Magia e Mar- Percy Jackson fanfic
O Enigma das Sereias e o Brilho de Aiaia
O balanço do *Vingança da Rainha Ana* era diferente de qualquer navio que Percy já tivesse pilotado. Sob os pés de Aurora, a madeira parecia pulsar com uma energia residual da magia de sua mãe, mas agora havia algo novo: a influência do mar, selvagem e indomada, que emanava de Percy. Aurora estava sentada na amurada, seus cabelos castanhos avermelhados presos em uma trança complexa que brilhava como cobre polido sob o sol da manhã. Ela observava Percy com uma mistura de admiração e aquela irritação terna que só uma alma gêmea poderia sentir.
— Você está encarando de novo — disse Percy, sem desviar os olhos do horizonte. Ele tinha um meio sorriso no rosto, aquele que fazia as sardas de Aurora formigarem.
— Eu não estou encarando — mentiu Aurora prontamente, ajeitando um de seus brincos de sol. — Estou analisando as correntes mágicas ao redor do navio. Você é muito descuidado com a aura que projeta, Jackson. É como um farol para monstros.
Percy riu, um som que Aurora achava muito mais melodioso do que qualquer música mágica que ela pudesse compor.
— E você é como um farol literal, Aurora. Ontem à noite, parecia que tínhamos um segundo sol a bordo.
Annabeth saiu da cabine inferior, parecendo exausta. Seus olhos cinzentos encontraram os de Aurora, e houve um breve momento de avaliação silenciosa. A filha de Atenas ainda não confiava totalmente na "bruxinha de Aiaia", mas não podia negar que o jantar da noite anterior e o escudo de luz haviam salvado suas peles.
— Estamos nos aproximando das águas das Sereias — anunciou Annabeth, a voz tensa. — Percy, você sabe o que fazer. Precisamos de cera de ouvido. Muita cera.
Aurora soltou uma risada curta e dramática, levantando-se com a graça de uma felina. Suas vestes mudaram sutilmente para um tom de verde-água, camuflando-se com o oceano.
— Cera de ouvido? Que solução... rústica — comentou Aurora, fazendo um gesto desdenhoso com a mão. — Por que usar cera quando se tem uma especialista em encantamentos sonoros a bordo?
— Porque a cera funciona, Aurora — rebateu Annabeth, cruzando os braços. — O canto das Sereias não é uma piadinha. Elas mostram o que você mais deseja. Elas roubam sua alma através dos ouvidos.
— Eu sei exatamente o que elas fazem, loirinha — disse Aurora, seus olhos violetas brilhando com um toque de púrpura. — Minha mãe me ensinou a contra-melodia antes mesmo de eu aprender a ler. Eu posso tecer um véu de silêncio seletivo ao redor do navio. Vocês ouvirão uns aos outros, mas o mundo exterior será apenas um sussurro sem sentido.
Percy pareceu interessado.
— Isso soa muito melhor do que enfiar cera de vela no ouvido. Tem certeza de que consegue?
Aurora sentiu aquela pontada de orgulho ferido. Ela se aproximou de Percy, parando a centímetros dele. O cheiro de mar e maresia que emanava dele era quase inebriante.
— Percy, eu estudo em Castelo Bruxo e passo meus verões aprendendo com a feiticeira mais poderosa da mitologia grega. Um feitiço de isolamento acústico é brincadeira de criança para mim.
— Tudo bem — cedeu Annabeth, embora ainda parecesse cética. — Mas se eu começar a ouvir vozes de sabedoria infinita me chamando para pular na água, eu vou te transformar em um porquinho da índia pessoalmente.
— Tente a sorte, querida — Aurora sorriu, revelando covinhas que suavizavam sua expressão astuta.
Ela retirou a varinha de seu cabelo — o enfeite que parecia um delicado ramo de ouro se transformou em uma madeira escura e polida, emanando um brilho místico. Aurora começou a cantar. Não era uma música com palavras, mas uma sucessão de notas puras que pareciam vibrar no próprio ar. Enquanto cantava, ela traçava símbolos invisíveis com a varinha, tecendo fios de luz púrpura que se expandiam a partir dela, cobrindo o convés como uma cúpula invisível.
— *Silentium fati* — sussurrou ela por fim, batendo a ponta da varinha no convés.
Um zumbido suave percorreu o navio e, de repente, o som das ondas batendo no casco tornou-se abafado, como se estivessem debaixo d'água.
— Teste — disse Percy. — Ei, eu consigo te ouvir!
— Sim — explicou Aurora, guardando a varinha novamente no cabelo. — A magia reconhece quem pertence à tripulação. O som das Sereias não terá frequência para atravessar a barreira. Mas, por precaução, Percy... tente não olhar diretamente para as ilhas que passarmos. A visão também pode ser uma armadilha.
