meu romance escolar
Labirintos de Vidro e Obsessão
O ar condicionado da sala de carvalho polido parecia ter baixado cinco graus desde que Anne retornara do corredor. O silêncio dos outros nove alunos era quase ensurdecedor, quebrado apenas pelo riscar de canetas e o clique rítmico de teclados. Anne sentou-se em sua mesa, as mãos ainda geladas, sentindo o peso do olhar de Nick fixo em sua nuca como uma marca de propriedade. Ela tentou se concentrar no monitor à sua frente, mas as palavras de Nick ecoavam em sua mente: *“Eu sou o seu monstro”*.
A aula de Literatura Comparada começou com o Professor Aris, um homem de meia-idade que parecia saído de um conto de suspense vitoriano, falando sobre a dualidade humana. Anne sentiu um calafrio. Era irônico demais.
— Para amanhã, quero que analisem o conceito de "o belo e o terrível" na obra de Mary Shelley — anunciou Aris, caminhando entre as fileiras. — Formem duplas.
Anne sentiu um aperto no estômago antes mesmo de o professor terminar a frase. Ela rapidamente olhou para Chloe, sua única amiga na sala, mas antes que pudesse abrir a boca, a sombra de Nick se projetou sobre sua mesa.
— Ela já tem uma dupla — disse Nick, a voz profunda vibrando através da cadeira de Anne.
A autoridade na voz dele não era apenas um pedido; era um decreto. Chloe, intimidada pela estatura e pela aura sombria do garoto novo, desviou o olhar e rapidamente se juntou a outro colega. Anne sentiu o sangue ferver.
— Eu não aceitei ser sua dupla, Nick — sibilou ela, virando-se para encará-lo.
Nick puxou uma cadeira da mesa vizinha e a girou, sentando-se de frente para ela, com as pernas longas e musculosas abertas, invadindo completamente o espaço dela. Ele apoiou os braços no encosto da cadeira, inclinando-se para frente.
— Você não tem muita escolha aqui, Anne — ele sorriu, mas não era um sorriso gentil. Era o sorriso de quem conhece todos os caminhos de uma armadilha. — Além disso, quem melhor do que eu para discutir o "terrível" com você? Você já sabe que eu sou especialista nisso.
— Você é um maníaco — Anne sussurrou, tentando manter a voz baixa para que o professor não ouvisse. — Você me seguiu. Você admitiu que me vigiava. Isso não é "dark romance", Nick. Isso é crime.
Nick soltou uma risada baixa, um som gutural que fez o coração de Anne falhar uma batida. Ele esticou a mão, os dedos longos e fortes tamborilando na borda da mesa dela, perigosamente perto de seus dedos.
— Crime é uma palavra tão forte — disse ele, fixando os olhos escuros nos dela. — Eu prefiro chamar de investimento. E não tente bancar a inocente comigo, Anne. Eu vi os títulos na sua biblioteca digital. Você gosta de homens que não pedem permissão. Por que está sendo tão difícil aceitar a realidade quando ela bate à sua porta?
— Porque nos livros eu posso fechar a tela e ir dormir! — ela rebateu, a voz tremendo de raiva. — Na vida real, eu quero que você fique longe de mim.
Nick inclinou a cabeça, observando o brilho de desafio nos olhos dela. Ele parecia se alimentar daquela resistência.
— O problema, pequena Anne, é que quanto mais você me manda embora, mais eu quero ver até onde você consegue sustentar essa mentira.
O restante da aula foi uma tortura psicológica. Nick não abriu um livro sequer. Ele passou os sessenta minutos apenas observando-a. Ele não disfarçava. Ele a estudava como se ela fosse uma obra de arte rara que ele pretendia roubar de um museu. Ele observava a forma como ela mordia o lábio inferior quando estava nervosa, a maneira como seus dedos pequenos apertavam a caneta, e a pulsação frenética em seu pescoço.
Quando o sinal finalmente tocou, Anne recolheu suas coisas com pressa, mas Nick foi mais rápido. Ele pegou a mochila dela antes que ela pudesse alcançá-la.
— Me devolve, Nick! — ela exigiu, tentando manter a calma.
— Eu levo para você — disse ele, levantando-se com a facilidade de um predador que não faz esforço para ser dominante. — Temos que discutir o trabalho, lembra? Minha casa, às cinco.
— Eu não vou à sua casa nem que o mundo acabe.
Nick deu um passo à frente, forçando-a a recuar até que ela estivesse prensada contra a mesa. Ele se inclinou, o rosto a centímetros do dela. O cheiro de couro e algo fresco, como chuva em asfalto quente, a envolveu.
— Se você não for, eu vou até a sua. E eu não acho que seus pais gostariam de saber que o novo aluno prodígio da Pichon passou a tarde no quarto da filha deles discutindo sobre monstros e obsessão. Ou talvez eu devesse mostrar para o seu pai o tipo de literatura que você anda consumindo escondida?
