Meu aliado perfeito
O Despertar da Rainha Selvagem e o Elo de Calisto
O sol de Beacon Hills parecia mais brilhante naquela manhã, mas era uma luz que não aquecia a pele da mesma forma que o fogo de Andre ou o vento de Lucca. Eu me olhei no espelho do camarim, observando o reflexo de uma mulher que eu mal reconhecia. Meus olhos tinham um brilho cerúleo profundo, como se as profundezas do oceano que visitei na noite anterior tivessem decidido morar em minhas pupilas.
A porta do camarim se abriu suavemente. Andre e Lucca entraram, ambos vestindo seus uniformes de trabalho, mas com os semblantes relaxados por terem conseguido sair mais cedo. Eles eram minha âncora em um mundo de lobos e sombras.
— Você está radiante — disse Lucca, cruzando os braços e encostando-se na parede. — Sinto o ar ao seu redor vibrar. É como se a tempestade tivesse finalmente encontrado seu centro.
— Eu encontrei a Calisto, Lucca — sussurrei, ainda processando a visão da nossa irmã na praia. — Ela me disse que eu não sou um monstro. Que o gelo e a água são um só.
Andre aproximou-se, ignorando o clima místico para focar no presente. Ele tirou algo do bolso: um colar de prata com um pingente de safira bruta, que parecia conter uma tempestade aprisionada em seu interior. O metal estava frio, mas emanava uma energia que fez os pelos do meu braço se arrepiarem.
— Pegue isso — disse Andre, colocando a joia em minhas mãos. — Vai te dar sorte. Senti que precisava entregar isso a você hoje. É um presente da nossa linhagem, algo que estava guardado para o momento em que você aceitasse quem realmente é.
Ao tocar o colar, senti um choque térmico percorrer minha espinha. Não era apenas sorte; era o toque de Calisto. O colar pulsava com o ritmo das marés, um elo direto com a força que eu acabara de descobrir. Coloquei-o no pescoço e senti uma confiança selvagem inundar meu peito.
— Rose! No palco! Agora! — o grito do Sr. Harrison ecoou pelo corredor, carregado de sua habitual impaciência.
Saí do camarim acompanhada pelos meus irmãos. No corredor, encontramos Sarah, Pérola e Gabriel. Eles pareciam nervosos, mas ao me verem, seus rostos se iluminaram.
— Uau — exclamou Sarah, tocando levemente uma mecha do meu cabelo. — Você parece... diferente. Mais perigosa.
— Eu estou pronta — respondi, e minha voz saiu com um timbre de autoridade que os fez recuar um passo, impressionados.
Caminhamos para o palco. O cenário do Titanic estava começando a ganhar forma: estruturas metálicas que simulavam a proa do navio erguiam-se como esqueletos de um gigante. Na primeira fila, as poltronas não estavam vazias. Scott, Derek, Isaac e Stiles estavam lá, sentados como juízes de um tribunal sobrenatural. Derek tinha os olhos fixos em mim, sua possessividade agora tingida de uma curiosidade voraz. Scott mantinha as mãos nos joelhos, os olhos brilhando em um castanho dourado que ameaçava tornar-se vermelho a qualquer instante.
E, no centro do palco, esperando por mim, estava Liam.
Ele sorriu ao me ver, aquele sorriso de quem acredita que ainda detém o controle sobre a minha vida. Ele não tinha ideia de que o colar em meu peito estava começando a brilhar com uma luz azulada.
— Muito bem! — Harrison bateu palmas, subindo no proscênio. — Quero a cena do convés. O momento em que o destino se sela. Rose, mostre-me que você é a dona deste oceano. Liam, tente acompanhar o ritmo dela, se puder.
Eu me posicionei à frente das cadeiras, de costas para o cenário e de frente para a plateia de lobos e amigos. Andre e Lucca ficaram nas coxias, observando atentamente.
A música começou. Não era a melodia suave de antes; era uma orquestra poderosa, com tambores que imitavam o bater de um coração gigante.
No momento em que abri a boca para cantar, senti o elo de Calisto se ativar. O colar aqueceu contra minha pele.
— "Every night in my dreams... I see you, I feel you..."
Minha voz não era mais apenas um som; era uma força física. À medida que eu soltava a voz com uma emoção que vinha das entranhas, o elo de Calisto começou a liberar a energia guardada. O elástico que prendia meu cabelo arrebentou sob a pressão da energia estática, e meus cabelos pretos e longos se soltaram, flutuando ao meu redor como se eu estivesse submersa em águas profundas.
Eu me sentia linda. Eu me sentia selvagem.
— "Across the distance and spaces between us... you have come to show you go on!"
O gelo começou a se manifestar não como estacas, mas como uma névoa cintilante que cobria todo o palco. O chão transformou-se em um espelho de cristal. Sarah e Pérola, que faziam o coro, recuaram instintivamente, maravilhadas com a visão. Gabriel parou de dançar, apenas observando a magnitude do que eu estava me tornando.
Liam tentou se aproximar, tentando retomar o papel de Cal Hockley, mas a energia que emanava de mim o repelia. Ele parecia pequeno, insignificante diante da tempestade que eu invocava.
