo, pagando um táxi para ela e alegando que precisava de espaço.
Ele caminhou até seu carro, mas não entrou. Ficou ali, parado, olhando para as próprias mãos. Elas tremiam levemente. Não era o álcool. Era a adrenalina da mentira que ele contava para si mesmo todos os dias.
Ele pegou o celular e leu a última mensagem de Endrick. *Você é um idiota.*
— Eu sei — sussurrou Mozart para o estacionamento vazio. — Eu sou o idiota mais talentoso que você já conheceu.
***
Domingo de manhã em Valdebebas. O sol estava forte, e o cheiro de grama úmida era o único alento para quem tinha passado a noite em claro.
Mozart chegou com óculos escuros de grife, escondendo as olheiras que nem o melhor corretivo do mundo conseguiria apagar totalmente. Ele caminhava com uma lentidão calculada, tentando manter a postura de "está tudo sob controle".
Endrick já estava no gramado, fazendo embaixadinhas com uma intensidade desnecessária. Quando viu Mozart se aproximar, parou a bola no peito e a deixou cair suavemente no chão.
— A noite foi produtiva? — perguntou Endrick, a voz carregada de um sarcasmo que não costumava usar. — As manchetes dizem que você foi o MVP da balada.
Mozart tirou os óculos, revelando olhos levemente avermelhados, mas ainda desafiadores.
— Eu sou o MVP em qualquer lugar que eu vá, Endrick. Balada, campo, cozinha... você escolhe.
— Você parece um fantasma, Leo — Endrick se aproximou, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de perfume caro misturado com um fundo de tabaco ainda emanava da pele de Mozart. — Por que você faz isso? A gente teve aquela conversa, você falou sobre seu pai, sobre as marcas... e aí você sai e tenta se apagar no meio de um monte de gente que não dá a mínima para quem você é de verdade?
Mozart sentiu o estômago dar um nó. A proximidade de Endrick era desconfortável porque era real. Não havia câmeras ali. Não havia fãs. Havia apenas o garoto que o via como ele era.
— O que você quer de mim? — Mozart explodiu, a voz subindo de tom. — Quer que eu seja como você? O exemplo de atleta, o garoto de família, o herói nacional? Eu não sou isso, Endrick! Eu sou o que sobrou de uma criação de m*rda. Eu sou o ouro que foi batido até virar folha. Se eu não brilhar, eu não existo.
— Você existe mesmo no escuro, seu imbecil! — Endrick deu um passo à frente, ficando peito a peito com o gigante de 1,88 m. — Você acha que aquelas mulheres no Opium se importam com o seu molho béarnaise ou com o que o seu pai fez com você? Elas querem o "Da Vinci". Eu estou aqui falando com o Leonardo!
A palavra "Leonardo" pareceu um tapa no rosto de Mozart. Ninguém o chamava assim. Era sempre Mozart, Da Vinci, Leo, a Estrela.
— Você está com ciúmes? — Mozart disparou, uma tentativa desesperada de mudar o foco, de retomar o controle da narrativa. — É isso? O Pequeno Rei não gosta de ver o companheiro de ataque dividindo a atenção com metade de Madrid?
Endrick ficou em silêncio. Seus olhos castanhos brilharam com uma intensidade que fez Mozart recuar internamente. Ele não desviou o olhar.
— Talvez eu esteja — admitiu Endrick, a voz agora baixa e perigosa. — Mas não é da atenção que eu tenho ciúmes, Mozart. É da forma como você se joga fora. Como se você não valesse nada além do próximo gol ou da próxima garrafa.
Mozart sentiu o ar faltar. Ele esperava uma negação, uma risada, um soco. Ele não esperava a verdade. O ego de Mozart, aquele monstro gigante que ele alimentava diariamente, pareceu encolher diante da sinceridade bruta de Endrick.
— Você... você não deveria se importar — disse Mozart, a arrogância falhando miseravelmente.
— Mas eu me importo — rebateu Endrick. — E é por isso que você me odeia tanto. Porque eu sou a única pessoa que não te compra, Leo.
