Madristas não se suportam.
Estilhaços de Vidro e Fantasmas de Seda
O silêncio na mansão de Leonardo Mozart era absoluto, mas dentro de sua mente, o som era ensurdecedor. O ar-condicionado central mantinha a temperatura em exatos dezenove graus, mas ele suava sob o edredom de mil fios. O sono, que deveria ser um refúgio após o treino exaustivo com Endrick, havia se tornado um labirinto de memórias distorcidas.
No sonho, Leonardo não tinha dezenove anos. Ele tinha oito.
Ele estava em pé na vasta sala de jantar da cobertura da família no Rio de Janeiro. O mármore sob seus pés descalços parecia gelo. Na sua frente, um prato de porcelana francesa jazia em pedaços, uma mancha de molho madeira se espalhando como sangue sobre o tapete persa.
— Olhe para isso, Leonardo — a voz de seu pai, fria e metálica, cortava o ar. — Você não consegue nem segurar a droga de um prato. Como espera segurar o peso desse sobrenome?
O pequeno Leo tentou falar, mas sua garganta estava seca. Ele queria dizer que o prato estava quente, que ele só queria ajudar a arrumar a mesa, que ele queria que o pai notasse o quanto ele tinha praticado o nó da gravata naquele dia.
— Eu... eu sinto muito, papai — sussurrou a criança.
— Sentir muito é para os medíocres — o homem deu um passo à frente, a sombra projetada pela luz do lustre parecendo um monstro engolindo o menino. — Chora, Leonardo. Chora para eu te dar um motivo de verdade. Se você for fraco agora, o mundo vai te triturar. Eu estou apenas adiantando o processo.
De repente, o cenário mudou. A sala luxuosa desapareceu, dando lugar a uma rua de terra batida sob um sol escaldante. Leonardo ainda era uma criança, mas suas roupas de grife haviam sumido. Ele vestia uma camiseta desbotada e segurava uma bola de couro remendada. À sua frente, um menino de olhos determinados e sorriso largo corria entre pneus velhos.
Era Endrick. Mas um Endrick de dez anos, com os pés sujos de poeira e uma alegria que parecia ofender a melancolia de Leonardo.
— Vem, Leo! — gritou o pequeno Endrick. — A gente só precisa de um gol para ganhar o mundo!
Leonardo tentou correr, mas seus pés estavam presos no mármore que agora brotava da terra. Ele olhou para baixo e viu que suas pernas estavam cobertas de cicatrizes — as mesmas marcas que ele escondia sob a seda em Madrid. Cada cicatriz pulsava com uma palavra dita pelo pai: *Inútil. Decepcionante. Fraqueza.*
— Eu não posso — gritou Leonardo no sonho. — Se eu cair, ele vai me bater. Se eu errar, eu deixo de existir!
O pequeno Endrick parou de correr. Ele se aproximou de Leonardo, o rosto sério, mas sem um pingo de julgamento.
— Ninguém deixa de existir por um erro, cara — disse o Endrick da infância imaginária. — A diferença entre a gente é que eu nasci sem nada e tive que lutar por tudo. Você nasceu com tudo e agora tem medo de perder a única coisa que acha que tem: a perfeição. Mas a perfeição é uma mentira.
O chão começou a rachar. O mármore e a terra se misturaram em um abismo escuro. Leonardo sentiu que estava caindo. Ele tentou gritar, mas a voz de seu pai abafou tudo: *“Bom é o mesmo que lixo, Leonardo. Se você não for o melhor, você é ninguém.”*
Mozart acordou com um solavanco, o peito subindo e descendo violentamente. Ele estava sentado na cama, o lençol emaranhado em suas pernas. O quarto estava escuro, iluminado apenas pelos LEDs azuis de seus aparelhos eletrônicos.
— Foi só um sonho — murmurou ele, passando a mão trêmula pelo rosto suado. — Só a droga de um sonho.
Ele se levantou e caminhou até o banheiro, jogando água gelada no rosto. Ao olhar-se no espelho, ele não viu o atacante estrela do Real Madrid. Ele viu o menino de oito anos que aprendeu a sorrir para não chorar. Ele lembrou-se de como, aos dez anos, descobriu que o sarcasmo era uma arma melhor do que o silêncio. Se ele fizesse uma piada ácida, o pai ficava confuso. Se ele respondesse com arrogância, parecia que ele tinha o controle.
