Magia
O Reflexo no Lago e a Verdade de Prata
O vento de novembro soprava cortante pelos terrenos de Hogwarts, carregando consigo o cheiro de terra úmida e o prenúncio da neve que não tardaria a cair. Para a maioria dos alunos, o frio era um convite para se amontoarem perto das lareiras dos salões comunais, discutindo fervorosamente sobre o Baile de Inverno. Mas para Tatsuyo Uchiha, o frio era um aliado; ele mantinha as pessoas longe de seu refúgio particular.
O "Lago Escondido" não era o Grande Lago onde a lula gigante residia, mas uma pequena enseada cercada por salgueiros antigos e rochas cobertas de musgo, situada em uma depressão natural nos limites da Floresta Proibida. Era ali que Tatsuyo se sentia segura. Ali, o silêncio não era uma arma usada contra ela, mas uma manta protetora.
Ela estava sentada sobre uma pedra chata, com um pergaminho de Runas Antigas apoiado nos joelhos. Seus cabelos pretos, ondulados e longos, balançavam levemente com a brisa, e seus olhos escuros refletiam a superfície cinzenta da água. Ela tentava se concentrar na tradução, mas as palavras de Dumbledore sobre o baile continuavam ecoando em sua mente como um zumbido incômodo.
"Pares". "Elegância". "Memórias".
Tatsuyo suspirou, fechando o livro com um baque surdo. Ela sabia que, para ela, o baile seria apenas mais uma noite de exclusão. Talvez ela ficasse na biblioteca até ser expulsa por Madame Pince, ou talvez se escondesse no dormitório da Corvinal, fingindo estar doente para evitar os olhares de pena ou as risadas maldosas de suas colegas de quarto.
De repente, o som de galhos secos estalando quebrou a quietude do lugar. Tatsuyo endureceu os ombros imediatamente, sua mão instintivamente buscando a varinha no bolso das vestes. Ela esperava ver algum monitor ou, pior, um grupo de alunos da Sonserina vindo atormentá-la.
No entanto, o que ela viu foi um borrão de prata e vermelho.
Kuro Hatake estava descendo a encosta com uma agilidade que parecia deslocada para alguém que estava visivelmente trêmulo. Ele não usava a capa da escola, apenas o suéter de lã da Grifinória, e seus cabelos brancos pareciam ainda mais rebeldes contra o fundo escuro das árvores.
Tatsuyo sentiu o coração falhar uma batida. O que ele estava fazendo ali? Como ele sabia desse lugar?
— Eu sabia que te encontraria aqui — disse Kuro, parando a alguns metros de distância. Sua voz, geralmente projetada e cheia de confiança, soou estranhamente rouca.
Tatsuyo se levantou, limpando a poeira das vestes azuis com movimentos nervosos. Ela não conseguia olhar diretamente para ele, então focou em um ponto logo acima do ombro do garoto.
— Kuro-kun... — ela sussurrou, a voz quase sumindo no vento. — Como... como você achou este lugar?
Kuro coçou a nuca, um sorriso nervoso brincando em seus lábios. Ele deu mais dois passos à frente, entrando no espaço pessoal dela, mas parando antes que ela pudesse recuar.
— Eu sou um batedor, Tatsuyo. Meu trabalho é observar o campo todo — ele admitiu, e por um momento, o brilho brincalhão voltou aos seus olhos castanhos. — Eu te vi vindo para cá algumas vezes. Eu não queria invadir seu espaço, mas... eu precisava falar com você. A sós. Sem metade de Hogwarts ouvindo.
Tatsuyo sentiu um frio na barriga que não tinha nada a ver com o clima escocês. Ela apertou o livro de Runas contra o peito, usando-o como um escudo.
— Aconteceu alguma coisa? — ela perguntou, a preocupação nublando seu rosto pardo. — Algum problema com os trabalhos de Defesa Contra as Artes das Trevas?
Kuro soltou uma risada curta, mas não era uma risada de alegria. Era uma risada de alguém que estava prestes a pular de uma vassoura sem rede de segurança.
— Não, nada disso — ele disse, respirando fundo. Ele deu o passo final, ficando frente a frente com ela.
Kuro tinha 1,80m de altura, e a diferença de dezessete centímetros entre eles fazia com que Tatsuyo tivesse que inclinar a cabeça para trás para encontrá-lo. Naquele momento, ela viu algo que nunca tinha visto no rosto de Kuro Hatake: vulnerabilidade. As mãos dele, as mesmas mãos que seguravam tacos de quadribol com firmeza absoluta, estavam tremendo levemente ao lado do corpo.
— Tatsuyo — ele começou, o tom de voz tornando-se sério e profundo —, eu passei os últimos dois dias tentando criar coragem. Meus amigos acham que eu sou corajoso porque enfrento balaços, mas a verdade é que eu nunca estive tão aterrorizado na minha vida quanto estou agora.