Conforme o navio avançava, as rochas das Sereias surgiram no horizonte. Eram penhascos brancos e cruéis, cobertos pelo que pareciam ser carcaças de navios antigos. Aurora sentiu um calafrio. Ela era sensível à aura de morte e desespero que emanava daquele lugar. Instintivamente, ela se aproximou de Percy, sua mão buscando a dele.
Percy apertou os dedos dela. O toque foi elétrico. Aurora sentiu sua pele parda esquentar e uma onda de confiança percorrer seu corpo. Ela era desajeitada com palavras de carinho, mas o contato físico era sua linguagem natural.
— Você está tremendo — sussurrou Percy.
— É apenas o frio do mar — mentiu ela, embora o sol estivesse a pino. — E a estética desse lugar é horrorosa. Quem desenhou esses penhascos não tinha o menor senso de estilo.
Percy riu baixo, mas seus olhos estavam fixos nas rochas. Mesmo com o feitiço de Aurora, as Sereias eram visíveis. Eram criaturas horríveis com rostos de mulheres e corpos de aves de rapina, mas a névoa ao redor delas tentava transformá-las em algo belo.
De repente, Annabeth soltou um suspiro pesado. Ela estava olhando para uma das ilhas com uma expressão de puro anseio.
— Annabeth! — gritou Percy, mas ela não respondeu.
Aurora percebeu o erro imediatamente.
— O feitiço de silêncio está funcionando, mas a visão dela é forte demais! — Aurora exclamou, soltando a mão de Percy. — Ela é uma filha de Atenas, a mente dela está preenchendo as lacunas do que ela não consegue ouvir!
Annabeth começou a caminhar em direção à amurada, os olhos vidrados.
— Eu preciso ir — murmurou a loira. — Eles estão me mostrando... o mundo reconstruído. Meu pai... minha mãe... todos juntos.
— Annabeth, não! — Percy tentou segurá-la, mas ela lutou com uma força surpreendente.
Aurora agiu por instinto. Ela não podia usar magia de ataque contra uma aliada, mas podia usar a transmutação.
— Percy, segure-a firme!
Aurora tocou o anel em seu dedo, que se transformou em uma de suas adagas de bronze. Ela não usou a lâmina para ferir, mas para refletir a luz solar diretamente nos olhos de Annabeth. Ao mesmo tempo, ela usou o *charmspeak*, sua voz carregada com o poder de Afrodite.
— Annabeth Chase, olhe para mim! — ordenou Aurora. — O que você vê não é real! É apenas uma ilusão barata de monstros que não têm metade da sua inteligência!
A voz de Aurora cortou a névoa mental de Annabeth como uma faca. A loira piscou, a cegueira temporária causada pelo reflexo da luz ajudando a quebrar o feitiço visual. Ela tropeçou para trás, caindo nos braços de Percy.
— O que... o que aconteceu? — perguntou Annabeth, tremendo violentamente.
— Você quase virou lanche de passarinho — disse Aurora, ofegante. Ela se sentia exausta; manter o feitiço de silêncio e usar o *charmspeak* ao mesmo tempo exigia muito de sua resistência física limitada.
Percy ajudou Annabeth a se sentar, mas seus olhos voltaram-se para Aurora com uma nova intensidade.
— Você salvou ela — disse ele. — De novo.
Aurora deu de ombros, tentando manter sua fachada de vaidade.
— Eu não podia deixar que ela sujasse o convés com o sangue dela. Seria um pesadelo para limpar.
Mas Percy viu através da máscara. Ele viu as sardas no nariz dela brilharem com o esforço e como ela se apoiava levemente na amurada para não cair. Ele se aproximou e, sem dizer uma palavra, passou o braço pela cintura dela para sustentá-la.
— Você precisa descansar, Aurora. Vá para sua casa-pingente.
— Eu estou bem, Jackson — protestou ela, embora tenha se inclinado para o calor dele. — Eu só preciso de um pouco de néctar e... talvez um pedaço de chocolate.
— Eu levo você — insistiu ele.
Eles caminharam até a porta mágica de carvalho. Annabeth, recuperando-se, observou-os partir. Ela ainda tinha dúvidas sobre a bruxa, mas a maneira como Aurora olhava para Percy... era algo que nem mesmo a filha de Atenas podia ignorar.
Dentro da mini-casa mágica, o ambiente era calmo. Balthazar correu para cumprimentá-los, transformando-se de gato em um pequeno leão negro e pulando no sofá. Percy ajudou Aurora a se sentar em uma poltrona de veludo púrpura.
— Você é muito teimosa — comentou Percy, pegando um copo de água que Aurora conjurou com um estalo de dedos.