A máscara de "Da Vinci" não tinha sido construída por excesso de mimos. Tinha sido forjada em fogo e desprezo.
Ele voltou para o quarto e viu uma notificação no celular. Era uma mensagem de Endrick, enviada há duas horas.
— *Vi que você saiu do treino sem falar com ninguém. Amanhã cedo, faltas. Dez bolas. Quem perder paga o café. Não se atrase, Mozart.*
Leonardo soltou um riso seco, mas seus olhos ainda ardiam. Ele digitou uma resposta rápida, a armadura voltando ao lugar automaticamente.
— *Eu não bebo café de quem perde para mim, Endrick. Prepare sua carteira. E tente não chutar a bola na lua como hoje.*
Ele jogou o celular na cama e caminhou até a janela, observando as luzes de Madrid. O sonho ainda latejava em sua mente. O contraste entre sua infância de ouro e cinzas e a infância de luta e amor de Endrick era o que mais o irritava. Endrick não tinha medo de ser humano porque ele sabia o que era ser apenas um garoto. Leonardo nunca teve essa permissão.
***
Na manhã seguinte, o sol de Valdebebas estava impiedoso. Mozart chegou com seus óculos escuros habituais e uma postura que gritava indiferença. Endrick já estava lá, suado, chutando bolas contra uma barreira inflável.
— Você parece que não dormiu — comentou Endrick, sem parar o exercício. — Sonhou com os gols que eu vou fazer hoje?
— Sonhei que você finalmente aprendia a se vestir, mas acordei e vi que era impossível — rebateu Mozart, tirando a jaqueta de treino. — Vamos logo com isso. Dez bolas.
Eles começaram o desafio. A cada chute, a competitividade aumentava. Mozart era pura técnica, um arco perfeito que vencia o goleiro da base que eles chamaram para ajudar. Endrick era força e precisão, bolas que estufavam a rede com um som seco.
Na oitava bola, Mozart escorregou levemente. A bola bateu na trave e saiu.
— Merda! — ele gritou, chutando o gramado.
— Calma, gênio — Endrick sorriu, preparando sua bola. — É só um treino.
— Não é só a droga de um treino! — Mozart explodiu, a voz ecoando pelo campo vazio. — Nada é "só um treino"! Se você erra aqui, você erra lá! Se você falha, você é um fracasso!
Endrick parou a bola com o pé e olhou para Leonardo. Ele viu o brilho de pânico nos olhos do companheiro, o mesmo olhar que ele vira no estacionamento dias atrás.
— Quem te disse isso, Leo? — perguntou Endrick, a voz subitamente baixa e séria. — Quem te convenceu de que você não tem direito ao erro?
Mozart sentiu o ar faltar. As palavras do sonho voltaram: *Chora, Leonardo. Chora para eu te dar um motivo.*
— Ninguém — mentiu Mozart, pegando a próxima bola com pressa. — Só tenho padrões altos, ao contrário de você.
— Padrões altos são uma coisa. O que você tem é medo — Endrick deu um passo à frente, ignorando a distância que Mozart tentava manter. — Eu tive pesadelos ontem à noite, sabia?
Mozart parou, surpreso.
— Você? O garoto de ouro do Brasil tem pesadelos?
— O tempo todo — admitiu Endrick. — Sonho que volto para a época em que meu pai não tinha o que comer para me dar chuteiras. Sonho que acordo e tudo isso sumiu. Mas quando eu acordo, eu sei que o erro de hoje não apaga quem eu sou. Você, Mozart... você parece que morre um pouco a cada vez que a bola não entra.
Leonardo desviou o olhar, sentindo-se exposto. A arrogância era sua pele, e Endrick estava tentando arrancá-la.
— Você não sabe de nada sobre a minha vida, Endrick. Acha que porque a gente joga no mesmo time e você me viu bêbado uma vez, você tem o mapa da minha cabeça?
— Eu sei que você é o único cara que eu conheço que tem tudo e age como se não tivesse nada a perder — Endrick chutou a bola para longe, encerrando o desafio. — Ganhei. Nove a oito. Paga o café.
Mozart bufou, mas a tensão em seus ombros diminuiu levemente.
— Você roubou na contagem.
— Aceita a derrota, Da Vinci. Faz bem para a alma.
