Me or me
O Teorema do Absurdo
A chave da casa escorregou dos dedos encharcados de Ivan e caiu no tapete da entrada com um baque surdo, mas nenhum dos três pareceu se importar com o barulho metálico.
O silêncio que se instalou na sala de estar era denso, quase palpável, interrompido apenas pelo chiado distante da água escorrendo pela calha do telhado. Ivan continuava imóvel, com a boca meio aberta e a jaqueta bomber azul pendurada por um único ombro, parecendo alguém que acabara de levar uma pancada de taco de beisebol bem na nuca.
Ele piscou uma vez. Duas vezes.
Ali, no estofado surrado do sofá da família, estava a garota mais desejada do terceiro ano da Anakt Academy. A mesma garota com quem metade do colégio jurava de pés juntos que ele tinha um caso ultrassecreto de anos. Mizi estava jogada de lado, com o short jeans de tachas enfiado entre as almofadas, segurando sua irmã caçula — a santinha e intocável monitora do conselho estudantil — como se fosse um bicho de pelúcia gigante. E Sua, com os lábios vermelhos e brilhantes como cerejas maduras e o moletom todo amarrotado, olhava para ele com os olhos roxos arregalados em puro terror existencial.
— Que... — Ivan começou, a voz falhando em um registro agudo patético antes de engolir em seco e tentar de novo, pigarreando: — Que porra é essa?
Sua tentou se desvencilhar dos braços compridos de Mizi em um movimento desesperado de lagartixa em fuga, mas Mizi apenas apertou a cintura da menor com uma calma exasperante, sem mover um único músculo do lugar.
— O que foi, Ivan? — Mizi inclinou a cabeça para o lado, a voz baixa e aveludada transbordando um deboche preguiçoso. — Nunca viu duas pessoas dividindo o calor humano num dia chuvoso? Você tá pingando no chão inteiro, idiota. Vai estragar o taco de madeira da sua mãe.
— Mizi, me solta! — sibilou Sua, o rosto inteiro queimando em um tom escarlate tão vivo que ameaçava incendiar as almofadas. Ela empurrou o peito coberto pelo cropped roxo de Mizi até finalmente conseguir se sentar ereta na ponta do estofado, puxando a manta xadrez até a altura do queixo. — Ivan... não é nada disso que você tá pensando.
Ivan soltou uma risada seca, incrédula e histérica. Ele jogou a jaqueta molhada em cima da poltrona mais próxima e avançou dois passos pela sala, apontando o dedo indicador na direção das duas como se tentasse decifrar uma aparição alienígena.
— "Nada disso que eu tô pensando"? — Ivan repetiu, a voz subindo de tom enquanto gesticulava descontroladamente. — Sua, você tá com a boca inchada parecendo que foi picada por uma colônia de vespas! E você, Mizi... "cunhadinho"? Cunhadinho a minha pica! O que diabos você tá fazendo com a minha irmã?!
— Ué, eu vim visitar a minha garota — Mizi respondeu com a maior tranquilidade do mundo, esticando as pernas longas sobre o sofá e apoiando o queixo na mão. — Achei que você fosse passar o fim de semana inteiro na casa do Till fingindo que entende de acordes de guitarra. Voltou cedo por quê? Ele te expulsou a pontapés de novo?
O golpe atingiu o ponto fraco com a precisão de um míssil teleguiado. Ivan travou, a mandíbula endurecendo enquanto uma sombra de desconforto cruzava seus olhos pretos.
— Não muda de assunto, caralho! — Ivan rosnou, voltando a focar na irmã, que parecia desejar ardentemente que o chão da sala se abrisse em uma cratera vulcânica. — Sua... desde quando? Como assim a Mizi?! A MIZI?!
Sua respirou fundo, tentando invocar qualquer resquício da autoridade inabalável do conselho estudantil para não começar a chorar de vergonha.
— A vida é minha, Ivan. Eu fico com quem eu quiser. E se você abrir essa sua boca grande pra qualquer pessoa na escola, eu juro por Deus que conto pra mãe sobre a advertência que você falsificou no mês passado.
Ivan colocou as duas mãos na cabeça, puxando o cabelo preto molhado para trás em um gesto de pura sobrecarga sensorial. Ele olhou para Mizi, depois para Sua, e depois de volta para Mizi.
— A escola inteira acha que a gente fode escondido atrás da arquibancada, Mizi — Ivan murmurou, encarando a amiga com uma mistura de pavor e fascínio bizarro. — Tem moleque do time que me paga energético só pra tentar descobrir se você é tão gostosa na cama quanto parece no corredor. E agora eu chego na minha própria casa e você tá passando a mão na bunda da minha irmãzinha?!