— "Near, far, wherever you are!" — Minha voz atingiu uma nota tão alta e pura que o lustre do teatro vibrou.
Olhei para as coxias e vi Andre e Lucca. Eles sorriam de orelha a orelha. Eles viam em mim a mulher que Calisto queria que eu fosse: forte, indomável, uma força da natureza que não pedia permissão para existir.
Na primeira fila, a reação foi imediata. Derek levantou-se lentamente, suas garras arranhando o estofado da poltrona. Ele rosnava baixo, não de raiva, mas de uma excitação primitiva. Ele queria pular no palco e me levar dali, mas algo na minha postura o impedia. Eu não era mais a garota que precisava ser protegida; eu era a rainha que exigia reverência.
Scott estava com os olhos vermelhos de Alfa totalmente visíveis agora. Ele respirava pesadamente, sentindo o poder elemental colidir com sua natureza lupina. Isaac estava paralisado, uma lágrima de pura adoração escorrendo por seu rosto. E Stiles... Stiles estava com a boca aberta, esquecendo-se completamente de anotar qualquer coisa em seu tablet.
— "You're here, there's nothing I fear... and I know that my heart will go on!"
No clímax da música, o gelo no palco explodiu em milhares de pétalas de cristal que flutuavam pelo ar, refletindo as luzes do teatro como se estivéssemos dentro de uma caixa de joias viva. O colar de safira brilhava tanto que era difícil olhar diretamente para mim. Eu era o sol de gelo no centro do sistema solar deles.
Quando a última nota finalmente se dissipou no ar, o silêncio que se seguiu foi absoluto. Eu estava ofegante, meus cabelos pretos ainda flutuando levemente, meus olhos fixos no vazio, sentindo a presença de Calisto me abraçar através do colar.
— Pelo amor de Deus... — sussurrou o Sr. Harrison, deixando o roteiro cair no chão. — Isso... isso não é teatro. Isso é um milagre.
Liam estava caído de joelhos a poucos metros de mim, o rosto pálido. Ele tentou dizer algo, mas a voz não saiu. Ele percebeu, naquele momento, que não havia lugar para ele no novo mundo que eu havia criado.
— Rose — a voz de Derek ecoou pelo teatro, profunda e carregada de uma promessa perigosa.
Ele caminhou até a borda do palco, olhando para cima, para onde eu estava.
— Você não é mais apenas a parceira de cena — ele disse, ignorando todos ao redor. — Você é o motivo pelo qual este teatro ainda está de pé.
Scott aproximou-se logo atrás, sua presença de Alfa tentando equilibrar a tensão.
— O que aconteceu aqui hoje... — Scott começou, olhando para o gelo que ainda não havia derretido — ...muda tudo. O segredo não é mais apenas sobre o que somos. É sobre o que você pode fazer.
Andre e Lucca saltaram para o palco, colocando-se ao meu lado. Andre colocou a mão no meu ombro, seu calor neutralizando o excesso de frio que eu ainda emanava.
— Ela é uma das nossas — disse Andre, olhando desafiadoramente para os lobos na plateia. — E se vocês achavam que ela era impressionante antes, preparem-se. O show está apenas começando.
Lucca olhou para Liam com um desprezo gélido.
— E quanto a você, humano... sugiro que procure outro navio. Este aqui já tem capitã, e ela não gosta de passageiros clandestinos.
Liam levantou-se trêmulo e saiu do palco sem olhar para trás. Ele sabia que havia perdido.
Eu olhei para o colar de safira, sentindo a energia de Calisto se acalmar, mas não desaparecer. Eu não era mais a garota assustada que fazia gelo nas mãos para se esconder. Eu era a mulher que soltava a voz e fazia o mundo se ajoelhar.
— Sr. Harrison — falei, minha voz firme e clara —, eu quero que a cenografia mude. Não quero apenas um navio. Quero o oceano inteiro aqui dentro.
— O que você quiser, Rose — o diretor respondeu, ainda em transe. — O que você quiser.
Stiles aproximou-se da borda do palco, com um sorriso irônico mas cheio de admiração.
— Bom, parece que vamos precisar de um seguro de vida muito maior para este teatro — comentou ele. — Mas, honestamente? Valeu cada centavo.
Eu olhei para os quatro homens que me cercavam com seus desejos e segredos. Eu sabia que a possessividade de Derek não diminuiria, que a proteção de Scott seria constante, que a carência de Isaac me buscaria e que a mente de Stiles tentaria me mapear. Mas agora, as regras eram minhas.
— Vamos ensaiar o segundo ato — ordenei, sentindo o poder pulsar em minhas veias. — E desta vez, ninguém vai afundar. Nós vamos governar.
O teatro de Beacon Hills estava prestes a presenciar algo que nenhuma peça de "Cats" ou "Titanic" jamais ousou mostrar. A Rainha de Gelo havia despertado, e com seus irmãos ao seu lado e uma alcateia aos seus pés, o destino da cidade estava selado sob uma camada de cristal indestrutível. O show, afinal, era apenas o começo da minha ascensão.