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Me or me

Entre Sombras e Silêncios

A segunda-feira na Anakt Academy trouxe consigo o retorno triunfal de Ivan. Ele desfilava pelos corredores com a arrogância de quem não tinha acabado de passar uma semana de castigo, vestindo uma jaqueta bomber preta sobre uma camiseta cinza grafite e calças cargo escuras. Ao seu lado, Mizi caminhava com sua habitual aura de magnetismo. Hoje, ela optou por um visual mais "rockstar": um top de renda vinho sob uma jaqueta de couro sintético preta, shorts jeans desfiados com o inseparável cinto de tachas e meias arrastão por baixo das botas. O cabelo rosa parecia vibrar contra o preto da roupa.

Eles seguiam para a aula de artes, a única disciplina que compartilhavam naquele horário. O estúdio de artes era amplo, com cheiro de tinta a óleo e terebentina. Ivan sentou-se ao fundo, jogando a mochila na mesa com um estrondo, enquanto Mizi se acomodava ao lado dele, girando um pincel entre os dedos.

— Sentiu minha falta, estrela? — Ivan perguntou, exibindo o sorriso cínico de sempre.

— A escola ficou insuportavelmente silenciosa, se é isso que você quer saber — Mizi respondeu, sua voz baixa e aveludada carregada de sarcasmo. — O Till parecia um fantasma sem você para irritá-lo. Foi quase triste.

— Ah, eu vou compensar o tempo perdido no intervalo — Ivan piscou, começando a rabiscar algo sem sentido no papel.

Quando o sinal do intervalo tocou, o grupo se dispersou. Lyn saiu apressada para encontrar Luan perto da quadra, deixando Mizi e Vivian sozinhas. Vivian, que vestia um vestido delicado de estampa floral escura com um cardigã bege, parecia mais aérea que o normal. Ivan, cumprindo sua promessa, foi direto para o refeitório caçar Till, que tentava se esconder atrás de um volume de quadrinhos underground.

Hyuna e Luka, como era de se esperar, estavam trancados na biblioteca. Hyuna usava um conjunto de moletom azul bebê oversized e Luka uma camisa polo verde musgo. Eles estavam cercados por livros de cálculo, embora Hyuna estivesse mais interessada em equilibrar uma caneta no nariz do que em derivar funções.

Sua, por outro lado, estava sozinha. Novamente. Ela usava uma camisa social lilás claro com as mangas dobradas e uma saia lápis preta, segurando sua prancheta como se fosse uma âncora. Ela via o grupo se dividir e sentia aquela pontada familiar de exclusão, mas empurrava o sentimento para baixo. Ela tinha rondas a fazer. Era sua responsabilidade garantir que ninguém ficasse nas salas de aula para evitar furtos.

Enquanto isso, Mizi e Vivian voltavam para a sala de artes. Vivian havia esquecido o celular na mochila. O corredor estava deserto, mergulhado naquele silêncio tenso que precede grandes mudanças.

— Achei! — Vivian exclamou, pegando o aparelho de dentro da bolsa.

Mas, ao saírem da sala, Vivian parou abruptamente no meio do corredor. Seus dedos apertavam o celular com força, e ela não conseguia olhar nos olhos de Mizi.

— Mizi... eu preciso te dizer uma coisa — a voz de Vivian saiu num sussurro trêmulo.

Mizi parou, encostando-se na parede com uma mão no bolso do short.

— Fala, Viv. Você está estranha desde que eu cheguei.

— Eu sei que você... eu sei que você não gosta de garotas — Vivian começou, as lágrimas ameaçando transbordar. — E eu juro que não quero estragar nossa amizade. Mas eu não aguento mais guardar isso. Eu amo você, Mizi. Não como amiga. Eu amo tudo em você.

Mizi ficou estática. O choque percorreu seu corpo, mas seu rosto permaneceu uma máscara de indiferença sedutora, um mecanismo de defesa automático. Ela olhou para Vivian, vendo a vulnerabilidade da amiga, e algo nela reagiu de forma impulsiva, quase cruel em sua falta de propósito.

