Magia e Mar- Percy Jackson fanfic
Entre Ondas, Poções e Olhares Esmeralda
O interior da "casa-pingente" de Aurora era um labirinto de conforto e caos místico. Enquanto o *Vingança da Rainha Ana* cortava as águas do Mar de Monstros, a jovem bruxa tentava recuperar a compostura. Balthazar, seu leão negro que no momento parecia um gato doméstico de pelagem sombria, saltou para o colo dela, soltando um ronrono que vibrava como um motor de popa.
— Ele é tão... — Aurora começou, mas parou, buscando a palavra certa enquanto acariciava as orelhas do animal. — Ele é tão "filho de Poseidon". Aqueles olhos verdes parecem que podem convocar uma tempestade ou acalmar um furacão. E eu, Balthazar, eu agi como uma completa tonta.
Ela se levantou, sua túnica de seda mudando sutilmente de um tom de azul-sereno para um violeta profundo, refletindo sua agitação. Aurora caminhou até a pequena área de poções, onde frascos de cristal borbulhavam com líquidos de cores impossíveis. Ela precisava de algo para se ocupar. O cheiro de ervas secas e o brilho suave das plantas em sua estufa mágica costumavam ser seu ancoradouro, mas hoje, a imagem de Percy Jackson transformado em porquinho da índia — e depois voltando a ser um garoto irritantemente atraente — não saía de sua mente.
— Preciso de Moly — murmurou ela, pegando um almofariz de mármore. — E talvez um pouco de néctar. Se vamos enfrentar o que quer que esteja à espreita nessas águas, não posso me dar ao luxo de tropeçar nos meus próprios pés... ou nas minhas palavras.
Enquanto Aurora esmagava as ervas, o navio deu um solavanco violento. O som de algo grande batendo contra o casco ecoou mesmo dentro de sua dimensão de bolso.
— Por Hécate! — exclamou ela, guardando a varinha que antes parecia um enfeite de cabelo.
Ela atravessou a porta mágica em um segundo, emergindo no convés do navio. O sol estava começando a se pôr, pintando o céu de tons de sangue e ouro, mas a atmosfera no barco era de puro pânico. Annabeth estava agarrada ao leme, lutando contra uma correnteza que parecia viva, enquanto Percy estava na amurada, olhando para baixo com uma expressão de horror.
— O que está acontecendo? — gritou Aurora, sua voz projetada pela magia para sobrepor o rugido das ondas.
— Monstros marinhos! — Percy respondeu, sem desviar o olhar da água. — Alguma coisa está tentando virar o navio!
Aurora correu até a borda. Nas profundezas escuras, ela viu vultos serpentinos, longos e repletos de escamas que brilhavam com uma luz bio-luminescente doentia. Eram Cetonas menores, filhotes de monstros ancestrais, mas ainda assim perigosos o suficiente para estraçalhar madeira de carvalho encantada.
— Annabeth, mantenha o curso! — Aurora ordenou, a autoridade de uma descendente de Circe emanando dela. — Percy, você controla a água, mas eu controlo a luz. Eles odeiam o brilho do sol!
— O sol está se pondo, Aurora! — Annabeth gritou de volta, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o leme. — Não temos luz!
Aurora sorriu, um gesto astuto que fez seus olhos violetas brilharem com uma intensidade púrpura.
— Eu sou bisneta de Hélios, loirinha. Eu *sou* a luz.
Ela levou a mão ao pescoço, segurando o isqueiro mágico que pendia de seu colar de chaves. Com um movimento fluido, ela o acendeu. Mas em vez de uma pequena chama, ela canalizou sua própria energia através do objeto. O escudo de luz em seu pulso, normalmente um bracelete discreto, expandiu-se, tornando-se um disco de puro brilho solar.
— Percy, atraia-os para a superfície! — comandou Aurora.
Percy não hesitou. Ele fechou os olhos e estendeu a mão para o oceano. A água começou a borbulhar e a subir, criando um redemoinho que forçou as criaturas serpentinas a emergirem. Quando a primeira cabeça monstruosa, repleta de dentes afiados como adagas, rompeu a superfície, Aurora agiu.
Ela ergueu o escudo e redirecionou a luz do crepúsculo, amplificando-a mil vezes. Um feixe de laser dourado disparou do escudo, atingindo o monstro diretamente nos olhos. A criatura soltou um guincho lancinante e mergulhou de volta, queimada pela pureza do toque de Hélios.
— Isso! — Percy comemorou, mas sua alegria durou pouco. Outras três serpentes surgiram do lado oposto.