Anne sentiu o rosto empalidecer. Seus pais eram conservadores e rigorosos; se descobrissem o conteúdo de seus livros, ela estaria perdida.
— Você é desprezível — ela disse, as palavras saindo como um veneno.
— Eu sou o que você precisa que eu seja — ele retrucou, entregando a mochila para ela, mas mantendo a mão na alça por um segundo extra, puxando-a levemente para mais perto. — Cinco horas. Não se atrase, ou eu vou buscar você.
Anne saiu da sala quase correndo. Ela precisava de espaço, precisava de ar. Ela se refugiou no jardim de inverno da escola, um lugar cercado por paredes de vidro e plantas exóticas que pareciam garras verdes subindo pelas colunas.
Ela se sentou em um banco de pedra, tentando controlar a respiração. Por que ele estava fazendo aquilo? A escola Pichon era pequena, um refúgio para filhos de famílias ricas e influentes, e Nick se encaixava no perfil físico e financeiro, mas sua alma... sua alma parecia vir de um lugar muito mais sombrio.
— Ele não vai parar, sabe? — Uma voz a assustou.
Era Chloe, que se aproximava com cautela.
— Ele é estranho, Anne. No almoço, ele não parava de perguntar sobre você. O que você gosta, onde você mora, com quem você fala...
— Ele é um stalker, Chloe — Anne disse, passando a mão pelo cabelo curto, bagunçando o *long bob* perfeitamente alinhado. — Ele me seguiu antes mesmo de entrar na escola.
Chloe arregalou os olhos, mas em vez de horror, havia uma centelha de curiosidade mórbida.
— Isso é... intenso. Mas você viu como ele olha para você? Como se você fosse a única pessoa no mundo. Todas as outras garotas estão morrendo de inveja.
— Elas podem ficar com ele! — Anne exclamou, levantando-se. — Ele é perigoso. Ele não quer um romance, ele quer um troféu. Ou uma vítima.
Anne passou o resto da tarde em um estado de ansiedade latente. Às cinco horas, ela se viu diante do endereço que Nick havia enviado por mensagem — um número que ela não sabia como ele havia conseguido. Era uma mansão moderna, toda em vidro e aço, situada no topo de uma colina que vigiava a cidade como um sentinela de metal.
Ela hesitou diante do portão, mas a ideia de Nick aparecendo em sua casa e revelando seus segredos a impulsionou. O portão se abriu automaticamente, como se ele estivesse esperando por ela. E ele estava.
Nick estava parado na porta de entrada, vestindo apenas uma calça de moletom preta e uma camiseta branca justa que evidenciava cada músculo de seu porte atlético. Ele parecia ainda maior naquele cenário.
— Você veio — ele disse, um brilho de satisfação cruzando seus olhos escuros. — Ponto para a curiosidade.
— Ponto para a chantagem, você quer dizer — ela rebateu, passando por ele com o nariz empinado, embora seu coração estivesse martelando tão forte que ela temia que ele pudesse ouvir.
O interior da casa era frio e minimalista. Não havia fotos de família, nem toques pessoais. Parecia uma galeria de arte desabitada.
— Meus pais estão em Londres — Nick disse, como se lesse o pensamento dela. — Estamos sozinhos.
Anne parou no meio da sala, virando-se para ele com os braços cruzados.
— Vamos fazer esse trabalho logo. Eu quero ir embora.
Nick caminhou até ela, seus passos pesados ecoando no chão de mármore. Ele não parou até estar no espaço pessoal dela, forçando-a a olhar para cima.
— Por que tanta pressa, Anne? Você não passa horas lendo sobre situações exatamente como esta? Um homem perigoso, uma casa vazia, uma garota que finge que não quer estar aqui...
— Eu não estou fingindo! — ela gritou, a voz ecoando. — Eu odeio você. Eu odeio o jeito que você me trata, odeio o jeito que você acha que pode me controlar.
Nick deu mais um passo, e Anne tropeçou para trás, caindo no sofá de couro macio. Antes que ela pudesse se levantar, ele se ajoelhou entre as pernas dela, as mãos apoiadas no encosto do sofá, prendendo-a novamente.
— O ódio é tão próximo da paixão, Anne — ele sussurrou, a voz agora suave e perigosa. — Você me odeia porque eu sou o espelho de tudo o que você deseja em segredo. Você lê sobre monstros porque está cansada dessa sua vida perfeita, desse sorriso alegre que você força todos os dias. Comigo, você não precisa sorrir. Comigo, você pode ser tão sombria quanto quiser.
Ele esticou a mão e, com uma delicadeza que contrastava com sua força, tocou o rosto dela, traçando a linha de sua mandíbula. Anne queria desviar, queria gritar, mas seus músculos pareciam ter se transformado em gelatina.
