meu romance escolar
Eco de Obsessão e o Jogo de Poder
A luz da manhã seguinte entrou pela janela do quarto de Anne como uma intrusa indesejada. Ela mal havia dormido, as palavras de Nick circulando em sua mente como um carrossel macabro de promessas e ameaças. Ao se olhar no espelho, Anne notou que suas olheiras estavam mais profundas, mas seus olhos... seus olhos brilhavam com uma adrenalina que ela nunca havia sentido antes. Ela ajeitou o *long bob*, vestiu o uniforme impecável do Colégio Pichon e desceu para o café, agindo como a filha perfeita sob o olhar atento de seus pais.
— Você parece cansada, querida — comentou sua mãe, enquanto servia o café. — O novo colégio está exigindo muito de você?
— Só um trabalho de literatura, mãe — respondeu Anne, forçando o sorriso alegre que sempre foi sua máscara. — O professor Aris é bastante rigoroso.
— Isso é bom — disse seu pai, sem tirar os olhos do jornal. — Excelência é o que se espera de uma instituição como a Pichon.
Anne assentiu, sentindo um gosto amargo na boca. Se eles soubessem que a "excelência" que ela enfrentava tinha 1,90m de altura e uma mente distorcida, eles a tirariam de lá no mesmo instante. Ou talvez não. No mundo deles, o poder muitas vezes justificava os meios.
Ao chegar à escola, o ambiente parecia diferente. O ar estava eletrizado. Assim que Anne cruzou o portão de carvalho, sentiu os olhares. Não eram olhares de desprezo, mas de uma curiosidade temerosa. Nick já estava lá, encostado em uma das colunas góticas da entrada, cercado por três alunos que pareciam tentar desesperadamente ganhar sua aprovação. Ele não estava ouvindo nada do que diziam; seus olhos estavam fixos no portão.
No momento em que ele a viu, a conversa ao redor dele morreu. Nick se afastou da coluna e caminhou em direção a ela. O movimento foi fluido, predatório. Os outros alunos abriram caminho como se ele fosse a realeza — ou um furacão.
— Você está cinco minutos atrasada — disse ele, parando a poucos centímetros dela. Ele não usava a gravata do uniforme; o colarinho estava aberto, revelando a base do pescoço forte.
— Eu não sabia que tinha um horário de chegada imposto por você — rebateu Anne, tentando manter a voz firme, embora o perfume dele já estivesse nublando seus sentidos.
— Agora sabe. — Nick estendeu a mão e pegou a mochila dela, pendurando-a no próprio ombro como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Vamos. A aula de biologia começa em dois minutos.
— Eu posso carregar minha própria mochila, Nick.
— Eu sei que pode — ele se inclinou, sussurrando perto do ouvido dela —, mas eu gosto que todos saibam que eu estou carregando o seu peso.
Eles entraram na sala de aula sob um silêncio sepulcral. O laboratório de biologia era composto por bancadas de mármore para duas pessoas. Chloe já estava sentada, mas quando Anne fez menção de se aproximar, Nick simplesmente colocou a mão no ombro do colega que estava ao lado de Chloe e apontou para o fundo da sala. O garoto não questionou; pegou seus livros e saiu correndo.
— Senta — ordenou Nick, puxando o banco para ela.
— Você não pode expulsar as pessoas assim! — Anne exclamou, sentando-se por pura falta de opção.
— Eu não expulsei. Eu sugeri que ele seria mais feliz em outro lugar — Nick sorriu, abrindo o estojo de Anne e começando a alinhar as canetas dela por cor. Era um gesto obsessivo, quase ritualístico. — E ele foi inteligente o suficiente para concordar.
A aula começou, mas Anne não conseguia se concentrar no microscópio. Ela sentia a perna de Nick pressionada contra a sua sob a bancada. Era um contato firme, quente, que ela deveria repelir, mas seu corpo parecia traí-la, buscando aquele calor.
— Olhe pela lente, Anne — disse Nick, a voz baixa e rouca. — O que você vê?
Anne se inclinou sobre o microscópio, tentando focar na lâmina de células vegetais.
— Paredes celulares — murmurou ela. — Estruturas rígidas que protegem o que está dentro.
— Exatamente — Nick se aproximou tanto que ela sentia o calor do corpo dele irradiando para o dela. — Mas até as paredes mais rígidas têm poros. Elas deixam entrar o que precisam para sobreviver. Você é assim, não é? Cheia de barreiras, mas morrendo de vontade de deixar algo entrar.
— Você se acha muito profundo, não é? — Anne se afastou do microscópio, encarando-o. — Mas você é apenas um valentão com vocabulário rebuscado.
Nick não pareceu ofendido. Ele pegou um bisturi que estava sobre a bancada, girando-o entre os dedos com uma habilidade inquietante.
— Se ser um valentão é o que garante que você olhe para mim com esse fogo nos olhos, então eu aceito o título. Prefiro que você me odeie com paixão do que me ignore com indiferença.
— Por que eu? — a pergunta escapou antes que ela pudesse conter. — Tem outras nove pessoas nesta sala. Metade delas cairia aos seus pés se você estalasse os dedos. Por que gastar tanto esforço comigo?
