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Magia e Mar- Percy Jackson fanfic

Luzes de Neon e o Rugido de Caribdis

O "Vingança da Rainha Ana" não era apenas um navio; para Aurora, ele estava se tornando um palco. E como toda boa Maia de Aiaia, ela sabia que um palco exigia drama, figurino e, acima de tudo, uma entrada triunfal. No entanto, o Mar de Monstros não se importava com a estética grego-brasileira dela. O céu, que antes brilhava em um azul límpido, agora se contorcia em tons de cinza metálico e verde doentio, como se o próprio horizonte estivesse sofrendo de enjoo.

Aurora saiu de sua porta mágica vestindo uma túnica de seda que ela mesma encantara naquela manhã. O tecido mudava de um tom de bronze para um roxo profundo conforme ela se movia, e suas adagas — agora em forma de anéis duplos em seus dedos — pulsavam com uma energia ansiosa. Ela encontrou Percy e Annabeth no convés, ambos olhando para frente com expressões que gritavam "estamos prestes a morrer".

— É impressão minha ou o mar decidiu que hoje é dia de centrifugar intrusos? — Aurora perguntou, caminhando com uma elegância que desafiava o balanço violento do convés.

Percy se virou, e por um segundo, o pavor em seus olhos verdes foi substituído por aquele brilho de reconhecimento que fazia o estômago de Aurora dar piruetas.

— Aurora, que bom que você saiu. Annabeth diz que estamos chegando ao estreito.

— O estreito — Aurora repetiu, estreitando os olhos violetas. — Entre Scylla e Caribdis. Minha mãe costumava usar esse lugar como exemplo de por que não se deve confiar em deuses marinhos. Um te come pedaço por pedaço, o outro te engole de uma vez. Muito charmoso.

Annabeth, que segurava o leme com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos, lançou um olhar severo para a bruxa.

— Precisamos de mais do que sarcasmo agora, Aurora. Se você tem alguma magia de proteção, a hora é essa. O navio não vai aguentar a sucção de Caribdis e o alcance de Scylla ao mesmo tempo.

Aurora suspirou dramaticamente, tocando os brincos de sol.

— Vocês, semideuses, são tão focados em força bruta. Às vezes, o que você precisa é de um pouco de distração. Percy, você consegue manter o navio estável se eu der um empurrãozinho luminoso?

— Um empurrãozinho? — Percy perguntou, desviando de uma onda que lavou o convés. — O que você tem em mente?

— Vou tecer um véu — disse ela, sua voz subindo um tom, carregada com a autoridade de Hécate. — Vou usar a Névoa para projetar uma imagem falsa do navio. Scylla é uma caçadora visual; se ela atacar a sombra, teremos tempo de passar por Caribdis.

Aurora fechou os olhos. Ela sentiu a linhagem de Hélios aquecer seu sangue e a bênção de Hécate formigar em suas mãos. Ela começou a cantar uma melodia antiga, uma canção que sua avó Maria Severina cantava no subsolo de sua casa em Pernambuco, mas infundida com palavras de poder gregas.

— *Phantasmagoria solaris!* — exclamou ela.

De seus dedos, fios de luz pura dispararam para o ar, entrelaçando-se com a névoa salgada do mar. Lentamente, uma réplica perfeita, porém luminosa, do "Vingança da Rainha Ana" se materializou a cerca de cinquenta metros à boreste.

— Uau — murmurou Percy, boquiaberto. — Isso é... incrível.

— Não se distraia, "Peixinho" — Aurora brincou, embora o suor começasse a brotar em sua testa. Manter uma ilusão daquele tamanho em águas tão instáveis era como tentar equilibrar uma pirâmide de taças de cristal durante um terremoto. — Foque no leme. Caribdis está começando a bocejar.

O rugido veio logo em seguida. Não era o som de água, mas o som de um vácuo infinito. À esquerda, o mar começou a girar, criando um funil escuro que parecia levar direto ao Tártaro. À direita, os penhascos de Scylla se erguiam, e Aurora pôde ver os pescoços longos e serpentinos da criatura emergindo das cavernas, prontos para dar o bote.