— Primeiro: você é um nojento — Mizi retrucou, estreitando os olhos dourados com uma frieza cortante que fez o sorriso cínico de Ivan sumir na hora. — Segundo: quem liga pro que aqueles idiotas daquele time de merda acham? Se algum deles falar qualquer besteira perto de mim, eu quebro o nariz dele no armário. E terceiro... a sua irmã é mil vezes mais bonita e interessante do que você jamais vai ser. Lide com isso.
Sua enterrou a cara na manta, emitindo um gemido abafado de humilhação e encanto simultâneos.
Ivan ficou parado no meio da sala por quase um minuto inteiro. O silêncio voltou a pesar, até que os cantos de seus lábios começaram a tremer.
Ele cobriu a boca com o dorso da mão, mas não conseguiu segurar. Uma gargalhada estrondosa, rouca e genuína explodiu de seu peito, fazendo seus ombros largos sacudirem.
— Puta que pariu... — Ivan ria tanto que precisou se apoiar na mesa de centro. — Você é lésbica, Mizi! Caralho, você é sapatão! Esse tempo todo!
— E você é gay, Ivan, quer que eu chame um carro de som pra anunciar no bairro também? — Mizi devolveu na lata, arqueando uma sobrancelha cor-de-rosa com um sorriso debochado nos lábios.
Ivan engasgou com a própria risada, ficando imediatamente tenso e olhando para os lados como se as paredes pudessem ouvir.
— Fala baixo, sua louca! A vizinha fofoqueira da casa ao lado tem ouvido de morcego.
— Então para de agir feito um primata histérico e senta aí — disse Sua, finalmente baixando a manta, a voz firme e cortante. — A Mizi não vai a lugar nenhum até a chuva passar. E você vai subir, tomar um banho e botar uma roupa seca antes que pegue uma pneumonia e eu tenha que cuidar de você a semana toda.
Ivan olhou para a irmã mais nova com uma expressão dividida entre a indignação e o respeito relutante. Ele apontou para as duas mais uma vez, meneando a cabeça.
— Eu vou tomar banho. Mas quando eu descer, eu quero essa história explicada tim-tim por tim-tim. E mantenham essas mãos onde eu possa ver, caralho. Não quero ter pesadelos com a garota mais popular da escola pegando a monitora certinha na sala da minha mãe.
Ivan subiu as escadas resmungando palavrões e arrastando os pés pesados. No instante em que a porta do andar de cima bateu, Sua desmoronou para trás no encosto do sofá, soltando todo o ar dos pulmões.
— Meu Deus... eu vou morrer — sussurrou Sua, cobrindo o rosto com as duas mãos. — Ele nunca mais vai calar a boca sobre isso. Pelo resto da minha vida.
Mizi se aproximou, rindo baixinho com aquela voz que parecia um veludo líquido, e puxou delicadamente os pulsos de Sua para longe do rosto.
— Deixa ele falar, Sua. O Ivan late muito, mas não morde ninguém. — Mizi depositou um beijo terno na ponta do nariz avermelhado da garota. — E quer saber de uma coisa? Achei até bom. Eu tava de saco cheio de fingir que não reparava em você toda vez que aquele imbecil me puxava pra falar de futebol no intervalo.
Sua olhou nos olhos dourados de Mizi, vendo tanta sinceridade e doçura desarmada brilhando ali que sentiu o coração derreter todinho mais uma vez.
— Você não existe, Mizi.
— Existo sim, e sou todinha sua — Mizi sorriu, roubando um selinho rápido e estalado dos lábios dela antes de ouvir o som do chuveiro ligando no andar de cima.
***
Quando Ivan desceu, vestido com uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta desbotada, o clima na sala já havia se transformado em uma trégua silenciosa e estranhamente confortável.
Eles pediram duas pizzas grandes — metade quatro queijos, metade pepperoni — que Ivan pagou como uma espécie de "taxa de cala-boca emocional", devorando fatias inteiras enquanto Mizi explicava, sem entrar em detalhes íntimos, que elas vinham se aproximando nos últimos dias. Ivan fazia comentários idiotas e tirava sarro da cara de Sua a cada dois minutos, mas não havia maldade real em suas provocações. Por baixo da pose de atleta arrogante, ele parecia genuinamente aliviado por Mizi não ser mais uma das dezenas de garotas obcecadas por sua suposta "vida amorosa".
