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Magia

O Refúgio entre as Sombras e o Prateado

A neve que antes caía em flocos tímidos agora cobria os terrenos de Hogwarts com um tapete espesso e brilhante, transformando o castelo em uma fortaleza de cristal. Dentro das paredes de pedra, o clima era de uma calma pós-festividades, mas para Kuro Hatake, o mundo parecia ter ganhado cores que ele nunca soubera que existiam. Já haviam se passado duas semanas desde o Baile de Inverno, e uma semana desde que ele, com o coração na mão e a voz incomumente trêmula, pedira Tatsuyo Uchiha em namoro sob o mesmo céu estrelado da Torre de Astronomia.

Kuro estava sentado à mesa da Grifinória, mas seus olhos, como de costume, vagavam para a mesa da Corvinal. Ele observava Tatsuyo, que estava mergulhada em um tomo pesado de "Geometria Mágica e Runas Avançadas". Ela parecia a mesma garota quieta de sempre para quem olhasse de longe, mas Kuro conhecia os detalhes: a forma como ela mordia o lábio inferior quando estava concentrada, o jeito que uma mecha de seu cabelo preto ondulado sempre caía sobre o olho direito e, principalmente, o brilho novo e suave que agora habitava seu olhar.

— Ei, Romeu, a comida não vai se teletransportar para a sua boca sozinha — brincou um de seus colegas de time, dando um tapinha em seu ombro.

Kuro desviou o olhar e soltou um riso curto, passando a mão pelo cabelo branco repicado.

— Só estou admirando a vista, cara. E ela é muito melhor que esse purê de batatas.

Ele se levantou, pegando uma maçã verde da fruteira. A popularidade de Kuro não havia diminuído, mas a natureza dela mudara. Antes, ele era o batedor cobiçado; agora, ele era o namorado dedicado. E, para a surpresa de muitos, ele parecia ostentar esse título com mais orgulho do que qualquer vitória em campo.

Kuro caminhou em direção à mesa da Corvinal. O silêncio que costumava cercar Tatsuyo quando ele se aproximava agora era diferente. Não era mais o silêncio do isolamento, mas um respeito cauteloso imposto pela presença protetora dele.

— Estudando muito, Uchiha? — perguntou ele, inclinando-se sobre o ombro dela.

Tatsuyo deu um pequeno sobressalto, mas relaxou instantaneamente ao sentir o perfume amadeirado dele. Ela fechou o livro e olhou para cima, um sorriso genuíno iluminando seu rosto pardo.

— Só revisando alguns conceitos, Kuro-kun. O exame de Runas é na próxima semana e eu não quero deixar nada ao acaso.

Kuro sentou-se ao lado dela, ignorando os olhares curiosos dos outros alunos da Corvinal. Ele pegou a mão dela por baixo da mesa, entrelaçando seus dedos.

— Você é a bruxa mais brilhante deste castelo. Os exames deveriam ter medo de você, não o contrário.

Tatsuyo corou, o tom rosado espalhando-se por suas bochechas.

— Você é um bobo — ela sussurrou, aproximando-se mais dele. — Mas é o meu bobo.

— O seu quê? — Kuro arqueou uma sobrancelha, um sorriso travesso dançando em seus lábios.

Tatsuyo olhou ao redor para garantir que ninguém estava ouvindo e então se inclinou para perto do ouvido dele.

— O meu bebê — sussurrou ela, com uma doçura que fez o estômago de Kuro dar piruetas.

Kuro sentiu o rosto esquentar. Era um apelido que ela começara a usar na privacidade das noites na Torre de Astronomia, mas ouvi-lo ali, no meio do Salão Principal, tinha um impacto avassalador. Ele, o grande batedor da Grifinória, o cara de 1,80m que intimidava adversários, sentia-se completamente desarmado diante daquela palavra.

— Só você consegue me deixar sem palavras, Tatsuyo — admitiu ele, beijando a ponta dos dedos dela.

O bullying não havia desaparecido completamente, mas tinha se tornado covarde. Os sussurros maldosos agora aconteciam apenas pelas costas, pois ninguém ousava enfrentar a fúria silenciosa de Kuro ou a nova aura de autoconfiança que Tatsuyo exibia. Ela ainda era tímida, ainda preferia o silêncio, mas não se encolhia mais. Ela tinha um porto seguro, e esse porto tinha cabelos prateados e um coração de ouro.

Mais tarde naquele dia, o casal se encontrou na biblioteca. Tatsuyo estava sentada em um dos nichos mais afastados, rodeada por pergaminhos. Quando Kuro chegou, ele não trazia livros, mas sim dois frascos de suco de abóbora e alguns biscoitos que conseguira nas cozinhas.

— Pausa para o lanche — anunciou ele, sentando-se à frente dela.

— Eu realmente preciso terminar este ensaio de Poções, Kuro-kun — disse ela, embora seus olhos estivessem sorrindo.

— O ensaio pode esperar dez minutos. O meu bebê precisa de energia — ele retrucou, usando o apelido dela contra ela mesma.

Tatsuyo riu, um som baixo e musical que Kuro desejava poder guardar em um frasco.

— Não vale usar as minhas armas contra mim.

— Vale tudo no amor e no quadribol, Tatsuyo.

Eles comeram em um silêncio confortável, trocando olhares que diziam mais do que mil palavras. No entanto, a paz foi interrompida quando um grupo de garotas do quinto ano da Corvinal passou pela mesa. Uma delas, uma garota loira que costumava ser a principal agressora de Tatsuyo antes do baile, parou e olhou para Kuro com um sorriso forçado.

