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Madristas não se suportam.

O Gosto Amargo da Ressaca e o Doce do Silêncio

A luz do sol madrilenho atravessava as cortinas de seda da mansão em La Moraleja com uma precisão cirúrgica, atingindo as pálpebras de Leonardo Mozart como se fossem lâminas aquecidas. Ele gemeu, um som gutural que parecia vir do fundo de uma caverna, e tentou se virar para o lado. Cada movimento fazia seu cérebro latejar contra as paredes do crânio, uma batida rítmica que ecoava o techno da noite anterior.

Ele tateou o lençol, esperando encontrar o toque frio da seda, mas sua mão direita encontrou algo volumoso e rígido. Abriu um olho, depois o outro, e encarou o curativo branco e impecável em seu dedo indicador. A memória veio em flashes desconexos: o brilho da boate Goya, o gosto da tequila, o rosto furioso de Endrick, o brilho da faca japonesa e, finalmente, a sensação de ser carregado.

— Merda — sussurrou Mozart, a voz falhando.

Ele se sentou na cama, a náusea subindo por sua garganta. Estava sem camisa, apenas com a calça jeans da noite anterior. Suas costelas doíam, não pela pancada de Rudiger no treino, mas pela tensão acumulada. Ele olhou ao redor, esperando encontrar o vazio habitual de sua suíte, mas ouviu um som vindo do andar de baixo. Era o tilintar de louça e o aroma de café recém-passado.

Mozart levantou-se, cambaleando levemente, e caminhou até o topo da escada. Lá embaixo, na cozinha que ele tratava como um templo sagrado, estava Endrick. O atacante vestia uma camiseta branca simples e parecia terrivelmente desperto para alguém que passou a noite em um sofá alheio.

Leonardo desceu os degraus lentamente, a mão esquerda deslizando pelo corrimão de vidro. Quando entrou na cozinha, Endrick se virou, segurando uma caneca.

— Olhe só quem resolveu voltar ao mundo dos vivos — disse Endrick, com um tom de voz que não continha a agressividade da noite anterior, mas sim uma calma exasperante. — Como está o dedo, "Da Vinci"?

Mozart ignorou a pergunta, caminhando até a geladeira e pegando uma garrafa de água mineral. Ele bebeu metade do conteúdo em um único gole, sentindo o líquido gelado acalmar o incêndio em sua garganta.

— O que você ainda está fazendo aqui? — perguntou Mozart, finalmente encarando o companheiro de equipe. — Já conseguiu o que queria. Me viu no meu pior, me deu um sermão e me salvou de uma hemorragia por cebola. Já pode ir embora e contar para o Vini e para o Bellingham como eu sou patético.

Endrick colocou a caneca sobre a ilha de mármore e cruzou os braços. Ele observou Mozart — o cabelo bagunçado, os olhos fundos, a postura defensiva — e sentiu uma mistura de irritação e algo que ele se recusava a chamar de afeto.

— Se eu quisesse te expor, Leo, teria tirado uma foto sua abraçado com a privada às três da manhã — respondeu Endrick. — Fiz café. E tem aspirina ali no balcão. Toma antes que sua cabeça exploda e suje meu tapete favorito.

— O tapete é meu — retrucou Mozart, mas pegou o comprimido. — E você não respondeu à pergunta. Por que ficou?

Endrick deu de ombros, desviando o olhar para a janela que dava para a piscina infinita.

— Porque você pediu.

O silêncio que se seguiu foi denso. Mozart lembrou-se do sussurro antes de apagar, do pedido desesperado para que Endrick não fosse embora. Ele sentiu o rosto esquentar, uma sensação de humilhação que nem a pior ressaca poderia mascarar.

— Eu estava bêbado — disse Mozart, a voz recuperando um pouco da sua arrogância defensiva. — Eu digo muitas coisas quando estou bêbado. Geralmente em línguas que você nem entende.

— Você falou em português — rebateu Endrick, dando um passo em direção a ele. — E você parecia bem lúcido quando pediu para ser beijado.

Mozart travou. A garrafa de água quase escorregou de sua mão. Ele olhou para Endrick, buscando qualquer sinal de zombaria, mas encontrou apenas uma seriedade inabalável.

