Voltar ao resumo

Melhor amigo

O Rugido Silencioso do Dragão de Bambu

O ginásio da escola estava mergulhado em um caos ensurdecedor de apitos, gritos de torcida e o som rítmico de tênis derrapando na quadra de madeira polida. Era o dia do Interclasse, o evento que transformava estudantes pacatos em guerreiros sedentos por medalhas de plástico e, mais importante, por status social.

Jungkook estava sentado na arquibancada de cimento, sentindo o suor frio da ansiedade pré-jogo escorrer pelas suas costas. Ele vestia o uniforme do seu time — uma regata azul marinho que deixava seus braços definidos à mostra, algo que ele esperava secretamente que Nari notasse. Ao seu lado, Jimin e Hoseok discutiam táticas de jogo, mas a mente de Jungkook estava a quilômetros de distância, ou melhor, a três degraus de distância, onde Nari estava sentada com suas amigas.

Nari parecia radiante. Ela usava uma faixa no cabelo para combinar com as cores da turma e segurava um pompom improvisado. O problema não era ela estar ali; o problema era o que ela e suas amigas — as solteiras convictas do terceiro ano — estavam fazendo.

— Meu Deus, olha o número sete do time de Engenharia! — exclamou Minjee, uma das amigas de Nari, abanando-se com a mão. — Ele malhou as pernas, com certeza. Olha aquela definição!

Jungkook sentiu um espasmo no olho esquerdo. Ele olhou para o tal número sete. Era apenas um garoto alto com pernas que pareciam gravetos aos olhos de Jungkook.

— Ele é bonitinho — comentou Nari, inclinando o corpo para frente para enxergar melhor. — Mas acho que o capitão do time de Artes tem um sorriso mais legal. Vocês viram como ele piscou para a arquibancada agora pouco?

O coração de Jungkook deu um solavanco, mas não do tipo bom. Ele se ajeitou no lugar, tentando ocupar mais espaço, bufando de uma forma que ele achava que soava máscula, mas que na verdade parecia um pneu furado.

— Piscar durante um jogo é falta de concentração — resmungou Jungkook, alto o suficiente para que Nari ouvisse. — Por isso que o time deles está perdendo de dez pontos.

Nari virou-se para trás, notando a presença do melhor amigo. Ela abriu aquele sorriso que costumava derreter a armadura de Jungkook, mas hoje ele estava decidido a manter o escudo erguido.

— Ah, Kook! Você já está aí? — Ela se aproximou, apoiando os cotovelos no degrau acima. — Não fica bravo. Eles são atletas, é natural que a gente admire o... talento deles.

— Talento? — Jungkook cruzou os braços, fazendo os bíceps saltarem propositalmente. — Nari, o cara tropeçou na própria sombra duas vezes no primeiro tempo. Se isso é talento, eu sou um astronauta.

As amigas de Nari riram, mas voltaram rapidamente a analisar o "cardápio" de jogadores na quadra.

— Ai, olha aquele ali de branco! — gritou outra amiga, apontando para um garoto que estava fazendo o aquecimento na lateral. — Ele parece um ator de dorama. Nari, você não acha que ele faz o seu tipo?

Jungkook sentiu o sangue subir para as orelhas. Ele fixou o olhar no garoto de branco como se pudesse incinerá-lo com o poder da mente. O garoto era, infelizmente, muito bonito.

— Ele é bem fofo — admitiu Nari, apertando os olhos para ver melhor. — Tem um estilo meio misterioso, né?

— Misterioso? — Jungkook soltou uma risada sarcástica e seca. — Ele só parece que não dorme há três dias. Provavelmente gasta o tempo todo jogando videogame em vez de treinar arremessos.

— Nossa, Kook, que bicho te mordeu? — Nari riu, achando graça da irritação dele. — É só um comentário. A gente está apenas se divertindo antes do seu jogo começar.

— É, Jungkook, relaxa — interrompeu Jimin, dando um tapinha no ombro do amigo. — Daqui a pouco é a nossa vez e você vai poder mostrar todo esse seu "talento" sem tropeçar na sombra.

Jungkook não relaxou. Pelo contrário, ele começou a balançar a perna freneticamente. Cada vez que uma das meninas soltava um suspiro ou um elogio para algum jogador, ele sentia como se estivessem chutando sua canela. O que mais o doía era o fato de Nari parecer tão imersa naquela atmosfera de "caça aos colírios". Ela não via que o melhor espécime de atleta estava bem ali, a poucos centímetros dela, morrendo de ciúmes?

Não, ela não via. Para Nari, Jungkook era o porto seguro, o constante, o irmão que ela nunca teve. Ela nunca imaginaria que ele passava noites treinando arremessos só para que ela tivesse um motivo para gritar o nome dele mais alto do que o de qualquer outro.

— Oh! — Nari deu um pulinho. — O número dez acabou de tirar a camisa para trocar pelo uniforme de jogo! Amigas, olhem aquilo!

O ginásio pareceu ficar pequeno demais para Jungkook. O barulho das meninas gritando foi o estopim. Ele se levantou abruptamente, fazendo Jimin e Hoseok olharem para ele assustados.

