Magia e Mar- Percy Jackson fanfic
O Sussurro das Profundezas e o Brilho da Vingança
O "Vingança da Rainha Ana" cortava as águas do Mar de Monstros com uma urgência que parecia contagiar as próprias tábuas do navio. Aurora estava sentada na proa, os pés balançando sobre o abismo azul, observando como a espuma das ondas brilhava com uma luminescência estranha sob o luar. Seus cabelos castanhos avermelhados estavam soltos, caindo como uma cascata de cobre que quase tocava o convés, movendo-se sozinhos como se tivessem vida própria, imbuídos pela magia residual do último feitiço.
Ela sentia a presença de Percy antes mesmo de ouvi-lo. O cheiro de mar, ozônio e uma pitada de chocolate — provavelmente algum lanche que ele roubara da despensa mágica dela — denunciava sua aproximação.
— Você devia estar descansando — disse Percy, encostando-se na amurada ao lado dela. — Annabeth disse que o estreito de Scylla e Caribdis te deixou exausta.
Aurora virou a cabeça lentamente, seus olhos violetas brilhando com uma intensidade púrpura suave no escuro. Ela deu um sorriso astuto, embora houvesse uma sombra de cansaço em suas feições elegantes.
— Descanso é para mortais que não têm o destino do mundo nos ombros, Jackson — ela retrucou, sua voz carregada com aquele tom dramático que era sua marca registrada. — Além disso, o mar está inquieto. Ele canta para você, mas para mim, ele sussurra avisos.
Percy olhou para as mãos, parecendo desconfortável.
— O que ele está dizendo?
— Que estamos chegando perto. — Aurora estendeu a mão e, com um movimento fluido, fez uma pequena chama violeta dançar entre seus dedos. — Polifemo não é o único perigo. A ilha dele exala uma magia antiga, algo que até minha mãe, Circe, teria receio de tocar. É uma fome que não se sacia apenas com carne.
Percy suspirou, passando a mão pelos cabelos rebeldes.
— Eu só quero tirar o Grover de lá. E encontrar o Velocino. Se não conseguirmos, o Acampamento...
— Nós vamos conseguir — interrompeu Aurora, fechando a mão e extinguindo a chama. Ela se levantou, sua túnica encantada mudando de cor para um prateado lunar que realçava sua pele parda. — Eu não atravessei metade do oceano escondida em um barco cheio de testosterona e mau planejamento para ver você falhar. Minha vaidade não permitiria.
Percy riu, um som curto e genuíno que fez o coração de Aurora disparar.
— Você é inacreditável, sabia?
— Eu sou uma Maia de Aiaia — ela deu de ombros, aproximando-se dele o suficiente para que seus brincos de sol tilintassem. — Ser inacreditável está no meu contrato de nascimento.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Aurora sentia a conexão entre eles, aquela linha invisível que Afrodite traçara em seus sonhos desde que ela era uma criança em Pernambuco. Ela queria dizer algo afetuoso, algo que demonstrasse o quanto se importava, mas as palavras pareciam entalar em sua garganta, substituídas por uma vontade impulsiva de apenas tocá-lo.
Ela optou por um meio-termo. Estendeu a mão e ajeitou o colar de contas de Percy, seus dedos roçando deliberadamente a pele do pescoço dele.
— Você está tenso — comentou ela, a voz mais suave. — Seus músculos estão como cordas de harpa prestes a arrebentar.
— É difícil relaxar quando se é um alvo ambulante — ele admitiu, olhando nos olhos dela. — Mas, quando você está por perto... parece que as coisas ficam um pouco mais claras. Ou pelo menos mais brilhantes.
Aurora sentiu as sardas em seu nariz esquentarem. Ela odiava o quanto era sensível aos elogios dele.
— É o meu brilho natural — ela brincou, tentando recuperar a compostura. — Mas falando em brilho, preciso que você tome isso.
Ela levou a mão ao colar de chaves e desprendeu um pequeno frasco de cristal que brilhava com um líquido dourado e efervescente.
— O que é? Veneno de monstro? — perguntou Percy, pegando o frasco com curiosidade.
— É uma essência de Moly destilada com néctar e um toque de luz solar — explicou Aurora, cruzando os braços com uma expressão de importância. — Se Polifemo ou qualquer outra criatura tentar usar magia de confusão ou transformação em você, isso vai agir como um escudo interno. Eu não vou deixar você virar um porquinho da índia de novo, Jackson. Eu prefiro você assim... funcional.
Percy guardou o frasco no bolso, sorrindo de lado.
— Obrigado, Aurora. De verdade. Eu não sei o que faríamos sem você.
— Provavelmente estariam naufragados em alguma ilha deserta tentando comer cocos com uma faca de bronze — ela retrucou, mas seus olhos mostravam que o elogio a atingira em cheio.
De repente, o navio deu um solavanco violento. Um rugido profundo, vindo das entranhas do oceano, fez as tábuas do "Vingança da Rainha Ana" gemerem em protesto. Annabeth saiu correndo da cabine, com a faca de bronze em punho.
