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Medo

O Segredo sob o Manto da Neve

A neve de Ravka não era apenas um fenômeno meteorológico; era um véu, um cúmplice silencioso para aqueles que sabiam como sussurrar para os elementos. Clara caminhava há semanas, seus pés latejando dentro das botas gastas, mas seu coração batia com uma determinação que ela desconhecia possuir. Ela não era mais a jovem que chorava pelos cantos do Pequeno Palácio por causa de um comentário maldoso sobre seu peso. Agora, cada curva de seu corpo era um escudo, uma reserva de energia que ela usava para manter a si mesma e à pequena centelha de vida em seu ventre aquecidas contra o inverno implacável.

Ela aprendeu a usar seu poder de uma forma que Aleksander jamais imaginou. Ele queria uma bateria de energia vital para seus planos de guerra, mas Clara descobriu que a vida podia ser moldada para a ocultação. Manipulando a energia ao seu redor, ela criava uma distorção visual, uma névoa imperceptível que fazia com que qualquer pessoa que olhasse para ela visse apenas uma camponesa comum, sem rosto, sem brilho. Ela se tornara uma mancha na paisagem, alguém que os rastreadores de Aleksander ignoravam sistematicamente.

Os meses se passaram em um borrão de vilarejos remotos e esconderijos em celeiros. E então, em uma noite onde a lua parecia uma lâmina de prata no céu, ela nasceu.

— Respire, pequena. Respire para a mamãe — sussurrou Clara, exausta, dentro de uma cabana abandonada nas fronteiras de Fjerda.

O choro que rompeu o silêncio não foi o de um bebê comum. Foi um som que pareceu vibrar nas vigas de madeira da cabana, fazendo as sombras nos cantos do quarto recuarem e, ao mesmo tempo, dançarem em reverência. Quando Clara finalmente segurou a filha nos braços, seu coração parou por um segundo.

A menina era perfeita. Tinha as bochechas fartas e rosadas, os braços e pernas cheinhos que lembravam os de Clara, e um aroma doce, como leite e flores de laranjeira, que parecia emanar de sua pele mesmo naquele lugar gelado. Mas os olhos... os olhos eram de um cinza tão profundo que beiravam o negro, emoldurados por cílios longos e escuros. Era a face de Aleksander refletida em um espelho de inocência.

— Luda — murmurou Clara, batizando-a com o nome da única mulher que o Darkling um dia alegou ter amado, talvez como um lembrete amargo do que o amor dele causava. — Você será minha, e apenas minha.

Três anos depois.

O vilarejo de Keramzin estava longe das rotas principais, um lugar onde a guerra era apenas um boato distante. Clara, agora conhecida apenas como "A Viúva", ganhava a vida curando animais e pessoas com "chás de ervas" que, na verdade, eram apenas um disfarce para seu toque restaurador. Ela continuava gordinha, o rosto redondo sempre com um sorriso gentil para os vizinhos, o que a tornava uma figura querida e inofensiva aos olhos de todos.

Luda corria pelo jardim atrás da casa, suas risadas ecoando como sinos de cristal. Ela era uma criança radiante, de coxas grossas que balançavam enquanto ela corria, sempre cheirando a baunilha e terra molhada. Mas Clara vivia em alerta constante. O poder de Luda era vasto e indomado. Às vezes, quando a menina ficava brava, as sombras da sala se alongavam de forma não natural; quando estava feliz, as flores desabrochavam instantaneamente ao seu redor.

— Luda! Não corra tanto, meu amor! — gritou Clara, saindo da cabana com um prato de bolinhos de mel.

A menina parou e se virou. O sol batia em seu rosto, destacando as feições que eram uma cópia escarrada do General Kirigan. Se alguém do Pequeno Palácio passasse por ali, não haveria dúvida de quem era aquela criança.

— Mamãe, olhe! — Luda apontou para a floresta próxima. — Tem um homem de preto observando os pássaros.

O sangue de Clara gelou. Ela largou o prato, que se espatifou no chão de terra, e correu para pegar a filha no colo. O peso de Luda era um conforto sólido contra seu peito.

— Que homem, Luda? Onde?

— Ali — disse a menina, apontando para a densa linha de árvores. — Mas ele sumiu agora. Ele tinha sombras nos pés, igual às minhas.

