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Matias

O Labirinto dos Sentidos

O apartamento de Nayane parecia diferente naquela noite. As sombras projetadas pelas luminárias de luz quente não eram mais esconderijos para os desejos reprimidos de Aryane, mas sim molduras para uma nova e inebriante realidade. O som da chuva contra o vidro, antes uma sinfonia de solidão, agora servia como o isolamento perfeito para o mundo que as duas estavam construindo entre quatro paredes.

Aryane estava sentada no tapete da sala, as costas apoiadas no sofá, enquanto Nayane estava entre suas pernas, com a cabeça descansando em seu peito. O silêncio era confortável, preenchido apenas pelo ritmo sincronizado de suas respirações. A mão de Aryane acariciava os fios castanhos de Nayane com uma reverência quase religiosa, como se ainda temesse que, ao apertar demais, a imagem pudesse se desfazer em fumaça.

— No que você está pensando? — perguntou Nayane, a voz abafada pelo tecido do cardigã de Aryane.

— Em como o tempo é relativo — respondeu Aryane, soltando um suspiro longo. — Passei anos sentindo que cada minuto longe de você, ou perto de você sem poder te ter, era uma eternidade. Agora, sinto que o mundo parou.

Nayane levantou o rosto, os olhos brilhando com uma intensidade que ainda fazia Aryane perder o equilíbrio.

— Eu fui uma idiota, não fui? — Nayane buscou a mão de Aryane, entrelaçando seus dedos. — Eu estava tão focada na segurança do que tínhamos que ignorei o incêndio que estava começando bem debaixo do meu nariz.

— Você não foi idiota, Nay. Você foi cautelosa. E eu... eu fui covarde. Tive medo de que a verdade destruísse a única coisa que me mantinha sã: a sua amizade.

Nayane sentou-se ereta, ficando cara a cara com Aryane. Ela estendeu a mão e removeu os óculos da amiga, colocando-os cuidadosamente sobre a mesa de centro. Sem a barreira das lentes, o olhar de Aryane estava vulnerável, despido de suas defesas intelectuais.

— A amizade nunca vai embora, Ary — sussurrou Nayane, aproximando-se até que suas testas se encostassem. — Ela é o alicerce. Mas agora... agora eu quero o resto do prédio. Eu quero as janelas abertas, o telhado, o fogo na lareira.

— Você tem certeza de que aguenta o meu tipo de fogo? — Aryane brincou, embora houvesse uma nota de seriedade em sua voz. — Eu sou intensa demais, Nay. Eu leio poesias sobre tragédias e vejo o mundo em tons de cinza e melancolia.

— Então deixe que eu seja a sua cor — Nayane respondeu, antes de selar seus lábios nos de Aryane.

O beijo começou lento, um reconhecimento mútuo de territórios agora compartilhados. Mas, à medida que a língua de Nayane pedia passagem, a faísca da paixão avassaladora que Aryane vinha reprimindo explodiu. Suas mãos subiram para os ombros de Nayane, puxando-a para mais perto, querendo eliminar qualquer espaço atômico que ainda as separasse.

Aryane sentiu o coração de Nayane batendo contra o seu, um tambor frenético que ecoava seu próprio desejo. Não era mais apenas carinho; era uma fome que vinha sendo alimentada por anos de olhares roubados e toques acidentais.

— Ary... — murmurou Nayane entre os beijos, a voz carregada de uma urgência que Aryane nunca tinha ouvido antes. — Vamos para o quarto.

Aryane hesitou por um milésimo de segundo. Aquele era o limiar. Uma vez cruzada aquela porta, não haveria mais volta para a simplicidade da amizade pura. Mas, ao olhar para Nayane — para a entrega em seus olhos, para o rubor em suas bochechas —, ela percebeu que nunca quis voltar.

— Sim — disse Aryane, a voz firme.

O quarto de Nayane era um santuário de tons pastéis e cheiro de baunilha. A luz da lua filtrava-se pelas cortinas finas, banhando o ambiente em uma claridade prateada. Quando as portas se fecharam atrás delas, o mundo exterior — Seattle, o trabalho, as dúvidas — deixou de existir.

Nayane começou a desabotoar o cardigã cinza de Aryane, seus dedos ágeis mas levemente trêmulos.

— Você está nervosa? — perguntou Aryane, segurando os pulsos da amiga por um momento.

— Um pouco — confessou Nayane, dando um sorriso tímido. — É estranho e maravilhoso ao mesmo tempo. Eu conheço cada detalhe da sua alma, Ary, mas o seu corpo... o seu corpo é um livro novo que eu estou morrendo de vontade de ler.

Aryane sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela soltou os pulsos de Nayane e permitiu que o cardigã caísse no chão.

— Então não pule nenhum capítulo — sussurrou ela.