O apito de Ancelotti ecoou pelo campo, sinalizando o início do treino. A tensão entre os dois era quase visível, uma corda esticada ao ponto de romper.
— Vamos logo — disse Mozart, recolocando os óculos escuros com as mãos ainda trêmulas. — Temos um treino para fazer. E eu ainda pretendo ser melhor que você hoje, mesmo com ressaca.
Endrick apenas balançou a cabeça e correu em direção ao grupo.
O treino foi um massacre. Mozart, apesar do estado físico deplorável, jogou com uma raiva fria. Ele não errou um passe. Ele não perdeu uma dividida. Era como se ele estivesse tentando punir o próprio corpo por ter falhado na noite anterior.
Endrick, por outro lado, jogou com uma concentração absoluta. Ele não olhava para Mozart, mas estava sempre lá, cobrindo os espaços, oferecendo a opção de passe, sendo o alicerce que Mozart se recusava a admitir que precisava.
No final da atividade, enquanto os outros jogadores se dirigiam ao vestiário comentando sobre as fotos de Mozart que circulavam na internet, Endrick parou ao lado do banco de reservas onde Leonardo tentava recuperar o fôlego.
— O jantar de ontem foi cancelado por motivos óbvios — disse Endrick, jogando uma garrafa de água para Mozart. — Mas na segunda, depois do treino, eu vou na sua casa. E você vai cozinhar algo que não tenha álcool na receita.
Mozart pegou a garrafa no ar, seus reflexos ainda intactos. Ele olhou para Endrick, que já estava se afastando.
— Eu não recebo visitas sem agendamento, Endrick! — gritou Mozart.
— Às oito, Mozart! — Endrick gritou de volta, sem olhar para trás. — E vê se limpa a casa!
Leonardo ficou sozinho no campo por alguns minutos. Ele olhou para o céu azul de Madrid, sentindo o suor esfriar em sua pele. Ele tirou o celular do bolso e viu que tinha dezenas de mensagens de mulheres da noite anterior, convites para festas, fotos provocantes.
Ele apagou todas.
Em seguida, abriu o aplicativo de notícias. A manchete principal do *Mundo Deportivo* era uma foto dele saindo da balada com a legenda: *"Mozart: O Gênio Incontrolável"*.
Ele bloqueou a tela.
— Incontrolável — murmurou ele, com um sorriso amargo. — Se eles soubessem que eu acabei de levar uma bronca de um garoto de vinte anos...
Ele se levantou, sentindo a costela ainda latejar levemente, uma lembrança constante de que ele era feito de carne e osso, não de mármore. Ele caminhou para o vestiário, o passo um pouco mais firme, a mente um pouco menos nublada pela fumaça do narguilé.
A noite de Madrid continuaria lá, com seus neon e suas promessas vazias. Mozart ainda seria o centro das atenções, o alvo das manchetes e o dono dos gols impossíveis. Mas agora, havia um novo elemento na equação.
Havia alguém que o chamava pelo nome. Alguém que via as cicatrizes e não desviava o olhar.
E para Leonardo Castellani Mozart, isso era mais aterrorizante e mais fascinante do que qualquer final de Champions League.
A guerra entre os dois atacantes estava longe de terminar, mas as regras haviam mudado. No tabuleiro de Madrid, o Rei e o Da Vinci estavam começando a entender que, para manter a coroa, eles teriam que aprender a dividir o trono. Ou, pelo menos, a dividir o jantar.
Enquanto Mozart entrava no chuveiro, ele já estava pensando no menu de segunda-feira. Teria que ser algo complexo. Algo que Endrick nunca tivesse provado. Algo que dissesse, sem usar palavras, que ele ainda era o melhor.
Mas, no fundo, ele sabia que não era mais sobre ser o melhor. Era sobre não estar mais sozinho.
E, pela primeira vez em muito tempo, Mozart não sentiu vontade de beber para esquecer. Ele queria lembrar. Lembrar do olhar de Endrick. Lembrar da sensação de ser visto.
Madrid que se preparasse. O show estava apenas começando, e desta vez, o roteiro não estava nas mãos da imprensa. Estava nas mãos de dois brasileiros que se odiavam o suficiente para se tornarem invencíveis.