Sem dizer uma palavra, Mizi deu um passo à frente, prensando Vivian contra a parede fria. Ela colocou uma mão na cintura da garota e a outra no queixo, erguendo o rosto de Vivian para o seu. O olhar dourado de Mizi estava opaco, desprovido da paixão que Vivian esperava, mas ainda assim devastador.

Mizi inclinou-se e beijou Vivian. Foi um beijo seco, sem língua, um contato de lábios que buscava apenas calar a confissão ou, talvez, testar algo que Mizi sabia que não estava lá. Mizi não sentia nada além de um vazio desconfortável, mas continuou o gesto por alguns segundos.

Nesse exato momento, Sua virou o corredor.

Ela estava com a caneta pronta para anotar qualquer irregularidade, mas a prancheta quase escorregou de suas mãos. O mundo de Sua desabou em câmera lenta. Ali, a poucos metros, estava a garota que ela amava em segredo desde o primeiro ano, beijando outra pessoa. E não era qualquer pessoa; era Vivian, uma das melhores amigas de Mizi.

O som do sapato de Sua batendo no chão fez Mizi se afastar bruscamente. Mizi olhou de soslaio, e seu coração afundou ao ver Sua estática, com os olhos roxos arregalados e o rosto pálido. A expressão de Mizi mudou instantaneamente para uma careta de desgosto consigo mesma; ela odiou o beijo, odiou a situação e, acima de tudo, odiou ter sido vista por Sua daquela maneira.

Vivian estava vermelha, ofegante e completamente perdida na confusão de seus próprios sentimentos.

— Desculpem... eu... eu não devia... — Sua gaguejou, a voz falhando. — As salas devem ficar vazias. Eu... sinto muito.

Sua virou as costas e saiu andando apressadamente, seus passos ecoando como batidas de um coração partido pelo corredor vazio.

Mizi soltou Vivian, passando a mão pelo cabelo rosa com frustração.

— Vivian, escuta — a voz de Mizi saiu fria, desprovida de qualquer doçura. — Isso foi um erro. Um erro enorme. Eu não sinto o mesmo por você.

— Eu sei — Vivian sussurrou, abraçando o próprio corpo.

— Por favor, não conta isso para ninguém — Mizi pediu, já começando a andar na direção oposta à de Sua. — Vamos apenas fingir que isso nunca aconteceu e continuar sendo amigas. Eu preciso de espaço.

O resto do dia foi um borrão de melancolia. Mizi não conseguia se concentrar em nada, a imagem de Sua fugindo pelo corredor se repetindo em sua mente. Ivan, alheio ao drama, passou a tarde na casa de Till, jogando videogame e fazendo comentários ácidos sobre os desenhos do amigo, apenas para ver Till explodir em raiva, o que era a forma favorita de Ivan de passar o tempo.

Sua chegou em casa e, felizmente, estava sozinha. Sua mãe ainda estava no trabalho. Ela subiu direto para o quarto, trancou a porta e se jogou no chuveiro. Sob a água quente, ela finalmente se permitiu quebrar. O choro veio em soluços pesados, misturando-se ao barulho da água. Ela sentia uma dor física no peito. Ver Mizi beijando outra garota confirmava seus maiores medos: que Mizi nunca a veria, e que o espaço no coração de Mizi já estava ocupado, mesmo que por um momento.

Naquela noite, em sua própria cama, Mizi olhava para o teto. Ela se sentia um lixo por ter usado Vivian daquele jeito, mas sua mente sempre voltava para Sua. Ela gostava de Sua. Gostava do jeito que ela ajeitava os óculos, do jeito que levava tudo a sério, da perfeição silenciosa que ela emanava. Mas Mizi tinha certeza de que Sua, a garota perfeita do conselho, nunca se interessaria por alguém tão caótica e "errada" quanto ela.

No dia seguinte, a tensão na escola era palpável. Mizi chegou usando uma blusa cropped roxa com um cardigã preto por cima e uma saia jeans escura. Ela viu Sua chegando com Ivan. O irmão foi direto falar com os caras do time de futebol, deixando Sua caminhar sozinha em direção ao prédio principal.

Mizi não hesitou. Ela interceptou Sua perto dos armários, bloqueando seu caminho. O fluxo de alunos passando ao redor parecia desaparecer para as duas.