Tatsuyo piscou, confusa.
— Por que você estaria com medo, Kuro? Você é... você é o Kuro. Todo mundo gosta de você.
Kuro balançou a cabeça negativamente, um sorriso triste aparecendo em seu rosto.
— Nem todo mundo. E a única pessoa cuja opinião realmente importa para mim é aquela que insiste em dizer que não é digna de ser notada.
Ele fez uma pausa, e o silêncio entre eles tornou-se tão denso que Tatsuyo podia ouvir as batidas ritmadas de seu próprio coração.
— Eu não quero ir ao baile com nenhuma garota da Grifinória, nem com nenhuma modelo de Beauxbatons — Kuro continuou, dando um passo ainda mais próximo, até que ela pudesse sentir o calor vindo dele. — Eu quero ir com a garota que me explica teorias complexas de magia como se fosse poesia. Eu quero ir com a garota que tem o sorriso mais bonito da biblioteca, mesmo que ela o esconda de todo mundo.
Tatsuyo sentiu o ar faltar em seus pulmões. Ela abriu a boca para falar, mas nenhum som saiu. Seus olhos pretos estavam arregalados, fixos nos dele, procurando por qualquer sinal de que aquilo fosse uma peça, uma aposta cruel ou um delírio. Mas o que ela encontrou foi uma sinceridade tão pura que a deixou tonta.
— Tatsuyo Uchiha — disse Kuro, estendendo a mão direita, com a palma para cima, em um convite silencioso —, você aceitaria ir ao Baile de Inverno comigo? Não como um favor, não por pena, mas porque eu não consigo imaginar uma única pessoa neste castelo que eu preferisse ter ao meu lado.
O mundo pareceu parar para Tatsuyo. Os salgueiros pararam de balançar, a água do lago estancou e o som dos pássaros desapareceu. Ela olhou para a mão dele e depois para o rosto dele.
— Você... você está brincando — ela sussurrou, as lágrimas começando a arder em seus olhos. — Por que você faria isso, Kuro? As pessoas vão rir de você. Elas vão dizer que você está desperdiçando a noite com a "estranha da Corvinal". Sua reputação...
— Que se dane a minha reputação! — Kuro exclamou, sua voz subindo de tom pela primeira vez, carregada de uma frustração carinhosa. — Tatsuyo, olhe para mim. Eu não sou um batedor da Grifinória agora. Eu sou apenas um garoto que está perdidamente encantado por você desde o dia em que te vi corrigir o Professor Flitwick em um sussurro que só eu ouvi. Eu não ligo para o que eles dizem. Eu ligo para o que você sente.
Tatsuyo sentiu uma lágrima escapar e escorrer por sua bochecha.
— Eu não sou bonita como as outras garotas — ela disse, a voz trêmula pela insegurança de anos. — Eu não sei dançar, eu não sei o que dizer em festas... eu vou te envergonhar.
Kuro deu um passo à frente e, com uma delicadeza que contrastava com sua força física, levou a mão ao rosto dela, limpando a lágrima com o polegar. O toque dele era como fogo contra a pele fria dela.
— Para mim — ele disse, a voz caindo para um sussurro que vibrou direto na alma de Tatsuyo —, você é a coisa mais preciosa deste castelo. E se você não souber dançar, nós podemos apenas ficar em um canto e você pode me contar sobre as constelações. Eu só quero estar com você, Tatsuyo. Só isso.
Tatsuyo fechou os olhos, permitindo-se sentir o calor da mão dele. Por um breve momento, o medo que a governava foi substituído por uma centelha de esperança. Se Kuro — o sol, o prateado, a luz — via algo nela, talvez houvesse algo para ser visto.
— Você tem certeza? — ela perguntou, abrindo os olhos e encontrando a determinação de Kuro. — Absoluta certeza?
— Nunca tive tanta certeza de nada em toda a minha vida — ele respondeu, sorrindo de orelha a orelha ao perceber que ela estava cedendo.
Tatsuyo respirou fundo, sentindo uma coragem que nunca soube que possuía florescer em seu peito. Ela lentamente estendeu sua mão e a colocou sobre a dele.
— Então... eu aceito, Kuro-kun. Eu adoraria ir com você.
Kuro soltou um suspiro de alívio tão audível que parecia que ele tinha acabado de carregar o peso do castelo inteiro nas costas. Sem pensar, ele a puxou para um abraço rápido e apertado. Tatsuyo ficou rígida por meio segundo antes de relaxar contra o peito dele, sentindo o perfume de grama e sabão que emanava de suas roupas.
— Você não faz ideia do quanto eu estou feliz agora — ele murmurou contra o topo da cabeça dela.
Quando se separaram, o rosto de Tatsuyo estava de um tom de vermelho que rivalizava com o cachecol da Grifinória. Kuro, por sua vez, parecia radiante, como se tivesse acabado de ganhar a Taça de Quadribol sozinho.