— E por que não beijou? — perguntou Mozart, a voz agora um fio desafiador. — O grande Endrick Felipe, o exemplo de moralidade, teve medo de um bêbado? Ou será que o "Pequeno Rei" descobriu que não tem estômago para lidar com alguém como eu?

Endrick soltou um riso seco e se aproximou ainda mais, até que Mozart estivesse prensado contra a bancada fria. A diferença de altura era notável, mas a presença de Endrick parecia nivelar o campo.

— Eu não beijo troféus, Leo. E era isso que você era ontem à noite: um troféu quebrado tentando se convencer de que ainda brilha — Endrick colocou as mãos na bancada, uma de cada lado do corpo de Mozart, cercando-o. — Eu quero o cara que me desafia no treino. O cara que cozinha como se estivesse criando uma obra de arte. Não o cara que se esconde atrás de garrafas de tequila e modelos que nem sabem o seu sobrenome.

Mozart sentiu a respiração travar. O cheiro de café e sabonete neutro que emanava de Endrick era inebriante, muito mais do que qualquer álcool. Ele olhou para os lábios de Endrick, a distância agora perigosamente curta.

— Você fala demais — sussurrou Mozart.

— E você foge demais — devolveu Endrick.

Desta vez, não houve pedido. Mozart inclinou a cabeça, fechando os olhos, e foi Endrick quem eliminou os últimos milímetros. O beijo não foi suave. Foi uma colisão de tudo o que vinha se acumulando entre eles nos últimos meses: a rivalidade ácida, a disputa por espaço, o ressentimento e uma curiosidade mútua que beirava a obsessão.

Mozart gemeu contra a boca de Endrick, suas mãos subindo para agarrar os ombros do mais jovem. A mão ferida latejou, mas ele não se importou. Era um beijo que tinha gosto de café e de uma verdade que ambos tentavam enterrar sob manchetes de jornais e postagens no Twitter.

Endrick recuou apenas o suficiente para olhar nos olhos de Mozart, sua respiração tão descompassada quanto a do outro.

— Agora você está sóbrio — disse Endrick, a voz baixa. — Ainda quer que eu vá embora?

Mozart soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. Ele olhou para Endrick e, pela primeira vez, não viu um rival ou um obstáculo. Viu o único homem em Madrid que não tinha medo dele.

— Não — admitiu Mozart, a voz rouca. — Mas se você contar para alguém que eu admiti isso, eu juro que te vendo para o Getafe.

Endrick riu, um som genuíno que iluminou a cozinha.

— O mercado está fechado, "Da Vinci". Você está preso comigo, pelo menos até o treino de amanhã.

***

O resto da manhã passou em uma calmaria estranha. Eles não falaram sobre o beijo, mas a tensão entre eles havia mudado de forma. Não era mais uma corda prestes a arrombar, mas um fio que os conectava. Endrick ajudou Mozart a limpar a cozinha — ou melhor, Endrick limpou enquanto Mozart dava instruções arrogantes sobre como manusear suas facas de cerâmica.

— Você é um desastre como auxiliar de cozinha — comentou Mozart, sentado em um banco alto enquanto observava Endrick guardar os utensílios.

— E você é um desastre como ser humano funcional — rebateu Endrick, sem olhar para trás. — Onde vai essa frigideira?

— Na gaveta de baixo. Não, a outra! A de cobre! Você vai riscar o acabamento!

Endrick revirou os olhos, mas obedeceu. Quando terminou, ele se sentou ao lado de Mozart. O silêncio voltou, mas desta vez era confortável. Mozart olhava para o curativo no dedo, parecendo pensativo.

— Por que você faz isso, Endrick? — perguntou Mozart subitamente. — Você tem tudo. O Brasil te ama, o Real Madrid te vê como o futuro, você é o cara perfeito. Por que perder tempo comigo? Eu sou um problema ambulante. A imprensa me odeia metade do tempo e me idolatra na outra metade. Eu sou instável.

Endrick olhou para as próprias mãos, calejadas e fortes.

— Porque você é real, Leo — respondeu ele. — Todo mundo neste clube é uma marca. O Vini é a alegria, o Jude é a elegância, eu sou a força. Mas você... você é uma bagunça de talento e dor. E quando a gente está no campo, e eu te passo a bola, eu sinto que você é o único que entende a urgência de ser o melhor. Não pela fama, mas porque se a gente não for o melhor, a gente não é nada.