— É uma característica de família — retrucou ela. — Minha mãe desafiou os deuses por milênios. Você acha que eu seria diferente?
Percy sentou-se no chão, aos pés dela, observando a estufa de plantas mágicas ao fundo.
— Aurora... por que você estava na ilha de Circe? Quero dizer, você disse que é sua mãe, mas você não parece ser como as outras seguidoras dela. Você não parece querer transformar o mundo em porquinhos da índia.
Aurora soltou um suspiro, seus dedos brincando com as chaves em seu pescoço.
— Minha mãe é... complicada. Ela acredita que o mundo é um lugar cruel para as mulheres e que a magia é a única defesa. Ela transforma homens em animais porque acha que, no fundo, é isso que eles são. Mas eu... eu cresci no Brasil, Percy. Minha família mortal, os Castello, me ensinaram que o mundo tem cores que minha mãe se recusa a ver. Eu amo a magia, mas eu amo a liberdade ainda mais.
Ela olhou para ele, seus olhos violetas suavizando-se.
— E eu tive sonhos. Desde os sete anos.
Percy ficou imóvel.
— Sonhos com o quê?
— Com um garoto que cheirava a oceano e tinha o hábito irritante de se meter em problemas — ela confessou, a voz quase um sussurro. — Eu vi você enfrentar o Minotauro. Eu vi você no Acampamento Meio-Sangue. Afrodite me disse que nossas vidas estavam ligadas. Eu não sabia se era verdade ou apenas uma maldição da deusa do amor para me manter entretida, mas quando vi o *Vingança da Rainha Ana* se aproximando da ilha... eu soube.
Percy estendeu a mão e pegou a de Aurora.
— Eu também tive sonhos, Aurora. Eu não sabia quem você era, mas eu sempre via essa luz... esse brilho roxo que parecia me guiar quando eu estava perdido. No mar, às vezes, eu sentia que alguém estava me observando, mas não de um jeito ruim. Era como se... como se eu não estivesse sozinho.
Aurora sentiu uma lágrima solitária escapar, algo que ela rapidamente limpou, amaldiçoando sua sensibilidade.
— Bem, agora você está preso comigo — disse ela, recuperando seu tom astuto. — E eu sou uma companhia muito cara, Jackson. Espero que você tenha dracmas de ouro suficientes para pagar meus serviços de consultoria mágica.
Percy riu e, em um impulso, inclinou-se para frente e beijou a bochecha dela. Foi um gesto rápido, mas o suficiente para fazer Aurora esquecer como se respira.
— Eu acho que vou encontrar um jeito de pagar — disse ele, levantando-se. — Vou voltar para o convés e ajudar a Annabeth. Descanse, Aurora. Isso é uma ordem do seu capitão.
— "Capitão", é? — Aurora arqueou uma sobrancelha, o coração batendo forte. — Veremos quem comanda quem quando chegarmos à ilha de Polifemo.
Percy saiu, fechando a porta de carvalho atrás de si. Aurora encostou a cabeça no encosto da poltrona, sentindo o ronrono de Balthazar em seu colo. Ela tocou a bochecha onde ele a beijara.
— Ele é tão bobo, Balthazar — sussurrou ela para o leão. — Mas ele é o *meu* bobo.
Ela fechou os olhos por um momento, permitindo que sua consciência se expandisse. Ela podia sentir o navio, a água e a presença de Percy lá fora. Mas também podia sentir algo mais. Uma sombra crescendo no horizonte, algo que nem mesmo sua luz poderia dissipar facilmente. O Mar de Monstros estava longe de terminar com eles.
Aurora levantou-se e caminhou até sua parede de livros mágicos. Ela precisava encontrar um feitiço específico. Algo que pudesse proteger um filho de Poseidon de um destino que as Parcas pareciam ter tecido com fios de tragédia.
— Eu não vou deixar você se tornar uma história triste, Percy Jackson — prometeu ela para o vazio da sala. — Nem que eu tenha que queimar o próprio sol para te manter seguro.
Ela pegou um volume antigo, encadernado em couro de dragão, e começou a ler. A luz de seus brincos de sol iluminava as páginas, refletindo em seus olhos violetas. A jornada para salvar Grover e o Velocino de Ouro estava apenas começando, mas para Aurora Maia de Aiaia, a verdadeira missão era garantir que sua alma gêmea voltasse para casa. E ela faria isso com toda a astúcia, drama e magia que seu sangue divino lhe permitia.
Lá fora, o navio cortava as ondas, deixando para trás o canto das Sereias, enquanto dentro da pequena porta mágica, uma bruxa brasileira-grega começava a traçar o plano que mudaria o curso da história.