Melhor amigo
Entre o Silêncio e o Batom de Morango
O sábado amanheceu com aquele tipo de luz suave que entra pelas frestas da cortina, prometendo um dia de paz que Jungkook sentia que merecia desesperadamente. Depois da "invasão" de Taehyung na noite anterior, ele tinha passado metade da madrugada encarando o teto, repassando cada risada de Nari e cada comentário bobo do outro garoto. Ele se sentia exausto, não fisicamente, mas emocionalmente. Amar Nari em segredo era como carregar uma mochila cheia de pedras enquanto tentava correr uma maratona; era pesado, cansativo e, às vezes, tirava todo o seu fôlego.
Ele acordou com o som de batidas suaves na porta do quarto de hóspedes da casa dela, onde ele frequentemente desabava após as maratonas de jogos.
— Kook? Já acordou, dorminhoco? — A voz de Nari soou abafada pela madeira. — Eu fiz panquecas. E prometo, sem abacaxi!
Jungkook sorriu contra o travesseiro. Era impossível ficar bravo com ela por muito tempo. Ele se levantou, bagunçou ainda mais os cabelos escuros e abriu a porta, dando de cara com Nari vestindo um pijama largo de ursinhos, com o cabelo preso em um coque desleixado que ele achava mais bonito do que qualquer penteado de passarela.
— Bom dia — ele resmungou, forçando uma voz de sono para ganhar um pouco mais de simpatia.
— Bom dia! — Ela deu um passo à frente e apertou as bochechas dele, exatamente como fizera na noite anterior. — Nossa, você fica tão fofo com essa cara de quem foi atropelado por um caminhão de sono. Vamos, as panquecas estão esfriando.
Eles se sentaram à mesa da cozinha, e o clima era exatamente o que Jungkook desejava: apenas os dois. O silêncio era confortável, preenchido apenas pelo som dos talheres e pelo rádio baixo tocando uma melodia suave. Jungkook observava Nari enquanto ela espalhava calda de chocolate na massa, concentrada como se estivesse realizando uma cirurgia delicada.
— O que vamos fazer hoje? — perguntou ela, limpando um pingo de calda do canto da boca com o polegar. — O dia está lindo lá fora. Poderíamos ir ao parque ou talvez àquela livraria nova no centro.
Jungkook sentiu uma pontada de ansiedade. Ele queria ficar em casa, onde as paredes eram seguras e não havia risco de encontrarem nenhum Taehyung ou qualquer outro cara que pudesse roubar o sorriso dela. Mas ele sabia que não podia prendê-la em uma bolha para sempre.
— A livraria parece bom — ele cedeu, tentando ser o "melhor amigo legal" que ela esperava que ele fosse. — Mas depois quero passar na loja de conveniência para comprar aquela bebida de banana que eu gosto.
— Fechado! — Nari sorriu, e Jungkook sentiu que seu coração dava aquela pirueta habitual.
Algumas horas depois, eles caminhavam pelas ruas movimentadas. Nari estava radiante, parando em cada vitrine, comentando sobre as roupas e as pessoas. Jungkook caminhava ao lado dela, as mãos nos bolsos da jaqueta, agindo como o guarda-costas silencioso que ele secretamente desejava ser de verdade.
— Olha, Kook! — Nari o puxou pela manga, apontando para uma cabine de fotos instantâneas perto da entrada da livraria. — Vamos tirar fotos? Faz tempo que não atualizamos o mural do meu quarto.
— Ah, Nari... eu estou descabelado — ele protestou, embora já estivesse sendo arrastado para dentro da cabine apertada.
— Você está lindo, para de reclamar — disse ela, fechando a cortina e deixando-os em um espaço minúsculo, onde o perfume de morango dela parecia preencher cada centímetro cúbico de ar.
Eles estavam tão perto que o braço de Jungkook estava pressionado contra o dela. O calor que emanava do corpo de Nari era quase insuportável para os sentidos dele. A contagem regressiva começou na tela.
— Três... dois... um! — Na primeira foto, eles fizeram caretas.
— Outra! — Nari exclamou, mudando de pose.
Na terceira foto, sem aviso, Nari se inclinou e beijou a bochecha de Jungkook, bem no momento do clique. O flash disparou, capturando a expressão de choque absoluto e o rubor violento que subiu pelo pescoço dele.
— Nari! — ele exclamou, o coração batendo tão forte que ele tinha certeza de que ela podia ouvir.