Mozart sentiu um nó na garganta. Ele nunca tinha ouvido ninguém descrever sua motivação de forma tão precisa.

— Meu pai dizia que a perfeição é a única linguagem que o mundo respeita — disse Mozart, a voz baixa. — Ele nunca me perdoou por não ser perfeito o tempo todo.

— Seu pai não está aqui, Leo — Endrick colocou a mão sobre a de Mozart, evitando o dedo ferido. — E o Bernabéu não é a sala de jantar da sua infância. Lá, você pode errar. Desde que você corra de volta para consertar. E se você não conseguir correr, eu corro por você.

Mozart olhou para a mão de Endrick sobre a sua. O contraste entre a pele escura de Endrick e a sua era bonito, um mosaico de forças diferentes.

— Você é um filósofo terrível, sabe disso? — Mozart tentou brincar, mas seus olhos estavam úmidos.

— Sou um atacante. A gente vai direto ao ponto.

O momento foi interrompido pelo toque insistente do celular de Mozart. Ele olhou a tela e bufou.

— É o Ancelotti? — perguntou Endrick.

— Não. É o meu agente. Parece que as fotos da boate já estão em todos os lugares. Tem uma manchete no *Sport* perguntando se o Real Madrid deveria multar o "garoto-propaganda da vida noturna".

Endrick pegou o próprio celular e abriu o Twitter. O feed era um campo de batalha.

*"@RealMadridFans: Mozart visto em clima de romance no Goya. Onde está o profissionalismo?"*

*"@AntiMadridista: Mozart é o novo Balotelli. Talento desperdiçado em taças de cristal."*

— Eles não sabem de nada — disse Endrick, bloqueando o celular.

— Eles sabem o que eu mostro a eles — Mozart levantou-se, caminhando até a janela. — Eu dou a eles o que eles esperam. O bilionário arrogante que não se importa com nada. É mais fácil assim.

Endrick levantou-se também e parou atrás dele.

— E o que você vai mostrar hoje? — perguntou ele. — Temos treino à tarde. A imprensa vai estar lá, os paparazzi vão estar nos portões.

Mozart virou-se, um brilho perigoso voltando aos seus olhos cinzas.

— Vou mostrar a eles que um Mozart com ressaca e um dedo cortado ainda é melhor do que qualquer um deles em seu melhor dia — ele olhou para Endrick e deu um sorriso de lado, o primeiro sorriso genuinamente confiante do dia. — E vou mostrar que o meu parceiro de ataque é a única pessoa que pode me manter na linha.

— O que você quer dizer com isso? — Endrick franziu o cenho.

— Vamos chegar juntos no treino. No meu carro.

Endrick hesitou.

— Leo, isso vai causar um incêndio. Vão dizer que estamos brigando, ou que você me arrastou para a sua bagunça, ou...

— Ou vão dizer que o Real Madrid tem a dupla mais letal da Europa, dentro e fora de campo — Mozart aproximou-se, ajeitando a gola da camiseta de Endrick. — Deixe que falem. Enquanto eles falam, a gente marca gols. O que me diz, Pequeno Rei? Quer incendiar Madrid comigo?

Endrick olhou para Leonardo — o gênio, o arrogante, o garoto ferido — e soube que não havia outro lugar onde ele preferiria estar.

— Prepare a Ferrari — disse Endrick. — Mas eu escolho a música. Nada de ópera ou techno francês.

— Você está pedindo demais, Endrick Felipe.

***

Às duas da tarde, os portões de Valdebebas estavam cercados por jornalistas. A expectativa era de que Mozart chegasse escondido, ou que Ancelotti desse uma declaração sobre seu comportamento.

Em vez disso, a Ferrari Roma preta rugiu pela avenida. Quando o carro parou diante dos portões, os flashes foram ensurdecedores. Leonardo Mozart desceu do lado do motorista, usando óculos escuros e um terno casual que custava mais do que a maioria dos carros ali. Ele não parecia um homem em crise; parecia um imperador retornando de uma conquista.

Mas o verdadeiro choque veio quando a porta do passageiro se abriu. Endrick saiu do carro, calmo, carregando sua chuteira. Ele parou ao lado de Mozart, e por um segundo, os dois trocaram um olhar que os fotógrafos não conseguiram decifrar, mas que a internet passaria as próximas 24 horas analisando.