Nick parou de girar o bisturi. Ele cravou a ponta fina na superfície de borracha da bancada, deixando-o em pé.
— Porque você é a única que é real, Anne. Todo o resto aqui é feito de plástico e expectativas dos pais. Mas você... você tem esse segredo sombrio escondido no tablet. Você tem essa alegria que parece um desafio. Quando eu te vi naquela livraria, você não estava apenas lendo; você estava devorando aquelas palavras como se fossem oxigênio. Eu soube naquele momento que você entendia a escuridão. E eu decidi que queria ser a sua escuridão.
Anne sentiu um nó na garganta. Ele não estava apenas fazendo bullying; ele estava fazendo uma dissecação de sua alma.
— Você não sabe nada sobre mim — ela sussurrou.
— Eu sei que você gosta quando eu te prendo contra a parede — ele disse, a voz tão baixa que era quase um pensamento. — Eu sei que seu coração dispara não de medo, mas de excitação. E eu sei que, à noite, você imagina como seria se um daqueles personagens saísse do livro. Pois bem, Anne... eu saí.
O sinal tocou, libertando-a daquela pressão insuportável. Anne se levantou rapidamente, mas Nick segurou seu pulso. Não foi forte o suficiente para machucar, mas foi o suficiente para paralisá-la.
— Onde você pensa que vai? — perguntou ele.
— Para o intervalo. Com a Chloe.
— Não. Hoje você vai almoçar comigo no jardim.
— Eu não quero almoçar com você.
— Não foi um convite — Nick se levantou, atingindo sua altura total de 1,90m, fazendo-a sentir-se minúscula. — Eu trouxe algo para você. Algo que você vai gostar mais do que a comida insossa da cafeteria.
Ele a conduziu pelo corredor, a mão agora pousada possessivamente na base de seu pescoço, os dedos roçando levemente o cabelo curto do *long bob*. Anne sentia que todos os olhos estavam neles, mas ninguém dizia nada. Nick havia estabelecido sua dominância em tempo recorde.
Eles chegaram a uma parte isolada do jardim, atrás das estufas de vidro. Havia uma toalha estendida e uma cesta de vime.
— Você preparou um piquenique? — Anne perguntou, incrédula. — Isso é... estranhamente normal para um perseguidor.
— Eu disse que sou o que você precisa que eu seja — Nick sentou-se e fez sinal para que ela fizesse o mesmo. — Às vezes você precisa de um vilão, às vezes de um cavalheiro. Eu sou excelente em ambos os papéis.
Ele abriu a cesta e tirou um livro físico, com capa de couro preta e sem título na lombada.
— O que é isso? — Anne perguntou, a curiosidade vencendo a cautela.
— Uma edição limitada de um autor que você gosta. É um manuscrito não publicado que eu consegui em um leilão em Londres. É sobre uma mulher que se apaixona pelo homem que a mantém em uma gaiola de ouro. Achei apropriado.
Anne pegou o livro, os dedos tremendo. O cheiro de papel antigo e couro era inebriante. Ela abriu em uma página aleatória e leu um parágrafo. Era visceral, sombrio e belo.
— Como você conseguiu isso? — ela perguntou, maravilhada.
— Eu tenho meus métodos — Nick deu de ombros, observando-a com uma satisfação evidente. — Gostou?
— É incrível — admitiu ela, antes de se lembrar de quem o havia dado. — Mas isso não muda o fato de que você é um maníaco.
— Eu nunca pedi para você mudar sua opinião sobre mim, Anne. Só pedi para você me dar sua atenção. E, pelo que vejo, eu a tenho integralmente.
Eles comeram em um silêncio tenso, mas estranhamente íntimo. Nick a observava comer cada pedaço de fruta, cada pedaço de pão, como se estivesse memorizando seus movimentos.
— Por que você mudou para cá, Nick? — Anne perguntou, limpando os lábios. — Sua família é rica, você poderia estar em qualquer lugar do mundo. Por que a Pichon? Por que agora?
Nick se inclinou para trás, apoiando-se nos cotovelos, os olhos fixos nas nuvens que passavam.
— Meu pai queria que eu aprendesse sobre os negócios da família aqui na região. Mas eu estava entediado. Estava pronto para odiar este lugar... até que vi você na livraria. Depois disso, eu não tive escolha. Eu tive que dar um jeito de entrar na sua sala. Foi fácil, na verdade. Uma doação generosa para a nova ala de esportes e a diretoria abriu uma décima vaga no nono ano.
Anne sentiu um calafrio. Ele havia comprado seu caminho para a vida dela. Literalmente.
— Você é louco — ela repetiu, mas desta vez a palavra não soou como um insulto, mas como uma constatação de fato.
— Talvez — disse ele, voltando o olhar para ela. — Mas você também é. Uma menina "alegre" e "perfeita" que se perde em histórias de dor e possessão? Você é tão distorcida quanto eu, Anne. A única diferença é que eu tenho coragem de agir de acordo com meus desejos. Você apenas lê sobre eles.
