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Medo

O Eco de um Coração Partido

O ar de Os Alta parecia mais denso naquela manhã, carregado com o cheiro de pinho e a promessa de uma primavera que se recusava a chegar. Clara estava sentada à beira da cama, as mãos repousando sobre o ventre ainda plano, mas que carregava um segredo capaz de mudar o destino de Ravka. O enjoo matinal não era mais uma suspeita; era uma confirmação silenciosa e vibrante.

Ela sentia um misto de terror e uma alegria avassaladora. Um filho. Um filho dele. Imaginou uma criança com os olhos escuros de Aleksander, mas talvez com o seu próprio temperamento calmo. Ele ficaria radiante, ela pensou. Ele, que falava tanto sobre o futuro e sobre como ela era a única coisa que o mantinha humano, veria naquela criança o ápice de sua união.

Clara levantou-se com cuidado, sentindo uma leve tontura. Olhou-se no espelho de corpo inteiro, um presente dele que ela costumava evitar, mas que agora encarava com uma nova confiança. Suas curvas, que antes eram motivo de vergonha, agora pareciam um santuário para a vida que crescia. Aleksander a amava assim. Ele dizia isso todos os dias, com beijos em seus ombros e palavras doces sussurradas na calada da noite.

— Hoje eu conto a ele — sussurrou para o próprio reflexo. — Hoje, tudo se torna real.

Ela vestiu seu kefta de seda azul, a cor dos Invocadores das Marés, embora ainda não usasse os bordados de sua ordem. Ela preferia manter-se discreta, como ele sugerira, para sua própria "proteção". Caminhou pelos corredores do Pequeno Palácio, o coração batendo como as asas de um pássaro engaiolado. Cada guarda que passava fazia uma reverência; eles sabiam que ela era a protegida do General, a mulher que o Invocador das Sombras tratava como uma divindade.

Ao se aproximar do gabinete de Aleksander, Clara notou que a porta pesada de carvalho estava entreaberta. Um sorriso brincou em seus lábios. Ela imaginou entrar de surpresa, abraçá-lo por trás e sentir o calor de seu corpo antes de dar a notícia. No entanto, o som de vozes vindas de dentro a fez parar. Eram vozes baixas, mas carregadas de uma frieza que ela raramente associava a ele.

— O progresso é lento, General — disse uma voz masculina que Clara reconheceu como sendo de Ivan, o fustigador de confiança de Aleksander. — Ela ainda não manifestou a totalidade do poder. Quanto tempo mais pretende manter essa farsa?

Clara franziu a testa, a mão parando no ar antes de tocar a madeira. "Farsa?" Do que eles estavam falando?

— Paciência, Ivan — a voz de Aleksander cortou o ar, desprovida de qualquer vestígio da doçura que ele usava com ela. Era uma voz de aço e gelo. — O poder de Clara é baseado em emoção e entrega. Ela precisa se sentir absolutamente segura, absolutamente amada. Se eu a pressionar agora, ela se fechará como uma ostra.

Houve um breve silêncio, seguido pelo som de papel sendo movido sobre uma mesa.

— Mas ter que suportar aquela... criatura — continuou Ivan, com um tom de nojo que fez o estômago de Clara revirar. — Vê-lo rastejar aos pés de alguém tão comum, tão... volumosa. É um insulto à sua posição, senhor. A corte ri pelas costas.

Clara sentiu o sangue fugir de seu rosto. Ela se encostou na parede fria do corredor, o coração martelando contra as costelas, agora por um motivo muito diferente.

— Deixe que riam — respondeu Aleksander, e Clara pôde quase ouvir o sorriso cínico em sua voz. — Eles não entendem a utilidade de um animal bem alimentado. Sim, é exaustivo desempenhar o papel de amante devoto. Ter que elogiar cada quilo a mais, cada insegurança patética... é um preço pequeno a pagar pelo que ela esconde no sangue. Ela é uma bateria de energia vital pura, Ivan. Quando eu finalmente a quebrar e tomar o que é meu, Ravka não terá apenas um Invocador das Sombras. Terá um deus.

— E depois que o poder for extraído? — perguntou Ivan.

— Depois? — Aleksander riu, um som seco e sem vida. — Depois ela será descartada. Talvez eu a deixe em algum vilarejo remoto, ou talvez as sombras a consumam. Ela já cumpriu o propósito de me divertir com sua ingenuidade. Ver o olhar de adoração naquela cara redonda enquanto eu finjo ser seu "cachorrinho"... confesso que há uma certa satisfação cruel nisso. Mas a comédia está chegando ao fim.