Eles caminharam em direção ao refeitório. Mozart mantinha o silêncio, processando a conversa. Ele percebeu que a irritação que sentia por Endrick não era ódio; era inveja. Inveja da liberdade que Endrick tinha de ser ele mesmo, sem a necessidade de uma máscara de perfeição.
No refeitório, enquanto esperavam o café, Mozart observou Endrick brincar com um dos funcionários da limpeza, rindo abertamente. O atacante mais alto sentiu uma pontada no peito. Ele lembrou-se de quando tinha oito anos e tentou contar uma piada para o pai, recebendo apenas um olhar de gelo em resposta.
— Ei — disse Mozart, quando eles se sentaram à mesa. — O que você faria se... se tudo isso acabasse amanhã? Se você perdesse o talento, o dinheiro, a fama?
Endrick tomou um gole do café, pensativo.
— Eu voltaria para casa. Abraçaria minha mãe, meu pai, meu irmão. E a gente daria um jeito. Eu já fui feliz sem ter um euro no bolso, Leo. O futebol é o que eu faço, não é quem eu sou. E você?
Mozart olhou para a xícara de porcelana em suas mãos. Suas mãos eram firmes agora, mas ele ainda sentia o fantasma do prato quebrado de sua infância.
— Eu acho que eu deixaria de existir — confessou ele, a voz tão baixa que quase foi abafada pelo ruído das conversas ao redor. — Eu fui treinado para ser uma estrela. Estrelas que não brilham são apenas pedras frias no espaço.
Endrick colocou a mão no ombro de Mozart, um gesto que, pela primeira vez, Leonardo não tentou repelir.
— Então é bom que você tenha um time — disse Endrick. — Porque quando uma estrela apaga, as outras ao redor continuam iluminando o caminho até ela voltar a brilhar. E eu não vou deixar você virar pedra, Mozart. Mesmo que eu tenha que te irritar todos os dias para isso.
Mozart soltou um riso curto, desta vez sem o veneno habitual.
— Você é terrivelmente sentimental, Endrick. É um defeito grave para um atacante.
— E você é terrivelmente dramático. É um defeito grave para um ser humano.
Eles ficaram ali, em silêncio, dividindo o café e o peso de suas histórias diferentes. Mozart sabia que a máscara não sumiria da noite para o dia. O fantasma de seu pai ainda apareceria em seus sonhos, cobrando excelência e punindo a fraqueza. Mas, pela primeira vez, ele sentiu que a armadura de seda não precisava ser tão apertada.
Ao saírem do refeitório, Mozart parou e olhou para Endrick.
— Amanhã, faltas de novo — disse Leonardo, os olhos brilhando com a velha competitividade, mas com um novo tipo de respeito. — E dessa vez, eu vou ganhar. Sem desculpas.
— Veremos, Da Vinci — Endrick piscou e seguiu para o vestiário.
Mozart ficou parado por um momento, observando-o ir. Ele pegou o celular e viu uma mensagem de seu pai, cobrando sobre o desempenho no último jogo e criticando uma jogada específica. Antigamente, aquela mensagem teria arruinado seu dia.
Desta vez, Leonardo apenas bloqueou a tela e guardou o aparelho no bolso.
Ele caminhou em direção ao campo, sentindo o sol no rosto. Ele ainda era Leonardo Mozart, o bilionário, o gênio, o arrogante. Mas, sob a luz de Madrid, ele estava começando a aprender que, às vezes, ser apenas um garoto com uma bola nos pés era a maior vitória de todas.
E se ele caísse, ele sabia que não estaria mais sozinho no mármore frio. Alguém estaria lá para puxá-lo de volta, não porque ele era perfeito, mas porque ele era necessário.
A rivalidade continuava, mas a guerra interna de Leonardo Mozart tinha acabado de encontrar um aliado improvável. E no Real Madrid, onde a pressão esmagava os fracos, aquela aliança de fogo e gelo estava prestes a se tornar a força mais imparável da Europa.
— Próxima vez, cebolas — murmurou Mozart para si mesmo, lembrando-se do jantar prometido. — Vou mostrar para esse bárbaro o que é gastronomia de verdade.
Ele sorriu. Um sorriso real, que não era para as câmeras, nem para o pai. Era o sorriso de quem, finalmente, estava aprendendo a segurar o prato sem medo de quebrá-lo.