— Kuro, você não acha que já passou tempo demais aqui nos fundos? Tem uma festa começando no salão da Grifinória. Por que você não vai para onde as pessoas... bem, onde as pessoas realmente se divertem?

Tatsuyo sentiu a mão congelar sobre o pergaminho. O antigo medo tentou rastejar de volta, a sensação de que ela era um peso morto para a vida social de Kuro. Ela olhou para ele, esperando ver um sinal de hesitação.

Kuro nem sequer olhou para a garota loira. Ele continuou observando Tatsuyo, limpando uma migalha de biscoito do canto da boca dela com o polegar.

— Eu já estou onde a diversão está — disse ele, sua voz gélida e cortante como o vento de inverno. — Na verdade, estou no melhor lugar de Hogwarts. Se você não percebeu, estamos ocupados.

A garota bufou, ultrajada, e saiu pisando fundo, seguida por suas amigas. Tatsuyo soltou a respiração que nem sabia que estava segurando.

— Você não precisava ser tão rude, Kuro-kun.

— Precisava sim — afirmou ele, voltando a suavizar o olhar. — Eles precisam entender que você não é uma fase ou um erro. Você é a minha escolha. Todos os dias.

Tatsuyo sentiu os olhos arderem. Ela se inclinou sobre a mesa e segurou a mão dele com força.

— Obrigada, meu bebê.

Kuro sorriu, aquele sorriso de lado que sempre a desarmava.

— Sabe, eu começo a gostar desse apelido. Mas não conte para o time de quadribol, ou eu nunca mais vou ter paz no vestiário.

— Segredo nosso — prometeu ela.

Conforme a tarde caía e as sombras se alongavam pela biblioteca, Kuro ajudou Tatsuyo a guardar seus materiais. Eles caminharam juntos pelos corredores, as mãos dadas balançando entre eles. O relacionamento deles era uma mistura curiosa de proteção e descoberta. Kuro ensinava Tatsuyo a não ter medo de ocupar espaço, e Tatsuyo ensinava Kuro a apreciar as nuances do silêncio e da profundidade intelectual.

Eles pararam em frente ao retrato da Mulher Gorda.

— Você quer entrar? — perguntou Kuro. — O salão comunal deve estar calmo agora.

Tatsuyo hesitou. A Grifinória era barulhenta demais para o seu gosto, mas ela queria passar cada segundo possível com ele.

— Só se pudermos ficar naquele canto perto da janela, onde dá para ver o lago.

— Onde você quiser.

O Salão Comunal da Grifinória estava, milagrosamente, quase vazio. Apenas alguns alunos do primeiro ano jogavam snap explosivo em um canto. Kuro e Tatsuyo se acomodaram na poltrona grande perto da lareira. Kuro sentou-se primeiro e puxou Tatsuyo para o seu colo. Ela se acomodou contra o peito dele, sentindo os batimentos cardíacos constantes que se tornaram sua música favorita.

— Kuro-kun? — chamou ela baixinho.

— Hum? — Ele estava ocupado brincando com as pontas dos cabelos pretos dela.

— Por que eu? — A pergunta saiu antes que ela pudesse contê-la. Era a última sombra de sua insegurança. — Tantas garotas na Grifinória, na Lufa-Lufa... garotas que sabem dançar, que são populares, que não são... esquisitas.

Kuro parou o movimento das mãos. Ele a abraçou com mais força, enterrando o rosto na curva do pescoço dela.

— Porque nenhuma delas é você, Tatsuyo. Nenhuma delas tem essa mente brilhante que me desafia. Nenhuma delas tem esse olhar que parece enxergar a minha alma através de todas as piadas que eu conto. E nenhuma delas me faz querer ser um homem melhor só para ser digno de estar ao lado delas.

Ele se afastou um pouco para olhar nos olhos dela.

— Você não é esquisita. Você é rara. E eu tive a sorte de ser o cara que percebeu isso antes de todo mundo. Então, pare de se comparar. Para mim, você é o sol, a lua e todas as estrelas de Hogwarts juntas.

Tatsuyo sentiu uma lágrima solitária escorrer. Ela a limpou rapidamente, sorrindo entre o choro.

— Eu te amo, meu bebê.

Kuro paralisou. Foi a primeira vez que a palavra "amor" foi pronunciada entre eles. O ar pareceu vibrar. Ele a puxou para um beijo profundo, um beijo que selava a promessa feita na Torre de Astronomia.

— Eu também te amo, Tatsuyo. Mais do que consigo colocar em palavras.

Eles ficaram ali, envoltos pelo calor da lareira e pelo amor que florescera contra todas as probabilidades. Tatsuyo Uchiha, a menina que uma vez desejou ser invisível, agora se sentia a pessoa mais vista do mundo. E Kuro Hatake, o batedor que vivia para os aplausos da multidão, descobriu que o único aplauso que realmente importava era o sussurro doce de uma garota da Corvinal chamando-o de seu.

A semana seguinte prometia exames e o frio persistente de janeiro, mas para os dois, o inverno nunca fora tão acolhedor. Pois em algum lugar entre a coragem do leão e a sabedoria da águia, eles haviam construído um mundo só deles, onde o bullying não tinha voz e o amor era a única magia necessária.

— Kuro-kun? — ela chamou novamente, quase pegando no sono.

— Sim?

— Não se atreva a dormir no treino amanhã. Eu vou estar lá observando.

Kuro riu, beijando o topo da cabeça dela.

— Com você na arquibancada, meu bebê, eu acho que consigo até voar sem vassoura.

Tatsuyo sorriu, fechando os olhos. Ela estava em casa. E sua casa tinha o cheiro de prateado e a força de um coração que nunca desistiria dela.