Voltar ao resumo

Madristas não se suportam.

O Banquete de Vênus e o Gosto do Pecado

A cozinha de Leonardo Mozart não era apenas um cômodo; era um laboratório de precisão cirúrgica revestido de mármore Carrara e aço escovado. Naquela noite, o silêncio da mansão em La Moraleja era preenchido apenas pelo som rítmico da faca de cerâmica contra a tábua de madeira e pelo chiado suave de uma redução de vinho tinto no fogo baixo.

Endrick estava encostado no balcão da ilha central, uma taça de água na mão e os olhos fixos em cada movimento de Leonardo. Ele não conseguia evitar. Havia algo hipnótico na forma como Mozart se movia naquele espaço. O atacante alto, que no campo parecia uma força da natureza imparável e arrogante, ali se transformava em um maestro de delicadeza absoluta.

Leonardo vestia apenas uma calça de linho preta e uma camisa de seda branca com os primeiros botões abertos, as mangas dobradas até os cotovelos. O suor leve na têmpora dele brilhava sob as luzes embutidas, e a concentração em seu rosto era quase sagrada.

— Você está me encarando há dez minutos, Endrick — disse Mozart, sem desviar os olhos das chalotas que picava com perfeição milimétrica. — Se quer aprender a cozinhar, eu cobro caro pela aula. Se quer apenas me secar, saiba que eu também cobro ingresso.

Endrick deu um sorriso de lado, aquele sorriso de quem conhece os pontos fracos do adversário.

— Eu só estou tentando entender como alguém tão barulhento no vestiário consegue ser tão silencioso na cozinha — respondeu Endrick, a voz baixa, vibrando no ar calmo da sala. — E, para ser sincero, ver você trabalhar é melhor do que qualquer série da Netflix.

Mozart parou a faca por um segundo, os olhos cinzas encontrando os de Endrick. Havia um desafio ali, mas também uma vulnerabilidade que só aparecia quando as luzes da imprensa se apagavam.

— Gastronomia é sobre controle, Endrick — disse Leonardo, voltando ao trabalho. — O fogo, o sal, o tempo. Se você perde o controle de um elemento, o prato morre. No futebol, a gente lida com o caos. Aqui, eu crio a ordem.

Endrick deixou a taça de lado e caminhou lentamente até ficar atrás de Mozart. Ele conseguia sentir o calor que emanava do corpo de Leonardo e o perfume caro misturado ao aroma de ervas frescas.

— E você gosta de ter o controle de tudo, não é? — sussurrou Endrick, aproximando-se o suficiente para que Mozart pudesse sentir sua respiração na nuca.

Leonardo sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas não recuou. Ele continuou mexendo o molho com uma colher de prata, embora seus movimentos tivessem perdido um pouco da fluidez mecânica.

— É a única forma de garantir que o resultado seja perfeito — respondeu Mozart, a voz um pouco mais rouca.

— Às vezes — disse Endrick, estendendo a mão para tocar levemente o ombro de Leonardo, sentindo a seda da camisa e a tensão do músculo por baixo —, as melhores coisas acontecem quando a gente perde o controle. Quando a gente deixa o caos entrar.

Mozart desligou o fogo. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de uma eletricidade que vinha sendo alimentada desde o beijo na manhã da ressaca. Ele se virou lentamente, ficando de frente para Endrick. A diferença de altura era notável, mas a presença física de Endrick — aquela solidez de quem foi forjado na luta — parecia cercar Leonardo, diminuindo o espaço da cozinha até que o mundo fosse apenas os dois.

— O jantar está quase pronto — murmurou Mozart, tentando manter a fachada de anfitrião impecável.

— O jantar pode esperar — Endrick colocou as mãos na cintura de Leonardo, puxando-o para mais perto. — Eu vim aqui pela sobremesa, Leo. E eu tenho a impressão de que ela é muito mais interessante do que qualquer coisa que você preparou nesse fogão.