Por volta das oito da noite, a chuva finalmente cedeu, restando apenas o asfalto brilhando sob os postes de luz.
Mizi se despediu com um abraço apertado em Sua na porta de entrada, sussurrando um "me manda mensagem antes de dormir" tão rente ao ouvido da menor que fez os pelos dos braços de Sua se eriçarem. Ela acenou com a mão para Ivan, que estava jogado no sofá mastigando a borda de uma pizza fria, e desceu a calçada saltitando com a leveza de quem acabara de conquistar o mundo.
Assim que o clique da fechadura ecoou, Sua se virou para a sala, cruzando os braços.
— Nem começa, Ivan.
— Eu não disse nada! — Ivan ergueu as mãos em sinal de rendição, engolindo o pedaço de massa. — Só acho hilário o destino. O colégio inteiro achando que eu tenho a vida perfeita pegando a deusa rosa, e na verdade ela tá comendo brigadeiro de colher no quarto da minha irmãzinha nerd.
— Cala a boca — Sua revirou os olhos, mas não conseguiu conter um sorrisinho bobo enquanto começava a recolher as caixas vazias de pizza. Ela parou no meio do caminho e olhou para ele de soslaio. — E como foi com o Till?
O sorriso de Ivan murchou na hora. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos, fitando o tapete com uma expressão sombria que contrastava dolorosamente com a zoeira de minutos atrás.
— Uma merda — admitiu Ivan, a voz rouca. — Ele aceitou as desculpas quando eu falei com ele de manhã na escola, mas... sei lá. Na casa dele foi estranho pra caralho. A gente foi jogar videogame e parecia que tinha uma parede de vidro entre nós dois. Toda vez que os nossos braços encostavam no sofá, ele pulava feito um gato assustado. Aí a palheta da guitarra dele quebrou na hora que a gente foi ouvir uma fita e ele surtou, me mandou embora.
Sua suspirou, deixando as caixas de lado e sentando-se na poltrona à frente dele.
— Ivan... você machucou o Till quando beijou ele à força. Ele já é desconfiado de todo mundo por natureza. Você não pode esperar que ele volte a agir normal em vinte e quatro horas só porque você pediu desculpas.
— Eu sei, porra! — Ivan passou a mão no rosto, frustrado. — Mas eu não aguento mais aquele silêncio dele. Prefiro que ele quebre uma garrafa na minha cabeça do que fique me olhando como se eu fosse um monstro.
— Ele não acha que você é um monstro — Sua disse com suavidade, estendendo a mão para dar um tapinha confortador no joelho do irmão. — Ele só tá confuso. Dá um tempo pra ele respirar. Deixa ele vir até você.
Ivan encarou a irmã mais nova por alguns segundos, surpreendentemente tocado pela maturidade dela. Ele bufou, dando um empurrãozinho de volta.
— Desde quando você virou terapeuta de casal, pirralha? Vai dormir, vai. Já passou da hora de monitora certinha tá na cama.
Sua sorriu, subindo as escadas com o coração leve. Aquela noite, ela adormeceu abraçada ao livro de contos clássicos que Mizi lhe dera, sentindo o perfume de baunilha ainda impregnado nos lençóis lavanda.
***
A segunda-feira na Anakt Academy amanheceu com um céu azul cristalino e um vento gelado que agitava as bandeiras esportivas do lado de fora do ginásio. Era um novo dia de aula, e como mandava a regra não dita daquele ecossistema adolescente, ninguém repetia uma única peça de roupa.
Sua chegou cedo para a costumeira reunião matinal com o comitê disciplinar. Ela vestia uma saia lápis xadrez em tons de verde-escuro e azul-marinho com pregas discretas, uma camisa branca de mangas compridas sob um suéter de tricô bege com gola redonda perfeitamente assentada, meias pretas opacas e sapatos oxford de verniz lustrado. O cabelo curto estava dividido impecavelmente ao meio, e ela carregava sua pasta de couro marrom tiracolo. Parecia a encarnação perfeita da ordem e da responsabilidade acadêmica.
Ivan entrou pelo portão dez minutos depois, atraindo os costumeiros olhares das alunas do segundo ano. Ele usava a jaqueta varsity clássica do time de futebol da escola — preta com as mangas de couro branco e a letra "A" bordada em vermelho no peito —, vestida sobre uma camiseta cinza-chumbo larga, calça jeans preta folgada e tênis esportivos vermelhos de cano alto. Ele caminhava com o capacete de treino preso na mochila, a postura de quem não dava a mínima para nada, embora seus olhos negros varressem o pátio secretamente à procura de um certo rebelde de cabelo cinza.