Clara não esperou. Ela entrou na cabana e começou a jogar o essencial em uma trouxa de pano. Ele a encontrara. Ou seus rastreadores estavam perto demais. Ela sentia o ar mudar, uma pressão familiar e gélida que só uma pessoa no mundo conseguia projetar.

— Vamos fazer uma viagem, querida — disse Clara, tentando manter a voz firme apesar do tremor em suas mãos. — Como um jogo de esconder.

— O homem de preto vai brincar também? — perguntou Luda, os olhos grandes e curiosos brilhando com uma inteligência precoce.

— Não — respondeu Clara com dureza. — Ele é quem está procurando. E nós nunca deixamos ele ganhar, lembra?

Ela usou seu poder, envolvendo a cabana em uma redoma de desvio sensorial. Para qualquer um que passasse, a casa pareceria vazia e abandonada há anos. Mas enquanto se preparava para sair pelos fundos, a porta da frente se abriu sem um rangido.

As sombras entraram primeiro, rastejando pelo chão como serpentes negras, subindo pelas paredes e apagando a luz do dia. E então, ele apareceu.

Aleksander parecia não ter envelhecido um único dia, mas havia uma exaustão em seus olhos que ele nunca tivera antes. Ele não usava seu kefta de general, mas uma túnica simples, embora o poder que emanava dele fosse absoluto. Ele parou no limiar, seus olhos percorrendo o ambiente humilde até pousarem em Clara.

E depois, em Luda.

O silêncio que se seguiu foi tão pesado que Clara sentiu dificuldade para respirar. Aleksander deu um passo à frente, e as sombras em volta de Luda reagiram, erguendo-se como pequenas lâminas defensivas ao redor da mãe e da filha.

— Clara — disse ele, e sua voz, outrora usada para manipular e seduzir, agora soava quebrada. — Eu procurei por todo o continente. Pensei que você tivesse morrido na Dobra. Pensei que as sombras tivessem levado você... e o que você carregava.

Clara apertou Luda com mais força. O poder de cura e manipulação vital pulsava em suas mãos, pronta para sobrecarregar o coração de Aleksander se ele tentasse tocá-las.

— Você não tem nada para procurar aqui, Aleksander — disse ela, a voz carregada de um veneno que ela cultivara por três anos. — Vá embora. Volte para suas guerras e seus planos de divindade.

Ele não desviou o olhar da menina. Luda, longe de estar assustada, inclinou a cabeça para o lado, observando o estranho.

— Ela é... — ele começou, mas a voz falhou. Ele se ajoelhou, não como o "cachorrinho" fingido de anos atrás, mas como um homem atingido por um raio. — Ela é exatamente como eu imaginei.

— Ela não é nada como você — sibilou Clara. — Ela tem o seu rosto, mas tem a minha alma. Ela é amada, de verdade. Ela não é uma ferramenta.

Aleksander estendeu a mão, um gesto hesitante. As sombras de Luda se inclinaram para o toque dele, reconhecendo a mesma essência, o mesmo abismo.

— Eu cometi erros, Clara — sussurrou ele, os olhos fixos nos olhos cinzentos da filha. — Eu vi o mundo sem você e percebi que a escuridão é muito mais fria quando não há luz para onde voltar.

— Você não quer a luz, Aleksander. Você quer o combustível — rebateu ela, dando um passo para trás. — Eu ouvi o que você disse para Ivan. Eu sei o que eu era para você. Uma bateria. Uma "criatura comum". Pois olhe para mim agora. Eu sou a mulher que escondeu sua herdeira bem debaixo do seu nariz. Eu sou a mulher que não precisa de você.

Luda se soltou do abraço da mãe e deu um passo em direção ao homem ajoelhado. Clara tentou impedi-la, mas a menina era movida por uma curiosidade magnética.

— Você está triste — disse Luda, sua voz doce enchendo a sala com o cheiro de flores. Ela estendeu a mãozinha gordinha e tocou o rosto pálido do Darkling. — Suas sombras estão chorando.

Aleksander fechou os olhos ao sentir o toque da filha. Uma lágrima solitária escapou e rolou por seu rosto. Naquele momento, o temido Invocador das Sombras parecia menor do que a criança diante dele.

