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Me or me

Ecos de um Corredor Vazio

O segundo dia da semana na Anakt Academy começou com uma energia pesada, como se o ar estivesse carregado de eletricidade estática antes de uma tempestade. Mizi chegou atraindo olhares, como de costume. Ela usava uma blusa de alcinha preta justa sob uma camisa de flanela roxa aberta, combinada com uma saia jeans curta e botas de combate que davam um ar agressivo à sua beleza delicada. O cabelo rosa estava preso em um rabo de cavalo alto, revelando as pontas azuis que balançavam conforme ela andava.

Ao seu lado, Lyn e Vivian formavam a guarda preterida. Lyn vestia uma calça cargo verde-militar e um top branco, enquanto Vivian parecia saída de um sonho melancólico com um cardigã de tricô azul claro e uma fita de cetim no cabelo escuro. Luan as encontrou perto dos armários, usando sua camiseta de treino habitual, dando um beijo rápido na testa de Lyn.

— O clima está estranho hoje, não acham? — comentou Vivian, ajeitando a alça da bolsa tiracolo.

— É a segunda-feira estendida — Mizi bocejou, a voz saindo rouca e profunda. — Eu mataria por três horas de sono agora.

Enquanto isso, o grupo de Ivan estava reunido perto da entrada da biblioteca. Ivan parecia mais inquieto que o normal, vestindo uma camiseta de manga longa vermelha por baixo da jaqueta varsity. Till, ao seu lado, estava em seu estado natural de irritação, usando um moletom preto com o capuz levantado e calças pretas largas presas por correntes.

— Você está sendo um pé no saco hoje, Ivan — Till resmungou, ajustando os fones de ouvido no pescoço.

— E você está sendo um gótico depressivo, o que é o seu normal — Ivan rebateu, dando um peteleco na orelha de Till. — Cadê a Sua?

Sua apareceu logo em seguida, parecendo a definição de ordem em meio ao caos. Ela vestia uma blusa social branca com uma gravata fina preta e uma saia xadrez cinza. Seus olhos roxos passavam rapidamente por uma lista em sua prancheta.

— Bom dia. Ivan, tente não ser suspenso hoje. Till, tente não ser expulso. Luka e Hyuna já estão na sala de informática — Sua disse, sem desviar o olhar dos papéis.

O intervalo, porém, provou que os pedidos de Sua seriam ignorados pelo destino.

O refeitório estava lotado quando o tumulto começou. Dois garotos do segundo ano, conhecidos por causarem problemas, estavam discutindo aos gritos perto da fila do almoço. A briga escalou rápido, com empurrões que quase derrubaram uma mesa de bandejas.

Sua, cumprindo seu papel no conselho estudantil, aproximou-se com passos firmes.

— Parem com isso agora! — Sua exclamou, a voz clara e firme. — Vocês sabem que brigar no refeitório é suspensão imediata. Circulando!

Um dos garotos, um tipo encorpado e visivelmente alterado, virou-se para ela com um olhar de puro desdém.

— Sai da frente, nanica. Isso não é conta de monitora de corredor.

— Eu sou do conselho estudantil — Sua rebateu, mantendo a postura apesar da diferença de altura. — E estou mandando vocês pararem.

O garoto deu um passo ameaçador à frente, fechando o punho. Ele não ia apenas gritar. Mas antes que pudesse sequer levantar a mão, uma sombra alta se projetou sobre Sua.

Ivan não disse uma palavra. Ele simplesmente se enfiou na frente da irmã e desferiu um soco direto no rosto do garoto. O impacto ecoou pelo refeitório, seguido por um silêncio chocado de dois segundos antes do caos absoluto estourar.

— Encosta nela e eu te enterro no campo de futebol, seu merda! — Ivan rosnou, avançando para o segundo garoto que tentava intervir.

Till, que estava a poucos metros observando a cena com os olhos arregalados, não hesitou. Ao ver o segundo garoto tentar acertar Ivan pelas costas, ele largou sua mochila e correu, pulando sobre o agressor com uma fúria contida que parecia guardada há anos.

— Bando de covardes! — Till gritou, enquanto se embolava no chão com o outro aluno.

O refeitório virou um borrão de gritos, cadeiras arrastadas e o som de carne atingindo carne. Mizi, sentada à distância, levantou-se para ver melhor, os olhos dourados brilhando com uma mistura de preocupação e adrenalina. Ela viu Sua tentando puxar Ivan para trás, gritando para eles pararem, mas os garotos estavam cegos pela briga.

Só quando três professores e o segurança da escola intervieram é que o grupo foi separado. Ivan estava com o lábio cortado e a jaqueta rasgada, mas mantinha um sorriso selvagem no rosto. Till tinha o cabelo cinza ainda mais bagunçado e um hematoma começando a se formar na bochecha.

