Magia
O Ritmo dos Corações e o Convite Silencioso
O Salão Nobre de Hogwarts parecia menor do que o habitual naquela tarde de quinta-feira, apesar de sua vastidão mágica. O motivo não era a arquitetura, mas a presença concentrada de todos os alunos do quinto ano das quatro casas. O burburinho era ensurdecedor, uma mistura de ansiedade juvenil, fofocas de corredor e o som de sapatos arrastando no chão de pedra. A Grifinória, a Sonserina, a Corvinal e a Lufa-Lufa estavam dispostas de forma a criar um grande oval humano, deixando o centro do salão livre para as figuras imponentes dos professores.
No centro desse espaço, o Diretor Alvo Dumbledore mantinha um sorriso enigmático por trás de seus óculos de meia-lua. Ao seu lado, a Professora Minerva McGonagall exibia sua postura impecável, enquanto Severo Snape parecia contar os segundos para que aquele evento social terminasse. Remo Lupin, o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, era a única face que trazia um conforto genuíno aos alunos, observando-os com um olhar compreensivo.
Tatsuyo Uchiha estava encolhida no setor destinado à Corvinal. Ela tentava ao máximo se tornar invisível, usando seus longos cabelos pretos e ondulados como um escudo. Ao seu redor, as outras garotas da sua casa cochichavam sobre vestidos e cores de fitas, mas Tatsuyo mantinha os olhos fixos em um ponto aleatório no chão. Para ela, aquele anúncio era apenas um lembrete de sua solidão. Em sua mente, a conta era simples: ela era a garota esquisita, a "muda", o alvo preferencial dos valentões. Quem, em sã consciência, cruzaria o salão para convidá-la para um baile?
— Silêncio, por favor — a voz de Minerva McGonagall cortou o ar como uma lâmina, e o salão obedeceu instantaneamente.
— Como todos sabem — começou Dumbledore, sua voz ressoando com uma calma que preenchia cada canto —, Hogwarts tem a honra de sediar o Torneio Tribruxo este ano. Embora as inscrições sejam restritas aos alunos que já atingiram a maioridade, ou seja, do sexto ano em diante, as festividades que acompanham o torneio envolvem toda a nossa comunidade.
Um murmúrio de empolgação percorreu os alunos.
— E a principal dessas festividades — continuou Minerva, assumindo a palavra — é o Baile de Inverno. Será uma noite de cooperação internacional, elegância e, acima de tudo, etiqueta. O baile é, por tradição, uma dança de pares.
Tatsuyo sentiu um aperto no estômago. "Pares". A palavra soava como uma sentença. Ela já conseguia imaginar a cena: o salão decorado, a música tocando, e ela sentada em um canto escuro, observando as sombras enquanto os outros brilhavam.
Do outro lado do círculo, na ala da Grifinória, Kuro Hatake não estava ouvindo uma palavra sequer sobre o Torneio Tribruxo. Seus olhos castanhos estavam fixos na nuca de uma certa garota de cabelos pretos que parecia querer afundar no chão. Kuro, com seus 1,80m e seus cabelos brancos rebeldes, era o centro das atenções de quase todas as garotas ao seu redor. Ele sentia os olhares, os risinhos abafados e as cutucadas que as alunas de outras casas davam umas nas outras quando ele passava a mão pelo cabelo.
Mas Kuro estava em um estado de pânico interno que ninguém conseguiria detectar por trás de sua fachada de garoto popular e brincalhão.
"Eu preciso chamar ela", ele pensava, sentindo as palmas das mãos suarem. "Mas e se ela disser não? E se ela achar que é uma brincadeira de mau gosto por causa dos idiotas que fazem bullying com ela? E se eu estragar tudo?".
— Kuro! — um sussurro alto veio de seu lado. Era um de seus colegas de time de quadribol. — Cara, você ouviu? O baile! Você já pensou em quem vai chamar? A Sarah da Lufa-Lufa não para de olhar para você. Ou talvez aquela batedora da Sonserina...
Kuro desviou o olhar de Tatsuyo por um segundo, forçando um sorriso de lado.
— Eu já sei quem eu vou chamar — disse ele, a voz soando mais confiante do que ele realmente se sentia.
— Sério? Quem? — perguntou o amigo, curioso.
