Meu aliado perfeito
O Despertar da Herança e a Dança das Marés
O sol de sábado nasceu tingindo o céu de Beacon Hills com tons de coral e âmbar, mas na nossa casa, situada onde a terra firme beija o início do oceano, a luz parecia carregar uma magia ancestral. O som das ondas quebrando nas rochas era o metrônomo que guiava os movimentos de Andre, Lucca e da nossa avó, a matriarca que todos chamavam respeitosamente de "Abolida".
A decoração da nossa tribo Maori estava sendo montada com uma precisão sagrada. Tecidos com tramas complexas, tótens de madeira esculpida que contavam a história dos nossos antepassados e flores tropicais cujas pétalas pareciam feitas de veludo vivo. O ar estava saturado com o cheiro de incenso de sândalo e o salitre do mar.
Entrei no meu quarto e me encarei no espelho. Eu não era apenas a Grizabella do teatro ou a Rose do Titanic hoje. Eu era a filha do Oceano. Vesti minha saia de fibras naturais e o cropped adornado com flores frescas que exalavam um perfume doce e inebriante. Meus cabelos, geralmente domados para as luzes do palco, estavam volumosos, selvagens, ondulando como as marés de Calisto. Meus olhos refletiam um brilho que eu nunca vira antes — como joias raras, safiras que capturavam toda a luz do ambiente.
— Você está pronta, pequena Rose — disse minha avó, surgindo na porta com um sorriso que carregava séculos de sabedoria. — Hoje o sangue fala mais alto que o gelo.
Saí para a área externa e encontrei meus irmãos. Andre e Lucca estavam sem camisa, a pele bronzeada brilhando sob o sol. As tatuagens tribais que cobriam seus ombros e peitos pareciam ganhar vida, os desenhos geométricos pulsando conforme eles se moviam para organizar as mesas de frutas. Eles eram imponentes, guerreiros prontos para celebrar e proteger.
Logo, os outros membros da nossa linhagem começaram a chegar. O espaço entre a casa e o oceano transformou-se em um formigueiro de risadas e cantos tradicionais. A água, estranhamente cristalina hoje, permitia ver cardumes coloridos e até a silhueta majestosa de tubarões que nadavam pacificamente perto da costa, como se prestassem homenagem à nossa festa.
— Eles chegaram — anunciou Lucca, sua voz assumindo um tom mais sério, os olhos fixos na trilha que levava à estrada.
Vi o jipe de Stiles despontar, seguido pelo Camaro preto de Derek e a moto de Scott. Isaac vinha logo atrás com outros membros do clã Hale. A presença deles era como uma frente fria colidindo com o calor da nossa celebração — uma tensão elétrica que fez o gelo em minhas veias vibrar em reconhecimento.
Stiles foi o primeiro a descer. Ele parecia deslocado e, ao mesmo tempo, fascinado pela visão da nossa tribo. Quando nossos olhos se encontraram, eu não consegui me conter. Corri em sua direção, a saia balançando contra minhas pernas, e me joguei em seus braços.
— Stiles! Você veio! — exclamei, sentindo o cheiro familiar de café e ansiedade que ele sempre carregava.
A empolgação era tanta que, por um segundo, meu rosto ficou a milímetros do dele. O calor da sua pele me atraiu como um imã, e eu quase o beijei ali mesmo, na frente de todos. Recuei bruscamente, as bochechas queimando.
— Desculpa... eu só... estou muito animada — gaguejei, tentando ajeitar uma flor no meu cabelo.
Stiles sorriu, aquele sorriso torto que desarmava qualquer um, embora seus olhos estivessem fixos no meu decote e no brilho das minhas joias.
— Não precisa pedir desculpas por quase me fazer ter um colapso cardíaco, Rose — brincou ele, a voz um pouco mais rouca que o normal. — Você está... uau. Eu não tenho palavras no meu dicionário para o que você está agora.
Ouvi um pigarro alto vindo de trás. Andre e Lucca estavam parados com os braços cruzados, as tatuagens tribais parecendo mais ameaçadoras sob a luz do meio-dia.