— Sua — Mizi chamou, sua voz baixa e séria.

Sua parou, mas não levantou o olhar. Ela apertava as alças da mochila com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.

— Você contou para alguém? — Mizi perguntou, indo direto ao ponto. — O que você viu ontem?

— Não — Sua respondeu, a voz seca. — Não contei e não vou contar. Não é da minha conta o que você faz no seu tempo livre, Mizi.

Sua desviou de Mizi e saiu andando, deixando a garota popular parada no meio do corredor, sentindo-se mais vazia do que nunca. Quando Sua encontrou Hyuna e Luka, eles perceberam imediatamente que algo estava errado.

— Credo, Sua, você parece que viu um fantasma. Ou que foi atropelada por um caminhão de glitter — Hyuna comentou, mastigando um chiclete.

— Só não dormi bem — Sua mentiu, forçando um sorriso que não chegou aos olhos.

No intervalo, Mizi não ficou com suas amigas. Ela se sentou com Ivan, que estranhou o silêncio da amiga.

— Que bicho te mordeu? — Ivan perguntou, roubando um pedaço do sanduíche dela.

— Só me deixa quieta, Ivan.

Na hora da saída, o céu estava nublado. Vivian tinha faltado às últimas aulas, provavelmente processando a rejeição, então Mizi caminhava sozinha para casa. Foi quando ela viu, do outro lado da rua, a silhueta familiar de Sua.

Mizi atravessou a rua apressada, tentando alcançar a garota de cabelos curtos.

— Ei, Sua! — Mizi chamou, emparelhando o passo com ela.

Sua não parou. Ela continuou olhando para frente, o rosto tenso.

— O que você quer, Mizi?

— Eu só... queria conversar. O dia foi uma merda, não foi?

— Foi normal — Sua respondeu.

— Você vai fazer o quê agora? — Mizi tentou novamente, forçando um tom casual.

— Estudar.

— Ah. Legal. Quer ajuda com alguma coisa?

— Não.

Mizi suspirou, sentindo a barreira de gelo que Sua havia erguido.

— Olha, sobre ontem...

— Eu já disse que não vou contar, Mizi. Pode ficar tranquila. Sua reputação está salva.

Sua apertou o passo e dobrou a esquina, deixando Mizi para trás. A garota rosa chutou o ar, frustrada. Ela não queria que Sua guardasse segredo por medo ou obrigação; ela queria que Sua falasse com ela.

Mais tarde, em casa, Ivan estava no celular com Till, discutindo sobre uma música nova que Ivan tinha ouvido. Mizi, trancada em seu quarto, pegou o celular. Ela começou a navegar pelo Instagram, perdendo-se no mar de fotos de desconhecidos, até que o algoritmo, ou talvez o destino, colocou o perfil de Sua em suas sugestões.

Mizi clicou. O perfil de Sua era exatamente como ela imaginava: fotos de desenhos detalhados, pilhas de livros esteticamente organizadas e algumas fotos raras dela mesma, sempre com um olhar sereno e profundo. Mizi passou minutos olhando cada postagem, sentindo uma conexão estranha com aquele mundo tão organizado e diferente do seu.

Sem pensar muito, ela apertou o botão "Seguir". Era um gesto simples, mas no mundo deles, era uma declaração de interesse.

No seu quarto, Sua estava encolhida na cama, o abajur aceso criando sombras longas nas paredes. Ela estava tentando ler, mas as palavras pareciam embaralhadas. De repente, o celular vibrou no criado-mudo.

Uma notificação do Instagram.

"mizi_pink seguiu você."

Sua sentiu o coração falhar uma batida. Ela encarou a tela por longos minutos, o polegar pairando sobre o vidro. Por que Mizi a seguiria agora? Por culpa? Por medo? Ou por algo que Sua não ousava nomear?

Com um suspiro trêmulo, Sua tocou na tela.

"Aceitar."

Ela fechou os olhos, sentindo que, embora o beijo no corredor tivesse sido um pesadelo, a história entre elas estava longe de terminar. Na escuridão do quarto, o brilho azulado do celular era a única luz, uma pequena promessa de que o silêncio poderia, eventualmente, ser quebrado.

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