— Eu vou para o vestiário — declarou ele, a voz tensa. — O ar aqui em cima está ficando insuportável.

— Mas ainda faltam quinze minutos para o nosso chamado, cara — disse Hoseok, confuso.

— Eu preciso me alongar. Sozinho — Jungkook disparou, sem olhar para trás.

Nari, percebendo o movimento brusco, segurou a barra da calça de Jungkook antes que ele pudesse descer os degraus.

— Kook, espera! Você está bem? Ficou pálido de repente.

Jungkook olhou para baixo, encontrando os olhos preocupados de Nari. Por um segundo, a raiva murchou, mas o ciúme era um monstro persistente.

— Estou ótimo, Nari. Só acho que você devia prestar mais atenção no jogo do que na anatomia dos adversários. Afinal, você veio torcer para a nossa turma ou para o fã-clube dos "bonitinhos"?

Nari piscou, surpresa com a acidez das palavras. Depois, um sorriso travesso começou a brincar nos cantos de sua boca. Ela conhecia aquele tom. Era o mesmo tom de quando ele tinha sete anos e ela dividiu seu lanche com outro menino no parque.

— Ah, entendi — disse ela, soltando a calça dele e cruzando os próprios braços. — O meu melhor amigo está fazendo birra porque não recebeu elogios suficientes hoje? É isso?

— Eu não faço birra — mentiu ele, fazendo exatamente o bico que confirmava a teoria dela.

— Faz sim! — Nari se levantou e ficou na ponta dos pés para ficar mais perto do rosto dele. — Escuta aqui, Jeon Jungkook. Você sabe que, para mim, ninguém nessa quadra chega aos seus pés. Mas se você quer que eu pare de olhar para os outros, vai ter que entrar lá e fazer o melhor jogo da sua vida. Combinado?

Jungkook sentiu o rosto esquentar. O desafio de Nari era combustível puro.

— Combinado — respondeu ele, a voz agora mais firme. — Mas se eu fizer um double-double, você vai ter que admitir que aquele cara de branco parece um zumbi.

— Fechado! — Ela riu e deu um tapinha encorajador no peito dele. — Agora vai lá, meu campeão ciumento.

Jungkook desceu para o vestiário com o peito estufado, mas o ciúme ainda fervilhava. Ele entrou na quadra vinte minutos depois com uma aura de pura determinação. Quando o apito inicial soou, ele não era mais o garoto que fazia birra na arquibancada; ele era uma força da natureza.

Ele corria mais rápido, pulava mais alto e defendia com uma agressividade que assustava os oponentes. Cada vez que ele fazia uma cesta, seus olhos buscavam automaticamente a arquibancada. Nari estava lá, pulando e gritando seu nome tão alto que a voz dela se destacava em meio ao barulho.

No intervalo, enquanto bebia água, ele viu o tal "garoto misterioso" de branco passar perto de Nari e oferecer uma garrafa de água para ela. Jungkook quase engasgou. Ele jogou a toalha no banco e caminhou até a borda da quadra, ignorando os gritos do treinador.

— Nari! — ele chamou, a voz autoritária.

Ela olhou para baixo, confusa.

— Oi, Kook! Você está jogando muito!

— Eu estou com sede — disse ele, embora tivesse acabado de beber um litro de água. — Me dá um pouco da sua bebida energética? A minha acabou.

Nari olhou para a garrafa fechada que o outro garoto tinha acabado de lhe dar e depois para o rosto suado e exigente de Jungkook. Ela suspirou, mas com um brilho divertido nos olhos. Ela sabia exatamente o que ele estava fazendo.

— Toma, Kook. Pode ficar com essa — disse ela, estendendo a garrafa que o garoto de branco dera.

Jungkook pegou a garrafa, olhou para o garoto de branco — que estava parado por perto com uma expressão de interrogação — e, com um movimento deliberado, abriu a tampa e bebeu tudo de uma vez, como se estivesse reivindicando um território.

— Obrigado — disse ele, devolvendo a garrafa vazia para Nari com um sorriso vitorioso. — Agora sim eu posso terminar o jogo.

Ele voltou para a quadra sentindo-se o rei do mundo. Ele marcou mais dez pontos nos últimos cinco minutos, garantindo a vitória esmagadora do seu time. Quando o jogo terminou, ele foi cercado pelos colegas de equipe, mas seus olhos só queriam uma pessoa.

Nari desceu as arquibancadas correndo e furou o bloqueio dos jogadores para abraçá-lo.

— Você foi incrível! — exclamou ela, sem se importar com o fato de ele estar completamente suado. — Eu nunca vi você jogar com tanta... raiva.

— Não era raiva — murmurou ele, retribuindo o abraço e sentindo o perfume dela que, milagrosamente, ainda vencia o cheiro de suor do ginásio. — Era motivação.

— Sei... motivação — brincou ela, afastando-se para olhar nos olhos dele. — Você é o maior bebê que eu conheço, sabia? Todo esse show por causa de uns elogios bobos que eu fiz para aqueles meninos?