— Cuidado com o coração dele, maninha — disse Andre, embora houvesse um brilho de diversão em seus olhos. — Não queremos ter que enterrar um humano no meio da nossa festa.
Lucca riu, dando um tapinha pesado no ombro de Stiles que o fez cambalear.
— Deixe o garoto, Andre. Pelo menos ele tem coragem de aparecer aqui sem ser convidado formalmente.
— Eu os convidei — interrompi, lançando um olhar firme para meus irmãos.
Derek, Scott e Isaac aproximaram-se. Derek usava uma camisa escura que parecia pequena demais para seus músculos, os olhos verdes varrendo o local com uma possessividade territorial. Scott mantinha uma postura diplomática, mas seus olhos de Alfa brilhavam ao notar a presença dos tubarões na água. Isaac parecia hipnotizado pela beleza do ritual.
— Bem-vindos à nossa casa — disse minha avó, aproximando-se com uma tigela de pigmento natural. — Em nossa tribo, convidados de honra recebem a marca da proteção.
Ela marcou o rosto de Scott e Derek com linhas rituais. Quando chegou a vez de Isaac, ele inclinou a cabeça, quase em reverência. Derek não tirava os olhos de mim, ignorando a cerimônia ao seu redor.
— Você parece pertencer a este lugar mais do que ao palco — comentou Derek, sua voz baixa, apenas para mim.
— Eu pertenço aos dois mundos, Derek — respondi, sentindo o poder do oceano rugir atrás de mim. — Mas hoje, eu sou apenas Rose da Tribo.
A festa começou de verdade. O som dos tambores Maori, o Haka sendo performado por Andre, Lucca e os primos, criou uma atmosfera de transe. O suor brilhava na pele dos guerreiros, e a energia era tão tangível que até os lobos pareciam querer uivar em sintonia.
A comida era farta, e a bebida, um fermentado de frutas tropicais que subia rapidamente à cabeça, começou a soltar as inibições. Stiles tentava aprender alguns passos de dança com Pérola e Sarah, que estavam integradas à tribo como se tivessem nascido nela.
— Você está se divertindo? — perguntei a Isaac, que estava parado perto da água, observando um grande tubarão-branco deslizar sob a superfície.
— É incrível — disse ele, voltando-se para mim. — Sinto a força daqui. Scott e Derek estão tentando agir como se fossem apenas convidados, mas eles estão loucos para te tirar dessa multidão.
— E você, Isaac? O que você quer? — dei um passo para mais perto, sentindo a brisa marinha brincar com meus cabelos.
— Eu quero o que eles querem — ele admitiu, a mão subindo hesitantemente para tocar o colar de safira no meu pescoço. — Mas eu me contento em apenas estar na sua órbita hoje.
A música mudou para um ritmo mais lento, mais sensual, conforme o sol começava a descer no horizonte. As tochas foram acesas, criando sombras dançantes na areia. A possessividade de Derek finalmente rompeu sua barreira de silêncio. Ele caminhou até mim e, sem dizer uma palavra, segurou minha mão, puxando-me para longe da luz principal das tochas, em direção às sombras das palmeiras.
— Derek, o que... — comecei, mas ele me prensou contra o tronco áspero de uma árvore.
— Eu não aguento mais ver todos esses homens olhando para você, Rose — ele rosnou, o hálito quente contra meu pescoço. — Seus irmãos, seus primos, o Stiles... até o Scott não consegue desviar o olhar.
— É a minha festa, Derek. Eles deveriam olhar — provoquei, sentindo o frio do meu gelo lutar contra o calor que emanava do corpo dele.
— Você é minha — ele disse, as garras crescendo levemente e arranhando a casca da árvore acima da minha cabeça. — No teatro, na floresta ou nesta praia.
Ele me beijou com uma fome que eu nunca tinha sentido antes. Era um beijo que carregava o rugido do lobo e a força da maré. Minhas mãos subiram para o seu peito nu, sentindo o coração dele batendo freneticamente. O gelo e o fogo se encontraram, criando um vapor inebriante entre nós.