Leonardo soltou um suspiro trêmulo, as mãos subindo para o peito de Endrick, agarrando o tecido da camiseta dele. A arrogância de Mozart, sua armadura de "Da Vinci", estava derretendo como manteiga em uma frigideira quente.

— Você se acha muito esperto, não é, Pequeno Rei? — Mozart tentou um último lampejo de sarcasmo, mas seus olhos o traíam, brilhando com um desejo que ele não conseguia mais esconder.

— Eu não me acho, Leo. Eu sei o que eu quero. E eu sei que você quer a mesma coisa — Endrick inclinou a cabeça, roçando o nariz no pescoço de Mozart, sentindo o pulsar acelerado da carótida dele. — Você passou a vida inteira sendo o centro das atenções, ditando as regras. Não está cansado de carregar esse peso sozinho?

Leonardo fechou os olhos, a cabeça pendendo para trás. Aquela era a pergunta que ninguém nunca tinha tido a coragem de fazer. Todos queriam o Mozart brilhante, o Mozart intocável. Endrick era o único que queria o Leonardo quebrado, o Leonardo que precisava de um lugar para descansar.

— O que você sugere? — sussurrou Mozart, a voz quase inaudível.

— Sugiro que você me deixe assumir o controle hoje — Endrick subiu as mãos pelas costas de Leonardo, sentindo as cicatrizes através da seda, aquelas marcas que Mozart escondia do mundo, mas que Endrick agora conhecia como um mapa. — Deixe o caos entrar, Leo. Eu seguro você.

O beijo que se seguiu foi uma explosão. Não havia mais espaço para a hesitação do café da manhã ou para a melancolia da ressaca. Era a fome de dois predadores que finalmente tinham decidido parar de caçar um ao outro para caçarem juntos.

Endrick impulsionou Leonardo para cima, sentando-o na bancada de mármore frio. Mozart soltou um gemido baixo, suas pernas se entrelaçando na cintura de Endrick, puxando-o para o meio de suas coxas. As mãos de Endrick eram firmes, possessivas, explorando cada curva do corpo de Leonardo com uma autoridade que não aceitava recusas.

— Endrick... — Mozart arfou entre os beijos, suas mãos perdidas nos cabelos curtos do outro. — Aqui não... a cozinha...

— A cozinha é perfeita — disse Endrick, a voz carregada de uma promessa perigosa. — Eu quero ver você aqui, cercado por toda essa ordem que você criou, enquanto eu te desmonto peça por peça.

Ele começou a desabotoar a camisa de seda de Mozart com uma agilidade que fez Leonardo tremer. Quando a camisa caiu, revelando o peito pálido e definido, marcado pelas cicatrizes que contavam a história de um abuso que o dinheiro não pôde apagar, Endrick parou por um segundo. Ele beijou cada uma daquelas marcas com uma reverência que fez o coração de Mozart doer mais do que qualquer golpe.

— Você é lindo, Leo — sussurrou Endrick contra a pele dele. — E você é meu.

Mozart sentiu uma onda de entrega percorrer seu corpo. Ser "dele" não parecia uma perda de liberdade; parecia, pela primeira vez, uma libertação. Ele sempre teve que ser o melhor, o maior, o mais forte. Ali, nos braços de Endrick, ele podia ser apenas Leonardo. Ele podia ser cuidado. Ele podia ser submisso a alguém que ele respeitava o suficiente para permitir tal poder.

Endrick baixou as mãos para o fecho da calça de linho de Mozart, seus olhos fixos nos dele, pedindo permissão sem usar palavras. Leonardo apenas acenou com a cabeça, a respiração errática, o rubor subindo por seu pescoço.

Quando ficaram completamente expostos um ao outro, a luz da cozinha refletindo na pele suada, o contraste era absoluto. Endrick era a força bruta, o bronze, a estabilidade. Mozart era a elegância, o marfim, a inquietude.

— Deita — ordenou Endrick, a voz soando como um comando no campo de batalha.