Jungkook sentiu a necessidade de defender sua honra de "homem sério", mas com Nari era impossível. Ele apenas desviou o olhar, o bico voltando a aparecer.

— Eu só não gosto que você perca seu tempo com gente que não vale a pena.

— E quem "vale a pena", Sr. Jeon? — perguntou ela, inclinando a cabeça com um sorriso desafiador.

Jungkook olhou para ela, e por um momento, a barreira da amizade pareceu tão fina quanto um papel. Ele queria dizer: "Eu. Só eu valho a pena. Só eu conheço o jeito que você ri quando está nervosa e o fato de que você odeia abacaxi na pizza tanto quanto eu finjo odiar quando estou com ciúmes".

Mas as palavras ficaram presas na garganta. Em vez disso, ele apenas resmungou:

— Eu, obviamente. Eu acabei de ganhar o jogo para a nossa turma.

Nari riu e bagunçou o cabelo úmido dele.

— É, você vale a pena. Agora vamos, as meninas querem ir comemorar em uma lanchonete e o "garoto misterioso" de branco perguntou se pode ir junto.

O mundo de Jungkook desabou novamente.

— O quê? Nem pensar! — Ele segurou o pulso de Nari, não com força, mas com uma urgência que a fez parar. — Nari, esse cara é... ele é suspeito. Eu li que pessoas que usam branco em dias de esporte não são confiáveis.

Nari explodiu em uma gargalhada tão alta que algumas pessoas ao redor olharam. Ela se dobrou de rir, segurando a barriga.

— "Suspeito"? "Não são confiáveis"? Kook, de onde você tira essas coisas? Você é a pessoa mais ciumenta do planeta Terra!

— Eu não sou ciumento! — protestou ele, embora sua expressão fosse a definição de um ataque de pelanca. — Eu só estou protegendo você. É o meu trabalho como... como seu melhor amigo.

Nari parou de rir aos poucos, olhando para ele com uma doçura que quase o fez confessar tudo ali mesmo, no meio da quadra suja de suor.

— Eu sei, Kook. Eu sei que você me protege. — Ela se aproximou e limpou uma gota de suor da testa dele com o polegar. — Mas relaxa. Eu disse para ele que já tinha planos com o meu rabugento favorito. Hoje a comemoração é só nossa.

O alívio que percorreu o corpo de Jungkook foi mais intenso do que a endorfina da vitória. Ele sentiu um sorriso involuntário surgir em seu rosto.

— Sério? Só a gente?

— Só a gente. Mas você vai ter que pagar o meu milkshake de morango. É o preço por ter que aguentar suas birras o dia todo.

— Eu pago dez milkshakes se você prometer nunca mais elogiar as pernas de ninguém na minha frente — disse ele, começando a caminhar com ela em direção à saída, sentindo-se vitorioso em mais de um sentido.

— Prometer eu não prometo — Nari brincou, entrelaçando o braço no dele —, mas posso tentar manter meus comentários em voz baixa para não ferir o ego do meu jogador estrela.

Enquanto saíam do ginásio, Jungkook lançou um último olhar por cima do ombro para o garoto de branco, que parecia meio perdido na multidão. Ele sentiu uma pontada de satisfação. Ele sabia que Nari o via apenas como o "melhor amigo protetor", e embora isso doesse às vezes, momentos como esse — onde ela o escolhia acima de todos os outros — eram o que o mantinha alimentando aquela chama secreta.

Para Nari, era apenas mais uma tarde divertida vendo Jungkook ser "fofamente possessivo". Para Jungkook, era mais uma batalha vencida na guerra silenciosa pelo coração dela. Ele sabia que a estrada entre a amizade e o amor era longa e cheia de obstáculos (e jogadores bonitinhos), mas enquanto ele pudesse ser o motivo do sorriso dela ao final do dia, ele faria quantas birras fossem necessárias.

— Kook? — chamou ela, quando já estavam no estacionamento.

— Oi?

— Você jogou muito bem hoje. De verdade.

Jungkook sentiu o peito inflar.

— Eu sei — disse ele, tentando parecer casual, mas falhando miseravelmente ao abrir um sorriso radiante. — Foi por causa da bebida energética que eu "peguei emprestado". Tinha um gosto de vitória... e de morango.

Nari riu, balançando a cabeça.

— Você não existe, Jeon Jungkook.

— Ainda bem, né? — respondeu ele, apertando o passo para acompanhá-la. — O mundo não aguentaria dois de mim.

— Com certeza não — concordou ela, mas no fundo, ela pensava que o mundo seria um lugar muito mais sem graça se não houvesse um Jungkook para protegê-la, mesmo que fosse de ameaças imaginárias em uniformes de basquete.

E assim, entre o cheiro de pipoca do ginásio e a promessa de um milkshake, eles seguiram. Jungkook continuaria sendo o guardião silencioso, o ciumento incurável e o melhor amigo devoto, esperando o dia em que Nari finalmente olhasse para ele e percebesse que o "talento" que ela tanto admirava nos outros, ele tinha de sobra — especialmente o talento de amá-la mais do que qualquer outra pessoa no mundo.