— O quê? Ficou ótima! — Ela riu, saindo da cabine para esperar a impressão das fotos. — Você fica tão engraçado quando está surpreso.
Jungkook saiu logo atrás, tentando recuperar a compostura. Para ela, aquele beijo na bochecha era um gesto de carinho fraternal, uma brincadeira de amigos de infância. Para ele, era a confirmação de que ele estava perdidamente apaixonado e que cada pequeno gesto dela o destruía e o reconstruía ao mesmo tempo.
Enquanto caminhavam pela livraria, o ciúme de Jungkook, que parecia ter adormecido, acordou novamente. Um funcionário jovem, com um crachá que dizia "Minho", aproximou-se de Nari para ajudá-la a encontrar um livro de poesias. O rapaz não apenas indicou a prateleira, como começou a puxar assunto, elogiando o gosto literário dela.
Jungkook sentiu o sangue ferver. Ele se aproximou, colocando uma mão possessiva no ombro de Nari e lançando um olhar gélido para o funcionário.
— Nós já achamos o que queríamos, obrigado — disse Jungkook, a voz dois tons mais grave do que o normal.
O funcionário, percebendo a aura hostil que emanava do garoto alto e de expressão fechada, apenas assentiu e se retirou rapidamente. Nari olhou para Jungkook, com uma sobrancelha erguida.
— Credo, Kook. O garoto só estava sendo gentil.
— Ele estava sendo "gentil" demais — resmungou Jungkook, pegando o livro da mão dela e começando a andar em direção ao caixa. — Vamos logo, estou com fome.
Nari o seguiu, segurando o riso. Ela achava aquela atitude dele hilária. Na cabeça dela, Jungkook era como um irmão mais novo (embora tivessem quase a mesma idade) que não suportava a ideia de perder sua companheira de brincadeiras para qualquer outra pessoa.
— Você é impossível — ela disse, alcançando-o e entrelaçando o braço no dele. — Sabia que você fica com o nariz franzido quando está com ciúmes? É igualzinho a um coelho bravo.
— Eu não estou com ciúmes — mentiu ele, embora o bico em seus lábios o traísse completamente. — Só acho que as pessoas deviam focar no trabalho delas em vez de ficar dando em cima de clientes.
— Ele não estava dando em cima de mim, seu bobo! — Nari deu um tapinha no braço dele. — Mas tudo bem, eu gosto que você me proteja. Só não precisa assustar os pobres trabalhadores.
Eles saíram da livraria e o sol já começava a se pôr. A luz dourada refletia nos olhos de Nari, e Jungkook sentiu uma urgência súbita de dizer a verdade. O "ciúme de amigo" era uma máscara confortável, mas estava começando a sufocá-lo.
— Nari... — ele começou, parando no meio da calçada.
— Hum? — Ela parou também, virando-se para ele com uma expressão curiosa.
— Por que você acha que eu faço essas coisas? — perguntou ele, a voz falhando levemente. — As birras, o ciúme... por que você acha que eu fico assim?
Nari suavizou a expressão. Ela deu um passo à frente, reduzindo a distância entre eles, e colocou as mãos nos ombros de Jungkook.
— Porque você é meu melhor amigo, Kook. Desde que éramos pequenos, você sempre foi assim. Você me protege de tudo, desde garotos chatos até filmes de terror. E eu acho isso a coisa mais linda do mundo. Nossa amizade é a coisa mais importante que eu tenho, e eu sei que você sente o mesmo. Você tem medo que alguém apareça e mude o que nós temos, não é?
Jungkook sentiu um nó na garganta. Ela estava tão perto da verdade, mas ao mesmo tempo tão longe. Ela via a superfície, mas ignorava o oceano profundo que havia por baixo.
— É... — ele sussurrou, sentindo uma derrota amarga. — Eu tenho medo que as coisas mudem.
— Não vão mudar — prometeu ela, dando um abraço apertado nele. — Ninguém nunca vai tirar você do topo da minha lista, Jeon Jungkook. Nem o Taehyung, nem o carinha da livraria, nem ninguém.
Jungkook retribuiu o abraço, enterrando o rosto no ombro dela. O cheiro de morango o cercou novamente. Ele queria gritar que não queria estar no topo de uma lista de amigos, que queria ser o motivo dos suspiros dela, o dono dos beijos que não fossem apenas para uma foto de cabine. Mas, ao sentir o coração dela batendo contra o seu, ele percebeu que não podia arriscar. Perder a amizade de Nari seria como perder o próprio chão.