O resultado foi imediato: Ivan, como o iniciador físico da agressão mais grave, recebeu uma suspensão de uma semana. Till e os outros envolvidos foram mandados para a diretoria para advertências e detenções.

***

O dia seguinte na Anakt Academy parecia estranhamente vazio. Sem o riso sarcástico de Ivan ecoando pelos corredores ou as discussões explosivas entre ele e Till, o ambiente parecia ter perdido sua cor.

Luka e Hyuna não apareceram; aparentemente, tinham decidido que aquele era o dia perfeito para uma sessão intensiva de estudos na biblioteca pública da cidade, longe do drama da escola. Till, fiel ao seu estilo rebelde, simplesmente não deu as caras, provavelmente dormindo até tarde ou desenhando em algum parque.

Sua caminhava sozinha. A solidão pesava em seus ombros, acentuada pelo silêncio da ausência do irmão. Ela vestia um suéter de gola alta creme e uma saia azul marinho, parecendo ainda mais frágil e séria do que o normal.

No intervalo, ela decidiu que a sala do conselho estudantil seria seu refúgio. Ela precisava organizar as atas da semana e, sinceramente, não queria enfrentar o refeitório onde todos ainda comentavam sobre a briga de Ivan.

Ela caminhava apressada pelo corredor leste, olhando para baixo enquanto conferia o relógio no pulso. Ao dobrar a esquina perto da sala de música, o impacto foi inevitável.

— Ah! — Sua soltou um arquejo quando colidiu contra algo macio, mas firme.

Ela caiu sentada no chão frio, seus papéis se espalhando como pétalas brancas ao seu redor.

— Ei, cuidado por onde anda, bonitinha — uma voz baixa e sedutora soou acima dela.

Sua levantou o olhar, o coração dando um solavanco. Mizi estava parada ali, olhando para ela com uma expressão de leve diversão. Mizi usava hoje um top cropped de crochê rosa e shorts jeans de cintura alta com o icônico cinto de couro, destacando suas pernas longas. Ao lado dela estavam Lyn e Vivian.

— Meu Deus, Sua! Você está bem? — Vivian perguntou, ajoelhando-se rapidamente para ajudar a recolher os papéis.

Mizi estendeu a mão para Sua. Seus dedos eram longos e as unhas estavam pintadas de um azul elétrico que combinava com as pontas de seu cabelo.

— Desculpa, eu estava distraída — Sua murmurou, sentindo o rosto esquentar violentamente enquanto aceitava a mão de Mizi.

A pele de Mizi era quente. O toque durou apenas alguns segundos, mas para Sua, pareceu uma eternidade. Mizi a puxou para cima com uma facilidade surpreendente.

— Tudo bem, acontece — Mizi disse, inclinando a cabeça para o lado. O olhar dourado dela era intenso, quase predatório, mas havia uma suavidade ali que Sua nunca tinha visto de perto. — E aí, como está o seu irmão? Soube que ele levou uma suspensão pesada por causa da confusão de ontem.

Sua ajeitou a saia, tentando recuperar a compostura diante da garota mais popular da escola.

— Ele... ele vai ficar em casa por uma semana — Sua respondeu, a voz um pouco trêmula. — Minha mãe está furiosa, mas Ivan parece orgulhoso do que fez.

Mizi soltou uma risada curta e melodiosa.

— Típico do Ivan. Aquele idiota tem um complexo de herói maior que o ego dele. — Ela deu um passo mais perto, diminuindo o espaço pessoal entre as duas. — E os seus outros amigos? O esquentadinho de cabelo cinza e os gênios? O corredor está silencioso demais sem eles.

— Eles faltaram — Sua explicou, abraçando sua pasta contra o peito como se fosse um escudo. — Estou sozinha hoje.

Mizi arqueou uma sobrancelha. Ela olhou para Sua de cima a baixo, um brilho enigmático nos olhos.

— Sozinha, é? Que desperdício. Uma garota tão dedicada como você não deveria passar o intervalo trancada naquela sala do conselho cheia de poeira.

Sua sentiu que ia desmaiar. Mizi estava flertando? Ou era apenas o jeito dela?

— Eu tenho muito trabalho... — Sua começou a dizer, mas Mizi apenas sorriu de canto.

— Sei. Bom, não deixe os papéis te engolirem. A gente se vê por aí, Sua.

Mizi piscou para ela — um gesto rápido e devastador — antes de se virar e continuar andando com Lyn e Vivian.

— Tchau, Sua! — Lyn acenou, seguindo Mizi.

Vivian lançou um olhar prolongado para Sua, uma mistura de empatia e algo que Sua não conseguiu identificar, antes de apressar o passo para alcançar as outras.