— Percy! Aurora! Alguma coisa está nos puxando! — gritou a loira, apontando para a frente.
Aurora correu para a amurada. O mar à frente não era mais azul; era de um preto absoluto, e a água parecia estar sendo sugada para baixo por um ralo invisível.
— Não é Caribdis de novo — observou Aurora, seus olhos brilhando em púrpura enquanto ela tentava ler a Névoa. — É um campo de sucção mágica. Alguém colocou uma armadilha rúnica no caminho para a ilha.
— Consegue desfazer? — perguntou Percy, já correndo para o leme para tentar estabilizar o navio.
— Preciso de tempo! — Aurora exclamou. Ela retirou a varinha de seu cabelo — o enfeite de ouro transformando-se instantaneamente em madeira mística. — Annabeth, mantenha o navio firme! Percy, me dê um pouco de luz!
Percy não entendeu de imediato, mas então se lembrou do amuleto que ela lhe dera antes. Ele focou sua vontade, e a pequena flor de luz em sua mente brilhou, refletindo-se em seus olhos. Aurora usou essa conexão como um âncora.
Ela começou a cantar. Era uma melodia em português, uma canção de ninar que sua mãe mortal usava para afastar pesadelos, mas ela a entrelaçou com encantamentos gregos de Hécate.
— *Quebra o laço, abre a porta, o que é falso agora morra!* — sua voz ecoou, amplificada pela magia.
Fios de luz violeta dispararam da ponta de sua varinha, mergulhando na água escura. Onde a luz tocava, as runas invisíveis que brilhavam no fundo do mar começaram a estalar e se dissolver. Aurora sentiu a resistência física pesando; suas pernas tremeram, e ela teve que se apoiar no mastro principal.
— Ela vai cair! — gritou Annabeth.
Percy largou o leme por um segundo e deslizou pelo convés, segurando Aurora pela cintura no momento em que ela perdia o equilíbrio. O contato físico agiu como uma bateria mágica. Aurora sentiu a força do mar de Percy fluir para sua magia de luz, criando uma combinação devastadora.
— *AGORA!* — Aurora bradou.
Uma explosão de luz branca e púrpura varreu o oceano, destruindo a armadilha rúnica e lançando o navio para frente com uma velocidade incrível. O "Vingança da Rainha Ana" saltou sobre a crista de uma onda e aterrissou em águas calmas, a poucos quilômetros de uma ilha que exalava um cheiro forte de ovelhas e perigo.
Aurora desabou contra o peito de Percy, ofegante. Sua pele estava pálida, e ela sentia como se tivesse corrido uma maratona através de um campo minado.
— Você está bem? — Percy perguntou, a voz carregada de uma preocupação que ele não conseguia esconder.
— Eu... eu só preciso de um minuto — ela murmurou, fechando os olhos e aproveitando o calor do abraço dele. — Minha magia é poderosa, Jackson, mas meu corpo ainda é meio-sangue. Eu odeio essa vulnerabilidade física. É tão... pouco elegante.
Percy soltou uma risada baixa, encostando o queixo no topo da cabeça dela por um breve momento.
— Para mim, você pareceu uma deusa lá atrás.
Aurora se afastou o suficiente para olhar para ele, um brilho de desafio e carinho em seus olhos violetas.
— Uma deusa, é? Cuidado com o que diz, Jackson. Eu posso me acostumar com esse tipo de tratamento e exigir que você carregue minha bolsa de poções pelo resto da viagem.
— Eu carregaria com prazer — ele respondeu, e o tom de seriedade em sua voz fez o coração de Aurora falhar uma batida.
Annabeth interrompeu o momento, pigarreando enquanto olhava para a ilha à frente.
— Estamos aqui. A Ilha do Ciclope. Temos que ser rápidos. Grover não tem muito tempo.
Aurora se recompôs, ajeitando a túnica e recuperando sua postura enigmática. Ela tocou o anel em seu dedo, transformando-o em uma de suas adagas duplas.
— Eu vou na frente — anunciou ela. — Minha habilidade com a Névoa pode nos manter invisíveis para Polifemo por algum tempo. Percy, você fica no centro. Annabeth, cubra a retaguarda.
— Espere — disse Percy, segurando o braço dela. — Aurora, prometa que não vai se arriscar demais. Você já usou muita magia hoje.
Aurora olhou para a mão dele em seu braço e depois para o rosto dele. Ela sentiu aquela velha dificuldade de expressar amor com palavras, então apenas cobriu a mão dele com a sua e apertou com firmeza.
— Eu sou uma bruxa de Aiaia, Percy. Nós não morremos facilmente. Especialmente quando temos alguém por quem vale a pena voltar.
Ela se virou rapidamente antes que ele pudesse ver o rubor em suas bochechas.
— Vamos lá. Temos um ciclope para enganar e um bode para resgatar.
Eles desembarcaram na areia branca da ilha. O ar era pesado e carregado com o cheiro de enxofre e lã molhada. Aurora liderava o grupo, seus passos silenciosos e sua varinha em punho, tecendo uma camada fina de Névoa ao redor deles que distorcia a luz, tornando-os sombras indistintas contra a vegetação exuberante.