Till estava encostado nos armários do corredor C, isolado do fluxo de alunos. Ele vestia uma camiseta oversized preta com a estampa desbotada de uma banda de punk underground dos anos 80, sobreposta a uma camiseta de manga longa listrada em preto e branco com buracos nos polegares. Sua calça jeans rasgadíssima nas coxas e nos joelhos era presa por correntes de metal que tilintavam a cada passo, e as botas militares surradas completavam a armadura. Os fones de ouvido estavam no volume máximo, expelindo ruídos estridentes de guitarra enquanto seus dedos enfaixados por munhequeiras pretas batiam no ritmo da bateria imaginária.
Quando Ivan passou pelo corredor, Till não ergueu a cabeça, mas o músculo de sua mandíbula estremeceu, demonstrando que ele sabia exatamente quem estava ali. Ivan engoliu a vontade de puxar o fone dele para soltar uma provocação ácida; lembrou-se das palavras de Sua e apenas continuou andando, com as mãos afundadas nos bolsos da jaqueta.
Perto do bebedouro central, Hyuna e Luka travavam a costumeira batalha matinal.
Hyuna exibia um estilo streetwear impecável: um top cropped preto de gola alta sob uma jaqueta corta-vento oversized em blocos de cores neon — roxo, amarelo e turquesa —, calças cargo largas em bege com bolsos utilitários gigantescos pendendo nas laterais e tênis plataforma volumosos. Uma bolsa pequena transversal estava presa no peito, e seus cabelos longos e castanhos estavam presos em dois rabos de cavalo altos que balançavam conforme ela digitava freneticamente no celular.
— Luka, se eu tirar menos de cinco nessa prova de física, eu vou me jogar da caixa d'água da quadra — Hyuna reclamou sem tirar os olhos da tela do aparelho.
Ao lado dela, Luka segurava três pastas e dois livros pesados de termodinâmica com a tranquilidade de um monge. Ele vestia uma camisa de flanela xadrez em tons de verde-oliva e marrom, com uma camiseta branca lisa por baixo, calças de sarja retas bege-escuras e sapatos confortáveis de camurça marrom. Seus óculos de armação fina estavam apoiados na ponta do nariz e a mochila surrada pesava em suas costas.
— A probabilidade de você sobreviver a uma queda daquela altura com fraturas graves é de noventa e dois por cento, além de ser um cálculo cinemático básico que você se recusou a estudar ontem — Luka explicou, em seu tom polido e didático, antes de estender um copo de papel térmico para ela. — Tome. Chá verde com gengibre. Ajuda na oxigenação cerebral e alivia a ansiedade.
Hyuna parou de digitar, pegou o copo e bebeu um gole, olhando para ele com uma mistura de preguiça e um carinho quase imperceptível.
— Você é um nerd muito irritante, sabia?
Luka apenas sorriu, com a serenidade de quem já conhecia cada milímetro daquela garota e estava disposto a esperar o tempo que fosse necessário para que ela percebesse o que sentia.
E então, o corredor principal parou.
Mizi havia cruzado as portas de vidro da entrada.
A luz da manhã parecia gravitar ao redor dela como se fosse uma modelo de alta-costura pisando em uma passarela improvisada de linóleo escolar. Hoje, Mizi vestia uma blusa de gola alta cropped de tricô fino em um tom lavanda-claro que delineava seu busto com perfeição. Por cima, usava uma jaqueta jeans oversized preta lavada com as mangas dobradas até os cotovelos. O short jeans de cintura alta em azul-escuro com a barra desfiada era adornado por um cinto largo de couro marrom com uma imponente fivela dourada, deixando suas pernas longas e torneadas completamente expostas, finalizadas por botas pretas pesadas de amarração que subiam até a metade da canela. O longo cabelo rosa com as pontas azuis estava solto, caindo em ondas impecáveis pelas costas largas e bonitas, e pequenos brincos dourados de argola balançavam em suas orelhas.
Como sempre, Lyn vinha ao seu lado, vestindo uma saia plissada vermelha e uma blusa preta justa enquanto conversava aos risos com o namorado Luan, que usava uma jaqueta esportiva casual. Vivian vinha logo atrás, com uma blusa branca de mangas bufantes e uma saia longa bege, parecendo uma pintura delicada.
Vários garotos do time de basquete suspiraram audivelmente quando Mizi passou. Alunas do segundo ano cochichavam admiradas com a combinação da roupa. A aura de magnetismo dela era tão natural e avassaladora que ninguém conseguia desviar o olhar.