O mundo de Clara desabou. Cada palavra era como uma lâmina de vidro cortando sua pele, rasgando a imagem do homem que ela amava. O "cachorrinho", o homem que se ajoelhava para beijar seus pés, o General que dizia que ela era sua luz... tudo era um cálculo. Uma estratégia de guerra.

Ela sentiu uma onda de náusea, mas desta vez não era a gravidez. Era o veneno da traição. Sua mão desceu instintivamente para o ventre. "Um filho", ela pensou, com um desespero crescente. "Eu ia contar a ele sobre nosso filho."

Lágrimas quentes e silenciosas começaram a rolar por seu rosto. Ela não podia ficar ali. Se ele a visse, se ele percebesse que o véu havia caído, ela seria apenas um recurso a ser extraído à força. Ela não era uma mulher para ele; era uma bateria. Um objeto.

Com um esforço sobre-humano, Clara se afastou da porta, caminhando de costas até estar longe o suficiente para não ser ouvida. Então, ela correu.

Ela não foi para o seu quarto. Sabia que seria o primeiro lugar onde ele a procuraria quando sentisse sua falta. Ela correu em direção às cozinhas, pegando uma capa pesada e escura de um cabideiro de criados. O preconceito que ela tanto sofrera agora seria sua maior arma: ninguém olhava duas vezes para uma mulher de sua estatura vestida com roupas simples. Ela era invisível, exatamente como ele a fizera sentir antes de "salvá-la".

— Onde você vai, moça? — perguntou um ajudante de cozinha enquanto ela passava pela saída de serviço.

— Buscar ervas para o jantar — respondeu ela, a voz falhando, mas o capuz escondendo seu rosto devastado.

Ela saiu para o pátio externo. O frio a atingiu como um tapa, mas ela mal sentiu. Sua mente estava em chamas. Ela precisava sair de Os Alta. Precisava desaparecer antes que o monstro que ela chamava de amor percebesse que sua presa havia escapado.

Enquanto atravessava os portões externos, misturando-se aos mercadores e camponeses que deixavam o palácio ao entardecer, Clara olhou uma última vez para as torres negras. Ela sentiu o poder dentro de si — o poder que ele tanto cobiçava — latejar. Pela primeira vez, ela não tentou escondê-lo. Ela o usou para aquecer seu próprio corpo contra o inverno, uma chama de ódio e autopreservação que começava a queimar onde antes só havia amor.

— Você nunca terá nada de mim — sussurrou ela para o vento. — Nem meu poder, nem meu filho.

A estrada à frente estava coberta de neve e incertezas, mas Clara começou a caminhar. Ela não era mais a menina insegura que precisava de elogios falsos para se sentir bonita. Ela era uma mãe protegendo sua cria e uma mulher que acabara de descobrir que sua maior força não era o que Aleksander queria tirar dela, mas a capacidade de sobreviver à sua destruição.

Horas depois, no Pequeno Palácio, Aleksander entrou no quarto de Clara com um sorriso ensaiado e um buquê de flores de inverno nas mãos.

— Clara? Minha luz? — chamou ele, a voz melíflua ecoando no silêncio.

Não houve resposta. O chá sobre a mesa estava frio. A poltrona de veludo estava vazia. Pela primeira vez em séculos, o Invocador das Sombras sentiu um calafrio que não vinha do clima. Ele caminhou até a penteadeira e encontrou um pequeno pingente de ouro que ele lhe dera na semana anterior. Estava jogado no chão, esmagado sob o peso de um calcanhar decidido.

Aleksander sentiu a sombra ao seu redor se agitar em fúria. Ele não tinha perdido apenas uma ferramenta. Ele tinha perdido a única coisa que, embora ele se recusasse a admitir, havia começado a preencher o vazio em seu peito.

— Encontrem-na — ordenou ele aos guardas que apareceram à porta, sua voz agora um trovão que estremecia as janelas. — Tragam-na de volta. Viva. E ilesa.

Mas Clara já estava longe, uma sombra entre as sombras, carregando dentro de si o único segredo que o Darkling jamais seria capaz de controlar. A caçada havia começado, mas a presa não estava mais disposta a ser capturada.