Conforme subiam a trilha em direção à caverna, Aurora parou subitamente. Ela sentiu uma flutuação na luz solar. Seus brincos de sol começaram a vibrar.
— Alguém está nos observando — ela sussurrou, sem se virar. — E não é o ciclope.
— O que você quer dizer? — perguntou Annabeth, em voz baixa.
— Há uma presença divina aqui — explicou Aurora, seus olhos brilhando em púrpura profunda. — Alguém que não quer que cheguemos ao Velocino. Percy, prepare sua espada.
Antes que Percy pudesse reagir, uma luz cegante explodiu da floresta à direita. Aurora reagiu por instinto, levantando o braço e ativando seu escudo de luz. O impacto da energia contra o escudo a jogou para trás, mas ela se manteve firme, redirecionando o feixe para o céu.
— Apareça! — Aurora comandou, sua voz imbuída de *charmspeak*. — Eu ordeno em nome de Hécate e Hélios!
Das sombras da folhagem, uma figura emergiu. Não era um monstro, mas uma ninfa de aparência severa, vestida em trajes que pareciam feitos de obsidiana.
— Vocês não têm o direito de levar o que pertence a esta ilha — a ninfa sibilou. — O Velocino é a única coisa que mantém este lugar vivo.
— O Velocino pertence ao Acampamento Meio-Sangue — Percy disse, dando um passo à frente, a Contracorrente brilhando em sua mão. — E nós vamos levá-lo.
A ninfa riu, um som frio e cortante.
— Um filho de Poseidon e uma filha de Atenas. E quem é você, pequena bruxa? Uma serva de Circe perdida longe de casa?
Aurora deu um passo à frente, sua presença tornando-se subitamente esmagadora. Seus cabelos pareciam flutuar em uma aura de energia púrpura, e ela adquiriu sutilmente características felinas — suas pupilas tornaram-se fendas e suas unhas alongaram-se levemente.
— Eu não sou serva de ninguém — Aurora declarou, sua voz ressoando com um poder que fez as árvores ao redor tremerem. — Eu sou Aurora Maya Venefica Castello de Aiaia. E se você valoriza sua existência imortal, sairá do nosso caminho. Eu não tenho paciência para ninfas com complexo de guardiã hoje.
A ninfa pareceu hesitar, intimidada pela demonstração de poder bruto de Aurora. Ela olhou de Percy para Aurora e percebeu a conexão entre eles — uma luz dourada e azul que os envolvia como uma armadura invisível.
— As Parcas teceram fios perigosos para vocês — a ninfa murmurou, recuando para as sombras. — Que a luz do seu bisavô te proteja, bruxa. Você vai precisar quando o escuro chegar.
A criatura desapareceu na floresta tão rápido quanto surgira. Aurora relaxou, sua aparência voltando ao normal, mas ela cambaleou levemente. Percy a segurou pelos ombros.
— Você está bem? Aquilo foi... assustador. De um jeito impressionante.
— Eu sou dramática, eu avisei — Aurora disse, tentando sorrir, embora estivesse visivelmente pálida. — Mas ela tem razão. O escuro está chegando. Precisamos pegar o Velocino e sair daqui antes que Polifemo perceba que sua "noiva" é um sátiro em um vestido de noiva.
— Como você sabe disso? — perguntou Annabeth, surpresa.
— Eu sou uma bruxa, loirinha — Aurora piscou. — Eu sinto o cheiro de magia de transformação a quilômetros. E Grover está usando um feitiço de ocultação muito mal feito.
Eles continuaram o caminho, finalmente chegando à entrada da caverna monumental. O som de balidos de ovelhas gigantes ecoava lá dentro, junto com uma voz estrondosa que reclamava da demora do jantar.
Percy olhou para Aurora. Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, o polegar roçando sua bochecha com uma ternura que a deixou sem fôlego.
— Fique atrás de mim se as coisas ficarem feias — ele pediu.
Aurora sorriu, segurando a mão dele contra seu rosto por um segundo a mais do que o necessário.
— Eu sempre estarei ao seu lado, Percy. Mas não se esqueça: eu sou a que tem os truques na manga.
Eles entraram na caverna. O ar estava saturado com o cheiro de lã e perigo iminente. Lá, no centro, estava o gigante Polifemo, e ao lado dele, um Grover muito nervoso vestido com um véu de noiva esfarrapado.
Aurora preparou sua varinha, seus olhos violetas rastreando cada movimento do ciclope. Ela sabia que a batalha que estava por vir exigiria tudo o que ela tinha. Mas enquanto olhava para as costas de Percy, ela sentiu uma calma absoluta.
O destino podia ser uma coisa chata, como ela sempre dizia, mas com Percy Jackson ao seu lado, Aurora estava pronta para reescrever cada linha da profecia com sua própria magia.
— No meu sinal — ela sussurrou para Percy e Annabeth.
A luz de seus brincos de sol brilhou uma última vez antes de ela mergulhar nas sombras, pronta para tecer a ilusão que salvaria seus amigos e consolidaria seu lugar como a protetora — e alma gêmea — do herói do Olimpo.