Kuro balançou a cabeça, voltando a observar Tatsuyo, que agora ajeitava nervosamente a alça de sua bolsa.
— Não vou contar. Não até eu falar com ela. É segredo de estado.
— Ah, qual é, Hatake! — o garoto riu. — Com essa banca toda, deve ser alguma modelo da Beauxbatons que você conheceu nos corredores.
Kuro não respondeu. Ele sentia o peso da responsabilidade. Ele sabia que Tatsuyo sofria. Sabia que ela se sentia inferior, mesmo sendo a pessoa mais brilhante que ele já conhecera. Chamar Tatsuyo não era apenas sobre o baile; era sobre mostrar a ela, e a toda Hogwarts, como ele a via. Mas a coragem que ele demonstrava enfrentando balaços a cem quilômetros por hora parecia ter evaporado diante da ideia de um simples convite.
No centro do salão, o Professor Snape deu um passo à frente, sua capa negra flutuando como as asas de um morcego.
— Espero que entendam que o baile não é um convite à vadiagem — disse ele, a voz arrastada e gélida. — O comportamento de vocês refletirá sobre esta instituição. Sugiro que escolham seus pares com... discernimento. E que pratiquem seus passos de dança. Não tolerarei que os alunos do quinto ano pareçam trasgos desajeitados no salão.
Alguns alunos riram nervosamente. Lupin, tentando aliviar a tensão, sorriu para o grupo.
— O baile é uma oportunidade de criar memórias, jovens. Não se pressionem tanto, mas não deixem para a última hora. A coragem nem sempre é demonstrada em duelos; às vezes, ela está em estender a mão para alguém.
As palavras de Lupin atingiram Kuro como um feitiço certeiro. Ele olhou para Tatsuyo novamente. Ela agora tinha os braços cruzados sobre o peito, uma postura defensiva clássica. Ela parecia tão pequena, tão isolada naquela multidão.
Dumbledore deu o aviso final de que estavam dispensados. O salão explodiu em conversas imediatas. O assunto "baile" se tornou o único tópico existente no castelo em questão de segundos.
Tatsuyo se virou rapidamente, querendo sair dali antes que alguém decidisse usá-la como alvo de alguma piada sobre "quem levaria o monstro para passear". Ela caminhou apressada em direção à saída, os livros apertados contra o peito.
Kuro viu o movimento. Seu instinto foi segui-la, mas ele foi imediatamente cercado por um grupo de garotas da Corvinal e da Grifinória.
— Kuro, você vai ao baile, não vai? — uma delas perguntou, enrolando uma mecha de cabelo no dedo.
— Vou, claro — respondeu ele, tentando espiar por cima das cabeças para não perder Tatsuyo de vista.
— Já tem par? Porque eu ainda não decidi com quem ir... — disse outra, com um sorriso sugestivo.
Kuro sentiu um nó na garganta. Ele era popular, sim. Ele era o batedor estrela. Mas, naquele momento, ele se sentia o garoto mais covarde de Hogwarts.
— Desculpem, meninas. Eu... eu já tenho alguém em mente — disse ele, desvencilhando-se do grupo com uma agilidade que só o quadribol ensinava.
Ele correu pelos corredores, desviando de grupos de alunos que discutiam cores de vestes. Ele a viu virando a esquina que levava à biblioteca.
— Tatsuyo! — ele chamou, mas sua voz foi abafada pelo barulho de uma armadura que decidiu se mover naquele exato momento.
Quando ele finalmente chegou ao corredor da biblioteca, ela já tinha entrado. Kuro parou diante das portas duplas de madeira pesada. Ele respirou fundo, ajeitando o cabelo branco. Seu coração batia contra as costelas como um pássaro engaiolado.
"É agora", ele pensou. "Entra lá e pergunta".
Ele colocou a mão na maçaneta, mas hesitou. E se ela risse? E se ela achasse que ele estava fazendo aquilo por pena? Ele sabia o quão profunda era a insegurança de Tatsuyo. Ele lembrou da conversa nas cozinhas, de como ela se sentia indigna. Se ele fizesse o convite de forma errada, poderia quebrar a pouca confiança que ela estava começando a depositar nele.
Kuro soltou a maçaneta, frustrado consigo mesmo.