Mas Mizi não estava nem aí para os olhares. Ela odiava aquela babaquice coletiva.
Seus olhos dourados correram pelo mar de cabeças até travarem na figura baixa e organizada de Sua, que acabara de sair da sala do conselho estudantil com sua prancheta em mãos.
Mizi abriu um sorriso largo. Não era aquele sorriso travesso e perigoso de quem estava prestes a quebrar as regras; era um sorriso puro, genuíno, carregado de uma adoração quase boba que ela não fazia a menor questão de esconder.
Ignorando as amigas, o fluxo de estudantes e qualquer resquício de protocolo social, Mizi caminhou a passos firmes e decididos direto na direção de Sua.
O corredor começou a murmurar. Till abaixou os fones de ouvido para o pescoço, estreitando os olhos verdes para observar a cena. Ivan, encostado em um dos armários a poucos metros de distância, engasgou com a própria saliva, arregalando os olhos em desespero enquanto pensava: *Puta que pariu, ela não vai fazer isso aqui. Ela não é louca a esse ponto.*
Mizi era louca a esse ponto.
Ela parou bem em frente a Sua, cortando o caminho da menor. O perfume doce de baunilha desceu sobre o espaço entre as duas como uma névoa inebriante.
— Bom dia, perfeitinha — a voz de Mizi saiu baixa, rouca, sedutora o suficiente para derreter metal.
Sua parou, a prancheta tremendo levemente contra o peito. As bochechas pálidas foram tomadas por aquele rubor escarlate delicioso que Mizi tanto amava provocar.
— B-bom dia, Mizi.
Mizi inclinou o tronco para a frente com uma ousadia descarada. Sem se importar com as dezenas de pares de olhos arregalados ao redor delas — incluindo os de Hyuna, cuja boca se abriu em um perfeito "O" enquanto o celular quase caía de suas mãos —, Mizi levou a mão enfeitada por anéis prateados até o colarinho do suéter bege de Sua.
Com uma delicadeza minuciosa, ela ajeitou a gola da camisa branca da menor, passando a ponta dos dedos pela pele macia do pescoço de Sua antes de descer a mão para segurar o queixo da garota, acariciando com o polegar o lábio inferior que ela própria havia devorado dois dias antes.
— Você tá ridícula de linda nesse suéter — Mizi sussurrou, alto o bastante para os armários vizinhos ouvirem, seus olhos dourados brilhando com um desafio puro. — Quase me faz querer assistir a aula de química só pra não ter que ficar longe de você.
O cérebro de Sua simplesmente entrou em curto-circuito. A monitora implacável do conselho estudantil engoliu em seco, sentindo as pernas vacilarem sob os oxfords de verniz.
— Mizi... o colégio inteiro tá olhando — Sua murmurou, a voz quase sumindo de tanta vergonha, embora não recuasse nem um milímetro do toque quente.
— Que olhem — Mizi deu uma piscadela travessa, soltando o queixo dela devagar e dando um passo para trás com toda a pompa de uma rainha que acabara de marcar seu território com tinta permanente. — Te vejo no almoço atrás da biblioteca. Nem ouse fugir de mim.
Mizi deu meia-volta, jogando a cascata de cabelo rosa sobre o ombro da jaqueta jeans com um balanço impecável, e continuou marchando em direção à sua sala de aula como se nada tivesse acontecido.
No meio do corredor, um silêncio atordoado imperava.
Três jogadores do time de futebol americano correram até Ivan, batendo nas costas dele com força enquanto apontavam freneticamente para onde Mizi havia sumido.
— CARALHO, IVAN! — berrou um deles, com os olhos esbugalhados. — A sua namorada acabou de dar em cima da sua irmã no meio do corredor?! O que porra foi aquilo, cara?! Vocês terminaram?! É uma pegadinha?!
Ivan olhou para a irmã — que estava com as mãos cobrindo o rosto vermelho feito pimentão, tentando fingir que era invisível —, depois olhou para a direção em que Mizi havia saído desfilando, e por fim olhou para os colegas idiotas do time.
Um sorriso lento, cínico e absolutamente diabólico começou a se espalhar pelos lábios de Ivan.
Ele ajustou as mangas de couro de sua jaqueta varsity, cruzou os braços e soltou uma gargalhada cheia de sarcasmo:
— Ah, aquilo? Aquilo foi só a Mizi sendo a Mizi, seus babacas. Se acostumem. Porque este ano na Anakt Academy acabou de ficar muito mais interessante.