Sua ficou ali, estática, observando Mizi se afastar. O perfume de baunilha da outra garota ainda pairava no ar, misturado com o cheiro de papel novo. Ela sentiu uma vontade súbita de largar tudo e seguir aquele rastro rosa e azul, mas seus pés pareciam colados ao chão.

***

Na saída da escola, o céu estava tingido de tons alaranjados e púrpuras. Lyn se despediu de Mizi e Vivian assim que viu o carro de Luan estacionar perto do portão.

— Vejo vocês amanhã, vadias! — Lyn gritou, jogando um beijo no ar enquanto corria para o namorado.

Mizi e Vivian começaram a caminhar juntas em direção ao ponto de ônibus, o ritmo lento das duas contrastando com a pressa dos outros alunos.

— A Lyn e o Luan são nojentos de tão fofos — Mizi comentou, chutando uma pedrinha no asfalto.

— Eles se gostam de verdade — Vivian disse suavemente, olhando para Mizi de soslaio. — É raro encontrar algo assim, não é?

Mizi parou de andar por um momento e olhou para Vivian. Ela percebeu o tom melancólico na voz da amiga. Com um sorriso travesso, Mizi se aproximou, colocando a mão no queixo de Vivian e levantando o rosto dela.

— Por que essa cara, Viv? Se você quiser, eu posso ser sua namorada por cinco minutos só pra você não se sentir excluída — Mizi brincou, a voz descendo para aquele tom baixo e aveludado que fazia qualquer um estremecer.

Vivian sentiu o sangue subir para as bochechas, o coração disparando de um jeito doloroso. Ela sabia que Mizi estava apenas brincando, que era o jeito dela de ser "legal", mas para Vivian, cada brincadeira daquelas era como uma pequena facada de esperança e desespero.

— Você é idiota, Mizi — Vivian riu, tentando disfarçar o tremor na voz enquanto afastava a mão da amiga gentilmente. — Não brinque com essas coisas.

— Ah, qual é, eu sou uma ótima companhia — Mizi riu, voltando a caminhar com as mãos na nuca, esbanjando uma confiança que ela mesma, no fundo, sabia ser uma armadura.

***

Enquanto isso, Sua chegava em casa. O silêncio da residência era quebrado apenas pelos gritos abafados vindos da cozinha, onde sua mãe terminava de dar o sermão do século em Ivan.

Sua subiu as escadas sem ser notada, entrando em seu quarto e fechando a porta com um suspiro de alívio. Ela jogou a mochila na cama e começou a se despir mecanicamente. A saia xadrez, o suéter, as meias altas... cada peça era colocada de lado até que ela ficasse apenas com sua pele e seus pensamentos.

Ela entrou no banheiro e ligou o chuveiro. A água quente começou a cair, relaxando seus músculos tensos. Ela encostou a testa nos azulejos frios, fechando os olhos.

Imediatamente, a imagem de Mizi no corredor invadiu sua mente. O toque da mão dela, o brilho dourado dos olhos, o jeito que ela disse seu nome... "Sua".

Mizi era como um sol que brilhava demais, e Sua sentia que, se chegasse perto demais, acabaria queimada. Mas, sob a água morna, ela se permitiu imaginar, apenas por um momento, como seria se Mizi não estivesse brincando. Como seria se aquele olhar sedutor fosse direcionado apenas para ela, não por diversão, mas por desejo.

Sua deslizou as mãos pelo próprio corpo, sentindo um arrepio que não tinha nada a ver com a temperatura da água. Ela era a garota certinha, a monitora, a irmã do encrenqueiro. Mizi era a rainha da escola, a beldade inacessível.

— Ela nunca olharia para mim assim — Sua sussurrou para o vapor do banheiro, uma lágrima solitária se misturando às gotas de água.

Lá embaixo, Ivan estava sentado no sofá, com um saco de gelo no lábio e o celular na mão. Ele abriu a conversa com Till.

"Vlw por ontem, cara. Vc luta feito um gato de rua, mas foi útil."

A resposta veio minutos depois.

"Vai se foder, Ivan. Eu só não queria que a Sua se machucasse. E você luta como um saco de batatas furado."

Ivan sorriu, o corte no lábio latejando. Ele sabia que Till estava mentindo. Ele sabia que havia algo mais ali, enterrado sob as camadas de rebeldia e camisetas de banda. Mas, por enquanto, o silêncio da suspensão seria seu único companheiro, enquanto ele planejava como irritar Till o suficiente para que, da próxima vez, a colisão entre eles não fosse apenas uma briga de corredor.

A noite caiu sobre a cidade, escondendo sob seu manto os segredos de corações que batiam em ritmos diferentes, todos esperando pelo próximo ato naquele palco chamado juventude.

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