— Agora! — gritou Annabeth.

O navio real mergulhou na crista de uma onda, impulsionado pela vontade de Percy sobre as águas. Scylla, como Aurora previra, lançou suas cabeças monstruosas contra a réplica de luz. O som das mandíbulas de bronze batendo no vazio ecoou pelo estreito, e a criatura soltou um guincho de frustração ao perceber que havia mordido apenas fótons e magia.

No entanto, Caribdis era uma força da natureza que não podia ser enganada por luzes bonitas. A sucção era terrível. O navio começou a inclinar perigosamente para a esquerda, em direção ao redemoinho.

— Percy! — Aurora gritou, sua voz falhando por causa do esforço. — Eu não consigo manter a ilusão e o equilíbrio ao mesmo tempo!

Ela tropeçou quando o navio deu um solavanco. Percy largou o parapeito e correu até ela, segurando-a pela cintura antes que ela batesse contra o mastro.

— Eu te seguro — disse ele, a voz firme. — Annabeth, use o motor! Aurora, use tudo o que você tem!

O contato físico com Percy foi como uma descarga elétrica de pura energia. Aurora sentiu sua magia se renovar, alimentada pela conexão de alma gêmea que Afrodite tanto prometera. Seus olhos brilharam em um púrpura cegante. Ela soltou a ilusão de Scylla e focou toda a sua energia no escudo de luz em seu pulso.

— *Lux aeterna!* — ela bradou.

Em vez de um escudo, ela projetou uma explosão de luz sólida na popa do navio. A pressão da luz contra a água funcionou como um propulsor de emergência, empurrando o barco para fora do alcance do redemoinho. Por um momento, o "Vingança da Rainha Ana" pareceu voar sobre as águas negras de Caribdis.

Com um último esforço que fez Aurora ver estrelas, eles ultrapassaram o estreito. O mar, subitamente, acalmou-se, embora o navio ainda balançasse com a inércia.

Aurora desabou nos braços de Percy, sua respiração vindo em espasmos curtos. Ela sentia cada músculo de seu corpo protestar. Ser uma bruxa poderosa tinha um preço, e o preço era a exaustão física que sua linhagem divina não conseguia compensar totalmente.

— Você conseguiu — Percy sussurrou, ainda segurando-a. — Aurora, você foi incrível.

Ela tentou sorrir, mas acabou apenas encostando a cabeça no peito dele. O cheiro de sal e perigo era a melhor coisa que ela já sentira.

— Eu disse que era... uma companhia útil — ela conseguiu dizer, a voz rouca. — Só não espere que eu faça isso de novo nos próximos cinco minutos. Eu preciso de um banho e de três dias de sono.

Annabeth se aproximou, limpando o sal do rosto. Ela olhou para Aurora com uma expressão que não era mais de desconfiança, mas de algo próximo à gratidão relutante.

— Aquilo foi... uma manobra impressionante. Obrigada, Aurora. Acho que não teríamos passado sem o seu "empurrãozinho".

— De nada, loirinha — Aurora respondeu, piscando um dos olhos violetas. — Mas da próxima vez, tente não nos levar para o estômago de um monstro marinho. Estraga o meu cabelo.

Percy riu e ajudou Aurora a se levantar. Ele não soltou a mão dela, e Aurora não fez menção de se afastar. Havia um silêncio confortável entre eles agora, um entendimento que ia além das palavras que Aurora tinha tanta dificuldade em dizer.

— Vamos entrar — disse Percy. — Você precisa descansar.

Eles caminharam em direção à porta mágica. Antes de entrar, Aurora parou e olhou para o horizonte. O sol estava se pondo, e as águas do Mar de Monstros brilhavam como ouro derretido.

— Percy? — ela chamou baixinho.

— Sim?

— Aqueles sonhos que eu tive... — ela começou, hesitante, sua desajeitada interior lutando para expressar o afeto. — Eles nunca mostraram o quanto era cansativo salvar sua vida. Você é um problema ambulante, sabia?

Percy sorriu, aquele sorriso torto que desarmava qualquer defesa de Aurora.