Ele se aproximou rastejando pela toalha, como uma serpente, até que sua cabeça estivesse perto do colo dela.
— Deixe-me entrar, Anne — ele sussurrou. — Pare de lutar contra o que você sente quando eu te toco. Pare de fingir que esse medo não é a coisa mais excitante que já aconteceu na sua vida monótona.
Anne olhou para baixo, para o rosto esculpido e os olhos famintos de Nick. Ela queria empurrá-lo, queria correr, mas sua mão, agindo por conta própria, subiu até o cabelo dele, os fios escuros e macios se enrolando em seus dedos.
Nick soltou um suspiro satisfeito, fechando os olhos sob o toque dela.
— Isso — ele murmurou. — Me dê os espinhos, Anne. Eu vou sangrar por eles com prazer.
O momento foi interrompido pelo toque do sinal, mas o estrago estava feito. A barreira de Anne não tinha apenas um poro; ela estava começando a rachar.
Durante as aulas da tarde, Nick não voltou a provocá-la. Ele manteve uma distância respeitosa, mas seu olhar nunca a abandonava. Era como se ele tivesse estabelecido um novo nível de jogo: ele havia mostrado que podia ser gentil, que podia dar presentes, que podia ser vulnerável ao toque dela. E isso era muito mais perigoso do que o bullying direto.
Na saída da escola, Nick a esperava perto do carro dele.
— Eu vou para casa com a van da escola hoje, Nick — disse ela, antes que ele pudesse falar.
— Tudo bem — ele respondeu, surpreendendo-a. — Mas leve o livro. Leia o capítulo cinco hoje à noite. Ele descreve exatamente o que eu vou fazer com você quando você finalmente se entregar.
Anne sentiu o rosto queimar. Ela pegou o livro, apertando-o contra o peito, e caminhou em direção à van.
— Anne! — ele gritou quando ela já estava subindo os degraus.
Ela parou e olhou para trás. Nick estava parado sob a luz alaranjada do pôr do sol, parecendo um deus de ébano e marfim.
— Durma bem — disse ele, com um sorriso que prometia tudo, menos paz. — Sonhe comigo. Porque eu certamente vou sonhar com você.
No trajeto para casa, Anne não conseguiu abrir o livro. Ela estava com medo do que encontraria ali, medo de que as palavras escritas por um estranho descrevessem com perfeição os desejos que Nick estava despertando nela.
Ao chegar em seu quarto, ela trancou a porta. O silêncio da casa parecia opressor. Ela se deitou na cama e, com as mãos trêmulas, abriu o livro no capítulo cinco.
A leitura foi como um mergulho em águas profundas e gélidas. O autor descrevia uma cena de rendição, onde a protagonista finalmente parava de lutar contra seu captor e descobria que, na escuridão dele, ela encontrava sua verdadeira liberdade. As descrições eram gráficas, intensas, e cada palavra parecia ter sido escrita por Nick.
Anne fechou o livro, o coração batendo na garganta. Ela se levantou e foi até a janela. Lá embaixo, na rua escura, um carro preto estava estacionado. Os faróis estavam apagados, mas ela sabia. Ela sentia.
Nick estava lá.
Ela apagou a luz do quarto e ficou observando da fresta da cortina. O carro não se moveu. Ele não ia entrar, ele não ia ligar. Ele estava apenas... vigiando. Marcando presença. Garantindo que, mesmo em sua privacidade, ela soubesse que ele era o dono do ar que ela respirava.
Anne voltou para a cama, abraçando o travesseiro. Ela deveria estar aterrorizada. Ela deveria estar ligando para a polícia. Mas, em vez disso, ela sentiu uma onda de calor percorrer seu corpo. Pela primeira vez em quatorze anos, ela não era apenas a "Anne boazinha". Ela era o objeto de uma obsessão tão vasta que desafiava a lógica.
Ela fechou os olhos e, pela primeira vez, não tentou afastar a imagem de Nick. Ela a abraçou.
— Você venceu este round, Nick — sussurrou ela para a escuridão do quarto.
Lá fora, no carro preto, Nick acendeu um cigarro, observando a janela de Anne se apagar. Ele viu o leve movimento da cortina e sorriu. Ele sabia que ela estava olhando. Ele sabia que ela estava lendo.
O bullying era apenas a superfície. O verdadeiro jogo era a alma dela, e Nick estava jogando para ganhar. Ele não queria apenas o corpo dela; ele queria que ela o desejasse tanto quanto ele a desejava. Ele queria que ela se tornasse o monstro ao lado dele.
— Bons sonhos, minha pequena Anne — murmurou ele, soprando a fumaça contra o vidro do para-brisa. — A guerra está apenas começando.
O Colégio Pichon podia ser um mausoléu de luxo, mas para Nick e Anne, estava prestes a se tornar o palco de um romance tão dark que nenhuma página de livro seria capaz de conter. E, enquanto a noite caía sobre as colinas neblinosas, o predador e sua presa compartilhavam o mesmo pensamento, unidos por um fio invisível de obsessão e perigo.