Mozart colocou a mão no ombro de Endrick, um gesto de camaradagem que parecia uma declaração de guerra contra o resto do mundo.

— Sorria, Endrick — sussurrou Mozart entre dentes. — Eles odeiam quando a gente parece feliz.

Endrick deu um sorriso de lado, curto e eficiente.

— Eu não estou sorrindo para eles, Leo.

Eles caminharam em direção ao centro de treinamento, ignorando os gritos dos repórteres. Dentro do vestiário, o silêncio caiu quando eles entraram. Jude Bellingham e Vinícius Jr. trocaram olhares surpresos.

— Então a noite foi boa? — perguntou Vini, com um sorriso malicioso.

Mozart sentou-se em seu banco e começou a tirar os sapatos caros, revelando o curativo no dedo.

— A noite foi um desastre — respondeu Mozart, olhando para Endrick, que se trocava logo à frente. — Mas a manhã... a manhã foi educativa.

Endrick não disse nada, apenas piscou para Mozart antes de colocar a camisa de treino.

Naquele dia, o treino do Real Madrid foi descrito pelos observadores como "feroz". Mozart e Endrick jogaram como se estivessem conectados por um fio invisível. Cada passe de Mozart encontrava a corrida de Endrick; cada pivô de Endrick abria espaço para o chute de Mozart. Eles não eram apenas dois jogadores; eram um sistema solar próprio, onde o resto do time orbitava.

Ao final da atividade, Ancelotti aproximou-se dos dois. O técnico italiano tinha aquele olhar sábio de quem já viu tudo no futebol.

— Mozart, seu dedo — disse Ancelotti, apontando para o curativo agora sujo de grama.

— Um pequeno acidente doméstico, Mister — respondeu Mozart, sem hesitar. — A cebola era mais resistente do que eu pensava.

Ancelotti olhou para Endrick, que apenas deu de ombros.

— Contanto que você continue passando a bola como passou hoje, pode cortar todos os dedos da mão — disse o técnico, saindo com um sorriso enigmático.

Quando ficaram sozinhos no campo, o sol começando a se pôr sobre Valdebebas, Mozart sentou-se na grama. Ele estava exausto, a dor de cabeça voltando com força, mas sentia uma paz que não conhecia há anos.

— Você está bem? — perguntou Endrick, sentando-se ao seu lado.

— Estou — Mozart olhou para as próprias mãos. — Sabe, Endrick... eu passei a vida toda tentando ser uma obra de arte terminada. Intocável. Mas hoje, com esse dedo cortado e essa ressaca maldita, eu me sinto mais... vivo.

Endrick deitou-se na grama, olhando para o céu.

— Obras de arte são para museus, Leo. O Bernabéu é para guerreiros. E guerreiros sangram.

Mozart deitou-se ao lado dele. Suas mãos se encontraram na grama, os dedos se entrelaçando discretamente, longe da vista de qualquer câmera.

— Obrigado — sussurrou Mozart.

— Pelo café ou por te tirar da boate?

— Por me ver.

Endrick apertou a mão de Mozart.

— Eu sempre te vi, Leo. Só estava esperando você parar de correr para me deixar chegar perto.

Naquela noite, o Twitter não falava mais apenas sobre as modelos ou a tequila. Falava sobre a "Conexão M&E". Falava sobre como a rivalidade mais explosiva de Madrid parecia ter se transformado em algo muito mais poderoso.

E na mansão em La Moraleja, o jantar finalmente aconteceu. Não houve facas japonesas caindo, nem tequila, nem fugas. Houve apenas dois jovens, um bilionário e um garoto de Brasília, dividindo um omelete simples e o silêncio de quem finalmente encontrou um porto seguro no meio da tempestade.

A guerra de egos não havia terminado — Mozart ainda era Mozart, e Endrick ainda era Endrick —, mas as armas haviam sido depostas. Pelo menos por enquanto. Porque em Madrid, o sol sempre nasce para quem tem coragem de enfrentar a própria sombra. E Leonardo Mozart, com a ajuda de um certo "Pequeno Rei", finalmente tinha parado de ter medo da sua.

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