— Você é apenas uma criança de quinze anos brincando de ser vilão — ela disse, tentando recuperar sua dignidade, embora sua voz tivesse saído mais como um suspiro.
— Eu nunca brinco, Anne — Nick retrucou, os olhos descendo para os lábios dela. — E eu não sou apenas um garoto. Eu sou o homem que vai fazer você esquecer que qualquer outro homem existe. Eu vou ser o seu pesadelo favorito.
Ele se inclinou mais, e por um segundo, Anne achou que ele fosse beijá-la. Seu coração disparou, uma mistura de pavor e uma antecipação proibida que ela se recusava a nomear. Mas Nick parou a milímetros de sua boca.
— O trabalho — ele disse, a voz rouca. — Vamos começar por Mary Shelley. "Como é perigoso o conhecimento". Você concorda, Anne?
Ele se levantou e caminhou até uma mesa lateral, pegando dois livros, deixando-a ali, ofegante e confusa. Anne olhou para ele, as costas largas, a confiança absoluta. Ela percebeu, com um terror crescente, que ele estava certo sobre uma coisa: a linha entre o ódio e a obsessão era quase invisível.
E ela já estava caminhando sobre ela, sem saber se queria voltar ou cair de vez no abismo que Nick havia cavado para ela.
— Comece a ler — disse Nick, sem olhar para trás. — Eu quero ouvir sua voz.
Anne abriu o livro, mas as letras dançavam diante de seus olhos. O jogo de Nick estava apenas subindo de nível, e ela sabia que, naquela casa de vidro, não havia lugar para se esconder.
— "Aprendi que a posse de bens e a distinção de nascimento eram as duas coisas mais estimadas pelos teus semelhantes" — Anne começou a ler, a voz trêmula.
Nick sentou-se na poltrona à frente dela, observando-a com uma intensidade predatória.
— Continue — ele ordenou. — Eu não canso de ouvir você.
A tarde se transformou em noite, e enquanto as sombras cresciam dentro da mansão, Anne sentia que a escola Pichon, seus pais e sua vida normal estavam ficando para trás. Ali, sob o olhar de Nick, ela não era a menina alegre do *long bob*. Ela era a heroína de sua própria história sombria, e o vilão já havia decidido o final.
— Você acha que o monstro de Frankenstein era mau, Nick? — ela perguntou, de repente, fechando o livro.
Nick sorriu, um gesto lento e cheio de segundas intenções.
— Eu acho que ele apenas queria ser amado. Mas, como ninguém o amava, ele decidiu que ser temido era a segunda melhor opção.
Ele se levantou e caminhou até a janela de vidro, observando as luzes da cidade lá embaixo.
— Eu prefiro ser temido por todos — Nick disse, virando-se para ela —, desde que eu seja amado por você. Mas se você não puder me amar, Anne... eu aceito o seu medo. Ele me mantém perto de você do mesmo jeito.
Anne sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela sabia que aquele era o aviso final. Nick não estava apenas fazendo bullying; ele estava cercando seu território. E ela era o centro de tudo o que ele considerava seu.
— Eu vou para casa — ela disse, levantando-se com as pernas ainda trêmulas.
— Eu te levo — ele disse, pegando as chaves de um carro que ele claramente não tinha idade legal para dirigir, mas que ninguém ousaria contestar.
No carro, o silêncio era carregado. Nick dirigia com uma mão só, a outra descansando casualmente perto do câmbio, por vezes roçando a perna de Anne "sem querer". Cada toque era um choque elétrico, uma lembrança de que ele estava ali, que ele era real e que ele não ia embora.
Quando pararam em frente à casa de Anne, ele desligou o motor, mas não destravou as portas.
— Amanhã, na escola, não tente se sentar com os outros — ele disse, sem olhar para ela. — Você é minha dupla. Em tudo.
— Eu não sou sua, Nick.
Ele finalmente virou o rosto para ela, a luz do poste iluminando apenas metade de seu rosto, deixando a outra metade mergulhada na escuridão.
— Ainda não — ele sussurrou. — Mas você vai ser. Eu tenho paciência, Anne. Eu esperei três meses para entrar naquela sala. Eu posso esperar o tempo que for necessário para você admitir que me quer tanto quanto eu quero você.
Ele destravou as portas. Anne saiu do carro sem olhar para trás, correndo para a segurança de sua casa. Mas, ao fechar a porta e encostar as costas na madeira fria, ela percebeu que a segurança era uma ilusão.
Nick estava em sua mente. Nick estava em sua pele. E, o mais assustador de tudo, Nick estava em seu coração, batendo no mesmo ritmo sombrio que ela costumava ler em seus livros favoritos.
O monstro tinha saído das páginas. E ele sabia o nome dela.