— Agora — disse ele, segurando a mão dela com firmeza enquanto começavam a caminhar de volta para o castelo —, temos que nos preparar. E não ouse tentar fugir para a Floresta Proibida no dia do baile, Uchiha. Eu vou te buscar na porta da Torre da Corvinal.
Tatsuyo deu uma risadinha, um som raro e cristalino que fez o coração de Kuro disparar.
— Eu estarei lá, Kuro-kun. Prometo.
***
A notícia do convite não demorou a se espalhar, mas não da forma que Tatsuyo temia. Kuro não esperou que os boatos começassem; ele tomou as rédeas da narrativa assim que entraram no Salão Principal para o jantar.
Eles caminharam juntos pelo corredor central. Kuro mantinha a mão possessiva e protetoramente nas costas de Tatsuyo, guiando-a através da multidão. O silêncio caía por onde eles passavam, seguido por sussurros frenéticos.
Ao chegarem perto da mesa da Corvinal, um grupo de alunos do sexto ano, liderado por um garoto que costumava esconder os livros de Tatsuyo, barrou o caminho.
— Ei, Hatake! — o garoto gritou, com um sorriso de escárnio. — O que você está fazendo com a "Uchiha Silenciosa"? Perdeu uma aposta ou algo assim?
Tatsuyo sentiu o impulso familiar de abaixar a cabeça e se encolher, mas antes que pudesse fazê-lo, sentiu a mão de Kuro apertar levemente seu ombro. Ela olhou para cima e viu que o rosto de Kuro tinha se transformado. O garoto engraçadinho e popular tinha dado lugar ao batedor intimidador que não hesitava em derrubar adversários para proteger sua equipe.
— Na verdade — Kuro disse, sua voz ressoando clara e firme por todo o Salão Principal, fazendo até os professores na mesa principal pararem para ouvir —, eu acabei de ter a sorte de ela aceitar ser meu par no Baile de Inverno.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. O garoto da Corvinal abriu e fechou a boca, parecendo um peixe fora d'água.
— Você... o quê? — ele gaguejou. — Você vai levar a Uchiha?
Kuro deu um passo à frente, diminuindo a distância entre ele e o valentão. Sua expressão era gélida.
— Eu vou levar a garota mais inteligente e incrível desta escola — Kuro corrigiu, cada palavra saindo como um decreto. — E se eu ouvir mais um comentário idiota, ou se eu souber que alguém aqui incomodou a Tatsuyo de novo, vocês não vão ter que se preocupar apenas com o Professor Snape nas masmorras. Vão ter que se preocupar comigo no campo de quadribol. E eu tenho uma mira excelente com balaços.
Ele não esperou por uma resposta. Kuro virou-se para Tatsuyo, seu rosto suavizando instantaneamente.
— Te vejo amanhã na aula de Poções? — ele perguntou, ignorando totalmente a plateia de centenas de alunos chocados.
Tatsuyo olhou ao redor. Ela viu as expressões de surpresa, inveja e, pela primeira vez, um novo tipo de respeito nascendo nos olhos de seus colegas. Mas, acima de tudo, ela viu Kuro. O garoto que tinha acabado de colocar sua popularidade em risco apenas para defendê-la.
— Sim — ela disse, sua voz saindo mais clara e forte do que nunca. — Até amanhã, Kuro-kun.
Kuro piscou para ela, deu meia-volta e caminhou em direção à mesa da Grifinória. Assim que ele se sentou, foi cercado por seus amigos.
— Cara, é sério? A Uchiha? — perguntou um de seus colegas de time, incrédulo.
Kuro pegou uma coxa de frango e deu uma mordida generosa antes de responder com a maior naturalidade do mundo:
— É sério. Ela é brilhante, é linda e é o meu par. Algum problema com isso?
O tom de Kuro não deixava margem para discussões. Seus amigos, conhecendo a teimosia do batedor, apenas deram de ombros e começaram a parabenizá-lo, embora ainda confusos.
Enquanto isso, na mesa da Corvinal, Tatsuyo se sentou. Pela primeira vez em cinco anos, ninguém jogou bolinhas de papel nela. Ninguém derrubou seu suco. As garotas que antes a ignoravam agora a olhavam com uma curiosidade cautelosa.
Tatsuyo abriu seu livro, mas não para ler. Ela olhou para Kuro do outro lado do salão. Ele estava rindo de algo que Fred ou Jorge Weasley tinham dito, mas no momento em que sentiu o olhar dela, ele se virou e acenou.
Ela não desviou o olhar. Ela não se escondeu. Tatsuyo deu um pequeno e tímido aceno de volta, sentindo que, talvez, o inverno em Hogwarts não fosse tão frio este ano. Afinal, ela tinha o prateado de Kuro Hatake para aquecer seus dias, e ele tinha acabado de provar que, no mundo dele, ela era a única estrela que importava.