— Derek... — sussurrei entre os beijos —, meus irmãos...
— Eles que venham — ele respondeu, descendo os beijos para meu pescoço, onde o colar de safira brilhava intensamente.
Mas não fomos interrompidos pelos meus irmãos. Scott apareceu nas sombras, os olhos brilhando em vermelho. Ele não parecia zangado, mas sim carregado pela mesma energia primitiva que dominava a festa.
— Ela não pertence apenas a você, Derek — disse Scott, sua voz de Alfa ecoando com uma autoridade inquestionável. — A tribo a aceita, o oceano a aceita, e nós a aceitamos. Mas ela é o centro de algo maior.
Scott aproximou-se, e por um momento, achei que haveria uma briga. Em vez disso, ele colocou a mão no meu ombro, completando o círculo de tensão sexual e poder que nos envolvia. Eu estava entre o Alfa e o Lobo Solitário, e o desejo deles era uma força física que me fazia tremer.
— Hoje é uma noite de celebração — continuou Scott, olhando fixamente para Derek. — Não de conflito.
Derek relaxou o aperto, mas não me soltou. Ele olhou para Scott e depois para mim.
— Que seja — disse Derek. — Mas ela não volta para aquela festa sem que todos saibam quem a protege.
Voltamos para o círculo da tribo, eu caminhando entre os dois lobos mais poderosos de Beacon Hills. Andre e Lucca nos viram chegar e trocaram um olhar cúmplice. Eles sabiam que a dinâmica havia mudado. A festa Maori não era apenas uma reunião familiar; era o selamento de uma aliança de sangue e instinto.
Stiles, que estava sentado com minha avó, levantou-se ao nos ver. Ele percebeu a atmosfera carregada, o jeito como meu batom estava levemente borrado e como Derek e Scott caminhavam ao meu lado como guardas imperiais.
— Tudo bem aí, Rose? — perguntou Stiles, com uma ponta de ciúme que ele tentava esconder com humor. — Você parece ter sobrevivido a um encontro com a natureza selvagem.
— Eu sou a natureza selvagem, Stiles — respondi, rindo e sentindo-me mais viva do que nunca.
A noite avançou, e a festa tornou-se uma celebração da carne e do espírito. Casais da tribo e convidados se perdiam nas sombras da praia, e o som dos tambores fundia-se com os gemidos baixos e o som das ondas. O romance e o desejo tomaram conta de cada canto da areia.
Eu me vi sentada na beira da água, meus pés sendo lavados pela maré fria, enquanto Stiles, Isaac, Derek e Scott sentavam-se ao meu redor. Meus irmãos estavam por perto, vigiando, mas respeitando o espaço.
— O que acontece agora? — perguntou Isaac, olhando para as estrelas que refletiam no oceano calmo. — O teatro, o Titanic...
— Agora — eu disse, sentindo o elo de Calisto vibrar no meu peito —, nós mostramos a Beacon Hills que não temos medo do escuro. Nem do mar, nem da floresta.
— E quanto a nós? — Stiles perguntou, sua mão roçando a minha na areia.
Olhei para cada um deles. O humano inteligente, o lobo ferido, o Alfa protetor e o parceiro possessivo. E olhei para meus irmãos, o fogo e o vento.
— Nós somos a tempestade — respondi, e com um movimento da mão, fiz uma pequena onda congelar no ar, criando uma escultura de cristal que brilhou sob a lua antes de derreter novamente. — E a tempestade está apenas começando.
A festa da tribo Maori não era o fim de um capítulo, mas o batismo de uma nova era. Ali, entre o oceano e a casa da minha infância, eu aceitei que o amor e a possessividade daqueles homens eram o preço da minha liberdade. E, cercada pelo sangue da minha linhagem e pela força da minha alcateia, eu sabia que nenhum naufrágio poderia me atingir. Eu era a Rainha de Gelo nascida do calor da tribo, e o mundo inteiro estava prestes a congelar sob o meu comando.