— Vamos para casa? — perguntou ela, afastando-se um pouco, mas mantendo as mãos nas dele. — Eu deixo você escolher o filme hoje. Prometo que não reclamo se for sobre o espaço.
Jungkook forçou um sorriso, o bico voltando gradualmente para o seu rosto como uma armadura defensiva.
— Até parece. Você dorme nos primeiros dez minutos de qualquer documentário.
— Ei! Isso só aconteceu uma vez! — protestou ela, começando a caminhar e puxando-o pela mão.
— Três vezes, Nari. Três vezes só no mês passado.
Eles continuaram caminhando, trocando implicâncias e risadas. Para quem passava por eles na rua, pareciam o casal perfeito, em total sintonia. Para Nari, era apenas mais um sábado maravilhoso com seu porto seguro. Para Jungkook, era mais um dia de equilibrar-se na corda bamba entre o amor e a amizade, guardando cada pequeno gesto dela em um cofre trancado dentro do peito.
Ao chegarem na porta da casa dela, Nari parou e olhou para as fotos que tinham tirado na cabine. Ela apontou para a foto do beijo na bochecha.
— Essa é a minha favorita — disse ela, com um brilho terno nos olhos. — Vou colocar bem no centro do mural.
— Ficou terrível — Jungkook resmungou, sentindo as bochechas esquentarem novamente. — Eu pareço um peixe fora d'água.
— Um peixe muito fofo — rebateu ela, abrindo a porta. — Agora entra logo, antes que eu mude de ideia e ligue para o Taehyung vir nos ajudar a escolher o filme.
Jungkook entrou na casa como um raio, jogando-se no sofá e pegando o controle remoto com uma agilidade impressionante.
— Nem pense nisso! — gritou ele da sala. — Hoje é noite de Jeon Jungkook e Nari. Sem convidados!
Nari riu na cozinha enquanto pegava os copos. Ela balançou a cabeça, pensando em como tinha sorte de ter um amigo tão dedicado e, às vezes, tão ridiculamente ciumento. Ela não percebia que, na sala ao lado, Jungkook olhava para a própria mão, a mão que ela tinha segurado o dia todo, e suspirava com uma melancolia que só quem ama em silêncio conhece.
Ele faria birra, ele reclamaria de cada garoto que chegasse perto, ele seria o "Kook" rabugento e adorável que ela conhecia. Ele usaria todas as armas que tinha para mantê-la por perto, mesmo que isso significasse aceitar as migalhas de uma amizade quando o que ele mais desejava era o banquete do seu amor.
Porque, no fim das contas, se o ciúme de amigo era o que o mantinha ao lado dela, ele seria o amigo mais ciumento do mundo. Pelo menos até que ele tivesse coragem de transformar aquele bico de birra em um pedido sincero de amor.
— Kook! — chamou ela da cozinha. — Você quer pipoca com manteiga ou caramelo?
— As duas! — respondeu ele, recuperando o tom animado. — E traz aquela manta azul, está começando a esfriar.
— Sim, senhor! — Nari apareceu na sala carregando as tigelas, um sorriso largo no rosto.
Eles se acomodaram no sofá, a manta cobrindo as pernas de ambos, os ombros se tocando. Jungkook sentiu a tensão do dia se esvair. Taehyung era uma lembrança distante, o carinha da livraria não existia mais. Naquele pequeno universo delimitado pelo estofado do sofá, ele era tudo o que ela precisava. E, por enquanto, aquela ilusão de posse era o suficiente para acalmar as batidas frenéticas de seu coração apaixonado.
Ele olhou para Nari pelo canto do olho e viu que ela já estava com os olhos fixos na tela, uma expressão de expectativa no rosto. Ele suspirou, um som quase inaudível de contentamento e dor.
— Eu te amo, Nari — pensou ele, enquanto a luz da TV dançava em seus olhos. — Mesmo que você nunca perceba que esse ciúme é a única forma que eu encontrei de não explodir.
A noite seguiu com risadas e discussões bobas sobre o enredo do filme, um sábado comum para qualquer pessoa, mas um tesouro inestimável para Jeon Jungkook, o garoto que amava sua melhor amiga mais do que as estrelas do espaço que ele tanto gostava de estudar.