— Eu sinto muito — murmurou ele, e pela primeira vez, Clara não sentiu a falsidade de um mestre manipulador. Sentiu a agonia de um homem que percebeu, tarde demais, que destruiu o único tesouro que realmente importava.

— Sentir muito não apaga o que você planejou — disse Clara, embora seu tom tivesse perdido um pouco da agressividade, substituída por uma profunda melancolia. — Você veio para levá-la? Para transformá-la em uma arma?

Aleksander olhou para Clara, e depois para a mão pequena que ainda repousava em sua bochecha.

— Eu vim para pedir que você volte — disse ele. — Mas não para o Pequeno Palácio. Não para a guerra. Ravka está desmoronando, e eu percebi que não quero um império se ele for construído sobre as cinzas do que eu poderia ter tido com você.

— Você espera que eu acredite nisso? — Clara riu, um som amargo. — Você é o Darkling. Você sempre tem um plano.

— Meu plano agora é apenas um, Clara — ele se levantou lentamente, mantendo a distância, mas sem desviar o olhar. — Deixar que você dite as regras. Se você quiser que eu vá embora e nunca mais apareça, eu irei. Mas você sabe o que ela é. Você sabe que o poder dela vai atrair outros. Não apenas os meus inimigos, mas pessoas que temem o que não entendem.

Clara olhou para Luda. A menina agora brincava com as sombras de Aleksander, fazendo-as formar pequenas figuras de pássaros que voavam pelo quarto. O poder dela era óbvio demais, grande demais para ser escondido para sempre em um vilarejo de camponeses.

— Eu posso protegê-la — continuou ele, a voz voltando a ter aquela cadência aveludada, mas agora com uma nota de súplica. — Eu posso ensinar a ela o que ninguém mais pode. E eu passarei o resto da minha vida tentando provar que o homem que você amou... ele não era totalmente uma mentira. Ele apenas estava enterrado sob séculos de amargura.

Clara sentiu o conflito rasgar seu peito. Ela o odiava pelo que ele fizera, pela forma como a usara, pela insegurança que ele alimentara. Mas ela também via a verdade diante de si: Luda precisava de orientação. E, no fundo, em uma parte de seu coração que ela tentara enterrar na neve, a visão de Aleksander ajoelhado diante da filha mexia com sentimentos que ela não queria nomear.

— Se você tentar usá-la — disse Clara, seu poder de cura brilhando intensamente em seus olhos, transformando sua aura em algo majestoso e terrível —, eu juro pelos santos que eu mesma pararei o seu coração. Eu não sou mais a menina que você enganou com bolinhos de mel, Aleksander. Eu sou a mãe de uma rainha.

Aleksander inclinou a cabeça, um sorriso triste e genuíno surgindo em seus lábios.

— Eu não esperaria nada menos de você, minha luz.

Ele estendeu a mão, não para exigir, mas para oferecer.

— O que você deseja, Clara?

Clara olhou para a filha, que sorria para o pai, e depois para o homem que fora seu maior sonho e seu pior pesadelo. Ela sabia que a segurança da cabana terminara ali. O mundo voltaria a vê-la, voltaria a julgar seu corpo, sua origem e seu poder. Mas, desta vez, ela não estaria sozinha. E ela não seria uma peça no tabuleiro de ninguém.

— Eu desejo que você carregue a bagagem — disse ela, pegando a trouxa de pano e entregando a ele com um olhar desafiador. — E não pense que isso significa que eu te perdoei.

Aleksander pegou a trouxa, um gesto de servidão real que ele aceitou sem hesitação.

— É um começo — respondeu ele.

Enquanto saíam da cabana para a luz ofuscante da neve, Clara caminhava de cabeça erguida. Ela era gordinha, poderosa e carregava nos braços o futuro de uma nação. Ao seu lado, o homem mais temido de Ravka caminhava um passo atrás, como um guarda, como um companheiro, ou talvez, finalmente, como alguém que estava aprendendo o verdadeiro significado de ser devoto.

A caçada terminara. Uma nova e perigosa jornada estava apenas começando. E, pela primeira vez na vida, Clara não tinha medo da sombra, pois ela descobriu que era a única que sabia como fazê-la se curvar.