A pele de Nayane era quente contra a sua. Cada toque era uma descoberta. Aryane, sempre tão contida e cerebral, descobriu que o toque podia ser uma forma de comunicação muito mais profunda do que qualquer ensaio filosófico. Quando suas mãos exploraram as curvas de Nayane, ela sentiu como se estivesse mapeando um território sagrado.

— Você é linda — disse Aryane, sua voz falhando enquanto observava Nayane sob a luz do luar. — Eu sempre soube disso, mas agora... é quase demais para suportar.

— Não suporte sozinha — respondeu Nayane, puxando-a para a cama. — Sinta comigo.

O que se seguiu foi uma dança de descobertas. Não havia a pressa bruta de estranhos, mas a paciência detalhista de quem já se amava. Aryane descobriu que Nayane era sensível no pescoço, que soltava um suspiro específico quando era tocada na cintura, e que seus olhos se fechavam com força quando o prazer começava a sobrecarregar seus sentidos.

Por outro lado, Nayane descobriu a força escondida sob a serenidade de Aryane. A forma como as mãos da amiga a seguravam com possessividade, o jeito como Aryane escondia o rosto em seu pescoço quando a intensidade se tornava avassaladora.

— Eu nunca imaginei que seria assim — ofegou Nayane, horas depois, enquanto as duas estavam entrelaçadas sob os lençóis de algodão egípcio.

— Assim como? — Aryane perguntou, traçando círculos imaginários no braço de Nayane.

— Tão... completo. Como se todas as peças do quebra-cabeça tivessem finalmente se encaixado. Eu me sinto em casa, Ary.

Aryane sorriu, sentindo uma paz que nunca acreditou ser possível. A confusão de sentimentos que a atormentara por meses tinha se dissipado, dando lugar a uma clareza cristalina.

— Eu tive tanto medo de te perder — confessou Aryane, a voz baixa. — Achei que, se eu contasse, você se afastaria e eu ficaria no escuro.

— O escuro nunca foi uma opção para nós, Ary. Nós somos luz uma para a outra. Às vezes a lâmpada só precisava de um ajuste.

Elas ficaram em silêncio por um tempo, ouvindo a chuva que agora diminuía para uma garoa fina. O relógio na parede marcava o início da madrugada, mas nenhuma das duas tinha pressa de dormir.

— Ary? — chamou Nayane.

— Oi.

— O que acontece amanhã? Quando acordarmos e o sol sair?

Aryane pensou por um momento. Ela sabia que haveria desafios. Explicar para os amigos em comum, lidar com a transição da dinâmica de anos, aprender a ser um casal sem perder a essência da amizade. Mas, pela primeira vez, os desafios não pareciam montanhas intransponíveis.

— Amanhã — começou Aryane, virando-se para beijar a testa de Nayane —, nós vamos tomar café. Você vai reclamar que eu coloco açúcar demais no meu, e eu vou rir de como seu cabelo fica bagunçado de manhã. E depois... depois nós vamos descobrir como ser "nós" em plena luz do dia.

— Parece um plano perfeito — disse Nayane, fechando os olhos.

— E Nay?

— Hum?

— Eu não vou mais esconder nada de você. Nem o que eu sinto, nem o que eu desejo. O silêncio acabou.

Nayane sorriu, já meio adormecida, e apertou a mão de Aryane.

— Ainda bem. Eu sempre preferi a sua voz.

Aryane ficou acordada por mais alguns minutos, observando o rosto sereno da mulher que amava. Ela lembrou-se do livro de Elizabeth Bishop que deixara no sofá e da frase sobre a arte de perder. Ela percebeu que Bishop estava certa sobre a perda não ser um mistério, mas a arte de ganhar... ah, essa sim era uma obra-prima em construção.

Ela não havia perdido a amiga. Ela havia ganhado o mundo.

Na manhã seguinte, a luz do sol de Seattle — rara e brilhante — atravessou as cortinas. Aryane acordou primeiro, sentindo o peso reconfortante do corpo de Nayane junto ao seu. Ela não se moveu imediatamente, querendo saborear a sensação de pertencimento.

Quando Nayane finalmente abriu os olhos e sorriu, um sorriso que não era apenas para a "melhor amiga", mas para a mulher que agora compartilhava sua vida de uma forma nova, Aryane soube que o medo tinha sido deixado para trás, no cinza do passado.

— Bom dia, namorada — disse Nayane, a palavra soando nova e deliciosa em sua língua.

Aryane riu, um som claro e feliz.

— Bom dia. Gostei do título.

— É só o começo do livro, Ary. Temos muitas páginas pela frente.

— E eu pretendo ler cada uma delas com você — respondeu Aryane, puxando-a para um beijo que tinha gosto de café futuro, de promessas cumpridas e de um amor que, finalmente, não precisava mais de metáforas para existir.