— Eu sei. Mas parece que eu encontrei a bruxa certa para me ajudar a resolver esses problemas.

Aurora sentiu as sardas queimarem. Ela não respondeu com palavras; em vez disso, ela apertou a mão dele uma última vez e entrou em seu refúgio mágico.

Lá dentro, o silêncio era absoluto, exceto pelo ronrono de Balthazar, que a esperava no sofá. Aurora se deixou cair nas almofadas, sentindo o peso da exaustão finalmente vencê-la. Ela tocou o pingente de chave em seu pescoço.

— Ele é o único, Balthazar — ela sussurrou para o leão negro, que agora se esfregava em seu braço. — Ele é exatamente como os sonhos disseram. E, por Hécate, eu vou garantir que cheguemos àquela ilha, nem que eu tenha que transmutar o oceano inteiro em limonada.

Ela fechou os olhos, mas antes de adormecer, sentiu uma presença quente em sua mente. Não era um sonho, mas uma sensação de segurança. Percy estava lá fora, vigiando o navio, vigiando por ela.

Horas depois, Aurora acordou com o som de vozes abafadas vindo do convés. Ela se levantou, sentindo-se um pouco mais recuperada. Ela usou um feitiço simples para limpar a túnica e prender o cabelo de volta em uma trança impecável. Ela precisava manter a aparência; uma Maia de Aiaia nunca era vista em estado de desordem por muito tempo.

Ao sair, ela encontrou Percy sentado na proa, olhando para as estrelas. Annabeth parecia estar dormindo em algum lugar abaixo.

— Não consegue dormir? — Aurora perguntou, sentando-se ao lado dele.

— O mar está agitado — Percy respondeu. — E eu fico pensando no Grover. E no que nos espera na ilha de Polifemo.

Aurora olhou para as estrelas. Sendo bisneta de Hélios, ela tinha uma conexão natural com os corpos celestes, mesmo que preferisse o sol.

— Polifemo é um problema, mas não é o maior — disse ela, sua voz adquirindo um tom sério. — Há algo se movendo nas sombras, Percy. Algo mais antigo que os ciclopes. Eu sinto isso na Névoa.

Percy olhou para ela, a expressão preocupada.

— Você acha que é Cronos?

— Eu acho que o tempo está contra nós — ela respondeu enigmaticamente. — Mas você tem a mim agora. E eu tenho chaves para portas que você nem imagina que existam.

Ela estendeu a mão e, com um toque de luz, conjurou uma pequena flor de lótus feita de pura energia dourada. Ela a entregou a Percy.

— O que é isso?

— Um amuleto de Hélios — explicou ela, sua vaidade brilhando de forma suave. — Ele vai te dar um pouco de clareza quando a Névoa tentar te confundir. E... é um lembrete de que você não está sozinho nessa missão suicida.

Percy pegou a flor, que se dissolveu em um brilho quente contra a palma de sua mão.

— Obrigado, Aurora. De verdade.

Eles ficaram ali, em silêncio, enquanto o navio navegava pelas águas perigosas. Aurora sentia que o destino estava se cumprindo, mas de uma forma que ela finalmente podia controlar. Ela não era apenas a filha de Circe, ou a estudante de Castelo Bruxo. Ela era Aurora Maia de Aiaia, e ela estava pronta para lutar por sua alma gêmea.

— Percy? — ela disse depois de um tempo, sua natureza dramática voltando à tona.

— Sim?

— Se você for transformado em um porquinho da índia de novo, eu vou tirar uma foto antes de te transformar de volta. Só para constar.

Percy soltou uma gargalhada que ecoou pelo mar silencioso.

— Eu não esperaria nada menos de você, Aurora.

E assim, entre risos e magias, o "Vingança da Rainha Ana" seguiu seu curso. O Mar de Monstros ainda tinha muitos desafios, mas para a bruxa e o herói, a maior aventura já havia começado: a descoberta de que, às vezes, o maior feitiço de todos não vem de uma varinha, mas de um encontro de almas que o tempo e o destino não conseguiram apagar.

Aurora olhou para o colar em seu pescoço e sorriu. A porta para o futuro estava aberta, e ela tinha a chave.