Mozart obedeceu, deitando-se sobre o mármore frio, os olhos fixos no teto de gesso, sentindo-se vulnerável e excitado de uma forma que nunca havia experimentado. Endrick se posicionou entre suas pernas, suas mãos grandes prendendo os pulsos de Leonardo acima da cabeça dele.

— Olhe para mim, Leo — disse Endrick.

Mozart olhou. Ele viu a determinação nos olhos de Endrick, a chama de alguém que não tinha medo da complexidade de Leonardo.

— Eu vou te mostrar que você não precisa ser perfeito para ser amado — sussurrou Endrick, antes de se baixar sobre ele.

O que se seguiu foi uma sinfonia de sensações que Mozart não conseguia catalogar em sua mente gastronômica. Não havia receitas para aquilo. Havia apenas a dor doce da invasão, o calor de Endrick preenchendo seu espaço, o som de seus nomes sendo sussurrados como preces desesperadas no silêncio da mansão.

Mozart arqueou as costas, os dedos dos pés se contraindo contra o mármore, as unhas cravando-se nos braços de Endrick. Ele estava perdendo o controle. O fogo estava alto demais, o tempo estava correndo rápido demais, e a ordem havia sido completamente substituída pelo caos mais glorioso que ele já conhecera.

— Endrick... por favor... — Mozart implorou, sem saber exatamente o que estava pedindo, apenas sabendo que precisava de mais.

— Eu te peguei, Leo. Eu te peguei — Endrick respondeu, acelerando o ritmo, sua voz soando como um mantra de proteção.

Quando o ápice chegou, foi como se o vidro da mansão estivesse se estilhaçando. Mozart gritou o nome de Endrick, escondendo o rosto no pescoço dele, enquanto seu corpo era sacudido por ondas de prazer que pareciam arrancar sua alma do lugar. Endrick o segurou com força, enterrando o rosto na curvatura do ombro de Leonardo, deixando que sua própria liberação o levasse junto com o homem que ele tinha aprendido a amar através da rivalidade.

Minutos depois, o único som na cozinha era a respiração pesada de ambos. Endrick continuava sobre Leonardo, protegendo-o com seu peso, os batimentos cardíacos de ambos tentando encontrar um ritmo comum.

Endrick se afastou levemente, limpando uma lágrima solitária que escapava do canto do olho de Mozart com o polegar.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz cheia de uma ternura que faria a imprensa esportiva cair de queixo.

Mozart deu um sorriso fraco, um sorriso que não tinha nada de "Da Vinci".

— O jantar queimou — observou Leonardo, olhando para a panela esquecida no fogão.

Endrick riu, um som baixo e vibrante, e beijou a ponta do nariz de Mozart.

— Eu te disse. A sobremesa era muito melhor.

Leonardo puxou Endrick para um beijo calmo, um selinho que selava um pacto silencioso. Ele sabia que, amanhã, eles voltariam ao Bernabéu. Ele voltaria a ser o arrogante Mozart e Endrick voltaria a ser o focado Pequeno Rei. Eles continuariam competindo, provocando e lutando por cada centímetro de gramado.

Mas ali, naquela cozinha manchada de desejo e mármore frio, Leonardo sabia que tinha encontrado algo que nenhuma Supercopa ou Copa Intercontinental poderia dar a ele. Ele tinha encontrado alguém que conhecia o gosto amargo de seu passado e, ainda assim, escolhia ficar para o banquete.

— Endrick? — chamou Mozart, enquanto o outro o ajudava a se levantar da bancada.

— Oi.

— Da próxima vez... a gente usa a cama. O mármore é terrivelmente frio para as minhas costas.

Endrick soltou uma gargalhada e o pegou no colo, carregando-o em direção às escadas.

— Como desejar, Da Vinci. Mas não reclame se eu decidir que você ainda é a sobremesa amanhã de manhã.

Mozart escondeu o rosto no peito de Endrick, sentindo-se, pela primeira vez na vida, exatamente onde deveria estar. O caos nunca tinha sido tão saboroso.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.