Aurora sentiu o esforço. Sua resistência física não era o seu forte, e a magia de luz consumia muito de sua energia. Ela cambaleou levemente, e Percy, rápido como um raio, estava ao seu lado para segurá-la pelo ombro.
— Você está bem? — perguntou ele, a preocupação genuína em seus olhos verdes fazendo o coração de Aurora errar uma batida.
— Estou... só um pouco tonta — admitiu ela, tentando manter a fachada de confiança. — Mas ainda não acabei.
— Deixe comigo agora — disse Percy. — Você deu a abertura que eu precisava.
Ele se concentrou, e Aurora observou, fascinada, enquanto ele comandava uma coluna de água para lançar os monstros para longe do navio. Annabeth aproveitou a oportunidade para manobrar o *Vingança da Rainha Ana* para uma zona de águas mais calmas.
Quando o perigo imediato passou, o silêncio caiu sobre o convés, quebrado apenas pelo som da respiração ofegante dos três. Aurora se soltou gentilmente do toque de Percy, sentindo falta do calor instantaneamente.
— Nada mal para um ex-porquinho da índia — provocou ela, recuperando seu tom dramático enquanto limpava uma gota de suor da testa.
Percy riu, passando a mão pelo cabelo rebelde.
— E nada mal para uma... como foi que você disse? Bruxa de Aiaia?
— Aurora — corrigiu ela, suavizando a voz. — Podem me chamar apenas de Aurora. O resto do nome é para ocasiões formais e para quando eu quero assustar cobradores de impostos mágicos.
Annabeth se aproximou, guardando a faca de bronze. Ela ainda parecia desconfiada, mas havia um novo respeito em seu olhar cinzento.
— Aquela luz... aquilo foi impressionante. Circe não mencionou que tinha uma filha com tais... bênçãos.
— Minha mãe e eu temos uma relação complexa — explicou Aurora, caminhando em direção a um dos caixotes para se sentar. — Ela prefere a sutilidade das poções e a transformação. Eu prefiro a luz do meu bisavô e a tecelagem de feitiços de Hécate. E, honestamente, eu prefiro a liberdade do que ficar presa em uma ilha transformando homens em roedores.
— Por que nos seguiu? — perguntou Annabeth, cruzando os braços. — E não me venha com essa história de "destino". Quero a verdade.
Aurora olhou para Percy. Ele a observava com uma curiosidade aberta, quase hipnótica. Ela sentiu a velha dificuldade de expressar o que sentia. Como dizer a ele que o via em sonhos desde os sete anos? Que Afrodite havia sussurrado em seu ouvido que suas almas estavam entrelaçadas? Se ela dissesse isso, ele provavelmente pensaria que ela era louca — ou pior, que estava tentando enfeitiçá-lo.
— Eu vi vocês chegarem — começou Aurora, escolhendo as palavras com cuidado. — Eu vi o que o mar fez por você, Percy. E eu senti que o que quer que vocês estejam procurando... o Velocino, o seu amigo... é algo que mudará o equilíbrio do mundo. E eu quero estar do lado que ganha. Além disso...
Ela hesitou, sua vaidade lutando contra sua sinceridade.
— Além disso, eu estava entediada. E você é muito mais interessante do que as estátuas de jardim da minha mãe.
Percy sorriu, um sorriso de lado que fez as sardas de Aurora queimarem de calor.
— Bem, estamos felizes por você estar aqui. Eu acho.
— Com certeza estamos — Annabeth interrompeu, embora seu tom ainda fosse cauteloso. — Mas agora precisamos comer e descansar. Temos um longo caminho até a ilha de Polifemo.
— Deixem a comida comigo — disse Aurora, levantando-se com uma elegância renovada. — Eu não suporto rações de acampamento. Minha cozinha está equipada com o que há de melhor.
— Você tem uma cozinha ali dentro? — Percy apontou para a porta de carvalho na parede do navio. — É tipo... um apartamento?
— É uma extensão da minha alma, Percy Jackson — respondeu ela de forma enigmática. — Venham. Mas tirem os sapatos. Eu acabei de encantar aquele tapete para se autolimpar e ele é muito temperamental com lama de monstro.
Eles entraram na dimensão de Aurora. Percy soltou um assobio de admiração ao ver a estante de livros que parecia não ter fim e a estufa onde plantas brilhavam com luz própria. Balthazar, agora em sua forma de gato, correu para entre as pernas de Percy, ronronando alto.
— Ele gosta de você — notou Aurora, surpresa. — Balthazar geralmente tenta morder quem não tem sangue divino puro.
— Ele é... um leão? — perguntou Percy, agachando-se para coçar a cabeça do bicho.
— Um presente da minha mãe. Ele pode ser um pouco dramático, como eu.