— Maldição, Hatake... — sussurrou para si mesmo, encostando a testa na madeira fria.
Dentro da biblioteca, Tatsuyo estava sentada em sua mesa habitual, nos fundos, onde a luz das velas era mais fraca. Ela abriu seu livro de Poções, mas as letras pareciam dançar diante de seus olhos. Ela ouviu os sussurros de outros alunos que entravam na biblioteca, todos falando sobre a mesma coisa.
— Você acha que o Kuro vai chamar a Pansy? — uma voz vinda de duas estantes de distância perguntou.
— Não, ouvi dizer que ele quer alguém da Grifinória. Imagina ser o par dele? Ele é tão lindo... e tão gentil.
Tatsuyo sentiu uma pontada estranha no peito. "Gentil". Sim, Kuro era gentil. Ele era a única pessoa que a enxergava de verdade. Mas justamente por ele ser quem era — o sol de Hogwarts — e ela ser quem era — a sombra —, a ideia de estarem juntos em um baile era um conto de fadas que ela não se permitia ler.
"Ele nunca me chamaria", ela pensou, sentindo uma lágrima solitária ameaçar cair. "Ele foi legal comigo nas cozinhas porque ele é uma boa pessoa. Mas o baile... o baile é para pessoas que brilham".
Ela enterrou o rosto nas mãos, tentando focar no estudo. Ela precisava ser a melhor em Poções. Se ela não tivesse sua inteligência, o que restaria?
Enquanto isso, do lado de fora, Kuro ainda estava parado. Ele viu um grupo de seus amigos se aproximar.
— Ei, Kuro! Ainda aqui? Achamos que você ia atrás da sua "pretendente misteriosa" — disse um deles, rindo.
— Eu vou — disse Kuro, recompondo-se e afastando-se da porta da biblioteca. — Só estou esperando o momento certo.
— O momento certo? Cara, se você demorar, alguém vai chegar na frente.
Kuro deu um sorriso amargo.
— Duvido muito que alguém tenha a coragem de ver o que eu vejo.
Ele se afastou, caminhando em direção à Torre da Grifinória. Ele não ia chamá-la hoje. Não ali, no meio de toda aquela agitação, onde ela se sentia mais vulnerável. Ele precisava de algo especial. Algo que mostrasse a ela que não era um convite por educação, nem por pena, mas porque ele realmente não conseguia imaginar estar naquele baile com mais ninguém.
Ao entrar no Salão Comunal da Grifinória, Kuro foi recebido por mais perguntas. Ele apenas subiu para seu dormitório e se jogou na cama, encarando o teto.
"Tatsuyo Uchiha", ele pensou, o nome soando como uma prece em sua mente.
Ele lembrou do brilho nos olhos pretos dela quando ela falava sobre as estrelas ou sobre feitiços antigos. Lembrava de como o cabelo dela cheirava a pergaminho e algo doce, como flores de cerejeira.
— Eu vou te chamar, Tatsuyo — ele murmurou para o quarto vazio. — E eu vou te mostrar que você é a luz mais brilhante desta escola. Só me dá um pouco mais de tempo para encontrar a coragem que eu perdi em algum lugar entre o Salão Principal e a biblioteca.
Naquela noite, em torres diferentes, dois corações batiam em ritmos opostos. Um, carregado de uma melancolia resignada, aceitando a solidão como um destino inevitável. O outro, pulsando com uma determinação nervosa, lutando contra o medo de não ser bom o suficiente para curar as feridas de quem ele amava.
O Baile de Inverno estava chegando, e em Hogwarts, onde a magia era real, a maior de todas as magias — a de se fazer notar e ser amado — estava apenas começando a ser conjurada. Kuro Hatake tinha um plano, e embora sua coragem tivesse falhado naquele dia, ele era um Hatake. E Hatakes, assim como os batedores que protegem seu time, nunca deixavam um alvo importante ser atingido pela tristeza sem lutar.
Amanhã seria um novo dia. E talvez, apenas talvez, o prateado de Kuro finalmente encontraria uma forma de se entrelaçar permanentemente com o ébano de Tatsuyo. Mas, por enquanto, o silêncio da noite de Hogwarts guardava os segredos de um convite que ainda não fora feito, mas que já estava escrito nas estrelas.