Aurora foi para a pequena cozinha e, com alguns movimentos rápidos de sua varinha, fez panelas começarem a flutuar e ingredientes a se picarem sozinhos. O aroma de temperos brasileiros misturados com ervas gregas logo preencheu o ar.
Enquanto a comida cozinhava, o silêncio no ambiente tornou-se mais confortável. Annabeth começou a folhear um dos livros de arquitetura mágica de Aurora, parecendo finalmente relaxar. Percy, no entanto, continuou observando Aurora trabalhar.
— Por que você usa tantas chaves no pescoço? — perguntou ele, aproximando-se do balcão.
Aurora parou por um momento, tocando o colar.
— Cada chave abre uma possibilidade, Percy. Algumas abrem portas físicas, como esta onde estamos. Outras abrem segredos, ou caminhos através do mundo que os mortais não podem ver. É o meu presente de Hécate. Ela é a deusa das encruzilhadas, afinal.
— E aquela ali? — Ele apontou para uma chave pequena, feita de um metal que parecia brilhar como o mar sob o luar.
Aurora sentiu a garganta secar. Aquela era a chave que, segundo a lenda de sua família, abriria o coração daquela que fosse sua alma gêmea. Ou, em termos mais práticos, era a chave que a levaria de volta para casa quando tudo estivesse perdido.
— Essa é para uma porta que ainda não encontrei — mentiu ela, voltando sua atenção para o ensopado.
— Sabe — disse Percy, sua voz baixando um tom —, eu tive sonhos estranhos ultimamente. Não apenas sobre o Grover. Sonhos com uma luz roxa e o cheiro de... lavanda e canela.
Aurora sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Afrodite não estava brincando. A conexão era mútua.
— Talvez seja apenas a maresia, Percy — disse ela, embora seu coração estivesse gritando o contrário. — O mar prega peças na mente.
— Talvez — concordou ele, mas não parecia convencido.
A janta foi uma experiência surreal para os semideuses. Aurora serviu um banquete que parecia impossível de ter sido feito em tão pouco tempo. Percy comeu como se não visse comida de verdade há anos, e até Annabeth admitiu que as habilidades culinárias de Aurora eram "aceitáveis", o que Aurora sabia ser um grande elogio vindo dela.
Depois de comerem, Annabeth decidiu que era hora de fazer turnos de vigia no convés.
— Eu fico com o primeiro turno — disse a loira. — Percy, você descansa. Aurora... você faz o que quer que bruxas façam à noite.
— Eu vou ler um pouco — disse Aurora. — E preparar algumas poções de cura extras. Sinto que vamos precisar.
Annabeth saiu, deixando os dois sozinhos na sala iluminada por velas mágicas. Percy levantou-se, mas antes de ir para o sofá onde planejava dormir, ele parou na frente de Aurora.
— Obrigado, Aurora. Por nos ajudar lá fora. E pela comida.
— Não precisa agradecer — disse ela, sua vaidade sumindo por um momento, dando lugar a uma vulnerabilidade rara. — Eu disse que queria estar do lado vencedor. E eu acho que o lado vencedor é onde você está.
Percy sorriu, aquele sorriso que fazia Aurora sentir que poderia enfrentar o próprio Cronos se ele pedisse.
— Boa noite, Aurora de Aiaia.
— Boa noite, Percy de Nova York.
Ele se afastou, e Aurora ficou ali, parada no meio de sua casa mágica. Ela olhou para as mãos, que ainda tremiam levemente pelo esforço de usar tanta luz. Ela sabia que a jornada seria perigosa. Ela sabia que havia profecias e destinos sombrios aguardando o filho de Poseidon.
Mas, enquanto ela pegava um frasco de cristal e começava a preparar uma nova poção, Aurora Maia sentiu uma certeza que nenhuma magia poderia dar. Ela não era apenas uma passageira clandestina no navio dele. Ela era a tecelã de seu próprio destino agora.
— Balthazar — sussurrou ela para o leão, que dormia aos seus pés. — Acho que vamos precisar de mais do que apenas luz e chaves. Vamos precisar de sorte.
Ela olhou para o colar em seu pescoço. O isqueiro, as chaves e a pequena porta. Ela era uma bruxa, uma estrategista e uma alma apaixonada. E o Mar de Monstros estava prestes a descobrir que não se deve subestimar uma garota que carrega o sol no sangue e a magia nas pontas dos dedos.
Lá fora, o *Vingança da Rainha Ana* seguia seu curso pelas águas perigosas, mas dentro daquela pequena porta mágica, Aurora finalmente sentia que, pela primeira vez em doze anos, ela estava exatamente onde deveria estar: ao lado do garoto de olhos verdes que habitava seus sonhos.